Escuta o Papa: 14º Domingo T.Comum

No Evangelho da Liturgia deste Domingo lemos que «designou o Senhor ainda setenta e dois outros discípulos e mandou-os, dois a dois, adiante de si, por todas as cidades e lugares para onde ele tinha de ir» (Lc 10, 1). Os discípulos foram enviados dois a dois, não singularmente. Ir em missão dois a dois, de um ponto de vista prático, parece ter mais desvantagens do que vantagens. Há o risco de que os dois não se entendam, que tenham um ritmo diferente, que um fique cansado ou doente pelo caminho, forçando também o outro a parar. Quando, ao contrário, se está sozinho parece que o caminho se torna mais rápido e sem impedimentos. Contudo, Jesus não pensa assim: […] qual é a razão desta escolha do Senhor?

A tarefa dos discípulos é ir pelas aldeias e preparar o povo para receber Jesus; e as instruções que Ele lhes dá não são tanto sobre o que devem dizer, mas sobre como devem ser: isto é, não sobre o “livrete” que devem recitar, não; sobre […] o testemunho a ser dado mais do que sobre as palavras a dizer. De facto, define-os como operários: ou seja, são chamados a operar, a evangelizar através do seu comportamento. E a primeira ação concreta através da qual os discípulos realizam a sua missão é precisamente a de ir dois a dois. Os discípulos não são “batedores livres”, pregadores que não sabem ceder a palavra a outro. É antes de mais a própria vida dos discípulos que proclama o Evangelho: o seu saber estar juntos, o respeitar-se reciprocamente, o não querer demonstrar que se é mais capaz do que o outro, a referência concordante ao único Mestre.

Podem-se elaborar planos pastorais perfeitos, implementar projetos bem elaborados, organizar-se nos mínimos detalhes; podem-se convocar multidões e ter muitos meios; mas se não houver disponibilidade para a fraternidade, a missão evangélica não progride. […] A missão evangelizadora não se baseia no ativismo pessoal, ou seja, no fazer, mas no testemunho do amor fraterno, inclusive através das dificuldades que a convivência implica. Então podemos perguntar-nos: como levar a boa nova do Evangelho aos outros? Fazemo-lo com espírito e estilo fraternal, ou à maneira do mundo, com protagonismo, competitividade e eficiência? Perguntemo-nos se temos capacidade para colaborar, se sabemos como tomar decisões em conjunto, respeitando sinceramente os que nos rodeiam e tendo em conta o seu ponto de vista, se o fazemos em comunidade, não sozinhos. De facto, é sobretudo deste modo que a vida do discípulo permite que a do Mestre resplandeça, anunciando-o verdadeiramente aos outros.

Que a Virgem Maria, Mãe da Igreja, nos ensine a preparar o caminho para o Senhor com o testemunho da fraternidade.

Resumo do texto do Papa Francisco, Angelus, Praça São Pedro, 3 de Julho de 2022

Escuta o Papa: Apóstolos S.Pedro e S.Paulo

Hoje é a grande festa da Igreja de Roma, gerada pelo testemunho dos Apóstolos Pedro e Paulo e fecundada pelo seu sangue e pelo de muitos outros mártires. Também nos nossos dias, em todo o mundo, há cristãos que o Evangelho torna generosos e audazes, também à risco da própria vida. Existe, portanto, um ecumenismo de sangue, uma unidade invisível e profunda entre as Igrejas cristãs, mesmo que não vivam ainda uma comunhão plena e visível entre si. Por isso, nesta solene festa, quero confirmar que o meu serviço episcopal é um serviço à unidade e que a Igreja de Roma está empenhada, pelo sangue dos Santos Pedro e Paulo, em servir com amor a comunhão entre todas as Igrejas.

