Escuta o Papa: 8º Domingo do T. Comum (C)

No Evangelho da Liturgia de hoje Jesus convida-nos a refletir sobre o nosso olhar e o nosso falar. […] Em primeiro lugar, sobre o nosso olhar. O risco que corremos, diz o Senhor, é concentrar-nos a olhar o argueiro no olho do irmão, sem nos darmos conta da trave no nosso (cf. Lc  6, 41). Em síntese, estar muito atentos aos defeitos dos outros, até aos pequenos como um argueiro, ignorando tranquilamente os nossos, dando-lhes pouca importância. […] Muitas vezes queixamo-nos de coisas que não funcionam na sociedade, na Igreja, no mundo, sem antes nos questionarmos e sem nos comprometermos a mudar primeiro a nós mesmos. […] Mas — explica Jesus — agindo assim, o nosso olhar é cego. E se formos cegos, não podemos pretender ser guias e mestres para os outros: com efeito, “um cego não pode guiar outro cego” .

Estimados irmãos, o Senhor convida-nos a limpar o nosso olhar.  Em primeiro lugar, pede-nos que olhemos para dentro de nós mesmos.[…] Se reconhecermos os nossos erros e as nossas misérias, abrir-se-á para nós a porta da misericórdia. E depois de ter olhado para dentro de nós, Jesus convida-nos a olhar para os outros como Ele faz — eis o segredo:[…]  Ele que não vê primeiro o mal, mas o bem. Deus olha para nós assim: não vê em nós erros irremediáveis, mas sim filhos que cometem erros. Muda a ótica: não se concentra nos erros, mas nos filhos que cometem erros. Deus distingue sempre a pessoa dos seus erros. […]. Sabemos que Deus perdoa sempre. E convida-nos a fazer o mesmo: a não procurar o mal nos outros, mas o bem.

Depois do olhar, Jesus convida-nos a refletir sobre o nosso falar. O Senhor explica que a boca «fala daquilo de que o coração está cheio». […] As palavras que usamos falam da pessoa que somos. Mas às vezes prestamos pouca atenção […], usando-as de maneira superficial. Mas as palavras têm um peso: […] com a língua podemos também alimentar preconceitos […] e agredir: a bisbilhotice fere e a calúnia pode ser mais afiada do que uma faca! Hoje, especialmente no mundo digital, as palavras voam; mas demasiadas delas veiculam raiva e agressividade, alimentam notícias falsas e aproveitam-se dos receios coletivos para propagar ideias distorcidas. […] Então, perguntemo-nos que tipo de palavras usamos: palavras que manifestam […], respeito, compreensão, proximidade, compaixão, ou palavras que visam principalmente fazer-nos mostrar-nos melhores diante dos outros? E depois, falamos com mansidão ou poluímos o mundo propagando veneno: criticando, queixando-nos, alimentando a agressividade generalizada? 

Que Nossa Senhora, […] nos ajude a purificar o nosso olhar e o nosso falar.

Resumo do texto lido pelo Papa Francisco no Angelus de 27 de fevereiro de 2022

Escuta o Papa: 7º Domingo do T. Comum (C)

No Evangelho da Liturgia de hoje, Jesus dá aos discípulos algumas indicações fundamentais para a vida. O Senhor refere-se às situações mais difíceis, aquelas que constituem um teste para nós […]. Nestes casos, o discípulo de Jesus é chamado a não ceder ao instinto e ao ódio […]. Jesus diz: «Amai os vossos inimigos, fazei bem àqueles que vos odeiam» (Lc 6, 27). E ainda mais concretamente: «Ao que te ferir numa face, oferece-lhe também a outra». Quando ouvimos isto, parece-nos que o Senhor pede o impossível. […] Se não se reagir aos prepotentes, qualquer abuso tem livre trânsito, e isso não é correto. Mas será mesmo assim? Será que o Senhor nos pede realmente coisas que são impossíveis, e aliás injustas? […]

