Escuta o Papa: 3º Domingo Quaresma (C)

Estamos no coração do caminho quaresmal e hoje o Evangelho apresenta inicialmente Jesus que comenta alguns acontecimentos. Enquanto a memória de dezoito pessoas que morreram quando uma torre desabou ainda estava viva na sua mente, falam-lhe de alguns galileus que Pilatos tinha mandado matar (Lc 13,1-9). E há uma questão que parece acompanhar estes trágicos relatos: quem é o culpado destes terríveis acontecimentos? […] Quando nos sentimos impotentes perante o mal, perguntamo-nos frequentemente: será talvez o castigo de Deus? […] Quando o mal nos oprime, corremos o risco de perder a lucidez e, a fim de encontrar uma resposta fácil para o que não podemos explicar, acabamos por dar a culpa a Deus. […] Quantas vezes atribuímos a Ele as nossas desgraças, as desventuras do mundo Àquele que, ao contrário, nos deixa sempre livres e por isso nunca intervém impondo-se, apenas propondo. […] 

Na realidade, Jesus recusa fortemente a ideia de imputar os nossos males a Deus: as pessoas assassinadas por Pilatos e aquelas que morreram debaixo da torre não eram mais culpadas do que outras e não são vítimas de um Deus impiedoso e vingativo, que não existe! O mal nunca pode vir de Deus porque ele «não nos trata segundo os nossos pecados», mas segundo a sua misericórdia. Esse é o estilo de Deus. […] Mas em vez de dar a culpa a Deus, diz Jesus, devemos olhar dentro de nós próprios: é o pecado que produz a morte; […] são as nossas escolhas erradas e violentas que desencadeiam o mal. Nesta altura, o Senhor oferece a verdadeira solução: […] «Se não vos converterdes», diz, «todos perecereis do mesmo modo». É um convite urgente, especialmente neste tempo de Quaresma. […]

Contudo, Jesus sabe que a conversão não é fácil e quer ajudar-nos nisto. Ele sabe que muitas vezes […] nos desencorajamos […]. E assim, […] encoraja-nos com uma parábola que fala da paciência de Deus. […] Ele oferece-nos a imagem consoladora de uma figueira que não dá frutos no momento estabelecido, mas que não é cortada […] Gosto de pensar que um bom nome para Deus seria “o Deus de outra possibilidade”: Ele dá-nos sempre outra possibilidade, sempre, sempre. Essa é a sua misericórdia. Isto é o que o Senhor faz connosco.[…] Irmãos e irmãs, Deus acredita em nós! Deus confia em nós e acompanha-nos com paciência. […] Deus é Pai e olha para ti como um pai: […] Ele não vê os resultados que ainda não conseguiste, mas os frutos que ainda podes dar; ele não conta os teus fracassos, mas encoraja as tuas possibilidades; […] O estilo de Deus, não nos esqueçamos é a proximidade, Ele está perto, com misericórdia e ternura. 

Por favor, não se esqueçam de rezar por mim.

Resumo do texto lido pelo Papa Francisco no Angelus de 20 de março de 2022

Escuta o Papa: Solenidade S.José (C)

«Hoje […] a liturgia apresenta-nos a figura de São José (cf. Mt 1, 18-24). Ele é um homem justo, prestes a casar. Podemos imaginar o que sonha para o futuro: uma bela família, com uma esposa amorosa e muitos filhos bons, e um emprego digno: sonhos simples e bons, sonhos de pessoas simples e boas. Mas de repente estes sonhos são desiludidos com uma descoberta desconcertante: Maria, a sua noiva, espera um bebé, e aquele filho não é seu! O que deve ter sentido José? Desânimo, dor, perplexidade, talvez até irritação e desilusão… Experimentou que o mundo lhe caía em cima! […]

Irmãos, irmãs, o que nos diz José hoje? Também nós temos os nossos sonhos […]. Talvez lamentemos alguns sonhos quebrados, e vemos que as melhores expetativas são frequentemente confrontadas com situações inesperadas e desconcertantes. E quando isto acontece, José mostra-nos o caminho: não devemos ceder a sentimentos negativos, como a raiva e o fechamento, este é o caminho errado!