A pedra, da qual Pedro recebe até mesmo o próprio nome, é Cristo. Uma pedra rejeitada pelos homens e que Deus transformou em pedra angular. Esta praça e as basílicas papais de São Pedro e São Paulo dizem-nos como este paradoxo continua sempre. Encontram-se no limite da antiga cidade, “fora dos muros”, como dizemos ainda hoje. O que hoje nos parece grande e glorioso foi primeiro descartado e expulso porque estava em contradição com a mentalidade mundana. Quem segue Jesus encontra-se a percorrer o caminho das bem-aventuranças, onde a pobreza de espírito, a mansidão, a misericórdia, a fome e sede de justiça, e o trabalho pela paz encontram oposição e até perseguição. No entanto, a glória de Deus brilha nos seus amigos e os vai moldando, ao longo do caminho, de conversão em conversão.

Queridos irmãos e irmãs, nos túmulos dos Apóstolos, destino de peregrinação desde há milhares de anos, descobrimos que também nós podemos viver de conversão em conversão. O Novo Testamento não esconde os erros, as contradições, os pecados daqueles que veneramos como os maiores entre os Apóstolos. Na verdade, a sua grandeza foi moldada pelo perdão. O Ressuscitado foi buscá-los, mais do que uma vez, para os colocar de novo no seu caminho. Jesus nunca chama apenas uma vez. É por isso que todos nós podemos sempre ter esperança, como também nos recorda o Jubileu.

Irmãs e irmãos, a unidade na Igreja e entre as Igrejas alimenta-se do perdão e da confiança mútua. A começar pelas nossas famílias e comunidades. Porque se Jesus confia em nós, também nós podemos confiar uns nos outros, em seu Nome. Que os Apóstolos Pedro e Paulo, junto à Virgem Maria, intercedam por nós, para que neste mundo dilacerado a Igreja seja casa e escola de comunhão.

Resumo do texto do Papa Leão XIV, Angelus, Praça São Pedro, 29 de Junho de 2025

Escuta o Papa: Corpo e Sangue de Cristo

Celebra-se hoje, em muitos países, a Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo, o Corpus Christi, e o Evangelho narra o milagre dos pães e dos peixes (cf. Lc 9, 11-17). Para alimentar milhares de pessoas vindas para o ouvir e pedir curas, Jesus convida os Apóstolos a apresentarem-lhe o pouco que têm, abençoa os pães e os peixes e ordena que os distribuam a todos. O resultado é surpreendente: não só cada um recebe comida em quantidade suficiente, como sobra em abundância. 

O milagre, mais que um prodígio, é um “sinal” e recorda-nos que os dons de Deus, mesmo aqueles pequeninos, quanto mais partilhados são, mais crescem. Porém, ao lermos tudo isto no dia do Corpus Christi, refletimos sobre uma realidade ainda mais profunda. Com efeito, sabemos que na raiz de toda a partilha humana há uma outra maior e anterior a ela: a de Deus para connosco. Ele, o Criador, que nos deu a vida, para nos salvar pediu a uma das suas criaturas para ser sua mãe e dar-lhe um corpo frágil, limitado e mortal, como o nosso, confiando-se a Ela como uma criança. Partilhou assim, até às últimas consequências, a nossa pobreza e, para nos resgatar, escolheu servir-se do muito pouco que lhe podíamos oferecer.

Pensemos como é bom, quando oferecemos um presente – porventura pequeno, proporcional às nossas possibilidades – ver que ele é apreciado por quem o recebe; como ficamos felizes quando sentimos que, apesar da sua simplicidade, aquele presente nos une ainda mais àqueles que amamos. Pois bem, na Eucaristia, entre nós e Deus, acontece exatamente isto: o Senhor acolhe, santifica e abençoa o pão e o vinho que colocamos sobre o Altar, juntamente com a oferta da nossa vida, e transforma-os no Corpo e Sangue de Cristo, Sacrifício de amor para a salvação do mundo. Deus une-se a nós acolhendo com alegria o que levamos e convida a unirmo-nos a Ele, recebendo e partilhando com igual alegria o seu dom de amor. Desta forma – diz Santo Agostinho – como dos «grãos de trigo, unidos entre si, […] se forma um só pão, assim, na concórdia da caridade, se forma um único corpo de Cristo».

