Escuta o Papa: 3º Domingo T. Comum (C)

No Evangelho da Liturgia de hoje (Lc 4, 14-21) vemos Jesus que inaugura a sua pregação:  é a primeira pregação de Jesus. Ele vai a Nazaré, onde cresceu, e participa na oração na sinagoga. Levanta-se para ler e, no rolo do profeta Isaías, encontra a passagem relativa ao Messias, que proclama uma mensagem de consolação e libertação para os pobres e oprimidos (cf. Is 61, 1-2). No final da leitura, «os olhos de todos estavam fixos n’Ele». E Jesus começa assim: «Hoje cumpriu-se esta escritura». Reflitamos sobre este hoje. É a primeira palavra da pregação de Jesus citada no Evangelho de Lucas. Pronunciada pelo Senhor, indica um “hoje” que atravessa todas as épocas e permanece sempre válido. A Palavra de Deus é sempre “hoje”. Começa um “hoje”: quando lês a Palavra de Deus, na tua alma tem início um “hoje”, se a compreenderes bem. Hoje. A profecia de Isaías remontava a séculos, mas Jesus, «pelo poder do Espírito», torna-a atual e, sobretudo, leva-a a cumprimento, indicando o modo de receber. Hoje.

Os concidadãos de Jesus impressionaram-se com a sua palavra. Não obstante enevoados pelos preconceitos, não acreditem nele, percebem que o seu ensinamento é diferente daquele dos outros mestres: intuem que em Jesus há algo mais. O quê? Há a unção do Espírito Santo. […] A pregação corre este risco: sem a unção do Espírito empobrece a Palavra de Deus, cai no moralismo ou em conceitos abstratos; apresenta o Evangelho com distância, como se estivesse fora do tempo, longe da realidade. […] Uma palavra na qual a força do hoje não pulsa, não é digna de Jesus e não ajuda a vida das pessoas. […] 

Prezados irmãos e irmãs, neste Domingo da Palavra de Deus, gostaria de agradecer aos pregadores e anunciadores do Evangelho que permanecem fiéis à Palavra que comove o coração, que permanecem fiéis ao “hoje”.  […]  Com efeito, a Palavra de Deus é viva e eficaz (cf. Hb 4, 12), muda-nos, entra nas nossas vicissitudes, ilumina a nossa vida quotidiana, consola e traz ordem. Lembremo-nos: a Palavra de Deus transforma um dia comum no hoje em que Deus nos fala. 

Portanto, peguemos no Evangelho, cada dia uma pequena passagem para ler e reler. […]  Com o tempo descobriremos que estas palavras são para nós, para a nossa vida. Ajudar-nos-ão a aceitar cada dia com uma perspetiva melhor e mais serena, porque quando o Evangelho entra no hoje, enche-o de Deus. […]  E que Nossa Senhora obtenha para nós a constância de nos nutrir com o Evangelho todos os dias.

Resumo do texto lido pelo Papa Francisco no Angelus de 23 de janeiro de 2022

Escuta o Papa: 2º Domingo T. Comum (C)

O Evangelho da liturgia de hoje relata o episódio das bodas de Caná, onde Jesus transforma a água em vinho para a alegria dos noivos. E conclui-se assim: «Este foi o início dos sinais que Jesus realizou; Ele manifestou a sua glória e os seus discípulos acreditaram nele» (Jo 2, 11). Observamos que o evangelista João não fala de um milagre. […] Ele escreve que em Caná ocorre um sinal que suscita a fé dos discípulos. […] Um sinal é um indício que revela o amor de Deus, isto é, que não chama a atenção para o poder do gesto, mas para o amor que o provocou. […] O primeiro sinal ocorre quando dois recém-casados se encontram em dificuldade no dia mais importante da sua vida. No meio da festa falta um elemento essencial, o vinho, e a alegria corre o risco de esvaecer no meio das críticas e da insatisfação dos convidados. […]

