Escuta o Papa: 3º Domingo Páscoa (C)

O Evangelho da Liturgia de hoje(Jo 21, 1-19) narra a terceira aparição de Jesus Ressuscitado aos Apóstolos. É um encontro que tem lugar no lago da Galileia e diz respeito sobretudo a Simão Pedro. Tudo começa com ele que diz aos outros discípulos: «Vou pescar». […] era pescador, mas tinha abandonado aquela profissão […] para seguir Jesus. E agora, enquanto o Ressuscitado se faz esperar, Pedro, talvez um pouco desanimado, propõe aos outros o regresso à vida anterior. […] Mas, «Naquela noite nada apanharam» . Também nos pode acontecer, por cansaço, desilusão, talvez por preguiça, de esquecer o Senhor e negligenciar as grandes escolhas que fizemos […]. Por exemplo, não dedicamos tempo a falar uns com os outros em família, preferindo passatempos pessoais; esquecemos a oração […] negligenciamos a caridade […]. Mas, fazendo assim, ficamos desapontados: foi precisamente a deceção que sentiu Pedro, com as redes vazias […]. É uma estrada que te leva para trás e não te satisfaz.

E o que faz Jesus com Pedro? Volta novamente para a margem do lago onde tinha escolhido Pedro, André, Tiago e João […]. Jesus não repreende […] mas chama ternamente os discípulos: «Amigos». Depois convida-os, como antes, a lançarem de novo as redes, com coragem. E mais uma vez as redes se enchem até transbordar. Irmãos e irmãs, quando as nossas redes estão vazias na vida, não é o momento de sentir pena de nós mesmos, […] É tempo de se fazer ao largo com Jesus. […] Perante uma desilusão, ou uma vida que perdeu um pouco o sentido, […] parte de novo com Jesus, recomeça, faz-te ao largo! Ele está à tua espera.[…]

Pedro precisava daquele “choque”. Quando ouve João clamar: «É o Senhor!», mergulha imediatamente na água e vai em direção a Jesus. Assim, enquanto João, o mais novo, reconhece o Senhor, é Pedro, o mais velho, que se lança para ir ao seu encontro. Naquele mergulho há todo o entusiasmo recém-descoberto de Simão Pedro.[…]  Hoje Cristo Ressuscitado convida-nos a um novo impulso, […] convida-nos a mergulhar no bem sem medo de perder algo, sem calcular demasiado, porque para conhecer Jesus tem é preciso arriscar. […] Perguntemo-nos: sou capaz de algum ímpeto de generosidade, ou impeço os impulsos do coração?

Então, no final deste episódio, Jesus dirige a Pedro, três vezes, a pergunta: «Amas-me?». O Ressuscitado pergunta hoje também a nós: Amas-me? Porque na Páscoa Jesus quer que o nosso coração ressuscite; porque a fé não é uma questão de conhecimento, mas de amor. Amas-me? pergunta Jesus a ti, a mim, a todos nós, que temos as redes vazias […], que não temos coragem de mergulhar. […] A partir de então, Pedro deixou de pescar para sempre e dedicou-se ao serviço de Deus […]. E nós, queremos amar Jesus?

Por favor, não se esqueçam de rezar por mim.

Resumo do texto do texto do Papa Francisco, Regina Caeli, Praça São Pedro, 1 de maio de 2022

Escuta o Papa: São José Operário (C)

Hoje é a festa de São José Operário e o Dia do Trabalhador. […]

«E Deus criou» (Gn 1 e 2). Criou o mundo, criou o homem, e deu ao homem uma missão: administrar, trabalhar, continuar a criação. A Bíblia usa trabalho para descrever esta atividade de Deus: «Tendo Deus acabado no sétimo dia a obra que fizera, descansou de todo o seu trabalho». E confia esta atividade ao homem: […] o trabalho é apenas a continuação da obra de Deus: […] é a vocação do homem recebida de Deus no fim da criação do universo. É o trabalho que torna o homem semelhante a Deus, pois com o trabalho o homem é capaz de criar […]; até mesmo de criar uma família […]. E a Bíblia diz: «Viu Deus que tudo quanto tinha feito era muito bom». Ou seja, o trabalho tem em si uma bondade e cria a harmonia das coisas – beleza, bondade – e envolve o homem em tudo: no seu pensamento, na sua atuação, em tudo. O homem participa no trabalho. É a primeira vocação do homem: trabalhar. E isto dá dignidade ao homem. É a dignidade que o faz assemelhar-se a Deus. […]

