Fomos feitos para Deus

Assim, nesta perspectiva, a Liturgia convida-nos a reviver, na Semana Santa que se aproxima, os acontecimentos da Paixão do Senhor – a entrada em Jerusalém, a Última Ceia, o julgamento, a crucificação e o sepultamento – para compreender o seu sentido mais autêntico e abrir-nos ao dom da graça que eles encerram. 

Na verdade, é em Cristo Ressuscitado, vencedor da morte e vivo em nós pela graça do Batismo, que tais acontecimentos encontram o seu cumprimento, para a nossa salvação e plenitude de vida. A sua graça ilumina este mundo, que parece estar em constante busca de mudanças e novidades, mesmo que isso implique sacrificar coisas importantes – tempo, energias, valores, afetos –, como se a fama, os bens materiais, os divertimentos e as relações passageiras pudessem preencher o nosso coração ou tornar-nos imortais. É o sintoma de uma necessidade de infinito que cada um de nós traz em si, mas cuja resposta não pode ser confiada ao que é efémero. Nada de finito pode saciar a nossa sede interior, porque fomos feitos para Deus e não encontramos paz enquanto não descansarmos n’Ele (Confissões, I, 1.1).

A narrativa da ressurreição de Lázaro convida-nos, portanto, a estar atentos a essa necessidade profunda e, com a força do Espírito Santo, a libertar os nossos corações de hábitos, condicionamentos e formas de pensar que, como grandes pedras, nos aprisionam no sepulcro do egoísmo, do materialismo, da violência e da superficialidade. Nestes lugares não há vida, mas apenas desorientação, insatisfação e solidão.

Também a nós Jesus ordena: «Vem cá para fora!», encorajando-nos a sair, regenerados pela sua graça, desses espaços confinados, para caminharmos na luz do amor, como mulheres e homens novos, capazes de esperar e amar segundo o modelo da sua caridade infinita, sem cálculos e sem limites.

Que a Virgem Maria nos ajude a viver assim estes dias santos: com a sua fé, com a sua confiança, com a sua fidelidade, a fim de que também para nós se renove, todos os dias, a experiência luminosa do encontro com o seu Filho ressuscitado.

Texto do Papa Leão XIV, Angelus, Praça de São Pedro, 22 de março de 2026

“Abramos os olhos” para as feridas do mundo

O Evangelho deste quarto domingo da Quaresma narra a cura de um homem cego de nascença (Jo 9, 1-41). Por meio da simbologia deste episódio, o evangelista João fala-nos do mistério da salvação: enquanto estávamos na escuridão e a humanidade caminhava nas trevas (Is 9, 1), Deus enviou o seu Filho como luz do mundo, para abrir os olhos dos cegos e iluminar a nossa vida.

Os profetas tinham anunciado que o Messias abriria os olhos dos cegos (Is 29, 18; 35, 5; Sl 146, 8). O próprio Jesus confirma a sua missão mostrando que «os cegos veem» (Mt 11, 5); e apresenta-se dizendo: «Eu sou a luz do mundo» (Jo 8, 12). Realmente, todos podemos dizer que somos “cegos de nascença”, pois não conseguimos, por nós mesmos, ver em profundidade o mistério da vida. Por isso, Deus encarnou-se em Jesus, para que o barro da nossa humanidade, misturado com o sopro da sua graça, pudesse receber uma nova luz, capaz de nos fazer ver finalmente a nós próprios, aos outros e a Deus na verdade.

Chama a atenção que se tenha difundido, ao longo dos séculos, a opinião, ainda hoje presente, de que a fé seria uma espécie de “salto no escuro”, uma renúncia ao pensamento, de modo que ter fé significaria acreditar “cegamente”. Pelo contrário, o Evangelho nos diz que, ao entrar em contato com Cristo, os olhos se abrem, a tal ponto que as autoridades religiosas perguntam com insistência ao cego curado: «Como foi que os teus olhos se abriram?» (Jo 9, 10); e ainda: «Como é que te pôs a ver?».

Irmãos e irmãs, também nós, curados pelo amor de Cristo, somos chamados a viver um cristianismo “de olhos abertos”. A fé não é um ato cego, uma renúncia à razão, um refúgio em alguma certeza religiosa que nos faz desviar o olhar do mundo. Em vez disso, a fé ajuda-nos a olhar «a partir da perspectiva de Jesus e com os seus olhos: é uma participação no seu modo de ver» (Encíclica Lumen fidei, 18) e, por isso, pede-nos que “abramos os olhos”, como Ele fazia, sobretudo para os sofrimentos dos outros e para as feridas do mundo.

