Escuta o Papa: 7º Domingo Páscoa

O Evangelho que acaba de ser proclamado mostra-nos Jesus rezando por nós na Última Ceia (cf. Jo 17, 20): o Verbo de Deus, feito homem, já perto do fim da sua vida terrena, pensa em nós, seus irmãos, tornando-se bênção, súplica e louvor ao Pai, com a força do Espírito Santo. E também nós, ao entrarmos na oração de Jesus cheios de admiração e confiança, somos envolvidos pelo seu próprio amor num grande projeto, que diz respeito a toda a humanidade.

Cristo pede, com efeito, que todos sejamos «um só». Trata-se do maior bem que possa ser desejado, porque esta união universal realiza entre as criaturas a comunhão eterna de amor em que se identifica o próprio Deus, como Pai que dá a vida, Filho que a recebe e Espírito que a partilha. O Senhor não quer que nos juntemos numa massa indistinta, como um bloco sem nome, apenas com o fim de estarmos unidos, mas deseja que sejamos um: «como Tu, Pai, estás em mim e Eu em ti; para que assim eles estejam em Nós». A unidade pela qual Jesus reza é, portanto, uma comunhão fundada no mesmo amor com que Deus ama, do qual provêm a vida e a salvação. E, como tal é, primeiramente, um dom que Jesus vem trazer. É, pois, a partir do seu coração de homem que o Filho de Deus se dirige ao Pai dizendo: «Eu neles e Tu em mim, para que eles cheguem à perfeição da unidade e assim o mundo reconheça que Tu me enviaste e que os amaste a eles como a mim». Ouçamos com admiração estas palavras: Jesus está a revelar-nos que Deus nos ama como ama a si mesmo. O Pai não nos ama menos do que ama o seu Filho Único, isto é, infinitamente. Deus não ama menos, porque ama antes, ama por primeiro! O próprio Cristo testemunha isso quando diz que o Pai o amou «antes da criação do mundo». E é exatamente assim: na sua misericórdia, Deus sempre quis atrair todos os homens para si, e é a sua vida, entregue por nós em Cristo, que nos faz um, que nos une uns aos outros.

Ouvir hoje esse Evangelho, durante o Jubileu das Famílias, das Crianças, dos Avós e dos Idosos, enche-nos de alegria.[…] Na família, a fé é transmitida, de geração em geração, juntamente com a vida: é partilhada como o alimento da mesa e os afetos do coração. Isso torna-a um lugar privilegiado para encontrar Jesus, que nos ama e quer sempre o nosso bem. Gostaria de acrescentar uma última coisa. A oração do Filho de Deus, que nos infunde esperança ao longo do caminho, lembra-nos também que um dia seremos todos uno unum (cf. Santo Agostinho, Enarr. In. Ps., 127): uma só coisa no único Salvador, abraçados pelo amor eterno de Deus. Não somente nós, mas também os pais e as mães, as avós e os avôs, os irmãos, as irmãs e os filhos que já nos precederam na luz da Páscoa eterna e que sentimos presentes aqui, junto a nós, neste momento de festa.

Resumo do texto do Papa Leão XIV, Homilia, Praça de São Pedro, 1 de junho de 2025

Escuta o Papa: 6º Domingo Páscoa

Queridos irmãos e irmãs […] ainda estou no início do meu ministério entre vós e quero, primeiramente, agradecer-vos o afeto que me tendes dedicado e, ao mesmo tempo, pedir que me apoieis com a vossa oração e proximidade. Sentimo-nos por vezes inadequados para tudo aquilo a que o Senhor nos chama, tanto no percurso da vida como no caminho da fé. 

Mas o Evangelho deste domingo (Jo 14, 23-29) diz-nos que não devemos olhar para as nossas forças, mas para a misericórdia do Senhor que nos escolheu, certos de que o Espírito Santo nos guia e nos ensina todas as coisas. Aos Apóstolos que estavam perturbados e ansiosos na véspera da morte do Mestre, e se interrogavam como poderiam ser continuadores e testemunhas do Reino de Deus, Jesus anuncia o dom do Espírito Santo, com esta promessa maravilhosa: «Se alguém me tem amor, há-de guardar a minha palavra; e o meu Pai o amará, e Nós viremos a ele e nele faremos morada». Assim, Jesus liberta os discípulos de toda a angústia e preocupação e pode dizer-lhes: «Não se perturbe o vosso coração nem se atemorize». Com efeito, se permanecermos no seu amor Ele vem morar em nós, a nossa vida torna-se templo de Deus e este amor ilumina-nos, abre caminho no nosso modo de pensar e nas nossas escolhas, a ponto de se estender também aos outros e iluminar todas as situações da nossa existência. 