Certa vez, numa Cáritas, a um homem que não tinha trabalho e fora à procura de algo para a família, um empregado dessa entidade […] disse: “Pelo menos podes levar o pão para casa” – “Mas isto não me basta, não me é suficiente”, foi a resposta: “Quero ganhar o pão a fim de o levar para casa”. Faltava-lhe a dignidade, a dignidade de “fazer” o próprio pão, com o seu trabalho, e de o levar para casa. A dignidade do trabalho, que infelizmente é tão espezinhada.[…]

Ainda hoje há muitos escravos, muitos homens e mulheres que não são livres para trabalhar.[…] Existe o trabalho forçado, injusto, mal pago e que leva o homem a viver com a dignidade espezinhada. […] A escravatura de hoje é a nossa “indignidade”, porque tira a dignidade […] de todos nós. […] Também aqui, no nosso lugar. Pensa nos trabalhadores, […] que tu fazes trabalhar por um salário mínimo e não oito, mas 12, 14 horas por dia. […] Pensa na empregada doméstica que não recebe um salário justo, não tem assistência da segurança social e nem sequer a possibilidade de se aposentar.[…] Toda a injustiça que se faz a uma pessoa que trabalha, espezinha a dignidade humana; inclusive a dignidade daquele que comete a injustiça. […] Ao contrário, a vocação que Deus nos dá é tão bonita: criar, recriar, trabalhar. Mas isto pode ser feito quando as condições são adequadas e a dignidade da pessoa é respeitada.

Unamo-nos hoje a muitos homens e mulheres, […] que comemoram o Dia do Trabalhador, […] por aqueles que lutam pela justiça no trabalho, por aqueles – bons empresários – que realizam o trabalho com justiça […]. E peçamos a São José […] que nos ajude a lutar pela dignidade do trabalho, a fim de que haja trabalho para todos e que seja um trabalho digno. Não trabalho escravo. Que esta seja a oração de hoje!

Resumo do texto do texto do Papa Francisco, Homilia, Capela Santa Marta, 1 de maio  de 2020

Escuta o Papa: 2º Domingo Páscoa (C)

Hoje, […] o Evangelho narra sobre a primeira e a segunda aparição do Senhor Ressuscitado aos discípulos. Jesus vem […] enquanto os Apóstolos estão fechados no Cenáculo, por medo, mas como Tomé, um dos Doze, não está presente, regressa oito dias depois (Jo 20, 19-29). […] Tomé representa todos nós, que não estávamos presentes no Cenáculo quando o Senhor apareceu. […] Também nós, […] por vezes temos dificuldade: como podemos acreditar que Jesus ressuscitou, que nos acompanha […] sem o termos visto, sem o termos tocado? […] Por que o Senhor não nos dá um sinal mais evidente da sua presença e do seu amor? […] Nós também somos como Tomé, com as mesmas dúvidas […]. Mas não devemos ter vergonha disto. […] 

O Evangelho diz-nos que o Senhor não procura cristãos perfeitos. […] Digo-vos: receio quando vejo alguns cristãos […] que pensam que são perfeitos. […] O Senhor não procura cristãos que nunca duvidam e sempre ostentam uma fé segura. Quando um cristão é assim, há algo errado. […] A aventura da fé, como para Tomé, é feita de luzes e sombras. […] Ela conhece tempos de consolação, ímpeto e entusiasmo, mas também de cansaço, desorientação, dúvida e escuridão. O Evangelho mostra-nos a “crise” de Tomé para nos dizer que não devemos temer as crises da vida e da fé. As crises […] são um caminho. […] Muitas vezes tornam-nos humildes. […] As crises […] despertam a nossa necessidade de Deus e permitem-nos assim regressar ao Senhor, tocar as suas feridas, experimentar novamente o seu amor. […]