Hoje, em particular, face às inúmeras questões que o coração humano se coloca e às dramáticas situações de injustiça, violência e sofrimento que marcam o nosso tempo, é necessária uma fé vigilante, atenta e profética, que nos abra os olhos para as trevas do mundo e lhe traga a luz do Evangelho através de um comprometimento com a paz, a justiça e a solidariedade.

Peçamos à Virgem Maria que interceda por nós, a fim de que a luz de Cristo abra os olhos do nosso coração e possamos dar testemunho d’Ele com simplicidade e coragem.

Texto do Papa Leão XIV, Angelus, Praça de São Pedro, 15 de março de 2026

Jesus é a resposta de Deus à nossa sede

O diálogo entre Jesus e a samaritana, a cura do cego de nascença e a ressurreição de Lázaro, desde os primeiros séculos da história da Igreja, iluminam o caminho de quem, na Páscoa, receberá o Batismo e dará início a uma nova vida. Estas grandiosas páginas evangélicas, que lemos a partir deste domingo, são oferecidas aos catecúmenos e, ao mesmo tempo, são ouvidas novamente por toda a comunidade, pois ajudam a tornarmo-nos cristãos ou, se já o somos, a sê-lo com mais autenticidade e alegria.

Jesus, na verdade, é a resposta de Deus à nossa sede. Como indica à samaritana, o encontro com Ele faz brotar no íntimo de todos uma «fonte de água que dá a vida eterna» . Ainda hoje, quantas pessoas, em todo o mundo, procuram esta fonte espiritual! «Às vezes – escrevia a jovem Etty Hillesum no seu diário – consigo alcançá-la, mas frequentemente ela está coberta por pedras e areia: Deus está, então, sepultado. É preciso, por isso, voltar a desenterrá-lo». Caríssimos, não há energia melhor empregada do que aquela que dedicamos a libertar o coração. Por isso, a Quaresma é um dom: estamos a entrar na terceira semana e podemos, portanto, intensificar o caminho!

No Evangelho também está escrito que «chegaram os seus discípulos e ficaram admirados de Ele [Jesus] estar a falar com uma mulher» (Jo 4, 5-42). Sentem tanta dificuldade em aceitar a própria missão, que o Mestre precisa desafiá-los: «Não dizeis vós: ‘Mais quatro meses e vem a ceifa’? Pois Eu digo-vos: Levantai os olhos e vede os campos que estão doirados para a ceifa». O Senhor diz também à sua Igreja: “Levanta os olhos e reconhece as surpresas de Deus!”. Quatro meses antes da colheita, quase nada se vê nos campos. Mas onde nós não vemos nada, a Graça já está em ação e os frutos estão prontos para serem colhidos. A messe é grande: talvez os trabalhadores sejam poucos, porque distraídos noutras atividades. Porém, Jesus está atento. Segundo os costumes, Ele deveria simplesmente ignorar aquela mulher samaritana; mas, em vez disso, Jesus fala com ela, escuta-a, dá-lhe atenção, sem segundas intenções e sem desprezo.

Quantas pessoas procuram na Igreja esta mesma delicadeza, esta disponibilidade! E como é belo quando perdemos a noção do tempo para dar atenção àqueles que encontramos, tal como são. Jesus chegava a esquecer-se de comer, de tal modo o alimentava a vontade divina de chegar a todos em profundidade. Assim, a samaritana torna-se a primeira de muitas evangelizadoras. Por causa do seu testemunho, a partir da sua aldeia de desprezados e rejeitados, muitos vão ao encontro de Jesus e também neles brota a fé como água pura.

Irmãs e irmãos, peçamos hoje a Maria, Mãe da Igreja, para podermos servir, com Jesus e como Jesus, a humanidade sedenta de verdade e justiça. Não é tempo de confrontos entre um templo e outro, entre o “nós” e os “outros”: os adoradores que Deus procura são homens e mulheres de paz, que O adoram em Espírito e verdade.