Caríssimos, nesta tarde faremos a Procissão Eucarística. […] colocar-nos-emos a caminho, levando o Santíssimo Sacramento pelas ruas da nossa cidade. […] Reunir-nos-emos […] para implorar a Bênção do Senhor sobre as nossas casas, sobre as nossas famílias e sobre toda a humanidade. Que esta Celebração seja um sinal luminoso do nosso compromisso de sermos todos os dias, a partir do Altar e do Sacrário, portadores de comunhão e de paz uns para os outros, na partilha e na caridade.

Resumo do texto do Papa Leão XIV, Angelus, Praça de São Pedro, 22 de junho de 2025

Escuta o Papa: Santíssima Trindade

Hoje, enquanto celebramos a Solenidade da Santíssima Trindade, vivemos os dias do Jubileu do Desporto. O binómio Trindade-desporto não é usado com muita frequência, mas a associação não é descabida. […] Afinal, Deus não é estático, nem está fechado em si mesmo. É comunhão, relação viva entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo, que se abre à humanidade e ao mundo. A teologia denomina essa realidade de pericoresis, ou seja, […] uma dança de amor recíproco. A vida brota deste dinamismo divino. […] Eis a razão pela qual o desporto pode ajudar-nos a encontrar o Deus Trino: porque exige um movimento do eu para o outro. […] Gostaríamos de destacar três aspectos em particular que tornam o desporto, hoje, um meio precioso de formação humana e cristã.

Em primeiro lugar, numa sociedade marcada pela solidão, em que o individualismo exagerado deslocou o centro de gravidade do “nós” para o “eu”, […] o desporto […] ensina o valor da colaboração, do caminhar juntos, daquela partilha que […] está no coração mesmo da vida de Deus. 

Em segundo lugar, numa sociedade cada vez mais digital, […] o desporto valoriza a concretude do estar juntos, o sentido do corpo, do espaço, do esforço, do tempo real. Assim, contra a tentação de fugir para mundos virtuais, o desporto ajuda a manter um contato saudável com a natureza e com a vida concreta, único lugar onde é possível exercer o amor.

Em terceiro lugar, numa sociedade competitiva, onde parece que apenas os fortes e os vencedores merecem viver, o desporto também ensina a perder, colocando o homem frente a frente, na arte da derrota, com uma das verdades mais profundas da sua condição: a fragilidade, o limite, a imperfeição. Isto é importante. […] Os campeões não são máquinas infalíveis, mas homens e mulheres que, mesmo derrotados, encontram a coragem para se reerguer. […] 

A esse respeito, […] São João Paulo II dizia que Jesus é “o verdadeiro atleta de Deus” porque venceu o mundo não com a força, mas com a fidelidade do amor (Homilia). Pensemos no Beato Pier Giorgio Frassati, padroeiro dos desportistas. […] A sua vida, simples e luminosa, recorda-nos que assim como ninguém nasce campeão, ninguém nasce santo. É o treino diário do amor que nos aproxima da vitória definitiva e nos torna capazes de trabalhar pela construção de um mundo novo. […] 

O Papa Francisco adorava sublinhar que, no Evangelho, Maria aparece ativa, em movimento, até mesmo “a correr”, pronta a partir para socorrer os seus filhos – como sabem fazer as mães – ao menor sinal de Deus (JMJ 2023). Peçamos a Ela que acompanhe […] os nossos esforços, orientando-os sempre para o melhor, até à vitória definitiva: a da eternidade, o “campo infinito” onde o jogo não terá fim e a alegria será plena.

Resumo do texto do Papa Leão XIV, Homilia, Basílica de São Pedro, 15 de junho de 2025

Escuta o Papa: Solenidade do Pentecostes

«Este é o dia solene em que, depois de sua Ressurreição e depois da glória de sua Ascensão, Jesus Cristo Nosso Senhor enviou o Espírito Santo». Também hoje renova-se o que aconteceu no Cenáculo: como um vento impetuoso que nos agita, como um estrondo que nos desperta, como um fogo que nos ilumina […]. O Espírito realiza algo extraordinário na vida dos Apóstolos. Após a morte de Jesus, eles se enclausuraram no medo e na tristeza, mas agora […] o Espírito Santo vence o medo, […] alivia as feridas, unge-os de força e lhes dá a coragem de sair ao encontro de todos para anunciar as obras de Deus. O trecho dos Atos dos Apóstolos diz-nos que […] «cada um os ouvia falar na sua própria língua». […] Como afirmou Bento XVI: «O Espírito Santo […] ultrapassa a ruptura que teve início em Babel […] e abre as fronteiras. […]