Consideremos antes de mais o sentimento de injustiça […]. E pensemos em Jesus. Durante a sua paixão, […] a um certo ponto recebe uma bofetada de um dos guardas. E como se comporta Ele? Não o insulta, não, diz ao guarda: «Se falei mal, prova-o. Mas se falei bem, por que me bates?» (Jo 18, 23). […] Oferecer a outra face não significa […] ceder à injustiça. Com a sua pergunta Jesus denuncia o que é injusto.  Fá-lo sem raiva nem violência, mas com gentileza […] procurando recuperar o irmão culpado. Isto não é fácil, mas Jesus fê-lo e diz-nos para o fazer também nós. […] A mansidão de Jesus é uma resposta mais forte do que a bofetada que recebeu. Oferecer a outra face não é o recuo do perdedor, mas a ação de quem tem mais força interior. Oferecer a outra face é vencer o mal com o bem, abrindo uma brecha no coração do inimigo, desmascarando o absurdo do seu ódio. […]

Passemos à outra objeção: é possível que uma pessoa consiga amar os próprios inimigos? Se dependesse apenas de nós, seria impossível. Mas lembremo-nos… […] o Senhor nunca nos pede algo que não nos dê primeiro. Quando Ele me diz para amar os inimigos, […] dá-nos a capacidade de amar. […] A força de amar, que não é algo, mas é o Espírito Santo. […] E com o Espírito de Jesus podemos responder ao mal com o bem, podemos amar quem nos fere. Assim fazem os cristãos. […] E quanto a nós, procuramos viver as exortações de Jesus? Pensemos numa pessoa que nos feriu. […]Talvez haja um ressentimento dentro de nós. Portanto, coloquemos este ressentimento ao lado da imagem de Jesus, manso, durante o julgamento, após a bofetada. E depois peçamos ao Espírito Santo que aja no nosso coração. Por fim, oremos por aquela pessoa: oremos por aqueles que nos feriram (cf. Lc 6, 28). […]. Rezar por quem nos feriu é o primeiro passo para transformar o mal em bem. 

Resumo do texto lido pelo Papa Francisco no Angelus de 20 de fevereiro de 2022

Escuta o Papa: 6º Domingo do T. Comum (C)

No centro do Evangelho da Liturgia de hoje estão as Bem-aventuranças (cf. Lc 6, 20-23). É interessante notar que Jesus, apesar de estar rodeado por uma grande multidão, proclama-as dirigindo-se «aos seus discípulos» […]. Com efeito, as Bem-aventuranças definem a identidade do discípulo de Jesus. Podem parecer estranhas, quase incompreensíveis para aqueles que não são discípulos, mas se nos perguntarmos como é um discípulo de Jesus, a resposta é precisamente as Bem-aventuranças. Vejamos a primeira, que é a base de todas as outras: «Bem-aventurados vós que sois pobres, porque vosso é o Reino de Deus!». […] Jesus diz que são bem-aventurados porque são pobres. Em que sentido? No sentido em que o discípulo de Jesus não encontra a sua alegria no dinheiro, no poder nem sequer noutros bens materiais, mas nos dons que recebe todos os dias de Deus. […] Também os bens que possui, é feliz de os partilhar, porque vive na lógica de Deus. E qual é a lógica de Deus? A gratuidade.[…] Esta pobreza é também uma atitude em relação ao sentido da vida, porque o discípulo de Jesus não pensa que já sabe tudo.[…]  E esta é a pobreza: a consciência de ter de aprender todos os dias. O discípulo de Jesus […] é uma pessoa humilde, aberta, livre dos preconceitos e da rigidez. […] 

Aqueles que estão demasiado apegados às próprias ideias e certezas, quase nunca seguem realmente Jesus. Eles seguem-no um pouco,  apenas naquilo em que “concordam com Ele” […] mas depois, quanto ao resto, não está bem. Este não é um discípulo. […] Fica triste porque não é exatamente como ele quer a realidade escapa aos seus esquemas mentais e fica insatisfeito. 

Humanamente, somos levados a pensar […]: é feliz quem é rico, […], quem recebe aplausos […]. Mas isto é pensamento mundano, não é o pensamento das Bem-aventuranças! Jesus, pelo contrário, declara o sucesso mundano como um fracasso, porque se baseia num egoísmo que enche e depois deixa o coração vazio. Confrontado com o paradoxo das Bem-aventuranças, o discípulo deixa-se desafiar.[…] Isto requer um caminho. […] O Senhor, ao libertar-nos da escravidão do egocentrismo, liberta os nossos fechamentos […] e abre-nos à verdadeira felicidade, que muitas vezes se encontra onde não pensamos.[…] Podemos então perguntar-nos: […] tenho a disponibilidade do discípulo? Ou comporto-me com a rigidez de alguém […] que sente que já alcançou o que queria?  Será que sinto a alegria de seguir Jesus? Não esqueçamos: a alegria do coração. Esta é a referência para saber se uma pessoa é discípula. […] Que Nossa Senhora, primeira discípula do Senhor, nos ajude a viver como discípulos abertos e alegres.