Ao contrário, devemos acolher as surpresas, as surpresas da vida, inclusive as crises, com uma atenção: que quando estamos em crise, não devemos escolher apressadamente segundo o instinto, mas deixar-nos peneirar, como fez José, “considerar todas as coisas” e basear-se no critério de fundo: a misericórdia de Deus.

Quando se habita a crise sem ceder ao fechamento, à raiva e ao medo, mas mantendo a porta aberta a Deus, Ele pode intervir. Ele é um especialista em transformar crises em sonhos: sim, Deus abre as crises a novas perspetivas que não imaginávamos antes, talvez não como esperamos, mas como Ele sabe. E estes, irmãos e irmãs, são os horizontes de Deus: surpreendentes, mas infinitamente mais amplos e mais belos do que os nossos!

Que a Virgem Maria nos ajude a vivermos abertos às surpresas de Deus.

E, por favor, não se esqueçam de rezar por mim.»

Resumo do texto lido pelo Papa Francisco no Angelus, 18 de dezembro de 2022

Escuta o Papa: 2º Domingo Quaresma (C)

O Evangelho da Liturgia deste segundo Domingo de Quaresma narra a Transfiguração de Jesus (cf. Lc 9, 28-36). Enquanto Ele reza no alto de um monte, muda de aparência, a sua veste torna-se branca e radiante, e na luz da sua glória aparecem Moisés e Elias, que falam com Ele da Páscoa que o espera em Jerusalém, ou seja, da sua paixão, morte e ressurreição. Testemunhas deste acontecimento extraordinário são os apóstolos Pedro, João e Tiago, que subiram ao monte com Jesus.[…] O evangelista Lucas observa que «Pedro e os seus companheiros tinham-se deixado vencer pelo sono» e que «ao despertar» viram a glória de Jesus. […]

No entanto, se lermos com atenção, vemos que Pedro, João e Tiago adormecem antes do início da Transfiguração, ou seja, precisamente enquanto Jesus rezava.[…] Trata-se evidentemente de uma oração que durou muito tempo, em silêncio e recolhimento. Podemos pensar que no início também eles estavam a rezar, até que o cansaço, o sono, prevaleceu. Irmãos, irmãs, este sono inoportuno não se assemelha a tantos dos nossos sonos que chegam até nós durante tempos que sabemos serem importantes? […] Gostaríamos de estar mais despertos, atentos […] para não perder oportunidades preciosas, mas não conseguimos. […]

O tempo forte da Quaresma é uma oportunidade neste sentido. É um período em que Deus quer acordar-nos da letargia interior, desta sonolência que não permite que o Espírito se expresse. Porque – lembremo-nos bem – manter desperto o coração não depende apenas de nós: é uma graça, e deve ser pedida. Isto é demonstrado pelos três discípulos no Evangelho:  eram bons, seguiram Jesus ao monte, mas com as próprias forças não conseguiam ficar acordados. Isto também acontece a nós. Mas eles acordam precisamente durante a Transfiguração. Podemos pensar que foi a luz de Jesus que os despertou. Como eles, também nós precisamos da luz de Deus, que nos faz ver tudo de forma diversa; atrai-nos, desperta-nos, reacende o desejo e a força de rezar, de olhar para dentro de nós mesmos, e de dedicar tempo aos outros. Podemos superar o cansaço do corpo com a força do Espírito de Deus. […] Peçamos ao Espírito Santo que nos salve desta sonolência que nos impede de rezar.

Neste tempo quaresmal, após o trabalho de cada dia, far-nos-á bem não apagar a luz do nosso quarto sem estarmos na luz de Deus. Rezar um pouco antes de dormir. Demos ao Senhor uma oportunidade de nos surpreender e despertar o coração. […] Que a Virgem Maria nos ajude a manter o coração desperto para acolher este tempo de graça que Deus nos oferece.