Estimados irmãos e irmãs, é melhor ter uma fé imperfeita, mas humilde, sempre orientada para Jesus, do que uma fé forte, mas presunçosa, que nos torna orgulhosos e arrogantes. […] E perante a ausência […] de Tomé […] qual é a atitude de Jesus? Jesus não desiste, […] não tem medo das nossas crises. […] Ele volta sempre: quando as portas estão fechadas, ele volta; quando duvidamos, ele volta; […] quando precisamos de o encontrar e tocá-lo mais de perto, ele volta.[…] E não volta com sinais poderosos[…] mas com as suas feridas, […] sinais do seu amor que abraçou as nossas fragilidades. […] Quando experimentamos cansaço ou momentos de crise, Jesus, o Ressuscitado, deseja regressar para estar connosco. Ele espera unicamente que o procuremos, que o invoquemos, até mesmo que protestemos, como Tomé, mostrando-lhe as nossas necessidades e a nossa incredulidade. Ele regressa sempre. Porquê? Porque é paciente e misericordioso. […] Jesus é o Senhor das “outras oportunidades”: Ele dá-nos sempre mais uma, sempre. […] E prometamos, na próxima vez, no nosso cansaço, procurar Jesus, voltar para Ele, para o Seu perdão – Ele perdoa sempre! […]. Desta forma, tornar-nos-emos também capazes de compaixão, de nos aproximar das feridas dos outros sem rigidez nem preconceitos. Que Nossa Senhora, Mãe de Misericórdia[…] nos acompanhe no caminho da fé e do amor.

Resumo do texto do texto do Papa Francisco,  Regina Caeli, Praça São Pedro, 24 de abril de 2022

Escuta o Papa: Segunda-feira Páscoa (C)

Os dias da Oitava da Páscoa são como um único dia em que a alegria da Ressurreição se prolonga. O Evangelho da Liturgia de hoje continua a falar-nos do Ressuscitado, da sua aparição às mulheres que tinham ido ao sepulcro (Mt 28, 8-15). Jesus vai ao encontro delas, saúda-as; depois diz-lhes duas coisas, que também para nós será bom ouvir como dom de Páscoa.[…] 

Primeiro, tranquiliza-as com duas simples palavras: «Não temais!» […] O Senhor sabe que os receios são os nossos inimigos diários. Sabe também que os nossos temores nascem do grande medo […] da morte: medo de esvaecer, de perder os entes queridos, […] de não aguentar mais… Mas na Páscoa Jesus venceu a morte. Portanto, ninguém nos pode dizer de modo mais convincente: […] «Não tenhais medo!». O Senhor di-lo ali, ao lado do sepulcro do qual saiu vitorioso. Assim, convida-nos a sair dos túmulos dos nossos medos. […] Porque os nossos temores são como túmulos, enterram-nos lá dentro. Ele sabe que o medo está sempre à espreita […]  e que temos necessidade de ouvir repetir: […] não tenhas medo. […] “Eu”, diz-te Jesus, “experimentei a morte por ti, assumi sobre mim o teu mal”. Agora ressuscitei para te dizer: estou aqui, contigo, para sempre. Não temas!”. Mas como fazer, podemos dizer, para combater o medo? Ajuda-nos a segunda coisa que Jesus diz às mulheres: «Ide dizer aos meus irmãos que vão à Galileia, pois é lá que me verão». Ide e anunciai! O medo fecha-nos sempre em nós próprios […]. Por outro lado, Jesus faz-nos sair e envia-nos ao encontro dos outros. […] Porque não devemos guardar para nós a alegria pascal. […] Se nos abrirmos e levarmos o Evangelho, o nosso coração dilata-se e supera o medo. Este é o segredo: anunciar para vencer o medo. O texto de hoje diz-nos que a proclamação pode encontrar um obstáculo: a falsidade. […] O Evangelho fala de “contra-anúncio”. Qual? O dos soldados que tinham guardado o sepulcro de Jesus. São pagos […] e recebem estas instruções: «Direis que os seus discípulos vieram tirá-lo à noite, enquanto dormíeis». […] É o poder do dinheiro, aquele outro senhor que Jesus diz que nunca devemos servir. […] Isto é falsidade, a lógica do engano, que se opõe à proclamação da verdade. É um lembrete também para nós: […]  As falsidades […] levam-nos diretamente para a morte, para o túmulo. O Ressuscitado, por outro lado, quer tirar-nos dos túmulos de das falsidades e das dependências. […] Caros irmãos e irmãs, […] coloquemos a nossa opacidade, as nossas falsidades, perante a luz de Jesus ressuscitado. […] Que Maria, a Mãe do Ressuscitado, nos ajude a superar os nossos medos e nos conceda a paixão pela verdade.