Resumo do texto lido pelo Papa Francisco no Angelus de 13 de fevereiro de 2022

Escuta o Papa: 5º Domingo do T. Comum (C)

O Evangelho da Liturgia de hoje leva-nos às margens do lago da Galileia. A multidão aglomera-se à volta de Jesus, enquanto alguns pescadores desiludidos, incluindo Simão Pedro, lavavam as suas redes após uma noite de pesca que correu mal. (cf. Lc 5, 1-4). […]

Antes de tudo, Jesus entra na barca de Simão. Para fazer o quê? Para ensinar. Pede precisamente aquela barca, […] que regressara vazia à margem, depois de uma noite de fadiga e desilusão. É uma bela imagem também para nós. […] Muitas vezes, como Pedro, experimentamos a “noite das redes vazias”,[…] a desilusão de nos esforçarmos muito e não vermos os resultados desejados: «Trabalhamos a noite inteira e nada apanhamos», diz Simão.  Quantas vezes também nós ficamos com uma sensação de derrota, enquanto o desapontamento e a amargura surgem no coração. Dois carunchos muito perigosos.

O que faz então o Senhor? Escolhe precisamente entrar na nossa barca. […] O símbolo da nossa incapacidade, torna-se a “cátedra” de Jesus, o púlpito do qual ele proclama a Palavra. O Senhor gosta de fazer isto […]: entrar na barca da nossa vida quando nada temos para lhe oferecer; servir-se da nossa pobreza para proclamar a sua riqueza […]. Lembremo-nos disto: Deus não quer um navio de cruzeiro, uma pobre barca “escangalhada” é suficiente para ele, desde que o acolhamos. […] Mas nós – pergunto-me – deixamos que ele entre na barca da nossa vida? Será que lhe pomos à disposição o pouco que temos? Por vezes sentimo-nos indignos d’Ele, porque somos pecadores. Mas esta é uma desculpa de que o Senhor não gosta, porque O afasta de nós! Ele é o Deus da proximidade, da compaixão, da ternura, e não procura o perfeccionismo:  procura acolhimento. Também a ti diz: “Deixa-me entrar na barca da tua vida”.

[…] Tendo entrado na sua barca, depois de ter pregado, diz-lhe: «Faz-te ao largo». Não era um momento adequado para pescar, em plena luz do dia, mas Pedro confia em Jesus. Ele não se baseia nas estratégias dos pescadores, que conhecia bem, mas na novidade de Jesus. […] É assim também para nós: se acolhermos o Senhor na nossa barca, podemos fazer-nos ao largo. Com Jesus, navegamos no mar da vida sem temor, sem ceder à desilusão quando não pescamos nada, e sem ceder ao “não há mais nada a fazer”. Sempre, tanto na vida pessoal como na vida da Igreja e da sociedade, há algo de belo e corajoso que pode ser feito, sempre.[…] 

Aceitemos então o convite: afastemos o pessimismo e a desconfiança e façamo-nos ao largo com Jesus! Também a nossa pequena barca vazia testemunhará uma pesca milagrosa.

Resumo do texto lido pelo Papa Francisco no Angelus de 6 de fevereiro de 2022

Escuta o Papa: Apresentação do Senhor (C)

Hoje celebramos a Festa da Apresentação do Senhor: quando Jesus, recém-nascido, foi apresentado no templo pela Virgem Maria e por São José. Esta data marca também o Dia da Vida Consagrada […]. O Evangelho (Lc 2, 22-40) diz-nos que, quarenta dias depois do seu nascimento, os pais de Jesus levaram o Menino a Jerusalém para o consagrar a Deus, como prescreve a lei judaica. E enquanto descreve um ritual tradicional, este episódio apresenta à nossa atenção o exemplo de alguns personagens. […] Trata-se de Maria e José, Simeão e Ana, que representam modelos de acolhimento e de entrega da sua vida a Deus. Estes quatro […], eram todos diferentes, m as todos procuravam e deixavam-se guiar pelo Senhor. O evangelista Lucas descreve os quatro numa dupla atitude […].