Resumo do texto lido pelo Papa Francisco no Angelus de 13  de março de 2022

Escuta o Papa: 1º Domingo Quaresma (C)

O Evangelho da liturgia de hoje, primeiro domingo de Quaresma, leva-nos ao deserto, onde Jesus foi conduzido pelo Espírito Santo, durante quarenta dias, para ser tentado pelo diabo (cf. Lc 4, 1-13). Também Jesus foi tentado pelo diabo, e acompanha-nos, a cada um de nós, nas nossas tentações. […]

Vejamos então as tentações contra as quais ele luta. O diabo dirige-se duas vezes a ele dizendo: «Se és o Filho de Deus…». Por outras palavras, propõe-lhe que explore a sua posição: primeiro para satisfazer as necessidades materiais que sente – a fome –; depois para aumentar o seu poder; por fim para obter um sinal prodigioso de Deus. É como se dissesse: “Se és o Filho de Deus, aproveita da situação”. Quantas vezes nos acontece isto: […] É uma proposta sedutora, mas leva-te à escravidão do coração: torna obcecados pelo desejo de possuir, reduz tudo à posse de coisas, de poder, de fama. Este é o núcleo da tentação: […] olhemos para dentro de nós e descobriremos que as nossas tentações têm sempre este padrão[…] .

Mas Jesus opõe-se às atrações do mal de modo vencedor. Como faz? […] Jesus nunca dialogou com o diabo. […] neste caso, tendo de responder, fá-lo com a Palavra de Deus, nunca com a sua palavra. Irmãos e irmãs, nunca entreis em diálogo com o diabo: ele é mais astuto do que nós. […] Ele chega frequentemente “com olhos doces”, “com um rosto angélico”; sabe até disfarçar-se com motivações sagradas, aparentemente religiosas! Se cedermos às suas lisonjas, acabamos por justificar a nossa falsidade, disfarçando-a de boas intenções. Por exemplo, quantas vezes ouvimos: “Fiz negócios estranhos, mas ajudei os pobres”; “aproveitei-me da minha posição – político, governante, sacerdote, bispo – mas a fim de bem”; “cedi aos meus instintos, mas no final não fiz mal a ninguém” […] . Por favor: com o mal, nenhum compromisso! Com o diabo, não há diálogo! Não devemos dialogar com a tentação, não devemos cair naquele sono de consciência que nos faz dizer: “Mas, no fundo, não é grave, todos fazem assim”! Olhemos para Jesus, que não procura acomodamentos, não faz acordos com o mal. Ele opõe-se ao diabo com a Palavra de Deus, que é mais forte do que o diabo, e assim supera a tentação.

Que este tempo de Quaresma seja também para nós tempo de deserto. Obtenhamos tempos de silêncio e de oração […], colocando-nos perante a Palavra de Deus em oração, para que uma luta benéfica contra o mal que nos escraviza, uma luta pela liberdade, possa ter lugar dentro de nós. Peçamos a Nossa Senhora […] que nos ajude no nosso caminho de conversão.

Resumo do texto lido pelo Papa Francisco no Angelus 6 de março de 2022

Escuta o Papa: Quarta-feira de Cinzas (C)

Neste dia, que dá início ao tempo da Quaresma, o Senhor diz-nos: «Guardai-vos de fazer as vossas obras diante dos homens, para vos tornardes notados por eles; de outro modo, não tereis nenhuma recompensa do vosso Pai que está no Céu» (Mt 6, 1). […] No Evangelho de hoje a palavra que aparece mais vezes é recompensa […]. Mas o Senhor distingue dois tipos de recompensa […]: por um lado, temos a recompensa junto do Pai e, por outro, a recompensa junto dos homens. A primeira é eterna, é a definitiva […]. Ao contrário, a segunda é transitória. […] Por isso nos adverte Jesus: «Guardai-vos…»! É como se dissesse: «Tendes a possibilidade de gozar uma recompensa infinita, uma recompensa sem igual: por isso tende cuidado para não vos deixar deslumbrar pela aparência, perseguindo recompensas insignificantes, que vos morrem na mão».