Irmãos e irmãs, este habitar de Deus em nós é precisamente o dom do Espírito Santo, que nos toma pela mão e nos faz experimentar, também na nossa vida quotidiana, a presença e a proximidade de Deus, fazendo de nós a sua morada. Olhando para a nossa vocação, para as realidades e as pessoas que nos foram confiadas, para os compromissos que assumimos, para o nosso serviço na Igreja, é belo que cada um de nós possa dizer com confiança: embora eu seja frágil, o Senhor não se envergonha da minha humanidade, pelo contrário, vem habitar em mim. Acompanha-me com o seu Espírito, ilumina-me e faz de mim um instrumento do seu amor para os outros, a sociedade e o mundo. […] Sobre o fundamento desta promessa, caminhemos na alegria da fé, para sermos templo santo do Senhor. Esforcemo-nos por levar o seu amor a toda a parte, recordando que cada irmã e cada irmão é a morada de Deus, cuja presença se revela sobretudo nos mais pequenos, nos pobres e nos que sofrem, exigindo que sejamos cristãos atentos e compassivos.

Por fim, confiemo-nos todos à intercessão de Maria Santíssima. Por obra do Espírito, Ela tornou-se “morada consagrada a Deus”. Com Ela, também nós podemos experimentar a alegria de acolher o Senhor e de ser sinal e instrumento do seu amor.

Resumo do texto do Papa Leão XIV,  Regina Caeli, Praça de São Pedro, 25 de maio de 2025


Escuta o Papa: Início do Ministério Petrino

Irmãos e irmãs […] nos últimos dias, vivemos tempos particularmente intensos. A morte do Papa Francisco encheu os nossos corações de tristeza […]. No entanto, precisamente no dia de Páscoa, recebemos a sua última bênção e, à luz da ressurreição, enfrentámos este momento na certeza de que o Senhor nunca abandona o seu povo […]. Neste espírito de fé, o Colégio Cardinalício reuniu-se para o Conclave. […] Colocámos nas mãos de Deus o desejo de eleger o novo sucessor de Pedro, […] um pastor capaz de guardar o rico património da fé cristã e, ao mesmo tempo, de […] ir ao encontro das interrogações, das inquietações e dos desafios de hoje. Acompanhados pela vossa oração, sentimos a ação do Espírito Santo, que soube harmonizar os diferentes instrumentos musicais e fez vibrar as cordas do nosso coração numa única melodia. Fui escolhido sem qualquer mérito e, com temor e tremor, venho até vós como um irmão que deseja fazer-se servo da vossa fé e da vossa alegria, percorrendo convosco o caminho do amor de Deus, que nos quer a todos unidos numa única família.

Amor e unidade: estas são as duas dimensões da missão que Jesus confiou a Pedro. […] Como pode Pedro levar adiante essa tarefa? O Evangelho diz-nos que isso só é possível porque ele experimentou na própria vida o amor infinito e incondicional de Deus, mesmo na hora do fracasso e da negação. […] Quando Jesus pergunta a Pedro – «Simão, filho de João, tu amas-me?» – refere-se ao amor do Pai. É como se Jesus lhe dissesse: só se conheceste e experimentaste este amor de Deus, que nunca falha, poderás apascentar as minhas ovelhas; só no amor de Deus Pai poderás amar os teus irmãos com «algo mais», isto é, oferecendo a vida por eles. […] A Pedro, portanto, é confiada a tarefa de «amar mais» e dar a sua vida pelo rebanho. A sua verdadeira autoridade é a caridade de Cristo. […] Não se trata nunca de capturar os outros com a prepotência, […] mas trata-se sempre e apenas de amar como fez Jesus.[…] Pedro deve apascentar o rebanho sem nunca ceder à tentação de ser um líder solitário ou um chefe colocado acima dos outros […]; pelo contrário, é-lhe pedido que sirva a fé dos irmãos, caminhando com eles: todos nós, somos «pedras vivas» […] . Como afirma Santo Agostinho: «A Igreja é constituída por todos aqueles que mantêm a concórdia com os irmãos e que amam o próximo» […] 