Resumo do texto lido pelo Papa Francisco,  Regina Caeli, Praça São Pedro, 18 de abril de 2022

Escuta o Papa: Vigília Pascal (C)

Nesta noite, irmãos e irmãs, deixemo-nos guiar pelas mulheres do Evangelho, para descobrir com elas a aurora da luz de Deus que brilha nas trevas do mundo. Quando já a noite ia clareando e irrompiam, silenciosas, as primeiras luzes da aurora, aquelas mulheres foram ao sepulcro para ungir o corpo de Jesus. E lá vivem uma experiência que as turvou: primeiro, descobrem que o sepulcro está vazio; depois, veem duas figuras em trajes resplandecentes que lhes dizem que Jesus ressuscitou; imediatamente, correm a anunciá-lo aos outros discípulos (Lc 24, 1-10). Veem, escutam, anunciam: com estas três ações, entremos também nós na Páscoa do Senhor.

As mulheres veem. O primeiro anúncio da Ressurreição é feito […] sob um sinal que se deve contemplar. […] A Páscoa começa invertendo os nossos esquemas. […] Às vezes (temos de o admitir!) […] em nós, como nas mulheres do Evangelho, prevalecem interrogações e dúvidas, e a primeira reação face ao sinal imprevisto é o medo, é voltar «o rosto para o chão». […] Com muita frequência, contemplamos a vida e a realidade com os olhos voltados para baixo; […] fechamo-nos nas nossas necessidades […] enquanto continuamos a lamentar-nos e a pensar que as coisas nunca vão mudar. E assim permanecemos imóveis […] e sepultamos a alegria de viver. Mas, nesta noite, o Senhor quer dar-nos olhos diferentes, iluminados pela esperança de que o medo, o sofrimento e a morte não terão a última palavra sobre nós. […]

Em segundo lugar, as mulheres escutam. Depois de terem visto o sepulcro vazio, dois homens em trajes resplandecentes disseram-lhes: «Porque buscais o Vivente entre os mortos? Não está aqui; ressuscitou!». […] Sempre que pretendemos ter entendido tudo acerca de Deus […] repitamos a nós mesmos: não está aqui! Sempre que O procuramos apenas nas emoções […] ou nos momentos de necessidade, para depois O deixarmos de lado […] nas opções concretas de cada dia, repitamos: não está aqui! E quando pensamos em confiná-Lo nas […] nas nossas fórmulas e nas nossas tradições, mas esquecendo-nos de O procurar nos cantos mais escuros da vida onde há alguém que chora, que luta, sofre e espera, repitamos: não está aqui! […] Não podemos fazer Páscoa […]  se permanecemos prisioneiros do passado; se na vida não temos a coragem de nos deixar perdoar por Deus – que perdoa tudo […] [e] que deseja transformar-nos a nós e ao mundo.[…]

Por fim as mulheres anunciam. Que anunciam elas? A alegria da Ressurreição. A Páscoa não acontece para consolar intimamente quem chora a morte de Jesus, mas para abrir de par em par os corações ao anúncio extraordinário da vitória de Deus sobre o mal e a morte. […] Por isso mesmo, depois de ter visto e escutado, as mulheres correm a anunciar aos discípulos a alegria da Ressurreição. Sabem que poderiam ser tomadas por loucas […] mas não estão preocupadas com a sua reputação […] ; não reprimem os sentimentos, nem medem as palavras. Apenas tinham o coração ardente para transmitir a notícia, o anúncio: “O Senhor ressuscitou!” 

E como é bela uma Igreja que corre, assim, pelas estradas do mundo! Sem medo, sem táticas nem oportunismos; só com o desejo de levar a todos a alegria do Evangelho. A isto, somos chamados: a fazer experiência do Ressuscitado e partilhá-la com os outros; […] Façamos ressuscitar Jesus, o Vivente, dos túmulos onde O tínhamos encerrado; libertemo-Lo das formalidades onde frequentemente o enclausuramos[…]. Levemo-Lo para a vida de todos os dias: com gestos de paz neste tempo marcado pelos horrores da guerra; com obras de reconciliação nas relações rompidas e de compaixão para com os necessitados; com ações de justiça no meio das desigualdades […].