O rito das cinzas, […] quer subtrair-nos ao encandeamento de preferir a recompensa junto dos homens à recompensa junto do Pai. Este sinal austero, que nos leva a refletir sobre a caducidade da nossa condição humana, é como um remédio de sabor amargo, mas eficaz para curar a doença da aparência. Trata-se duma doença espiritual, que escraviza a pessoa, levando-a a tornar-se dependente da admiração dos outros. […]  O problema é que esta doença da aparência mina também os âmbitos mais sagrados. É sobre isto que Jesus insiste hoje: também a oração, a caridade e o jejum podem tornar-se autorreferenciais. […]  E tudo se pode transformar numa espécie de ficção em relação a Deus, a si mesmo e aos outros. […] 

A Quaresma é […] um caminho de cura. Não para mudar tudo da noite para o dia, mas para viver cada dia com um espírito novo […] A oração humilde, feita «em segredo» , no recanto do próprio quarto, torna-se o segredo para fazer florescer a vida no exterior. […]  A esmola, dada longe dos holofotes, dá paz e esperança ao coração. Revela-nos […]  um segredo precioso: o dar alegra mais o coração do que o receber. Por fim, o jejum. Este não é uma dieta; antes, liberta-nos da autorreferencialidade da busca obsessiva do bem-estar físico, para nos ajudar a ter em forma, não o corpo, mas o espírito. O jejum leva-nos de novo a dar o justo valor às coisas. […] 

Oração, caridade e jejum[…] podem, de facto, mudar a história. […]  São os meios principais que permitem a Deus intervir na vida nossa e do mundo. São as armas do espírito e é com elas que, […], imploramos a Deus aquela paz que os homens sozinhos não conseguem construir.

Vós, Senhor, que vedes no segredo e nos recompensais além de toda a nossa expectativa […]  Colocai de novo a paz nos corações, concedei aos nossos dias a vossa paz.

Resumo do texto lido pelo Papa Francisco na Homilia, 2 de março de 2022

Escuta o Papa: 8º Domingo do T. Comum (C)

No Evangelho da Liturgia de hoje Jesus convida-nos a refletir sobre o nosso olhar e o nosso falar. […] Em primeiro lugar, sobre o nosso olhar. O risco que corremos, diz o Senhor, é concentrar-nos a olhar o argueiro no olho do irmão, sem nos darmos conta da trave no nosso (cf. Lc  6, 41). Em síntese, estar muito atentos aos defeitos dos outros, até aos pequenos como um argueiro, ignorando tranquilamente os nossos, dando-lhes pouca importância. […] Muitas vezes queixamo-nos de coisas que não funcionam na sociedade, na Igreja, no mundo, sem antes nos questionarmos e sem nos comprometermos a mudar primeiro a nós mesmos. […] Mas — explica Jesus — agindo assim, o nosso olhar é cego. E se formos cegos, não podemos pretender ser guias e mestres para os outros: com efeito, “um cego não pode guiar outro cego” .

Estimados irmãos, o Senhor convida-nos a limpar o nosso olhar.  Em primeiro lugar, pede-nos que olhemos para dentro de nós mesmos.[…] Se reconhecermos os nossos erros e as nossas misérias, abrir-se-á para nós a porta da misericórdia. E depois de ter olhado para dentro de nós, Jesus convida-nos a olhar para os outros como Ele faz — eis o segredo:[…]  Ele que não vê primeiro o mal, mas o bem. Deus olha para nós assim: não vê em nós erros irremediáveis, mas sim filhos que cometem erros. Muda a ótica: não se concentra nos erros, mas nos filhos que cometem erros. Deus distingue sempre a pessoa dos seus erros. […]. Sabemos que Deus perdoa sempre. E convida-nos a fazer o mesmo: a não procurar o mal nos outros, mas o bem.

Depois do olhar, Jesus convida-nos a refletir sobre o nosso falar. O Senhor explica que a boca «fala daquilo de que o coração está cheio». […] As palavras que usamos falam da pessoa que somos. Mas às vezes prestamos pouca atenção […], usando-as de maneira superficial. Mas as palavras têm um peso: […] com a língua podemos também alimentar preconceitos […] e agredir: a bisbilhotice fere e a calúnia pode ser mais afiada do que uma faca! Hoje, especialmente no mundo digital, as palavras voam; mas demasiadas delas veiculam raiva e agressividade, alimentam notícias falsas e aproveitam-se dos receios coletivos para propagar ideias distorcidas. […] Então, perguntemo-nos que tipo de palavras usamos: palavras que manifestam […], respeito, compreensão, proximidade, compaixão, ou palavras que visam principalmente fazer-nos mostrar-nos melhores diante dos outros? E depois, falamos com mansidão ou poluímos o mundo propagando veneno: criticando, queixando-nos, alimentando a agressividade generalizada? 