É Nossa Senhora que se dá conta do problema e o indica discretamente a Jesus. E Ele intervém sem clamor, quase sem que alguém se aperceba. Tudo se passa na discrição, “nos bastidores”. […] Deus age deste modo, com proximidade e discrição. Os discípulos de Jesus dão-se conta disto: […]. E também veem o modo de agir de Jesus, o seu servir no escondimento – assim é Jesus: ajuda-nos, serve-nos no escondimento, naquele momento – de tal modo que os elogios pelo bom vinho são feitos ao noivo, ninguém percebe, apenas os servos[…]

É bom pensar que o primeiro sinal que Jesus realiza não é uma cura extraordinária nem um milagre no templo de Jerusalém, mas um gesto que responde a uma necessidade simples e concreta das pessoas comuns, um gesto doméstico, um milagre, […]discreto, silencioso. Ele está pronto para nos ajudar, para nos aliviar. E assim, se estivermos atentos a estes “sinais”, somos conquistados pelo seu amor e tornamo-nos seus discípulos.

Mas há outra caraterística distintiva do sinal de Caná. Geralmente, o vinho que se oferecia no final da festa era o menos bom; […] Jesus, ao contrário, certifica-se de que a festa se conclua com o melhor vinho. Simbolicamente, isto diz-nos que Deus quer o melhor para nós, Ele quer que sejamos felizes. […] A alegria que Jesus deixa no coração é alegria plena e abnegada. […] Por isso sugiro-vos um exercício. […] Tentemos hoje sondar as nossas memórias em busca dos sinais que o Senhor realizou na minha vida. Cada pessoa diga: na minha vida, que sinais realizou o Senhor? […] Com quais sinais, discretos e atenciosos, Ele me fez sentir a sua ternura? […] Revivamos os momentos em que experimentámos a sua presença e a intercessão de Maria. Ela, a Mãe, que como em Caná está sempre atenta, nos ajude a fazer tesouro dos sinais de Deus na nossa vida.

Resumo do texto lido pelo Papa Francisco no Angelus de 16 de janeiro de 2022

Escuta o Papa: Baptismo do Senhor (C)

O Evangelho da liturgia de hoje mostra-nos a cena com a qual Jesus inicia a vida pública: Ele, que é o Filho de Deus e o Messias, vai para as margens do rio Jordão e é batizado por João Batista. Depois de cerca de trinta anos vividos no escondimento, Jesus não se apresenta com algum milagre nem subindo à cátedra para ensinar. Ele põe-se na fila com o povo que ia receber o batismo de João. […] E Jesus partilha o destino de nós pecadores: […] imerge-se connosco, no nosso meio. Não se eleva acima de nós, mas desce rumo a nós. […] 

No momento em que Jesus recebe o Batismo, o texto diz que «estava em oração» (Lc 3, 21). Faz-nos bem contemplar isto: Jesus reza. Mas como? Ele, que é o Senhor, o Filho de Deus, reza como nós? Sim, Jesus […] passa muito tempo em oração: no início de cada dia, muitas vezes à noite, antes de tomar decisões importantes… A sua oração é […] uma relação com o Pai. 

Assim, no Evangelho de hoje podemos ver os “dois movimentos” da vida de Jesus: por um lado, ele desce rumo a nós, nas águas do Jordão; por outro, eleva o olhar e o coração rezando ao Pai. Esta é uma grande lição para nós: estamos todos imersos nos problemas da vida […] que nos puxam para baixo. Mas, se não quisermos ser esmagados, precisamos de elevar tudo para o alto. E a oração faz exatamente isto. […] A oração ajuda-nos porque nos une a Deus, abre-nos a um encontro com Ele. […] 

A oração – para usar uma bonita imagem do Evangelho de hoje – “abre o céu”. […] Dá oxigénio à vida, dá fôlego também no meio dos afãs e faz com que se veja tudo de modo mais amplo. Sobretudo, permite-nos ter a mesma experiência de Jesus no Jordão: faz-nos sentir filhos amados pelo Pai. A nós também, quando rezamos, o Pai diz, como a Jesus no Evangelho: “Tu és o meu filho muito amado”. O nosso ser filhos começou no dia do Batismo, que nos imergiu em Cristo e, como membros do povo de Deus, nos transformou em filhos amados do Pai. […] Isto é uma coisa bonita: recordar a data do Batismo, porque é o nosso renascimento, o momento no qual nos tornamos filhos de Deus com Jesus. […] 