O Espírito abre as fronteiras principalmente dentro de nós. […] Essa presença do Senhor desfaz a nossa dureza, o nosso fechamento, […] os medos que nos bloqueiam e o narcisismo. […] É triste observar como num mundo onde se multiplicam as oportunidades de socialização, corremos o risco de ser paradoxalmente mais solitários. […] O Espírito de Deus, em vez disso, […] abre-nos ao encontro com nós mesmos […]; conduz-nos ao encontro com o Senhor […]; convence-nos […] que só se permanecermos no amor, é que receberemos também a força para observar a sua Palavra e, assim, sermos transformados por ela. […]

O Espírito, além disso, abre as fronteiras também nas nossas relações. […] Quando o amor de Deus habita em nós, tornamo-nos capazes de abrirmo-nos aos irmãos, […] de superar o medo em relação ao que é diferente […] .O Espírito Santo, […] faz amadurecer em nós os frutos que nos ajudam a viver relações verdadeiras e boas: «amor, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, autodomínio». […] Esse é um critério decisivo também para a Igreja: só somos verdadeiramente a Igreja do Ressuscitado […] se […] soubermos dialogar e acolher-nos mutuamente, integrando as nossas diversidades […].

Por fim, o Espírito abre as fronteiras também entre os povos. […] As diferenças, quando o Sopro divino une os nossos corações […], não se tornam ocasião de divisão e conflito, mas um tesouro comum, […] que nos coloca em caminho, todos juntos, na fraternidade. O Espírito […] “nos ensina tudo” e “nos recorda as palavras de Jesus”; e, por isso, primeiramente ensina, recorda e grava nos nossos corações o mandamento do amor […]. E onde há amor, não há espaço […] para a lógica da exclusão que vemos emergir, infelizmente, também nos nacionalismos políticos. […] O Papa Francisco observou que «hoje, no mundo, há tanta discórdia, tanta divisão! Estamos conectados e, contudo, vivemos desligados uns dos outros, anestesiados pela indiferença e oprimidos pela solidão». […]  Invoquemos o Espírito […] a fim de que abra as fronteiras, derrube os muros, dissolva o ódio e nos ajude a viver como filhos do único Pai que está nos céus. 

Irmãos e irmãs: Pentecostes renova a Igreja e o mundo! […]  Que Maria Santíssima, […] Virgem visitada pelo Espírito, Mãe cheia de graça, nos acompanhe e interceda por nós.

Resumo do texto do Papa Leão XIV, Homilia, Praça de São Pedro, 8 de junho de 2025

Escuta o Papa: 7º Domingo Páscoa

O Evangelho que acaba de ser proclamado mostra-nos Jesus rezando por nós na Última Ceia (cf. Jo 17, 20): o Verbo de Deus, feito homem, já perto do fim da sua vida terrena, pensa em nós, seus irmãos, tornando-se bênção, súplica e louvor ao Pai, com a força do Espírito Santo. E também nós, ao entrarmos na oração de Jesus cheios de admiração e confiança, somos envolvidos pelo seu próprio amor num grande projeto, que diz respeito a toda a humanidade.