Que Nossa Senhora, […] nos ajude a purificar o nosso olhar e o nosso falar.

Resumo do texto lido pelo Papa Francisco no Angelus de 27 de fevereiro de 2022

Escuta o Papa: 7º Domingo do T. Comum (C)

No Evangelho da Liturgia de hoje, Jesus dá aos discípulos algumas indicações fundamentais para a vida. O Senhor refere-se às situações mais difíceis, aquelas que constituem um teste para nós […]. Nestes casos, o discípulo de Jesus é chamado a não ceder ao instinto e ao ódio […]. Jesus diz: «Amai os vossos inimigos, fazei bem àqueles que vos odeiam» (Lc 6, 27). E ainda mais concretamente: «Ao que te ferir numa face, oferece-lhe também a outra». Quando ouvimos isto, parece-nos que o Senhor pede o impossível. […] Se não se reagir aos prepotentes, qualquer abuso tem livre trânsito, e isso não é correto. Mas será mesmo assim? Será que o Senhor nos pede realmente coisas que são impossíveis, e aliás injustas? […]

Consideremos antes de mais o sentimento de injustiça […]. E pensemos em Jesus. Durante a sua paixão, […] a um certo ponto recebe uma bofetada de um dos guardas. E como se comporta Ele? Não o insulta, não, diz ao guarda: «Se falei mal, prova-o. Mas se falei bem, por que me bates?» (Jo 18, 23). […] Oferecer a outra face não significa […] ceder à injustiça. Com a sua pergunta Jesus denuncia o que é injusto.  Fá-lo sem raiva nem violência, mas com gentileza […] procurando recuperar o irmão culpado. Isto não é fácil, mas Jesus fê-lo e diz-nos para o fazer também nós. […] A mansidão de Jesus é uma resposta mais forte do que a bofetada que recebeu. Oferecer a outra face não é o recuo do perdedor, mas a ação de quem tem mais força interior. Oferecer a outra face é vencer o mal com o bem, abrindo uma brecha no coração do inimigo, desmascarando o absurdo do seu ódio. […]

Passemos à outra objeção: é possível que uma pessoa consiga amar os próprios inimigos? Se dependesse apenas de nós, seria impossível. Mas lembremo-nos… […] o Senhor nunca nos pede algo que não nos dê primeiro. Quando Ele me diz para amar os inimigos, […] dá-nos a capacidade de amar. […] A força de amar, que não é algo, mas é o Espírito Santo. […] E com o Espírito de Jesus podemos responder ao mal com o bem, podemos amar quem nos fere. Assim fazem os cristãos. […] E quanto a nós, procuramos viver as exortações de Jesus? Pensemos numa pessoa que nos feriu. […]Talvez haja um ressentimento dentro de nós. Portanto, coloquemos este ressentimento ao lado da imagem de Jesus, manso, durante o julgamento, após a bofetada. E depois peçamos ao Espírito Santo que aja no nosso coração. Por fim, oremos por aquela pessoa: oremos por aqueles que nos feriram (cf. Lc 6, 28). […]. Rezar por quem nos feriu é o primeiro passo para transformar o mal em bem. 

Resumo do texto lido pelo Papa Francisco no Angelus de 20 de fevereiro de 2022

Escuta o Papa: 6º Domingo do T. Comum (C)