Texto do Papa Leão XIV, Angelus, Praça de São Pedro, 8 de março de 2026

O Redentor transfigura as chagas da história

O Evangelho da liturgia de hoje compõe para todos nós uma imagem cheia de luz, narrando a Transfiguração do Senhor (Mt 17, 1-9). Para a representar, o evangelista mergulha o seu pincel na memória dos Apóstolos, pintando Cristo entre Moisés e Elias. O Verbo feito homem está entre a Lei e a Profecia: ele é a Sabedoria viva, que leva a cumprimento toda a palavra divina. Tudo o que Deus ordenou e inspirou aos homens encontra em Jesus a sua manifestação plena e definitiva.

Como no dia do batismo no Jordão, também hoje ouvimos a voz do Pai, que proclama no monte: «Este é o meu Filho muito amado», enquanto o Espírito Santo envolve Jesus numa «nuvem luminosa». Com esta expressão, verdadeiramente singular, o Evangelho descreve o estilo da revelação de Deus. Quando se manifesta, o Senhor revela a sua excelência aos nossos olhos: diante de Jesus, cujo rosto resplandece «como o sol» e cujas vestes se tornam «brancas como a luz», os discípulos admiram o esplendor humano de Deus. Pedro, Tiago e João contemplam uma glória humilde, que não se exibe como um espetáculo para as multidões, mas como uma solene confidência.

A Transfiguração antecipa a luz da Páscoa, evento de morte e de ressurreição, de trevas e de nova luz que Cristo irradia sobre todos os corpos flagelados pela violência, sobre os corpos crucificados pela dor, sobre os corpos abandonados na miséria. Com efeito, enquanto o mal reduz a nossa carne a uma mercadoria de troca ou a uma massa anónima, precisamente esta mesma carne resplandece da glória de Deus. O Redentor transfigura assim as chagas da história, iluminando a nossa mente e o nosso coração: a sua revelação é uma surpresa de salvação! Deixamo-nos fascinar por ela? O verdadeiro rosto de Deus encontra em nós um olhar de admiração e amor?

Ao desespero do ateísmo, o Pai responde com o dom do Filho Salvador; o Espírito Santo resgata-nos da solidão agnóstica, oferecendo uma comunhão eterna de vida e graça; diante da nossa fé fraca, está o anúncio da ressurreição futura: eis o que os discípulos viram no esplendor de Cristo, mas para compreendê-lo é preciso tempo. Tempo de silêncio para ouvir a Palavra, tempo de conversão para apreciar a companhia do Senhor.

Enquanto experimentamos tudo isto durante a Quaresma, peçamos a Maria, Mestra de oração e Estrela da manhã, que guarde os nossos passos na fé.

Texto do Papa Leão XIV, Angelus, Praça de São Pedro, 1 de março de 2026

Silenciemos um pouco os smartphones

Hoje, primeiro domingo da Quaresma, o Evangelho fala-nos de Jesus que, conduzido pelo Espírito, vai para o deserto e é tentado pelo diabo (Mt 4, 1-11). Depois de jejuar durante quarenta dias, sente o peso da sua humanidade: a fome, sob o plano físico, e as tentações do diabo, sob o plano espiritual. Ele experimenta o mesmo cansaço que todos nós vivenciamos no nosso caminho e, resistindo ao demónio, mostra-nos como vencer os seus enganos e insídias.

Com esta Palavra de vida, a liturgia convida-nos a olhar para a Quaresma como um itinerário luminoso no qual, com a oração, o jejum e a esmola, podemos renovar a nossa cooperação com o Senhor ao realizar da obra-prima única da nossa vida. Trata-se de permitir que Ele remova as manchas e cure as feridas que o pecado pode ter causado nela, e de nos comprometermos em fazê-la florescer em toda a sua beleza até à plenitude do amor, fonte exclusiva da verdadeira felicidade. Trata-se, sem dúvida, de um percurso exigente, e o risco é desanimar ou deixarmo-nos seduzir por formas de gratificação menos árduas, como a riqueza, a fama e o poder. Estas, que também foram as tentações que Jesus enfrentou, são, no entanto, apenas míseros substitutos da alegria para a qual fomos criados e, no final, deixam-nos inevitável e eternamente insatisfeitos, inquietos e vazios. 

Por isso, São Paulo VI ensinava que a penitência, longe de empobrecer, enriquece a nossa humanidade, purificando-a e fortalecendo-a no seu movimento em direção a um horizonte que tem «como finalidade o amor e o abandono no Senhor». Assim, a penitência, ao mesmo tempo que nos torna conscientes das nossas limitações, dá-nos a força para as superar e, com a ajuda de Deus, viver uma comunhão cada vez mais intensa com Ele e entre nós. Neste tempo de graça, pratiquemo-la generosamente, a par da oração e das obras de misericórdia.