A primeira atitude é o movimento. Maria e José caminham em direção a Jerusalém; por sua vez, Simeão, movido pelo Espírito, vai ao templo, enquanto Ana serve a Deus dia e noite sem descanso. Deste modo, os quatro protagonistas do trecho evangélico mostram-nos que a vida cristã requer dinamismo e exige vontade de caminhar, deixando-se guiar pelo Espírito Santo. A inação não é adequada ao testemunho cristão e à missão da Igreja. O mundo precisa de cristãos que se deixem interpelar, que não se cansem de andar pelas ruas da vida, para levar a todos a palavra consoladora de Jesus. Todos os batizados receberam a vocação […] para a missão evangelizadora: proclamar Jesus! […] 

A segunda atitude […] é a admiração. Maria e José «estavam admirados com o que se dizia [de Jesus]» . A admiração é também uma reação explícita do velho Simeão, que no Menino Jesus vê com os seus olhos a salvação realizada por Deus a favor do seu povo: aquela salvação que ele esperava há anos. E o mesmo é válido para Ana, que se «pôs a louvar a Deus» e começou a indicar Jesus ao povo. Ela é uma santa faladora. Ela falou de coisas boas, não de coisas más. Dizia,  anunciava: uma santa que foi ao encontro de outra mulher para lhe mostrar Jesus. Estas figuras de crentes estão envoltas na admiração, porque se deixaram capturar e abranger pelos acontecimentos que se verificavam diante dos seus olhos. A capacidade de se admirar com as coisas que nos rodeiam favorece a experiência religiosa e torna fecundo o encontro com o Senhor. Pelo contrário, a incapacidade de se surpreender torna-nos indiferentes e alarga a distância entre o caminho da fé e a vida quotidiana. 

Irmãos e irmãs, sempre em movimento e permanecendo abertos à admiração! 

Resumo do texto lido pelo Papa Francisco no Angelus de 6 de fevereiro de 2022

Escuta o Papa: 3º Domingo T. Comum (C)

No Evangelho da Liturgia de hoje (Lc 4, 14-21) vemos Jesus que inaugura a sua pregação:  é a primeira pregação de Jesus. Ele vai a Nazaré, onde cresceu, e participa na oração na sinagoga. Levanta-se para ler e, no rolo do profeta Isaías, encontra a passagem relativa ao Messias, que proclama uma mensagem de consolação e libertação para os pobres e oprimidos (cf. Is 61, 1-2). No final da leitura, «os olhos de todos estavam fixos n’Ele». E Jesus começa assim: «Hoje cumpriu-se esta escritura». Reflitamos sobre este hoje. É a primeira palavra da pregação de Jesus citada no Evangelho de Lucas. Pronunciada pelo Senhor, indica um “hoje” que atravessa todas as épocas e permanece sempre válido. A Palavra de Deus é sempre “hoje”. Começa um “hoje”: quando lês a Palavra de Deus, na tua alma tem início um “hoje”, se a compreenderes bem. Hoje. A profecia de Isaías remontava a séculos, mas Jesus, «pelo poder do Espírito», torna-a atual e, sobretudo, leva-a a cumprimento, indicando o modo de receber. Hoje.

Os concidadãos de Jesus impressionaram-se com a sua palavra. Não obstante enevoados pelos preconceitos, não acreditem nele, percebem que o seu ensinamento é diferente daquele dos outros mestres: intuem que em Jesus há algo mais. O quê? Há a unção do Espírito Santo. […] A pregação corre este risco: sem a unção do Espírito empobrece a Palavra de Deus, cai no moralismo ou em conceitos abstratos; apresenta o Evangelho com distância, como se estivesse fora do tempo, longe da realidade. […] Uma palavra na qual a força do hoje não pulsa, não é digna de Jesus e não ajuda a vida das pessoas. […] 

Prezados irmãos e irmãs, neste Domingo da Palavra de Deus, gostaria de agradecer aos pregadores e anunciadores do Evangelho que permanecem fiéis à Palavra que comove o coração, que permanecem fiéis ao “hoje”.  […]  Com efeito, a Palavra de Deus é viva e eficaz (cf. Hb 4, 12), muda-nos, entra nas nossas vicissitudes, ilumina a nossa vida quotidiana, consola e traz ordem. Lembremo-nos: a Palavra de Deus transforma um dia comum no hoje em que Deus nos fala. 