E hoje, neste momento, perguntemo-nos: […] Cultivo a intimidade com Deus, dialogo com Ele, escuto a sua Palavra? Entre as muitas coisas que fazemos durante o dia, não negligenciemos a oração: dediquemos-lhe tempo, recitemos com frequência breves invocações, leiamos o Evangelho todos os dias. […] Dirijamo-nos a Nossa Senhora, Virgem orante, que fez da sua vida um cântico de louvor a Deus.

E, por favor, não se esqueçam de rezar por mim.

Resumo do texto lido pelo Papa Franciscono Angelus de 9 de janeiro de 2022

Escuta o Papa: Epifania do Senhor (C)

Hoje, solenidade da Epifania, contemplamos o episódio dos Magos (cf. Mt 2, 1-12). Eles empreendem uma longa e árdua viagem para ir adorar «o rei dos Judeus» . São guiados pelo sinal prodigioso de uma estrela, e quando finalmente chegam à meta, em vez de encontrarem algo grandioso, veem um menino com a mãe.[…] No entanto, não se escandalizam, não se desiludem. Não se lamentam. O que fazem? Prostram-se. «Entrando na casa – diz o Evangelho – acharam o menino com Maria, sua mãe. Prostrando-se diante dele, adoraram-no». […]

Surpreende um gesto tão humilde realizado por parte de homens tão ilustres. Era habitual naquela época prostrar-se diante de uma autoridade que se apresentava com os sinais de poder e glória.[…] Mas diante do Menino de Belém não é simples. Não é fácil adorar este Deus, cuja divindade permanece oculta e não parece triunfante. Significa aceitar a grandeza de Deus, que se manifesta na pequenez: esta é a mensagem. […] A prostração é o sinal de quem põe de lado as próprias ideias e dá espaço a Deus. É necessária humildade para o fazer.[…]

Ao realizar este gesto, os magos demonstram que acolhem com humildade Aquele que se apresenta na humildade. E é assim que se abrem à adoração de Deus. Os cofres que abrem são imagem do seu coração aberto: a sua verdadeira riqueza não consiste na fama, no sucesso, mas na humildade, na sua crença de que precisam de salvação. Este é o exemplo que os Magos nos dão hoje.

Se permanecermos sempre no centro de tudo com as nossas ideias e presumirmos vangloriar-nos de algo perante Deus, nunca o encontraremos plenamente, nunca o adoraremos. […] Se, por outro lado, abandonarmos as nossas pretensões de autossuficiência, se nos fizermos pequenos por dentro, então redescobriremos a maravilha de adorar Jesus. Porque a adoração passa pela humildade do coração: aqueles que têm a vontade de superar, não se apercebem da presença do Senhor. Jesus passa ao lado e é ignorado, como aconteceu a muitos naquele tempo, mas não aos Magos. Irmãos e irmãs, olhando para eles, perguntemo-nos hoje: como está a minha humildade? Estou convencido de que o orgulho impede o meu progresso espiritual? […]  Será que sei pôr de lado o meu ponto de vista para abraçar o de Deus e o dos outros? […] 

Os Magos começaram a sua viagem olhando para uma estrela e encontraram Jesus. […] Hoje podemos seguir este conselho: olhar para a estrela e caminhar. […]  Que a Virgem Maria, serva do Senhor, […] nos ensine a olhar para a estrela e a caminhar.

E, por favor, não se esqueçam de rezar por mim.