Irmãos e irmãs, a nossa esperança chama-se Jesus. […] Façamos Páscoa com Cristo! Ele está vivo e ainda hoje passa, transforma e liberta. Com Ele, o mal já não tem poder, o fracasso não pode impedir-nos de recomeçar, a morte torna-se passagem para o início duma nova vida. Porque com Jesus, o Ressuscitado, nenhuma noite é infinita; e mesmo na escuridão mais densa, nesta escuridão brilha a estrela da manhã.[…] Christós Voskrés! (Cristo ressuscitou!)

Resumo do texto lido pelo Papa Francisco, Homilia, Basílica de São Pedro, 16 de abril de 2022

Escuta o Papa: Quinta-feira Santa (C)

Todas as quintas-feiras santas lemos esta passagem do Evangelho: é uma coisa simples. Jesus, com os seus amigos, os seus discípulos, está na ceia, a ceia da Páscoa; Jesus lava os pés aos seus discípulos — fez uma coisa estranha: nessa altura os escravos lavavam os pés à entrada da casa. E depois, Jesus — com um gesto que também toca o coração — lava os pés ao traidor, aquele que o vende.  Jesus é assim e ensina-nos isto, simplesmente: deveis lavar os pés uns aos outros. É o símbolo: entre vós, deveis servir-vos uns aos outros; um serve o outro, sem interesse.  Como seria bom se isto pudesse ser feito todos os dias e a todas as pessoas: mas há sempre interesse, que é como uma serpente que entra. E ficamos escandalizados quando dizemos: “Fui àquele guichet público, obrigaram-me a pagar um suborno”. Isto dói, porque não é bom. E frequentemente procuramos o nosso próprio interesse na vida, como se estivéssemos a pagar um ao outro um suborno. 

Em vez disto, é importante fazer tudo sem interesse: um serve o outro, um é o irmão do outro, um faz o outro crescer, um corrige o outro, e desta forma as coisas devem avançar. Servir! E depois, o coração de Jesus, que diz ao traidor: “Amigo” e também espera por ele, até ao fim: ele perdoa tudo. Gostaria de colocar isto no coração de todos nós hoje, no meu também: Deus perdoa tudo  e Deus perdoa sempre ! Somos nós que nos cansamos de pedir perdão. E cada um de nós, talvez, tenha algo no seu coração, que carrega há algum tempo, que lhe causa um zumbido, algum pequeno esqueleto escondido no armário. Mas, pedir perdão a Jesus: Ele perdoa tudo. Ele só quer a nossa confiança para pedir perdão. Podes fazê-lo quando estás sozinho, quando estás com outros companheiros, quando estás com o sacerdote. Esta é uma bela oração para hoje: “Mas, Senhor, perdoai-me. Eu tentarei servir os outros, mas Tu serves-me com o Teu perdão”. Foi assim que ele pagou, com o perdão. […] E quanto perdoa ele? Tudo! E até que ponto? Sempre! Ele não se cansa de perdoar: somos nós que nos cansamos de pedir perdão.

E agora, procurarei fazer o mesmo gesto de Jesus: lavar-vos os pés. Faço-o de coração porque nós, sacerdotes, deveríamos ser os primeiros a servir os outros, não a explorar os outros. O clericalismo por vezes leva-nos por este caminho. Mas temos de servir. Isto é um sinal, também um sinal de amor por estes irmãos e irmãs e por todos vós aqui; um sinal que significa: “Eu não julgo ninguém. Procuro servir a todos”. Há Aquele que julga, mas é um Juiz bastante estranho, o Senhor: ele julga e perdoa.

Resumo do texto lido pelo Papa Francisco, Homilia,  Penitenciária Civitavecchia, 14 de abril de 2022

Escuta o Papa: Domingo de Ramos (C)