No centro do Evangelho da Liturgia de hoje estão as Bem-aventuranças (cf. Lc 6, 20-23). É interessante notar que Jesus, apesar de estar rodeado por uma grande multidão, proclama-as dirigindo-se «aos seus discípulos» […]. Com efeito, as Bem-aventuranças definem a identidade do discípulo de Jesus. Podem parecer estranhas, quase incompreensíveis para aqueles que não são discípulos, mas se nos perguntarmos como é um discípulo de Jesus, a resposta é precisamente as Bem-aventuranças. Vejamos a primeira, que é a base de todas as outras: «Bem-aventurados vós que sois pobres, porque vosso é o Reino de Deus!». […] Jesus diz que são bem-aventurados porque são pobres. Em que sentido? No sentido em que o discípulo de Jesus não encontra a sua alegria no dinheiro, no poder nem sequer noutros bens materiais, mas nos dons que recebe todos os dias de Deus. […] Também os bens que possui, é feliz de os partilhar, porque vive na lógica de Deus. E qual é a lógica de Deus? A gratuidade.[…] Esta pobreza é também uma atitude em relação ao sentido da vida, porque o discípulo de Jesus não pensa que já sabe tudo.[…]  E esta é a pobreza: a consciência de ter de aprender todos os dias. O discípulo de Jesus […] é uma pessoa humilde, aberta, livre dos preconceitos e da rigidez. […] 

Aqueles que estão demasiado apegados às próprias ideias e certezas, quase nunca seguem realmente Jesus. Eles seguem-no um pouco,  apenas naquilo em que “concordam com Ele” […] mas depois, quanto ao resto, não está bem. Este não é um discípulo. […] Fica triste porque não é exatamente como ele quer a realidade escapa aos seus esquemas mentais e fica insatisfeito. 

Humanamente, somos levados a pensar […]: é feliz quem é rico, […], quem recebe aplausos […]. Mas isto é pensamento mundano, não é o pensamento das Bem-aventuranças! Jesus, pelo contrário, declara o sucesso mundano como um fracasso, porque se baseia num egoísmo que enche e depois deixa o coração vazio. Confrontado com o paradoxo das Bem-aventuranças, o discípulo deixa-se desafiar.[…] Isto requer um caminho. […] O Senhor, ao libertar-nos da escravidão do egocentrismo, liberta os nossos fechamentos […] e abre-nos à verdadeira felicidade, que muitas vezes se encontra onde não pensamos.[…] Podemos então perguntar-nos: […] tenho a disponibilidade do discípulo? Ou comporto-me com a rigidez de alguém […] que sente que já alcançou o que queria?  Será que sinto a alegria de seguir Jesus? Não esqueçamos: a alegria do coração. Esta é a referência para saber se uma pessoa é discípula. […] Que Nossa Senhora, primeira discípula do Senhor, nos ajude a viver como discípulos abertos e alegres.

Resumo do texto lido pelo Papa Francisco no Angelus de 13 de fevereiro de 2022

Escuta o Papa: 5º Domingo do T. Comum (C)

O Evangelho da Liturgia de hoje leva-nos às margens do lago da Galileia. A multidão aglomera-se à volta de Jesus, enquanto alguns pescadores desiludidos, incluindo Simão Pedro, lavavam as suas redes após uma noite de pesca que correu mal. (cf. Lc 5, 1-4). […]

Antes de tudo, Jesus entra na barca de Simão. Para fazer o quê? Para ensinar. Pede precisamente aquela barca, […] que regressara vazia à margem, depois de uma noite de fadiga e desilusão. É uma bela imagem também para nós. […] Muitas vezes, como Pedro, experimentamos a “noite das redes vazias”,[…] a desilusão de nos esforçarmos muito e não vermos os resultados desejados: «Trabalhamos a noite inteira e nada apanhamos», diz Simão.  Quantas vezes também nós ficamos com uma sensação de derrota, enquanto o desapontamento e a amargura surgem no coração. Dois carunchos muito perigosos.

O que faz então o Senhor? Escolhe precisamente entrar na nossa barca. […] O símbolo da nossa incapacidade, torna-se a “cátedra” de Jesus, o púlpito do qual ele proclama a Palavra. O Senhor gosta de fazer isto […]: entrar na barca da nossa vida quando nada temos para lhe oferecer; servir-se da nossa pobreza para proclamar a sua riqueza […]. Lembremo-nos disto: Deus não quer um navio de cruzeiro, uma pobre barca “escangalhada” é suficiente para ele, desde que o acolhamos. […] Mas nós – pergunto-me – deixamos que ele entre na barca da nossa vida? Será que lhe pomos à disposição o pouco que temos? Por vezes sentimo-nos indignos d’Ele, porque somos pecadores. Mas esta é uma desculpa de que o Senhor não gosta, porque O afasta de nós! Ele é o Deus da proximidade, da compaixão, da ternura, e não procura o perfeccionismo:  procura acolhimento. Também a ti diz: “Deixa-me entrar na barca da tua vida”.