Dêmos espaço ao silêncio: silenciemos um pouco as televisões, os rádios, os smartphones. Meditemos a Palavra de Deus, aproximemo-nos dos Sacramentos; escutemos a voz do Espírito Santo, que nos fala ao coração, e escutemo-nos uns aos outros, nas famílias, nos locais de trabalho, nas comunidades. Dediquemos tempo a quem vive sozinho, especialmente aos idosos, aos pobres e aos doentes. Renunciemos ao supérfluo e partilhemos o que pouparmos com quem carece do necessário. Então, como diz Santo Agostinho, «a nossa oração, feita com humildade e caridade, com jejum e esmola, com temperança e perdão, distribuindo coisas boas e não retribuindo na mesma moeda as más, afastando-nos do mal e fazendo o bem» (Sermão 206, 3), alcançará o Céu e nos dará paz. Confiemos o nosso caminho quaresmal à Virgem Maria, Mãe que sempre assiste os seus filhos nas provações.

Texto do Papa Leão XIV, Angelus, Praça de São Pedro, 22 de fevereiro de 2026

Como é raro encontrar adultos que se arrependem


No início de cada tempo litúrgico, redescobrimos com alegria sempre renovada a graça de ser Igreja, comunidade convocada para escutar a Palavra de Deus. O profeta Joel chegou até nós com a sua voz que tira cada um do seu isolamento e faz da conversão uma urgência, concomitantemente, pessoal e pública: «Reuni o povo, purificai a assembleia, juntai os anciãos, congregai os pequeninos e os meninos de peito». (Jl 2, 16) […]

Também hoje, a Quaresma é um forte tempo de comunidade. […] Sabemos como é cada vez mais difícil reunir as pessoas e sentir-se povo, não de forma nacionalista e agressiva, mas na comunhão em que cada um encontra o seu lugar. Aqui ganha forma um povo que reconhece os próprios pecados, ou seja, reconhece que o mal não vem de presumíveis inimigos, mas que tocou os corações, que está dentro da própria vida e que deve ser enfrentado com um corajoso assumir de responsabilidades. […]

É claro que o pecado é pessoal, mas ele ganha forma nos ambientes reais e virtuais que frequentamos, nas atitudes com que nos condicionamos mutuamente, muitas vezes dentro de autênticas “estruturas de pecado” de ordem económica, cultural, política e até religiosa. Opor o Deus vivo à idolatria – ensina-nos a Escritura – significa ousar a liberdade e reencontrá-la através de um êxodo, de um caminho. Já não paralisados, rígidos, seguros nas nossas posições, mas congregados para nos movimentarmos e mudarmos. Como é raro encontrar adultos que se arrependem, pessoas, empresas e instituições que admitem ter errado!

Hoje, entre nós, está em causa essa mesma possibilidade. […] «É este o tempo favorável, é este o dia da salvação!» (2 Cor 6,2). […] A Quaresma, de facto, impele-nos para estas mudanças de rumo — conversões — que tornam o nosso anúncio mais credível.

Há sessenta anos, poucas semanas após a conclusão do Concílio Vaticano II, São Paulo VI desejou celebrar publicamente o Rito das Cinzas. […] Essa “pedagogia penitencial” – dizia Paulo VI – «surpreende o homem moderno sob dois aspectos»: o primeiro é «o da sua imensa capacidade de ilusão, de autossugestão, de engano sistemático de si mesmo sobre a realidade da vida e dos seus valores». O segundo aspecto é «o pessimismo fundamental» que o Papa Montini constatava em toda a parte: «A maior parte da documentação humana que nos é oferecida hoje pela filosofia, pela literatura, pelo espetáculo – dizia ele – acaba por proclamar a inevitável vaidade de todas as coisas, a imensa tristeza da vida, a metafísica do absurdo e do nada. Esta documentação é uma apologia das cinzas».

Hoje podemos reconhecer a profecia contida nestas palavras e sentir nas cinzas que nos são impostas, o peso de um mundo em chamas, de cidades inteiras destruídas pela guerra: as cinzas do direito internacional e da justiça entre os povos, as cinzas de ecossistemas inteiros e da concórdia entre as pessoas, as cinzas do pensamento crítico e da sabedoria ancestral local, as cinzas daquele sentido do sagrado que habita em cada criatura.