Cristo pede, com efeito, que todos sejamos «um só». Trata-se do maior bem que possa ser desejado, porque esta união universal realiza entre as criaturas a comunhão eterna de amor em que se identifica o próprio Deus, como Pai que dá a vida, Filho que a recebe e Espírito que a partilha. O Senhor não quer que nos juntemos numa massa indistinta, como um bloco sem nome, apenas com o fim de estarmos unidos, mas deseja que sejamos um: «como Tu, Pai, estás em mim e Eu em ti; para que assim eles estejam em Nós». A unidade pela qual Jesus reza é, portanto, uma comunhão fundada no mesmo amor com que Deus ama, do qual provêm a vida e a salvação. E, como tal é, primeiramente, um dom que Jesus vem trazer. É, pois, a partir do seu coração de homem que o Filho de Deus se dirige ao Pai dizendo: «Eu neles e Tu em mim, para que eles cheguem à perfeição da unidade e assim o mundo reconheça que Tu me enviaste e que os amaste a eles como a mim». Ouçamos com admiração estas palavras: Jesus está a revelar-nos que Deus nos ama como ama a si mesmo. O Pai não nos ama menos do que ama o seu Filho Único, isto é, infinitamente. Deus não ama menos, porque ama antes, ama por primeiro! O próprio Cristo testemunha isso quando diz que o Pai o amou «antes da criação do mundo». E é exatamente assim: na sua misericórdia, Deus sempre quis atrair todos os homens para si, e é a sua vida, entregue por nós em Cristo, que nos faz um, que nos une uns aos outros.

Ouvir hoje esse Evangelho, durante o Jubileu das Famílias, das Crianças, dos Avós e dos Idosos, enche-nos de alegria.[…] Na família, a fé é transmitida, de geração em geração, juntamente com a vida: é partilhada como o alimento da mesa e os afetos do coração. Isso torna-a um lugar privilegiado para encontrar Jesus, que nos ama e quer sempre o nosso bem. Gostaria de acrescentar uma última coisa. A oração do Filho de Deus, que nos infunde esperança ao longo do caminho, lembra-nos também que um dia seremos todos uno unum (cf. Santo Agostinho, Enarr. In. Ps., 127): uma só coisa no único Salvador, abraçados pelo amor eterno de Deus. Não somente nós, mas também os pais e as mães, as avós e os avôs, os irmãos, as irmãs e os filhos que já nos precederam na luz da Páscoa eterna e que sentimos presentes aqui, junto a nós, neste momento de festa.

Resumo do texto do Papa Leão XIV, Homilia, Praça de São Pedro, 1 de junho de 2025

Escuta o Papa: 6º Domingo Páscoa

Queridos irmãos e irmãs […] ainda estou no início do meu ministério entre vós e quero, primeiramente, agradecer-vos o afeto que me tendes dedicado e, ao mesmo tempo, pedir que me apoieis com a vossa oração e proximidade. Sentimo-nos por vezes inadequados para tudo aquilo a que o Senhor nos chama, tanto no percurso da vida como no caminho da fé. 

Mas o Evangelho deste domingo (Jo 14, 23-29) diz-nos que não devemos olhar para as nossas forças, mas para a misericórdia do Senhor que nos escolheu, certos de que o Espírito Santo nos guia e nos ensina todas as coisas. Aos Apóstolos que estavam perturbados e ansiosos na véspera da morte do Mestre, e se interrogavam como poderiam ser continuadores e testemunhas do Reino de Deus, Jesus anuncia o dom do Espírito Santo, com esta promessa maravilhosa: «Se alguém me tem amor, há-de guardar a minha palavra; e o meu Pai o amará, e Nós viremos a ele e nele faremos morada». Assim, Jesus liberta os discípulos de toda a angústia e preocupação e pode dizer-lhes: «Não se perturbe o vosso coração nem se atemorize». Com efeito, se permanecermos no seu amor Ele vem morar em nós, a nossa vida torna-se templo de Deus e este amor ilumina-nos, abre caminho no nosso modo de pensar e nas nossas escolhas, a ponto de se estender também aos outros e iluminar todas as situações da nossa existência. 