[…] Tendo entrado na sua barca, depois de ter pregado, diz-lhe: «Faz-te ao largo». Não era um momento adequado para pescar, em plena luz do dia, mas Pedro confia em Jesus. Ele não se baseia nas estratégias dos pescadores, que conhecia bem, mas na novidade de Jesus. […] É assim também para nós: se acolhermos o Senhor na nossa barca, podemos fazer-nos ao largo. Com Jesus, navegamos no mar da vida sem temor, sem ceder à desilusão quando não pescamos nada, e sem ceder ao “não há mais nada a fazer”. Sempre, tanto na vida pessoal como na vida da Igreja e da sociedade, há algo de belo e corajoso que pode ser feito, sempre.[…] 

Aceitemos então o convite: afastemos o pessimismo e a desconfiança e façamo-nos ao largo com Jesus! Também a nossa pequena barca vazia testemunhará uma pesca milagrosa.

Resumo do texto lido pelo Papa Francisco no Angelus de 6 de fevereiro de 2022

Escuta o Papa: Apresentação do Senhor (C)

Hoje celebramos a Festa da Apresentação do Senhor: quando Jesus, recém-nascido, foi apresentado no templo pela Virgem Maria e por São José. Esta data marca também o Dia da Vida Consagrada […]. O Evangelho (Lc 2, 22-40) diz-nos que, quarenta dias depois do seu nascimento, os pais de Jesus levaram o Menino a Jerusalém para o consagrar a Deus, como prescreve a lei judaica. E enquanto descreve um ritual tradicional, este episódio apresenta à nossa atenção o exemplo de alguns personagens. […] Trata-se de Maria e José, Simeão e Ana, que representam modelos de acolhimento e de entrega da sua vida a Deus. Estes quatro […], eram todos diferentes, m as todos procuravam e deixavam-se guiar pelo Senhor. O evangelista Lucas descreve os quatro numa dupla atitude […].

A primeira atitude é o movimento. Maria e José caminham em direção a Jerusalém; por sua vez, Simeão, movido pelo Espírito, vai ao templo, enquanto Ana serve a Deus dia e noite sem descanso. Deste modo, os quatro protagonistas do trecho evangélico mostram-nos que a vida cristã requer dinamismo e exige vontade de caminhar, deixando-se guiar pelo Espírito Santo. A inação não é adequada ao testemunho cristão e à missão da Igreja. O mundo precisa de cristãos que se deixem interpelar, que não se cansem de andar pelas ruas da vida, para levar a todos a palavra consoladora de Jesus. Todos os batizados receberam a vocação […] para a missão evangelizadora: proclamar Jesus! […] 

A segunda atitude […] é a admiração. Maria e José «estavam admirados com o que se dizia [de Jesus]» . A admiração é também uma reação explícita do velho Simeão, que no Menino Jesus vê com os seus olhos a salvação realizada por Deus a favor do seu povo: aquela salvação que ele esperava há anos. E o mesmo é válido para Ana, que se «pôs a louvar a Deus» e começou a indicar Jesus ao povo. Ela é uma santa faladora. Ela falou de coisas boas, não de coisas más. Dizia,  anunciava: uma santa que foi ao encontro de outra mulher para lhe mostrar Jesus. Estas figuras de crentes estão envoltas na admiração, porque se deixaram capturar e abranger pelos acontecimentos que se verificavam diante dos seus olhos. A capacidade de se admirar com as coisas que nos rodeiam favorece a experiência religiosa e torna fecundo o encontro com o Senhor. Pelo contrário, a incapacidade de se surpreender torna-nos indiferentes e alarga a distância entre o caminho da fé e a vida quotidiana. 

Irmãos e irmãs, sempre em movimento e permanecendo abertos à admiração! 

Resumo do texto lido pelo Papa Francisco no Angelus de 6 de fevereiro de 2022