Resumo do texto lido pelo Papa Francisco no Angelus de 6 de janeiro de 2022

Escuta o Papa:  Sta Maria Mãe de Deus (C)

Comecemos o novo ano, confiando-o a Maria Mãe de Deus. O Evangelho da liturgia de hoje fala dela, reconduzindo-nos para o encanto do presépio. Os pastores vão sem demora para a gruta e o que encontram? Encontram – diz o texto – «Maria, José e o menino deitado na manjedoura» (Lc 2, 16). Façamos uma pausa sobre esta cena e imaginemos Maria que, como mãe terna e carinhosa, acabou de colocar Jesus na manjedoura. Naquele gesto podemos ver um dom feito a nós: Nossa Senhora não guarda o Filho para si, mas apresenta-o a nós; não o segura apenas no seu colo, mas depõe-no para nos convidar a olhar para ele, acolhê-lo e adorá-lo. […]

E ao colocá-lo diante dos nossos olhos, sem dizer uma palavra, transmite-nos uma mensagem maravilhosa: Deus está próximo, ao nosso alcance. Ele não vem com o poder de quem quer ser temido, mas com a fragilidade de quem pede para ser amado. […]

Eis então: o novo ano começa com Deus que, nos braços da sua Mãe e deitado numa manjedoura, nos encoraja ternamente. Precisamos deste encorajamento. […] Muitos estão assustados com o futuro e sobrecarregados por situações sociais, problemas pessoais, […], injustiças e desequilíbrios económicos planetários. Olhando para Maria com o Filho nos braços, penso nas jovens mães e nos seus filhos que fogem das guerras e da fome ou que aguardam nos campos de refugiados. São tantos! E ao contemplarmos Maria que coloca Jesus na manjedoura, pondo-o à disposição de todos, lembremo-nos que o mundo muda e a vida de todos só melhora se nos colocarmos à disposição dos outros, sem esperar que eles comecem a fazê-lo. Se nos tornarmos artífices da fraternidade, seremos capazes de tecer os fios de um mundo dilacerado por guerras e violências.

Hoje celebramos o Dia Mundial da Paz. A paz «é conjuntamente dádiva do Alto e fruto dum empenho compartilhado» (Mensagem LV D.M. Paz). Dádiva do alto: deve ser implorada a Jesus, porque sozinhos não somos capazes de a salvaguardar. Só podemos verdadeiramente construir a paz se a tivermos no coração, só se a recebermos do Príncipe da paz. Mas a paz é também empenho nosso: exige que demos o primeiro passo, requer gestos concretos. […] E também precisa de uma perspetiva positiva: que olhemos sempre – na Igreja como na sociedade – não para o mal que nos divide, mas para o bem que nos pode unir! Não nos devemos abater nem lamentar, mas arregaçar as mangas para construir a paz. A Mãe de Deus, Rainha da paz, no início deste ano, obtenha concórdia para os nossos corações e para o mundo inteiro.

E, por favor, não se esqueçam de rezar por mim.

Resumo do texto lido pelo Papa Francisco no Angelus de 1 de janeiro de 2022

Escuta o Papa: Sagrada Família (C)

Hoje celebramos a Sagrada Família de Nazaré. Deus escolheu uma família humilde e simples para vir entre nós. Contemplemos a beleza deste mistério, ressaltando também dois aspetos concretos para as nossas famílias.

O primeiro: a família é a história da qual provimos.[…] O Evangelho da liturgia de hoje recorda-nos que também Jesus é filho de uma história familiar. Vemo-lo ir a Jerusalém com Maria e José para a Páscoa; depois, faz preocupar a mãe e o pai, que não o encontram; quando o encontram, volta para casa com eles. (cf. Lc 2, 41-52) É bonito ver Jesus inserido nas vicissitudes dos afetos familiares […]. Isto é importante também para nós: provimos de uma história tecida com vínculos de amor. […] Talvez não nasçamos numa família extraordinária e sem problemas, mas é a nossa história […] são as nossas raízes: se as cortarmos, a vida torna-se árida! […]

O segundo aspeto: aprende-se a ser família todos os dias. No Evangelho vemos que até na Sagrada Família nem tudo corre bem: há problemas inesperados, angústias, sofrimentos. Maria e José perdem Jesus, procuram-no ansiosamente, e encontram-no depois de três dias. E quando, sentado entre os mestres no Templo, responde que deve cuidar das coisas do seu Pai, não o compreendem. Precisam de tempo para aprender a conhecer o seu filho. 