“Onde está o Deus deles?”, perguntam as pessoas. Sim, caríssimos, a história no-lo pergunta, mas ainda antes, a nossa consciência. […]. Reconhecer os nossos pecados para nos convertermos é já um presságio e um testemunho da ressurreição: significa, efetivamente,não permanecer nas cinzas, mas levantarmo-nos e reconstruir.  […]

A Quaresma […] ensina-nos a ver antes o que nasce, o que cresce, impelindo-nos a servi-lo. É a profunda sintonia que, no segredo de quem jejua, reza e ama, se estabelece com o Deus da vida, Pai nosso e de todos. A Ele redirecionemos, com sobriedade e alegria, todo o nosso ser, todo o nosso coração.

Resumo da Homilia do Papa Leão XIV, Basílica de Santa Sabina, 18 de fevereiro de 2026, Quarta-feira de Cinzas

Não basta não matar fisicamente uma pessoa


Hoje ouvimos no Evangelho uma parte do “sermão da montanha” (Mt 5, 17-37). Depois de proclamar as Bem-aventuranças, Jesus convida-nos a entrar na novidade do Reino de Deus e, para nos guiar neste caminho, revela o verdadeiro significado dos preceitos da Lei de Moisés: eles não servem para satisfazer uma necessidade religiosa exterior a fim de nos sentirmos bem diante de Deus, mas para nos fazer entrar na relação de amor com Deus e com os irmãos. Por isso, Jesus diz que não veio para abolir a Lei, «mas para levá-la à perfeição».

O cumprimento da Lei é precisamente o amor, que realiza o seu significado profundo e o seu fim último. Trata-se de adquirir uma “justiça superior” à dos escribas e fariseus, uma justiça que não se limita a observar os mandamentos, mas nos abre ao amor e nos compromete com ele. Na verdade, Jesus examina precisamente alguns preceitos da Lei que se referem a casos concretos da vida e utiliza uma fórmula linguística – as antinomias – precisamente para mostrar a diferença entre uma justiça religiosa formal e a justiça do Reino de Deus: por um lado: «Ouvistes o que foi dito aos antigos», e, por outro lado, Jesus que afirma: «Eu, porém, digo-vos».

Esta abordagem é muito importante. Ela diz-nos que a Lei foi dada a Moisés e aos profetas como um caminho para começarmos a conhecer Deus e o seu projeto sobre nós e sobre a história ou, para usar uma expressão de São Paulo, como um pedagogo que nos guiou até Ele (cf. Gal 3, 23-25). Mas agora Ele mesmo, na pessoa de Jesus, veio entre nós, que cumpriu a Lei, tornando-nos filhos do Pai e dando-nos a graça de entrar em relação com Ele como filhos e como irmãos entre nós.

Irmãos e irmãs, Jesus ensina-nos que a verdadeira justiça é o amor e que, em cada preceito da Lei, devemos perceber uma exigência de amor. Com efeito, não basta não matar fisicamente uma pessoa, se depois a matamos com palavras ou não respeitamos a sua dignidade. Da mesma forma, não basta ser formalmente fiel ao cônjuge e não cometer adultério, se nesta relação faltam a ternura recíproca, a escuta, o respeito, o cuidado mútuo e o caminhar juntos num projeto comum. A estes exemplos, que o próprio Jesus nos oferece, poderíamos acrescentar outros ainda. O Evangelho oferece-nos este precioso ensinamento: não basta uma justiça mínima, é preciso um amor grande, que é possível graças à força de Deus.

Invoquemos juntos a Virgem Maria, que deu ao mundo o Cristo, Aquele que leva à perfeição a Lei e o projeto da salvação: que Ela interceda por nós, nos ajude a entrar na lógica do Reino de Deus e a viver a sua justiça.

Texto do Papa Leão XIV, Angelus, Praça de São Pedro, 15 de fevereiro de 2026

Um Deus que nunca nos descartará


Depois de ter proclamado as Bem-aventuranças, Jesus dirige-se àqueles que as vivem, dizendo que, graças a eles, a terra já não é a mesma e o mundo já não está na escuridão. «Vós sois o sal da terra. […] Vós sois a luz do mundo» (Mt 5, 13-14). Na verdade, é a verdadeira alegria que dá sabor à vida e traz à luz o que antes não existia. Esta alegria irradia de um estilo de vida, de um modo de habitar a terra e de viver juntos que deve ser desejado e escolhido. É a vida que resplandece em Jesus, o novo sabor dos seus gestos e das suas palavras. Depois de O termos encontrado, parece insípido e opaco tudo o que se afasta da sua pobreza de espírito, da sua mansidão e simplicidade de coração, da sua fome e sede de justiça, que despertam misericórdia e paz como dinâmicas de transformação e reconciliação.