No calvário, confrontam-se duas mentalidades; vemos, no Evangelho, como as palavras de Jesus crucificado se contrapõem às dos seus adversários. Estes vão repetindo, como se fosse um refrão, «salva-te a ti mesmo». Dizem-no os chefes; […] Proferem-no os soldados […]. E também um dos malfeitores […]. Salvar-se a si mesmo, olhar por si mesmo, nos próprios interesses; […] é o refrão da humanidade, que crucificou o Senhor. […] Mas, à mentalidade do «eu», opõe-se a de Deus; o salva-te a ti mesmo confronta-se com o Salvador que Se oferece a Si mesmo. No Calvário, […] também Jesus toma a palavra três vezes como os seus adversários. […]. Particularmente uma das suas expressões marca a diferença do salva-te a ti mesmo: «Perdoa-lhes, Pai». Detenhamo-nos nestas palavras. Quando são pronunciadas pelo Senhor? […] Durante a crucifixão. […]. Lá, na dor física mais aguda da Paixão, Cristo pede perdão para quem O está perfurando. […] Cravado no patíbulo da humilhação, aumenta a intensidade do dom, que se torna “perdão”.  É […]  daqueles orifícios de dor causados pelos nossos cravos que brota o perdão. […]. Fixemos Jesus na cruz e vejamos que nunca recebemos um olhar mais terno e compassivo. […]. Fixemos o Crucificado e digamos: «Obrigado, Jesus! Amas-me e perdoas-me sempre, mesmo quando me custa amar e perdoar a mim mesmo». 

Lá, enquanto é crucificado, […] Jesus vive o seu mandamento mais difícil: o amor aos inimigos. […] Hoje Jesus ensina-nos […] a romper o círculo vicioso do mal e dos queixumes, a reagir […] aos golpes do ódio com a carícia do perdão. […] Se queremos verificar a nossa pertença a Cristo, vejamos como nos comportamos com quem nos feriu. O Senhor pede-nos […] para quebrar a corrente do «amo-te se me amares; sou teu amigo, se fores meu amigo; ajudo-te se me ajudares». […]  Em vez disso, compaixão e misericórdia para com todos, porque Deus vê um filho em cada um […]

Perdoa-lhes, Pai, porque não sabem o que fazem. O Evangelho sublinha que Jesus «dizia» isso, isto é, […] passou as horas na cruz com estas palavras nos lábios e no coração.  […] Jesus – ensina o Evangelho de Lucas – veio ao mundo para nos trazer o perdão dos nossos pecados e, no fim, deixou-nos esta ordem concreta: pregar a todos, no seu nome, o perdão dos pecados. […] Notemos mais uma coisa. Jesus não só implora o perdão, mas diz também o motivo: perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem. Como é possível? Os seus opositores tinham premeditado a morte d’Ele, […] e agora estão lá, no Calvário, para assistir ao seu fim… e, todavia, Cristo justifica aqueles violentos, porque não sabem. É assim que Jesus Se comporta connosco: faz-Se nosso advogado. Não Se coloca contra nós, mas por nós contra o nosso pecado. E é interessante o argumento que usa: porque não sabem, ou seja, aquela ignorância do coração que temos todos nós pecadores. […]. 

Perdoa-lhes, Pai, porque não sabem o que fazem. Muitos ouvem esta frase incrível; mas apenas um a acolhe. É um malfeitor, crucificado ao lado de Jesus. Podemos pensar que a misericórdia de Cristo suscitou nele uma última esperança e o levou a pronunciar estas palavras: «Jesus, lembra-te de mim» […]  O bom ladrão acolhe Deus, quando a vida dele está prestes a terminar e, assim, a sua vida recomeça; no inferno do mundo, vê abrir-se o Paraíso: «Hoje estarás comigo no Paraíso». Eis o prodígio do perdão de Deus, que transforma o último pedido dum condenado à morte na primeira canonização da história.

Irmãos, irmãs! Nesta semana, abramo-nos à certeza de que Deus pode perdoar todo o pecado.  […]Coragem! Caminhemos para a Páscoa com o seu perdão.  […] (e em silêncio, no coração, repitamos com Ele): Perdoa-lhes, Pai, porque não sabem o que fazem.

Resumo do texto lido pelo Papa Francisco, Homilia, 10 de abril de 2022

Escuta o Papa: 5º Domingo Quaresma (C)

Jesus, «de madrugada, voltou outra vez para o templo e todo o povo vinha ter com Ele» (Jo 8, 2). Assim começa o episódio da mulher adúltera. […] Jesus «sentou-Se – diz o Evangelho – e pôs-Se a ensinar». Mas, na escola de Jesus, há alguns ausentes. Detenhamo-nos nestes ausentes. Em primeiro lugar, os acusadores da mulher. […] Assim se apresentam a Jesus: não com o coração disponível para O escutarem, mas «para O fazerem cair numa armadilha e terem de que O acusar». […] Aos olhos do povo, parecem peritos de Deus, e contudo não reconhecem Jesus; antes pelo contrário, veem-No como um inimigo que precisam de eliminar. Para o conseguir, colocam diante d’Ele uma pessoa, como se fosse uma coisa […] denunciando publicamente o seu adultério. Pressionam para que a mulher seja apedrejada. […] E fazem tudo isto sob o manto da sua fama de homens religiosos. 