Irmãos e irmãs, este habitar de Deus em nós é precisamente o dom do Espírito Santo, que nos toma pela mão e nos faz experimentar, também na nossa vida quotidiana, a presença e a proximidade de Deus, fazendo de nós a sua morada. Olhando para a nossa vocação, para as realidades e as pessoas que nos foram confiadas, para os compromissos que assumimos, para o nosso serviço na Igreja, é belo que cada um de nós possa dizer com confiança: embora eu seja frágil, o Senhor não se envergonha da minha humanidade, pelo contrário, vem habitar em mim. Acompanha-me com o seu Espírito, ilumina-me e faz de mim um instrumento do seu amor para os outros, a sociedade e o mundo. […] Sobre o fundamento desta promessa, caminhemos na alegria da fé, para sermos templo santo do Senhor. Esforcemo-nos por levar o seu amor a toda a parte, recordando que cada irmã e cada irmão é a morada de Deus, cuja presença se revela sobretudo nos mais pequenos, nos pobres e nos que sofrem, exigindo que sejamos cristãos atentos e compassivos.

Por fim, confiemo-nos todos à intercessão de Maria Santíssima. Por obra do Espírito, Ela tornou-se “morada consagrada a Deus”. Com Ela, também nós podemos experimentar a alegria de acolher o Senhor e de ser sinal e instrumento do seu amor.

Resumo do texto do Papa Leão XIV,  Regina Caeli, Praça de São Pedro, 25 de maio de 2025


Escuta o Papa: Início do Ministério Petrino

Irmãos e irmãs […] nos últimos dias, vivemos tempos particularmente intensos. A morte do Papa Francisco encheu os nossos corações de tristeza […]. No entanto, precisamente no dia de Páscoa, recebemos a sua última bênção e, à luz da ressurreição, enfrentámos este momento na certeza de que o Senhor nunca abandona o seu povo […]. Neste espírito de fé, o Colégio Cardinalício reuniu-se para o Conclave. […] Colocámos nas mãos de Deus o desejo de eleger o novo sucessor de Pedro, […] um pastor capaz de guardar o rico património da fé cristã e, ao mesmo tempo, de […] ir ao encontro das interrogações, das inquietações e dos desafios de hoje. Acompanhados pela vossa oração, sentimos a ação do Espírito Santo, que soube harmonizar os diferentes instrumentos musicais e fez vibrar as cordas do nosso coração numa única melodia. Fui escolhido sem qualquer mérito e, com temor e tremor, venho até vós como um irmão que deseja fazer-se servo da vossa fé e da vossa alegria, percorrendo convosco o caminho do amor de Deus, que nos quer a todos unidos numa única família.

Amor e unidade: estas são as duas dimensões da missão que Jesus confiou a Pedro. […] Como pode Pedro levar adiante essa tarefa? O Evangelho diz-nos que isso só é possível porque ele experimentou na própria vida o amor infinito e incondicional de Deus, mesmo na hora do fracasso e da negação. […] Quando Jesus pergunta a Pedro – «Simão, filho de João, tu amas-me?» – refere-se ao amor do Pai. É como se Jesus lhe dissesse: só se conheceste e experimentaste este amor de Deus, que nunca falha, poderás apascentar as minhas ovelhas; só no amor de Deus Pai poderás amar os teus irmãos com «algo mais», isto é, oferecendo a vida por eles. […] A Pedro, portanto, é confiada a tarefa de «amar mais» e dar a sua vida pelo rebanho. A sua verdadeira autoridade é a caridade de Cristo. […] Não se trata nunca de capturar os outros com a prepotência, […] mas trata-se sempre e apenas de amar como fez Jesus.[…] Pedro deve apascentar o rebanho sem nunca ceder à tentação de ser um líder solitário ou um chefe colocado acima dos outros […]; pelo contrário, é-lhe pedido que sirva a fé dos irmãos, caminhando com eles: todos nós, somos «pedras vivas» […] . Como afirma Santo Agostinho: «A Igreja é constituída por todos aqueles que mantêm a concórdia com os irmãos e que amam o próximo» […] 