Assim também para nós: todos os dias, em família, é preciso aprender a ouvir-se e a compreender-se, a caminhar juntos, a enfrentar conflitos […]. É o desafio diário, que se vence com a atitude certa, […] cuidando dos detalhes das nossas relações. […] E como se faz isto? Olhemos para Maria, que no Evangelho de hoje diz a Jesus: «O teu pai e eu estávamos à tua procura» (v. 48). O teu pai e eu, não diz eu e o teu pai.[…] Aprendamos isto: […] na Sagrada Família, primeiro o tu e depois o eu. Para preservar a harmonia na família, devemos combater a ditadura do eu, quando o eu se incha. É perigoso quando […] em vez de termos gestos de cuidado pelos outros, nos fixamos nas nossas necessidades; quando, em vez de dialogar, nos isolamos com o telemóvel […]; quando nos acusamos uns aos outros, repetindo sempre as mesmas frases, […] onde cada um quer ter razão e, no final, instaura-se um silêncio frio. […] Repito um conselho: à noite, no final de tudo, é bom fazer as pazes, sempre. […] Caso contrário no dia seguinte haverá uma “guerra fria”! […] Passemos do eu para o tu. O que deve ser mais importante na família, é o tu. E todos os dias, por favor, rezai um pouco juntos, […] para pedir a Deus o dom da paz na família. […] Que a Virgem Maria,[…] ampare as nossas famílias.

E, por favor, não se esqueçam de rezar por mim.

Resumo do texto lido pelo Papa Francisco no Angelus de 26 de dezembro de 2021

Escuta o Papa:  Natal de Nosso Senhor (C)

Na noite, acende-se uma luz. Aparece um anjo, a glória do Senhor envolve os pastores e finalmente chega o anúncio há séculos esperado: «Hoje (…) nasceu-vos um Salvador, que é o Messias Senhor» (Lc 2, 11). Mas surpreende aquilo que o anjo acrescenta para indicar aos pastores como encontrar Deus que veio à terra. «Isto vos servirá de sinal: encontrareis um menino envolto em panos e deitado numa manjedoura» (2, 12). Eis o sinal: um menino. E é tudo: um menino na tosca pobreza duma manjedoura. […] Nada mais! Como predissera Isaías: «Um menino nasceu para nós» (Is 9, 5).

O Evangelho insiste neste contraste. Narra o nascimento de Jesus, começando por César Augusto: primeiro mostra o imperador na sua grandeza. Mas, logo a seguir, leva-nos a Belém, onde, de grande, não há nada: apenas um menino pobre envolto em panos, rodeado por pastores. E ali está Deus, na pequenez. Eis a mensagem: Deus não cavalga a grandeza, mas desce na pequenez. […].

Irmãos e irmãs, ao parar diante do presépio, fixemo-nos no centro: […] e contemplemos o Menino. Na sua pequenez, está Deus inteiro. Reconheçamo-Lo: «Menino, vós sois Deus, Deus-Menino». Deixemo-nos invadir por este espanto alvoroçado. Aquele que abraça o universo, precisa de ser tomado nos braços. Ele, que fez o sol, tem de ser aquecido. […] O amor infinito tem um coração minúsculo, que emite batimentos leves. A Palavra eterna é infante, isto é, incapaz de falar. O Pão da vida tem de ser nutrido. O criador do mundo não tem onde morar. Hoje inverte-se tudo: Deus vem, pequenino, ao mundo. A sua grandeza oferece-se na pequenez. […]

Deus revela-Se, mas os homens não O compreendem. Faz-Se pequeno aos olhos do mundo… e nós continuamos a procurar a grandeza segundo o mundo, talvez até em nome d’Ele. Deus abaixa-Se… e nós queremos subir para o pedestal. O Altíssimo indica a humildade… e nós pretendemos sobressair.[…] Jesus nasce para servir… e nós passamos os anos atrás do sucesso. Deus não busca força nem poder; pede ternura e pequenez interior.