Irmãos e irmãs, gostaria que fosse este o nosso primeiro grande desejo: uma Igreja unida, sinal de unidade e comunhão, que se torne fermento para um mundo reconciliado. No nosso tempo, ainda vemos demasiada discórdia, demasiadas feridas causadas pelo ódio, a violência, os preconceitos, o medo do diferente, por um paradigma económico que explora os recursos da Terra e marginaliza os mais pobres. E nós queremos ser, dentro desta massa, um pequeno fermento de unidade, comunhão e fraternidade. Queremos dizer ao mundo, com humildade e alegria: Olhai para Cristo! […] Escutai a sua proposta de amor para vos tornardes a sua única família. No único Cristo somos um. […] Este é o espírito missionário que nos deve animar, sem nos fecharmos no nosso pequeno grupo nem nos sentirmos superiores ao mundo; somos chamados a oferecer a todos o amor de Deus, para que se realize aquela unidade que não anula as diferenças, mas valoriza a história pessoal de cada um e a cultura social e religiosa de cada povo. 

Irmãos, irmãs, esta é a hora do amor! A caridade de Deus, que faz de nós irmãos, é o coração do Evangelho e, com o meu predecessor Leão XIII, podemos hoje perguntar-nos: «Não se veria em breve prazo estabelecer-se a pacificação, se estes ensinamentos pudessem vir a prevalecer nas sociedades?» (Carta enc. Rerum novarum, 14)

Com a luz e a força do Espírito Santo, construamos uma Igreja fundada no amor de Deus e sinal de unidade […]. Juntos, como único povo, todos irmãos, caminhemos ao encontro de Deus e amemo-nos uns aos outros.

Resumo do texto do Papa Leão XIV, Homilia, Praça de São Pedro, 18 de maio de 2025

Escuta o Papa: Virgem do Rosário de Fátima

Nota: Esta edição já estava preparada, antes da eleição do Papa Leão XIV. Apenas publicamos o texto e áudio.

Ouvimos, no Evangelho, Jesus dizer ao discípulo: «Eis a tua Mãe» (Jo 19, 26-27) .[…] Uma «Senhora tão bonita»: comentavam entre si os videntes de Fátima, naquele abençoado dia treze de maio. […] E, à noite, a Jacinta não se conteve e desvendou o segredo à mãe: «Hoje vi Nossa Senhora». Tinham visto a Mãe do Céu. Pela esteira que seguiam os seus olhos, se alongou o olhar de muitos, mas… estes não A viram. A Virgem Mãe não veio aqui, para que A víssemos; para isso teremos a eternidade inteira, naturalmente se formos para o Céu. Mas Ela, antevendo e advertindo-nos para o risco do Inferno onde leva a vida sem-Deus e profanando Deus nas suas criaturas, veio lembrar-nos a Luz de Deus que nos habita e cobre. […]  E, no dizer de Lúcia, os três privilegiados ficavam dentro da Luz de Deus que irradiava de Nossa Senhora. […] No crer e sentir de muitos peregrinos, se não mesmo de todos, Fátima é sobretudo este manto de Luz que nos cobre, aqui como em qualquer outro lugar da Terra quando nos refugiamos sob a proteção da Virgem Mãe para Lhe pedir, como ensina a Salve Rainha, «mostrai-nos Jesus». 

Queridos peregrinos, temos Mãe, temos Mãe! Agarrados a Ela como filhos, vivamos da esperança que assenta em Jesus, pois, […] «aqueles que recebem com abundância a graça e o dom da justiça reinarão na vida por meio de um só, Jesus Cristo» (Rm 5, 17). Quando Jesus subiu ao Céu, levou para junto do Pai celeste a humanidade […] e nunca mais a largará. […] Fundemos a nossa esperança nessa humanidade colocada nos Céus à direita do Pai. […] 

Rezamos a Deus com a esperança de que nos escutem os homens; e dirigimo-nos aos homens com a certeza de que nos vale Deus. Pois Ele criou-nos como uma esperança para os outros, uma esperança real e realizável segundo o estado de vida de cada um.  Ao «pedir» e «exigir» o cumprimento dos nossos deveres de estado (carta da Irmã Lúcia), o Céu desencadeia aqui uma verdadeira mobilização geral contra esta indiferença que nos gela o coração e agrava a miopia do olhar. Não queiramos ser uma esperança abortada! A vida só pode sobreviver graças à generosidade de outra vida. «Se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, dá muito fruto»: disse e fez o Senhor, que sempre nos precede. Quando passamos através de alguma cruz, Ele já passou antes. […]. 