Portanto, peguemos no Evangelho, cada dia uma pequena passagem para ler e reler. […]  Com o tempo descobriremos que estas palavras são para nós, para a nossa vida. Ajudar-nos-ão a aceitar cada dia com uma perspetiva melhor e mais serena, porque quando o Evangelho entra no hoje, enche-o de Deus. […]  E que Nossa Senhora obtenha para nós a constância de nos nutrir com o Evangelho todos os dias.

Resumo do texto lido pelo Papa Francisco no Angelus de 23 de janeiro de 2022

Escuta o Papa: 2º Domingo T. Comum (C)

O Evangelho da liturgia de hoje relata o episódio das bodas de Caná, onde Jesus transforma a água em vinho para a alegria dos noivos. E conclui-se assim: «Este foi o início dos sinais que Jesus realizou; Ele manifestou a sua glória e os seus discípulos acreditaram nele» (Jo 2, 11). Observamos que o evangelista João não fala de um milagre. […] Ele escreve que em Caná ocorre um sinal que suscita a fé dos discípulos. […] Um sinal é um indício que revela o amor de Deus, isto é, que não chama a atenção para o poder do gesto, mas para o amor que o provocou. […] O primeiro sinal ocorre quando dois recém-casados se encontram em dificuldade no dia mais importante da sua vida. No meio da festa falta um elemento essencial, o vinho, e a alegria corre o risco de esvaecer no meio das críticas e da insatisfação dos convidados. […]

É Nossa Senhora que se dá conta do problema e o indica discretamente a Jesus. E Ele intervém sem clamor, quase sem que alguém se aperceba. Tudo se passa na discrição, “nos bastidores”. […] Deus age deste modo, com proximidade e discrição. Os discípulos de Jesus dão-se conta disto: […]. E também veem o modo de agir de Jesus, o seu servir no escondimento – assim é Jesus: ajuda-nos, serve-nos no escondimento, naquele momento – de tal modo que os elogios pelo bom vinho são feitos ao noivo, ninguém percebe, apenas os servos[…]

É bom pensar que o primeiro sinal que Jesus realiza não é uma cura extraordinária nem um milagre no templo de Jerusalém, mas um gesto que responde a uma necessidade simples e concreta das pessoas comuns, um gesto doméstico, um milagre, […]discreto, silencioso. Ele está pronto para nos ajudar, para nos aliviar. E assim, se estivermos atentos a estes “sinais”, somos conquistados pelo seu amor e tornamo-nos seus discípulos.

Mas há outra caraterística distintiva do sinal de Caná. Geralmente, o vinho que se oferecia no final da festa era o menos bom; […] Jesus, ao contrário, certifica-se de que a festa se conclua com o melhor vinho. Simbolicamente, isto diz-nos que Deus quer o melhor para nós, Ele quer que sejamos felizes. […] A alegria que Jesus deixa no coração é alegria plena e abnegada. […] Por isso sugiro-vos um exercício. […] Tentemos hoje sondar as nossas memórias em busca dos sinais que o Senhor realizou na minha vida. Cada pessoa diga: na minha vida, que sinais realizou o Senhor? […] Com quais sinais, discretos e atenciosos, Ele me fez sentir a sua ternura? […] Revivamos os momentos em que experimentámos a sua presença e a intercessão de Maria. Ela, a Mãe, que como em Caná está sempre atenta, nos ajude a fazer tesouro dos sinais de Deus na nossa vida.