O profeta Isaías apresenta uma lista de gestos concretos que põem fim à injustiça: partilhar o pão com o faminto, acolher em casa os miseráveis, os sem-abrigo, vestir quem vemos nu, sem esquecer os vizinhos e as pessoas da nossa casa (Is 58, 7). «Então – continua o profeta – a tua luz surgirá como a aurora, e as tuas feridas não tardarão a cicatrizar-se». Por um lado, a luz, aquela que não se pode esconder, porque é grande como o sol que todas as manhãs afugenta as trevas; por outro lado, uma ferida, que antes ardia e agora está a cicatrizar.

É doloroso, com efeito, perder o sabor e renunciar à alegria; no entanto, é possível ter esta ferida no coração. Jesus parece avisar quem o escuta, para que não renuncie à alegria. O sal que perdeu o sabor, diz ele, «não serve para mais nada, senão para ser lançado fora e ser pisado pelos homens» (Mt 5, 13).

Quantas pessoas – e talvez já tenha acontecido também conosco – se sentem descartáveis, imperfeitas. É como se a sua luz tivesse sido escondida. Jesus, porém, anuncia-nos um Deus que nunca nos descartará, um Pai que guarda o nosso nome, a nossa singularidade. Qualquer ferida, mesmo a mais profunda, será curada ao acolhermos a palavra das Bem-aventuranças e ao voltarmos a caminhar pela via do Evangelho.

Realmente, são os gestos de abertura aos outros e de atenção, aqueles que reacendem a alegria. Com certeza que, na sua simplicidade, eles nos colocam em contracorrente. O próprio Jesus, no deserto, foi tentado por outros caminhos: afirmar a sua identidade, exibi-la, ter o mundo a seus pés. No entanto, rejeitou os caminhos em que perderia o seu verdadeiro sabor, o qual encontramos todos os domingos no Pão partido: a vida doada, o amor que não faz barulho.

Irmãos e irmãs, deixemo-nos alimentar e iluminar pela comunhão com Jesus. Sem qualquer tipo de ostentação, seremos como uma cidade no monte, não apenas visível, mas também convidativa e hospitaleira: a cidade de Deus, onde, no fundo, todos desejam habitar e encontrar a paz. A Maria, Porta do Céu, dirijamos agora o nosso olhar e oração, para que nos ajude a tornarmo-nos e a permanecermos discípulos do seu Filho.

Texto do Papa Leão XIV,  Angelus, Praça de São Pedro, 8 de fevereiro de 2026

Cristo é o pobre que partilha a sua vida 


Na liturgia de hoje, é proclamada uma página esplêndida da Boa Nova que Jesus anuncia a toda a humanidade: o Evangelho das Bem-aventuranças (Mt 5, 1-12). Realmente, elas são luzes que o Senhor acende na penumbra da história, revelando o projeto de salvação que o Pai realiza por meio do Filho, com o poder do Espírito Santo.

No monte, Cristo entrega aos discípulos a nova lei, não já aquela escrita em pedras, mas nos corações: é uma lei que renova a nossa vida, tornando-a boa, mesmo quando para o mundo parece fracassada e miserável. Só Deus pode verdadeiramente chamar de bem-aventurados os pobres e os aflitos, porque Ele é o bem supremo que se doa a todos com amor infinito. Só Deus pode saciar aqueles que buscam paz e justiça, porque Ele é o justo juiz do mundo, autor da paz eterna. Só em Deus os mansos, os misericordiosos e os puros de coração encontram alegria, porque Ele é a realização da sua expectativa. Na perseguição, Deus é fonte de redenção; na mentira, é âncora da verdade. Por isso, Jesus proclama: «Exultai e alegrai-vos».

Estas Bem-aventuranças permanecem um paradoxo apenas para aqueles que acreditam que Deus é diferente do modo como Cristo o revela. Quem espera que os prepotentes continuarão sempre senhores da terra, surpreende-se com as palavras do Senhor. Quem se acostuma a pensar que a felicidade pertence aos ricos, pode acreditar que Jesus é um iludido. Mas a ilusão está precisamente na falta de fé em Cristo: Ele é o pobre que com todos partilha a sua vida, o manso que persevera na dor, o construtor da paz perseguido até à morte na cruz.