Sob a proteção de Maria, sejamos, no mundo, sentinelas da madrugada que sabem contemplar o verdadeiro rosto de Jesus Salvador, aquele que brilha na Páscoa, e descobrir novamente o rosto jovem e belo da Igreja, que brilha quando é missionária, acolhedora, livre, fiel, pobre de meios e rica no amor.

Resumo do texto do texto do Papa Francisco, Homilia, Santuário de Fátima, 13 de maio de 2017

Escuta o Papa: 4º Domingo Páscoa (C)

Nota: Esta foi uma edição de transição entre os dois Papas. O texto é do Papa Francisco, assim como a gravação, uma vez que já estavam preparados antes da eleição do novo Papa. O vídeo foi adicionado à posteriori, aquando o primeiro Regina Caeli do Papa Leão XIV.

O Evangelho da Liturgia de hoje fala-nos do vínculo entre o Senhor e cada um de nós (Jo 10, 27-30). […] Jesus utiliza uma imagem terna, […] a do pastor que está com as ovelhas. E explica-a com três verbos: «As minhas ovelhas – diz Jesus – ouvem a minha voz, eu conheço-as, e elas seguem-me» . Três verbos: ouvir, conhecer, seguir. […]

Em primeiro lugar, as ovelhas ouvem a voz do pastor. A iniciativa vem sempre do Senhor : […] é Ele que nos chama à comunhão com Ele. Mas esta comunhão acontece se nos abrirmos à escuta; […] Escutar significa disponibilidade, significa docilidade, significa tempo dedicado ao diálogo. […] Hoje somos esmagados por palavras, pela pressa de ter sempre de dizer alguma coisa, temos medo do silêncio. […] Mas para o Senhor, antes de mais, é preciso ouvir. Ele é a Palavra do Pai e o cristão é […] chamado a viver com a Palavra de Deus […]. Perguntemo-nos hoje se somos filhos da escuta, se encontramos tempo para a Palavra de Deus, se damos espaço e atenção aos irmãos e irmãs. Saber ouvir a outra pessoa expressar-se até ao fim, sem interromper o seu discurso. Quem ouve os outros também sabe ouvir o Senhor. […] E experimenta algo muito bom, isto é, que o próprio Senhor nos ouve […] quando rezamos, quando nos confidenciamos com Ele […].

Ouvir Jesus torna-se assim a forma de descobrir que Ele nos conhece. Eis o segundo verbo, que diz respeito ao bom pastor: Ele conhece as suas ovelhas. […] Conhecer no sentido bíblico significa também amar. Significa que o Senhor, enquanto “nos lê dentro”, nos ama, não nos condena. Se o ouvirmos, descobrimos que o Senhor nos ama. […] Jesus procura uma amizade calorosa, uma confidência, uma intimidade. Ele quer doar-nos um novo e maravilhoso conhecimento:  saber que somos sempre amados por Ele e, por conseguinte, nunca deixados sozinhos. […] Sobretudo nos sofrimentos, nas dificuldades, nas crises que são trevas: Ele sustenta-nos, vivendo-as connosco. […] Então perguntemo-nos: deixo-me conhecer pelo Senhor? Dou-lhe espaço na minha vida, confidencio-lhe o que vivo? […] 

Por fim […] as ovelhas que ouvem e se descobrem conhecidas […] seguem o Senhor, que é o seu pastor. E quem segue Cristo, o que faz? Vai para onde Ele vai, […] na mesma direção. Vai em busca de quem se perdeu, interessa-se por aqueles que estão longe, preocupa-se com a situação de quantos sofrem, sabe chorar com aqueles que choram, estende a mão ao próximo, […] E eu? Deixo-me amar por Jesus? […] 

Que a Santíssima Virgem nos ajude a ouvir Cristo, a conhecê-lo cada vez mais e a segui-lo no caminho do serviço.