Eis o que devemos pedir a Jesus no Natal: a graça da pequenez. «Senhor, ensinai-nos a amar a pequenez. Ajudai-nos a compreender que é a estrada para a verdadeira grandeza». Mas que significa, concretamente, acolher a pequenez? 

Em primeiro lugar, significa acreditar que Deus quer vir às pequenas coisas da nossa vida, quer habitar nas realidades quotidianas, nos gestos simples que realizamos em casa, na família, na escola, no trabalho. É na nossa existência ordinária que Ele quer realizar coisas extraordinárias. […] 

Mais ainda! Jesus não quer vir só às pequenas coisas da nossa vida, mas também à nossa pequenez: ao nosso sentir-nos fracos, frágeis, inadequados, talvez até errados. Irmã e irmão,[…] se as feridas que trazes dentro te gritam «contas pouco, não vales nada, nunca serás amado como queres», nesta noite […] tens a resposta de Deus, que te diz: «Fiz-Me pequeno por ti. […] Estou perto de ti e a única coisa que te peço é isto: confia em Mim e dá-Me guarida no teu coração».

Acolher a pequenez significa mais uma coisa: abraçar Jesus nos pequenos de hoje. Ou seja, amá-Lo nos últimos, servi-Lo nos pobres. São eles os mais parecidos com Jesus, nascido pobre. E é nos pobres que Ele quer ser honrado. Nesta noite de amor, um único medo nos assalte: ferir o amor de Deus, feri-lo desprezando os pobres com a nossa indiferença. São os prediletos de Jesus, que nos hão de acolher um dia no Céu. Uma poetisa escreveu: «Quem não encontrou o Céu cá em baixo, falhá-lo-á lá em cima» (E. Dickinson, Poems, XVII). Não percamos de vista o Céu, cuidemos de Jesus agora, acarinhando-O nos necessitados, porque Se identificou com eles. […] 

Voltemos a Belém. Faz-nos bem ir lá, dóceis ao Evangelho de Natal, que apresenta a Sagrada Família, os pastores e os Magos: são, todos, pessoas a caminho. Irmãos e irmãs, ponhamo-nos a caminho, porque a vida é uma peregrinação. Ergamo-nos, despertemos porque, nesta noite, acendeu-se uma luz. É uma luz suave e lembra-nos que, na nossa pequenez, somos filhos amados, filhos da luz (cf. 1 Tes 5, 5). Irmãos e irmãs, alegremo-nos juntos, porque ninguém apagará jamais esta luz, a luz de Jesus, que, desde esta noite, brilha no mundo.

E, por favor, não se esqueçam de rezar por mim.

Resumo do texto lido pelo Papa Francisco na  Homilia de 24 de dezembro de 2021

Escuta o Papa: 4º Domingo Advento (C)

O Evangelho da Liturgia de hoje, quarto Domingo do Advento, narra a visita de Maria a Isabel (cf. Lc 1, 39-45). Tendo recebido o anúncio do anjo, a Virgem não fica em casa, a pensar no que aconteceu e considerando os problemas e imprevistos, que certamente não faltavam. […]Em vez de se concentrar nos seus problemas, pensa nos necessitados, pensa em Isabel, sua prima, de idade avançada e estava grávida […]. Maria parte com generosidade, sem se deixar intimidar pelos desconfortos da viagem […] E o texto diz que Nossa Senhora «se levantou e foi à pressa».