Irmãos e irmãs, estas pessoas dizem-nos que, até na nossa religiosidade […] há sempre o perigo de entender mal Jesus, ter o seu nome nos lábios, mas negá-Lo nas obras.[…] Então como saber se somos discípulos na escola do Mestre? Pelo modo como olhamos para o próximo: se o fazemos como Jesus nos faz ver hoje, isto é, com um olhar de misericórdia […] que é o coração de Deus. Para compreender se somos verdadeiros discípulos do Mestre, é preciso verificar também como olhamos para nós mesmos. Os acusadores da mulher estão convencidos de que não têm nada a aprender. […] Para Jesus o que conta é a abertura disponível de quem não se sente perfeito, mas necessitado de salvação.[…] E quando Lhe abrimos de verdade o coração, Jesus pode operar maravilhas em nós. 

Vemos acontecer isto mesmo na mulher adúltera. A sua situação parece irremediável, mas com maravilha sua vê-se absolvida por Deus […]: «Ninguém te condenou? – diz-lhe Jesus – Também Eu não te condeno. Vai e de agora em diante não tornes a pecar». […] Jesus, Palavra de Deus em pessoa, reabilita completamente a mulher, restituindo-lhe a esperança. […] Encontraram-se a Misericórdia e a miséria. […] Apetece-me pensar que, perdoada por Jesus, ela por sua vez aprendeu a perdoar. […]

O Senhor quer que também nós, seus discípulos, nós como Igreja, perdoados por Ele, nos tornemos testemunhas incansáveis de reconciliação: testemunhas dum Deus para o Qual não existe a palavra «irrecuperável»; dum Deus que sempre perdoa, sempre. […] Somos nós que nos cansamos de pedir perdão. […] Não há pecado ou fracasso que, levados a Ele, não possam tornar-se ocasião para começar uma vida nova, diferente, sob o signo da misericórdia. […] Se O imitarmos, não seremos levados a concentrar-nos na denúncia dos pecados, mas a sair amorosamente à procura dos pecadores. Não ficaremos a contar os presentes, mas iremos em busca dos ausentes. […] Isto, é o que Jesus nos ensina hoje com o exemplo. Deixemo-nos surpreender por Ele e acolhamos com alegria a sua novidade.

Resumo do texto lido pelo Papa Francisco na Homilia em Malta, 3 de abril de 2022

Escuta o Papa: 4º Domingo Quaresma (C)

O Evangelho da Liturgia deste domingo narra a chamada parábola do filho pródigo (Lc 15, 11-32). Ela leva-nos ao coração de Deus, que perdoa […] sempre!  Diz-nos que Deus é Pai, que não só volta a receber, mas também se alegra e faz festa pelo seu filho, que voltou para casa depois de ter esbanjado todos os bens. Nós somos esse filho, e comove pensar como o Pai nos ama sempre e espera por nós. 

Mas na mesma parábola há também o filho mais velho, que entra em crise. […] Com efeito, dentro de nós há também este filho mais velho e, pelo menos em parte, somos tentados a concordar com ele.: […] «Sirvo-te há tantos anos, sem nunca transgredir as tuas ordens», mas por «este teu filho» até festejas! […] O problema do filho mais velho sobressai destas palavras. Na relação com o Pai, ele baseia tudo sobre a pura observância das ordens, no sentido do dever. Pode ser também o nosso problema, entre nós e com Deus: perder de vista que Ele é Pai e viver uma religião distante, feita de proibições e deveres. 