Resumo do texto do texto do Papa Francisco,  Regina Caeli, Praça São Pedro, 8 de maio de 2022

Escuta o Papa: 3º Domingo Páscoa (C)

O Evangelho da Liturgia de hoje(Jo 21, 1-19) narra a terceira aparição de Jesus Ressuscitado aos Apóstolos. É um encontro que tem lugar no lago da Galileia e diz respeito sobretudo a Simão Pedro. Tudo começa com ele que diz aos outros discípulos: «Vou pescar». […] era pescador, mas tinha abandonado aquela profissão […] para seguir Jesus. E agora, enquanto o Ressuscitado se faz esperar, Pedro, talvez um pouco desanimado, propõe aos outros o regresso à vida anterior. […] Mas, «Naquela noite nada apanharam» . Também nos pode acontecer, por cansaço, desilusão, talvez por preguiça, de esquecer o Senhor e negligenciar as grandes escolhas que fizemos […]. Por exemplo, não dedicamos tempo a falar uns com os outros em família, preferindo passatempos pessoais; esquecemos a oração […] negligenciamos a caridade […]. Mas, fazendo assim, ficamos desapontados: foi precisamente a deceção que sentiu Pedro, com as redes vazias […]. É uma estrada que te leva para trás e não te satisfaz.

E o que faz Jesus com Pedro? Volta novamente para a margem do lago onde tinha escolhido Pedro, André, Tiago e João […]. Jesus não repreende […] mas chama ternamente os discípulos: «Amigos». Depois convida-os, como antes, a lançarem de novo as redes, com coragem. E mais uma vez as redes se enchem até transbordar. Irmãos e irmãs, quando as nossas redes estão vazias na vida, não é o momento de sentir pena de nós mesmos, […] É tempo de se fazer ao largo com Jesus. […] Perante uma desilusão, ou uma vida que perdeu um pouco o sentido, […] parte de novo com Jesus, recomeça, faz-te ao largo! Ele está à tua espera.[…]

Pedro precisava daquele “choque”. Quando ouve João clamar: «É o Senhor!», mergulha imediatamente na água e vai em direção a Jesus. Assim, enquanto João, o mais novo, reconhece o Senhor, é Pedro, o mais velho, que se lança para ir ao seu encontro. Naquele mergulho há todo o entusiasmo recém-descoberto de Simão Pedro.[…]  Hoje Cristo Ressuscitado convida-nos a um novo impulso, […] convida-nos a mergulhar no bem sem medo de perder algo, sem calcular demasiado, porque para conhecer Jesus tem é preciso arriscar. […] Perguntemo-nos: sou capaz de algum ímpeto de generosidade, ou impeço os impulsos do coração?

Então, no final deste episódio, Jesus dirige a Pedro, três vezes, a pergunta: «Amas-me?». O Ressuscitado pergunta hoje também a nós: Amas-me? Porque na Páscoa Jesus quer que o nosso coração ressuscite; porque a fé não é uma questão de conhecimento, mas de amor. Amas-me? pergunta Jesus a ti, a mim, a todos nós, que temos as redes vazias […], que não temos coragem de mergulhar. […] A partir de então, Pedro deixou de pescar para sempre e dedicou-se ao serviço de Deus […]. E nós, queremos amar Jesus?

Por favor, não se esqueçam de rezar por mim.

Resumo do texto do texto do Papa Francisco, Regina Caeli, Praça São Pedro, 1 de maio de 2022

Escuta o Papa: São José Operário (C)

Hoje é a festa de São José Operário e o Dia do Trabalhador. […]

«E Deus criou» (Gn 1 e 2). Criou o mundo, criou o homem, e deu ao homem uma missão: administrar, trabalhar, continuar a criação. A Bíblia usa trabalho para descrever esta atividade de Deus: «Tendo Deus acabado no sétimo dia a obra que fizera, descansou de todo o seu trabalho». E confia esta atividade ao homem: […] o trabalho é apenas a continuação da obra de Deus: […] é a vocação do homem recebida de Deus no fim da criação do universo. É o trabalho que torna o homem semelhante a Deus, pois com o trabalho o homem é capaz de criar […]; até mesmo de criar uma família […]. E a Bíblia diz: «Viu Deus que tudo quanto tinha feito era muito bom». Ou seja, o trabalho tem em si uma bondade e cria a harmonia das coisas – beleza, bondade – e envolve o homem em tudo: no seu pensamento, na sua atuação, em tudo. O homem participa no trabalho. É a primeira vocação do homem: trabalhar. E isto dá dignidade ao homem. É a dignidade que o faz assemelhar-se a Deus. […]

Certa vez, numa Cáritas, a um homem que não tinha trabalho e fora à procura de algo para a família, um empregado dessa entidade […] disse: “Pelo menos podes levar o pão para casa” – “Mas isto não me basta, não me é suficiente”, foi a resposta: “Quero ganhar o pão a fim de o levar para casa”. Faltava-lhe a dignidade, a dignidade de “fazer” o próprio pão, com o seu trabalho, e de o levar para casa. A dignidade do trabalho, que infelizmente é tão espezinhada.[…]