Resumo do texto lido pelo Papa Francisco no Angelus de 16 de janeiro de 2022

Escuta o Papa: Baptismo do Senhor (C)

O Evangelho da liturgia de hoje mostra-nos a cena com a qual Jesus inicia a vida pública: Ele, que é o Filho de Deus e o Messias, vai para as margens do rio Jordão e é batizado por João Batista. Depois de cerca de trinta anos vividos no escondimento, Jesus não se apresenta com algum milagre nem subindo à cátedra para ensinar. Ele põe-se na fila com o povo que ia receber o batismo de João. […] E Jesus partilha o destino de nós pecadores: […] imerge-se connosco, no nosso meio. Não se eleva acima de nós, mas desce rumo a nós. […] 

No momento em que Jesus recebe o Batismo, o texto diz que «estava em oração» (Lc 3, 21). Faz-nos bem contemplar isto: Jesus reza. Mas como? Ele, que é o Senhor, o Filho de Deus, reza como nós? Sim, Jesus […] passa muito tempo em oração: no início de cada dia, muitas vezes à noite, antes de tomar decisões importantes… A sua oração é […] uma relação com o Pai. 

Assim, no Evangelho de hoje podemos ver os “dois movimentos” da vida de Jesus: por um lado, ele desce rumo a nós, nas águas do Jordão; por outro, eleva o olhar e o coração rezando ao Pai. Esta é uma grande lição para nós: estamos todos imersos nos problemas da vida […] que nos puxam para baixo. Mas, se não quisermos ser esmagados, precisamos de elevar tudo para o alto. E a oração faz exatamente isto. […] A oração ajuda-nos porque nos une a Deus, abre-nos a um encontro com Ele. […] 

A oração – para usar uma bonita imagem do Evangelho de hoje – “abre o céu”. […] Dá oxigénio à vida, dá fôlego também no meio dos afãs e faz com que se veja tudo de modo mais amplo. Sobretudo, permite-nos ter a mesma experiência de Jesus no Jordão: faz-nos sentir filhos amados pelo Pai. A nós também, quando rezamos, o Pai diz, como a Jesus no Evangelho: “Tu és o meu filho muito amado”. O nosso ser filhos começou no dia do Batismo, que nos imergiu em Cristo e, como membros do povo de Deus, nos transformou em filhos amados do Pai. […] Isto é uma coisa bonita: recordar a data do Batismo, porque é o nosso renascimento, o momento no qual nos tornamos filhos de Deus com Jesus. […] 

E hoje, neste momento, perguntemo-nos: […] Cultivo a intimidade com Deus, dialogo com Ele, escuto a sua Palavra? Entre as muitas coisas que fazemos durante o dia, não negligenciemos a oração: dediquemos-lhe tempo, recitemos com frequência breves invocações, leiamos o Evangelho todos os dias. […] Dirijamo-nos a Nossa Senhora, Virgem orante, que fez da sua vida um cântico de louvor a Deus.

E, por favor, não se esqueçam de rezar por mim.

Resumo do texto lido pelo Papa Franciscono Angelus de 9 de janeiro de 2022

Escuta o Papa: Epifania do Senhor (C)

Hoje, solenidade da Epifania, contemplamos o episódio dos Magos (cf. Mt 2, 1-12). Eles empreendem uma longa e árdua viagem para ir adorar «o rei dos Judeus» . São guiados pelo sinal prodigioso de uma estrela, e quando finalmente chegam à meta, em vez de encontrarem algo grandioso, veem um menino com a mãe.[…] No entanto, não se escandalizam, não se desiludem. Não se lamentam. O que fazem? Prostram-se. «Entrando na casa – diz o Evangelho – acharam o menino com Maria, sua mãe. Prostrando-se diante dele, adoraram-no». […]

Surpreende um gesto tão humilde realizado por parte de homens tão ilustres. Era habitual naquela época prostrar-se diante de uma autoridade que se apresentava com os sinais de poder e glória.[…] Mas diante do Menino de Belém não é simples. Não é fácil adorar este Deus, cuja divindade permanece oculta e não parece triunfante. Significa aceitar a grandeza de Deus, que se manifesta na pequenez: esta é a mensagem. […] A prostração é o sinal de quem põe de lado as próprias ideias e dá espaço a Deus. É necessária humildade para o fazer.[…]

Ao realizar este gesto, os magos demonstram que acolhem com humildade Aquele que se apresenta na humildade. E é assim que se abrem à adoração de Deus. Os cofres que abrem são imagem do seu coração aberto: a sua verdadeira riqueza não consiste na fama, no sucesso, mas na humildade, na sua crença de que precisam de salvação. Este é o exemplo que os Magos nos dão hoje.