Irmãos e irmãs, gostaria que fosse este o nosso primeiro grande desejo: uma Igreja unida, sinal de unidade e comunhão, que se torne fermento para um mundo reconciliado. No nosso tempo, ainda vemos demasiada discórdia, demasiadas feridas causadas pelo ódio, a violência, os preconceitos, o medo do diferente, por um paradigma económico que explora os recursos da Terra e marginaliza os mais pobres. E nós queremos ser, dentro desta massa, um pequeno fermento de unidade, comunhão e fraternidade. Queremos dizer ao mundo, com humildade e alegria: Olhai para Cristo! […] Escutai a sua proposta de amor para vos tornardes a sua única família. No único Cristo somos um. […] Este é o espírito missionário que nos deve animar, sem nos fecharmos no nosso pequeno grupo nem nos sentirmos superiores ao mundo; somos chamados a oferecer a todos o amor de Deus, para que se realize aquela unidade que não anula as diferenças, mas valoriza a história pessoal de cada um e a cultura social e religiosa de cada povo. 

Irmãos, irmãs, esta é a hora do amor! A caridade de Deus, que faz de nós irmãos, é o coração do Evangelho e, com o meu predecessor Leão XIII, podemos hoje perguntar-nos: «Não se veria em breve prazo estabelecer-se a pacificação, se estes ensinamentos pudessem vir a prevalecer nas sociedades?» (Carta enc. Rerum novarum, 14)

Com a luz e a força do Espírito Santo, construamos uma Igreja fundada no amor de Deus e sinal de unidade […]. Juntos, como único povo, todos irmãos, caminhemos ao encontro de Deus e amemo-nos uns aos outros.

Resumo do texto do Papa Leão XIV, Homilia, Praça de São Pedro, 18 de maio de 2025

Escuta o Papa: Virgem do Rosário de Fátima

Nota: Esta edição já estava preparada, antes da eleição do Papa Leão XIV. Apenas publicamos o texto e áudio.

Ouvimos, no Evangelho, Jesus dizer ao discípulo: «Eis a tua Mãe» (Jo 19, 26-27) .[…] Uma «Senhora tão bonita»: comentavam entre si os videntes de Fátima, naquele abençoado dia treze de maio. […] E, à noite, a Jacinta não se conteve e desvendou o segredo à mãe: «Hoje vi Nossa Senhora». Tinham visto a Mãe do Céu. Pela esteira que seguiam os seus olhos, se alongou o olhar de muitos, mas… estes não A viram. A Virgem Mãe não veio aqui, para que A víssemos; para isso teremos a eternidade inteira, naturalmente se formos para o Céu. Mas Ela, antevendo e advertindo-nos para o risco do Inferno onde leva a vida sem-Deus e profanando Deus nas suas criaturas, veio lembrar-nos a Luz de Deus que nos habita e cobre. […]  E, no dizer de Lúcia, os três privilegiados ficavam dentro da Luz de Deus que irradiava de Nossa Senhora. […] No crer e sentir de muitos peregrinos, se não mesmo de todos, Fátima é sobretudo este manto de Luz que nos cobre, aqui como em qualquer outro lugar da Terra quando nos refugiamos sob a proteção da Virgem Mãe para Lhe pedir, como ensina a Salve Rainha, «mostrai-nos Jesus». 

Queridos peregrinos, temos Mãe, temos Mãe! Agarrados a Ela como filhos, vivamos da esperança que assenta em Jesus, pois, […] «aqueles que recebem com abundância a graça e o dom da justiça reinarão na vida por meio de um só, Jesus Cristo» (Rm 5, 17). Quando Jesus subiu ao Céu, levou para junto do Pai celeste a humanidade […] e nunca mais a largará. […] Fundemos a nossa esperança nessa humanidade colocada nos Céus à direita do Pai. […] 

Rezamos a Deus com a esperança de que nos escutem os homens; e dirigimo-nos aos homens com a certeza de que nos vale Deus. Pois Ele criou-nos como uma esperança para os outros, uma esperança real e realizável segundo o estado de vida de cada um.  Ao «pedir» e «exigir» o cumprimento dos nossos deveres de estado (carta da Irmã Lúcia), o Céu desencadeia aqui uma verdadeira mobilização geral contra esta indiferença que nos gela o coração e agrava a miopia do olhar. Não queiramos ser uma esperança abortada! A vida só pode sobreviver graças à generosidade de outra vida. «Se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, dá muito fruto»: disse e fez o Senhor, que sempre nos precede. Quando passamos através de alguma cruz, Ele já passou antes. […]. 