Levantar e caminhar depressa: são os dois movimentos que Maria fez e que nos convida a fazer tendo em vista o Natal. Antes de mais, levantar-se. Após o anúncio do anjo, para a Virgem inicia um período difícil: a sua gravidez inesperada expunha-a a incompreensões e até a severas penas, inclusive o apedrejamento, na cultura da época. Imaginemos quantos pensamentos e turbamentos tinha! No entanto, não desanimou, não se abateu, mas levantou-se. […] E não pensou em pedir ajuda a alguém, mas a quem levar ajuda. Pensou sempre nos outros: assim é Maria, sempre a pensar nas necessidades dos outros.[…] 

Maria, sempre a pensar nas necessidades dos outros.[…] Aprendamos de Nossa Senhora este modo de reagir: […] olhemos para a nossa volta e procuremos alguém a quem possamos ser úteis! Há algum idoso que eu conheço a quem posso oferecer ajuda, companhia? […] Ou fazer um serviço para uma pessoa, uma gentileza, um telefonema? Mas a quem posso dar ajuda? Levanto-me e ofereço ajuda. Ao ajudarmos os outros, ajudamo-nos a nós mesmos a reerguermo-nos das dificuldades.

O segundo movimento é caminhar depressa. Não significa proceder com agitação, de forma afanada, não, não significa isso. Trata-se, ao contrário, de conduzir os nossos dias com um ritmo feliz, olhando em frente com confiança, sem nos arrastarmos, escravos de lamentações […]. Indo em direção da casa de Isabel, Maria prossegue com o passo rápido de alguém cujo coração e vida estão cheios de Deus, cheios da sua alegria. Então perguntemo-nos, para nosso benefício: como é o meu “passo”? Sou proativo ou permaneço melancólico, na tristeza? Avanço com esperança ou fico parado e sinto pena de mim mesmo? Se prosseguirmos com o passo cansado dos resmungos e das tagarelices, não levaremos Deus a ninguém. […] Não esqueçamos que o primeiro ato de caridade que podemos fazer ao próximo é oferecer-lhe um rosto sereno e sorridente. É levar-lhe a alegria de Jesus, como fez Maria com Isabel. Que a Mãe de Deus nos pegue pela mão, nos ajude a levantarmo-nos e a caminhar depressa rumo ao Natal!

E, por favor, não se esqueçam de rezar por mim.

Resumo do texto lido pelo Papa Francisco no Angelus de 19 de dezembro de 2021

Escuta o Papa: 3º Domingo Advento (C)

O Evangelho da Liturgia de hoje, terceiro Domingo de Advento, apresenta-nos vários grupos de pessoas – as multidões, os publicanos e os soldados – que são tocados pela pregação de João Baptista e depois perguntam-lhe: «O que devemos fazer?» (Lc 3, 10). […] Essa pergunta […] é o coração tocado pelo Senhor, é o entusiasmo pela sua vinda que leva a dizer: o que devemos fazer? […] Demos um exemplo: pensemos que um ente querido nos vem visitar. Aguardamo-lo com alegria e impaciência. A fim de o receber adequadamente, limparemos a casa, prepararemos a melhor refeição possível […]. Em suma, daremos o melhor de nós. Assim acontece com o Senhor, a alegria pela sua vinda faz-nos dizer: o que devemos fazer? Mas Deus formula esta questão a um nível mais elevado: o que devo fazer da minha vida? A que sou chamado? O que me realiza?

Ao colocar esta questão, o Evangelho recorda-nos algo importante: a vida apresenta-nos uma tarefa. A vida não é inútil, não é deixada ao acaso. Não! É um dom que o Senhor nos dá, dizendo-nos: descobre quem és, e trabalha para realizar o sonho que é a tua vida! Cada um de nós […] é uma missão a realizar. Portanto, não tenhamos medo de perguntar ao Senhor: o que devo fazer? […] Perguntemo-nos também nós: o que é bom fazer por mim e pelos irmãos? Como posso contribuir para o bem da Igreja, para o bem da sociedade? […]