E a consequência desta distância é a rigidez em relação ao próximo […]. Com efeito, na parábola o filho mais velho […] diz o teu filho, como se dissesse: não é meu irmão. E no final ele mesmo corre o risco de ficar fora de casa. Sim – diz o texto – «não queria entrar». […] Vendo isto, o Pai sai para lhe suplicar: «Filho, tu estás sempre comigo e tudo o que é meu é teu». […] Sabem-no bem os pais, que se aproximam muito do sentimento de Deus. […] Neste ponto da parábola, o Pai abre o coração ao filho mais velho, manifestando-lhe duas necessidades:[…] «Era necessário fazer festa e alegrar-se, pois este teu irmão estava morto e reviveu» […] 

Em primeiro lugar, festejar, ou seja, manifestar a nossa proximidade a quem se arrepende ou está a caminho, a quem está em crise ou distante. […] Portanto, segundo o Pai, é preciso oferecer-lhe um acolhimento caloroso, que encoraje a continuar. […] Quanto bem pode fazer um coração aberto, uma escuta verdadeira, um sorriso transparente; […] Deus não sabe perdoar sem festejar! E o pai festeja, alegra-se porque o filho regressou.E depois, de acordo com o Pai, é preciso alegrar-se. Quem tem um coração sintonizado com Deus, quando vê o arrependimento de uma pessoa, por mais graves que tenham sido os seus erros, alegra-se. Não fica parado nos erros, não aponta o dedo contra o mal, mas alegra-se com o bem […]. Quanto a nós, será que sabemos alegrar-nos pelos outros? Que a Virgem Maria nos ensine a acolher a misericórdia de Deus, para que se torne a luz na qual olhar para o nosso próximo.

Por favor, não se esqueçam de rezar por mim.

Resumo do texto lido pelo Papa Francisco no Angelus, 27 de março de 2022

Escuta o Papa: Solenidade da Anunciação

Acabamos de ouvir o anúncio mais importante da nossa história: a anunciação a Maria (cf. Lc 1, 26-38).[…] A anunciação de Jesus realiza-se num lugar remoto da Galileia, numa cidade periférica […], no anonimato da casa de uma jovem de nome Maria. […] Como Maria, também nós podemos estar desorientados. «Como acontecerá isto» em tempos com tanta especulação? […] Certamente, o ritmo vertiginoso a que estamos submetidos parece roubar-nos a esperança e a alegria. […] E paradoxalmente quando tudo se acelera para construir — em teoria — uma sociedade melhor, no final não se tem tempo para nada e para ninguém. […] Perdemos o tempo para a família, para a comunidade, para a amizade, para a solidariedade e para a memória. Diante desta desorientação de Maria, perante as nossas desorientações, são três as chaves que o Anjo nos oferece para nos ajudar a aceitar a missão que nos é confiada.

1. A primeira coisa que o Anjo faz é evocar a memória, […] Evoca a promessa feita a David como fruto da aliança com Jacó. Maria é filha da Aliança. Também nós hoje somos convidados a fazer memória[…]. Para não nos esquecermos dos nossos antepassados, […] e de tudo aquilo que passaram para chegar onde estamos hoje.[…] A memória ajuda-nos a não permanecer prisioneiros de discursos que semeiam ruturas e divisões como único modo para resolver os conflitos. Evocar a memória é o melhor antídoto […] diante das soluções mágicas da divisão.

2. A memória permite que Maria se aproprie da sua pertença ao Povo de Deus. Faz-nos bem recordar que somos membros do Povo de Deus! […] Um povo formado por mil rostos, histórias e proveniências, um povo multiétnico. Esta é uma das nossas riquezas […] É um povo que não tem medo de acolher quem necessita porque sabe que ali está presente o seu Senhor.

3. «Nada é impossível a Deus»: assim termina a resposta do Anjo a Maria. Quando acreditamos que tudo depende exclusivamente de nós, permanecemos prisioneiros das nossas capacidades, das nossas forças, dos nossos horizontes míopes. Quando, pelo contrário, nos dispomos a deixar-nos ajudar, aconselhar, quando nos abrimos à graça, parece que o impossível começa a tornar-se realidade. […] Como ontem, Deus […] continua a procurar homens e mulheres capazes de acreditar, capazes de fazer memória, de se sentirem parte de seu povo para cooperar com a criatividade do Espírito. […] Parafraseando Santo Ambrósio […] podemos dizer: Deus continua a procurar corações como o de Maria, dispostos a acreditar até em condições absolutamente extraordinárias . Que o senhor faça crescer em nós esta fé e esta esperança.»

Resumo do texto lido pelo Papa Francisco na Homilia, Milão, 25 de março de 2017