Sob a proteção de Maria, sejamos, no mundo, sentinelas da madrugada que sabem contemplar o verdadeiro rosto de Jesus Salvador, aquele que brilha na Páscoa, e descobrir novamente o rosto jovem e belo da Igreja, que brilha quando é missionária, acolhedora, livre, fiel, pobre de meios e rica no amor.

Resumo do texto do texto do Papa Francisco, Homilia, Santuário de Fátima, 13 de maio de 2017

Escuta o Papa: 4º Domingo Páscoa (C)

Nota: Esta foi uma edição de transição entre os dois Papas. O texto é do Papa Francisco, assim como a gravação, uma vez que já estavam preparados antes da eleição do novo Papa. O vídeo foi adicionado à posteriori, aquando o primeiro Regina Caeli do Papa Leão XIV.

O Evangelho da Liturgia de hoje fala-nos do vínculo entre o Senhor e cada um de nós (Jo 10, 27-30). […] Jesus utiliza uma imagem terna, […] a do pastor que está com as ovelhas. E explica-a com três verbos: «As minhas ovelhas – diz Jesus – ouvem a minha voz, eu conheço-as, e elas seguem-me» . Três verbos: ouvir, conhecer, seguir. […]

Em primeiro lugar, as ovelhas ouvem a voz do pastor. A iniciativa vem sempre do Senhor : […] é Ele que nos chama à comunhão com Ele. Mas esta comunhão acontece se nos abrirmos à escuta; […] Escutar significa disponibilidade, significa docilidade, significa tempo dedicado ao diálogo. […] Hoje somos esmagados por palavras, pela pressa de ter sempre de dizer alguma coisa, temos medo do silêncio. […] Mas para o Senhor, antes de mais, é preciso ouvir. Ele é a Palavra do Pai e o cristão é […] chamado a viver com a Palavra de Deus […]. Perguntemo-nos hoje se somos filhos da escuta, se encontramos tempo para a Palavra de Deus, se damos espaço e atenção aos irmãos e irmãs. Saber ouvir a outra pessoa expressar-se até ao fim, sem interromper o seu discurso. Quem ouve os outros também sabe ouvir o Senhor. […] E experimenta algo muito bom, isto é, que o próprio Senhor nos ouve […] quando rezamos, quando nos confidenciamos com Ele […].

Ouvir Jesus torna-se assim a forma de descobrir que Ele nos conhece. Eis o segundo verbo, que diz respeito ao bom pastor: Ele conhece as suas ovelhas. […] Conhecer no sentido bíblico significa também amar. Significa que o Senhor, enquanto “nos lê dentro”, nos ama, não nos condena. Se o ouvirmos, descobrimos que o Senhor nos ama. […] Jesus procura uma amizade calorosa, uma confidência, uma intimidade. Ele quer doar-nos um novo e maravilhoso conhecimento:  saber que somos sempre amados por Ele e, por conseguinte, nunca deixados sozinhos. […] Sobretudo nos sofrimentos, nas dificuldades, nas crises que são trevas: Ele sustenta-nos, vivendo-as connosco. […] Então perguntemo-nos: deixo-me conhecer pelo Senhor? Dou-lhe espaço na minha vida, confidencio-lhe o que vivo? […] 

Por fim […] as ovelhas que ouvem e se descobrem conhecidas […] seguem o Senhor, que é o seu pastor. E quem segue Cristo, o que faz? Vai para onde Ele vai, […] na mesma direção. Vai em busca de quem se perdeu, interessa-se por aqueles que estão longe, preocupa-se com a situação de quantos sofrem, sabe chorar com aqueles que choram, estende a mão ao próximo, […] E eu? Deixo-me amar por Jesus? […] 

Que a Santíssima Virgem nos ajude a ouvir Cristo, a conhecê-lo cada vez mais e a segui-lo no caminho do serviço.

Resumo do texto do texto do Papa Francisco,  Regina Caeli, Praça São Pedro, 8 de maio de 2022