Se permanecermos sempre no centro de tudo com as nossas ideias e presumirmos vangloriar-nos de algo perante Deus, nunca o encontraremos plenamente, nunca o adoraremos. […] Se, por outro lado, abandonarmos as nossas pretensões de autossuficiência, se nos fizermos pequenos por dentro, então redescobriremos a maravilha de adorar Jesus. Porque a adoração passa pela humildade do coração: aqueles que têm a vontade de superar, não se apercebem da presença do Senhor. Jesus passa ao lado e é ignorado, como aconteceu a muitos naquele tempo, mas não aos Magos. Irmãos e irmãs, olhando para eles, perguntemo-nos hoje: como está a minha humildade? Estou convencido de que o orgulho impede o meu progresso espiritual? […]  Será que sei pôr de lado o meu ponto de vista para abraçar o de Deus e o dos outros? […] 

Os Magos começaram a sua viagem olhando para uma estrela e encontraram Jesus. […] Hoje podemos seguir este conselho: olhar para a estrela e caminhar. […]  Que a Virgem Maria, serva do Senhor, […] nos ensine a olhar para a estrela e a caminhar.

E, por favor, não se esqueçam de rezar por mim.

Resumo do texto lido pelo Papa Francisco no Angelus de 6 de janeiro de 2022

Escuta o Papa:  Sta Maria Mãe de Deus (C)

Comecemos o novo ano, confiando-o a Maria Mãe de Deus. O Evangelho da liturgia de hoje fala dela, reconduzindo-nos para o encanto do presépio. Os pastores vão sem demora para a gruta e o que encontram? Encontram – diz o texto – «Maria, José e o menino deitado na manjedoura» (Lc 2, 16). Façamos uma pausa sobre esta cena e imaginemos Maria que, como mãe terna e carinhosa, acabou de colocar Jesus na manjedoura. Naquele gesto podemos ver um dom feito a nós: Nossa Senhora não guarda o Filho para si, mas apresenta-o a nós; não o segura apenas no seu colo, mas depõe-no para nos convidar a olhar para ele, acolhê-lo e adorá-lo. […]

E ao colocá-lo diante dos nossos olhos, sem dizer uma palavra, transmite-nos uma mensagem maravilhosa: Deus está próximo, ao nosso alcance. Ele não vem com o poder de quem quer ser temido, mas com a fragilidade de quem pede para ser amado. […]

Eis então: o novo ano começa com Deus que, nos braços da sua Mãe e deitado numa manjedoura, nos encoraja ternamente. Precisamos deste encorajamento. […] Muitos estão assustados com o futuro e sobrecarregados por situações sociais, problemas pessoais, […], injustiças e desequilíbrios económicos planetários. Olhando para Maria com o Filho nos braços, penso nas jovens mães e nos seus filhos que fogem das guerras e da fome ou que aguardam nos campos de refugiados. São tantos! E ao contemplarmos Maria que coloca Jesus na manjedoura, pondo-o à disposição de todos, lembremo-nos que o mundo muda e a vida de todos só melhora se nos colocarmos à disposição dos outros, sem esperar que eles comecem a fazê-lo. Se nos tornarmos artífices da fraternidade, seremos capazes de tecer os fios de um mundo dilacerado por guerras e violências.

Hoje celebramos o Dia Mundial da Paz. A paz «é conjuntamente dádiva do Alto e fruto dum empenho compartilhado» (Mensagem LV D.M. Paz). Dádiva do alto: deve ser implorada a Jesus, porque sozinhos não somos capazes de a salvaguardar. Só podemos verdadeiramente construir a paz se a tivermos no coração, só se a recebermos do Príncipe da paz. Mas a paz é também empenho nosso: exige que demos o primeiro passo, requer gestos concretos. […] E também precisa de uma perspetiva positiva: que olhemos sempre – na Igreja como na sociedade – não para o mal que nos divide, mas para o bem que nos pode unir! Não nos devemos abater nem lamentar, mas arregaçar as mangas para construir a paz. A Mãe de Deus, Rainha da paz, no início deste ano, obtenha concórdia para os nossos corações e para o mundo inteiro.

E, por favor, não se esqueçam de rezar por mim.

Resumo do texto lido pelo Papa Francisco no Angelus de 1 de janeiro de 2022