É assim que Jesus ilumina o sentido da história: não aquela escrita pelos vencedores, mas a que Deus realiza salvando os oprimidos. O Filho olha para o mundo com o realismo do amor do Pai; do outro lado estão, como dizia o Papa Francisco, «os profissionais da ilusão. Não devemos segui-los porque eles são incapazes de nos dar esperança» (link). Deus, ao contrário, doa esta esperança em primeiro lugar a quem o mundo descarta como caso perdido.

Queridos irmãos e irmãs, as Bem-aventuranças tornam-se para nós então uma prova de felicidade, levando-nos a perguntar-nos se a consideramos como uma conquista que se compra ou um dom que se partilha; se a depositamos em objetos que se consomem ou em relações que nos acompanham. Na verdade, é “por causa de Cristo” e graças a Ele que a amargura das provações se transforma na alegria dos redimidos: Jesus não fala de uma consolação distante, mas de uma graça constante que sempre nos sustenta, principalmente na hora da aflição.

As Bem-aventuranças exaltam os humildes e dispersam os soberbos. Por isso, peçamos a intercessão da Virgem Maria, a serva do Senhor, que todas as gerações chamam bem-aventurada.

Texto do Papa Leão XIV,  Angelus, Praça de São Pedro, 1 de fevereiro de 2026

Deus não exclui ninguém


Tendo recebido o batismo, Jesus inicia a sua pregação e chama os primeiros discípulos: Simão – conhecido como Pedro –, André, Tiago e João (Mt 4, 12-22). Ao observar atentamente esta passagem do Evangelho de hoje, podemos fazer duas perguntas: uma sobre o tempo em que Jesus começa a sua missão e outra sobre o lugar que escolhe para pregar e chamar os apóstolos. Perguntemo-nos: quando começa? Onde começa

Em primeiro lugar, o Evangelista conta-nos que Jesus, «tendo ouvido dizer que João fora preso», começou a sua pregação. Esta ocorre, portanto, num momento que não parece ser o melhor: João Batista acabava de ser preso e, por isso, os líderes do povo estão pouco dispostos a acolher a novidade do Messias. Trata-se de um tempo que recomendaria prudência, mas é precisamente nesta situação obscura que Jesus começa a trazer a luz da boa nova: «Está próximo o Reino do Céu».

Também na nossa vida pessoal e eclesial, por vezes devido a resistências interiores ou a circunstâncias que consideramos desfavoráveis, pensamos não ser o momento certo para anunciar o Evangelho, para tomar uma decisão, para fazer uma escolha, para mudar uma situação. Porém, o risco é ficarmos paralisados pela indecisão ou prisioneiros de uma prudência excessiva, quando o Evangelho nos pede o risco da confiança: Deus trabalha em todo o tempo, sendo bom qualquer momento para o Senhor, mesmo se não nos sentimos preparados ou se a situação não parece ser a melhor.

O relato evangélico também nos mostra o lugar onde Jesus começa a sua missão pública: Ele, «abandonando Nazaré, foi habitar em Cafarnaúm». Permanece contudo na Galileia, um território habitado principalmente por pagãos, que, devido ao comércio, é também uma terra de passagem e de encontros; poderíamos dizer que é um território multicultural, atravessado por pessoas com origens e filiações religiosas diferentes. O Evangelho diz-nos, desta forma, que o Messias vem de Israel, mas ultrapassa as fronteiras da sua terra para anunciar o Deus que se aproxima de todos, não exclui ninguém e não veio apenas para os puros, antes pelo contrário, envolve-se nas situações e nas relações humanas. Também nós, cristãos, devemos vencer a tentação de nos fecharmos: o Evangelho deve ser anunciado e vivido em todas as circunstâncias e ambientes, para que seja fermento de fraternidade e paz entre as pessoas, as culturas, as religiões e os povos.

Irmãos e irmãs, tal como os primeiros discípulos, somos convidados a acolher o chamamento do Senhor, na alegria de saber que cada tempo e cada lugar da nossa vida são visitados por Ele e atravessados pelo seu amor. Rezemos à Virgem Maria, para que nos conceda esta confiança interior e nos acompanhe ao longo do caminho.

Texto do Papa Leão XIV,  Angelus, Praça de São Pedro, 25 de janeiro de 2026