A esta pergunta “o que devemos fazer?” responde João Batista no Evangelho, diferentemente para cada grupo. […] A cada um foi dirigida uma palavra específica, relativa à situação real da sua vida. Isto oferece-nos um precioso ensinamento: a fé encarna-se na vida concreta. Não se trata de uma teoria abstrata. A fé não é uma teoria abstrata, uma teoria generalizada, não, a fé toca a carne e transforma a vida de cada um. Pensemos sobre a concretismo da nossa fé. A minha fé: é algo abstrato ou concreto?[…]  Perguntemo-nos: o que posso fazer concretamente? [..] Nestes dias […] assumamos um compromisso concreto, mesmo que pequeno, que se ajuste à nossa situação de vida, e levemo-lo a cabo para nos prepararmos para este Natal. Por exemplo: posso telefonar àquela pessoa sozinha, visitar aquele idoso ou doente, fazer algo para servir um pobre […]. Ou ainda: talvez eu tenha um perdão a pedir ou a conceder, uma situação a esclarecer […]. Talvez tenha negligenciado a oração, e depois de tanto tempo é hora de me aproximar do perdão do Senhor. Irmãos e irmãs, encontremos algo concreto e realizemo-lo! Que nos ajude Nossa Senhora, em cujo ventre Deus se fez carne.

Resumo do texto lido pelo Papa Francisco  no Angelus, 12 de dezembro de 2021

Escuta o Papa: Imaculada Conceição (C)

O Evangelho da Liturgia de hoje, Solenidade da Imaculada Conceição da Bem-Aventurada Virgem Maria, faz-nos entrar na sua casa de Nazaré, onde recebe o anúncio do anjo. (Lc 1, 26-38) […] O anjo chama-lhe «cheia de graça». Se está cheia de graça, quer dizer que Nossa Senhora está vazia do mal, está sem pecado, Imaculada. Pois bem, ao ouvir esta saudação, Maria – diz o texto – «perturbou-se». […] Receber grandes saudações, honras e elogios às vezes corre o risco de suscitar orgulho e presunção. […] Maria, ao contrário, não se exalta, mas perturba-se; em vez de sentir prazer, fica estupefacta. A saudação do anjo parece-lhe maior do que Ela. Porquê? Porque se sente pequena dentro, e esta pequenez, esta humildade, atrai o olhar de Deus. […] 

Como é o coração de Maria? Tendo recebido o maior elogio, perturba-se porque sente dirigido a Ela o que não atribuía a si mesma. Com efeito, Maria […] não reivindica algo, não atribui nada ao seu mérito. Não se envaidece, não se exalta. Pois na sua humildade sabe que recebe tudo de Deus. Ela está, portanto, livre de si mesma, totalmente voltada para Deus e para os outros. […] Eis a verdadeira humildade: não ter olhos para si, mas para Deus e para os outros.

Recordemos que esta perfeição de Maria, cheia de graça, é declarada pelo anjo dentro das paredes da sua casa: não na praça principal de Nazaré, mas ali, no escondimento, na maior humildade. Naquela casinha em Nazaré palpitava o maior coração que qualquer criatura já teve. Caros irmãos e irmãs, é uma notícia extraordinária para nós! Pois nos diz que o Senhor, para fazer maravilhas, não precisa de grandes meios nem das nossas excelsas capacidades, mas da nossa humildade, do nosso olhar aberto para Ele e aberto também para os outros. Com esse anúncio, dentro das pobres paredes de uma pequena casa, Deus mudou a história. 

Também hoje, quer fazer grandes coisas connosco, na nossa vida diária: na família, no trabalho, nos nossos ambientes quotidianos. É ali, mais do que nos grandes acontecimentos da história, que apraz à graça de Deus agir. Mas, pergunto-me, acreditamos nisto? Ou pensamos que a santidade é uma utopia, […], uma ilusão piedosa, incompatível com a vida comum?

Peçamos a Nossa Senhora uma graça: que nos liberte da ideia enganadora de que o Evangelho é uma coisa e a vida é outra; que acenda em nós o entusiasmo para o ideal de santidade, […] Por favor, não desanimemos! […] E quando somos assaltados […] pela tristeza de sermos inadequados, deixemo-nos fitar pelos “olhos misericordiosos” de Nossa Senhora, pois ninguém que tenha pedido a sua ajuda jamais foi abandonado!

Resumo do texto lido pelo Papa Francisco no Angelus, 8 de dezembro de 2021