Ainda hoje há muitos escravos, muitos homens e mulheres que não são livres para trabalhar.[…] Existe o trabalho forçado, injusto, mal pago e que leva o homem a viver com a dignidade espezinhada. […] A escravatura de hoje é a nossa “indignidade”, porque tira a dignidade […] de todos nós. […] Também aqui, no nosso lugar. Pensa nos trabalhadores, […] que tu fazes trabalhar por um salário mínimo e não oito, mas 12, 14 horas por dia. […] Pensa na empregada doméstica que não recebe um salário justo, não tem assistência da segurança social e nem sequer a possibilidade de se aposentar.[…] Toda a injustiça que se faz a uma pessoa que trabalha, espezinha a dignidade humana; inclusive a dignidade daquele que comete a injustiça. […] Ao contrário, a vocação que Deus nos dá é tão bonita: criar, recriar, trabalhar. Mas isto pode ser feito quando as condições são adequadas e a dignidade da pessoa é respeitada.

Unamo-nos hoje a muitos homens e mulheres, […] que comemoram o Dia do Trabalhador, […] por aqueles que lutam pela justiça no trabalho, por aqueles – bons empresários – que realizam o trabalho com justiça […]. E peçamos a São José […] que nos ajude a lutar pela dignidade do trabalho, a fim de que haja trabalho para todos e que seja um trabalho digno. Não trabalho escravo. Que esta seja a oração de hoje!

Resumo do texto do texto do Papa Francisco, Homilia, Capela Santa Marta, 1 de maio  de 2020

Escuta o Papa: 2º Domingo Páscoa (C)

Hoje, […] o Evangelho narra sobre a primeira e a segunda aparição do Senhor Ressuscitado aos discípulos. Jesus vem […] enquanto os Apóstolos estão fechados no Cenáculo, por medo, mas como Tomé, um dos Doze, não está presente, regressa oito dias depois (Jo 20, 19-29). […] Tomé representa todos nós, que não estávamos presentes no Cenáculo quando o Senhor apareceu. […] Também nós, […] por vezes temos dificuldade: como podemos acreditar que Jesus ressuscitou, que nos acompanha […] sem o termos visto, sem o termos tocado? […] Por que o Senhor não nos dá um sinal mais evidente da sua presença e do seu amor? […] Nós também somos como Tomé, com as mesmas dúvidas […]. Mas não devemos ter vergonha disto. […] 

O Evangelho diz-nos que o Senhor não procura cristãos perfeitos. […] Digo-vos: receio quando vejo alguns cristãos […] que pensam que são perfeitos. […] O Senhor não procura cristãos que nunca duvidam e sempre ostentam uma fé segura. Quando um cristão é assim, há algo errado. […] A aventura da fé, como para Tomé, é feita de luzes e sombras. […] Ela conhece tempos de consolação, ímpeto e entusiasmo, mas também de cansaço, desorientação, dúvida e escuridão. O Evangelho mostra-nos a “crise” de Tomé para nos dizer que não devemos temer as crises da vida e da fé. As crises […] são um caminho. […] Muitas vezes tornam-nos humildes. […] As crises […] despertam a nossa necessidade de Deus e permitem-nos assim regressar ao Senhor, tocar as suas feridas, experimentar novamente o seu amor. […]

Estimados irmãos e irmãs, é melhor ter uma fé imperfeita, mas humilde, sempre orientada para Jesus, do que uma fé forte, mas presunçosa, que nos torna orgulhosos e arrogantes. […] E perante a ausência […] de Tomé […] qual é a atitude de Jesus? Jesus não desiste, […] não tem medo das nossas crises. […] Ele volta sempre: quando as portas estão fechadas, ele volta; quando duvidamos, ele volta; […] quando precisamos de o encontrar e tocá-lo mais de perto, ele volta.[…] E não volta com sinais poderosos[…] mas com as suas feridas, […] sinais do seu amor que abraçou as nossas fragilidades. […] Quando experimentamos cansaço ou momentos de crise, Jesus, o Ressuscitado, deseja regressar para estar connosco. Ele espera unicamente que o procuremos, que o invoquemos, até mesmo que protestemos, como Tomé, mostrando-lhe as nossas necessidades e a nossa incredulidade. Ele regressa sempre. Porquê? Porque é paciente e misericordioso. […] Jesus é o Senhor das “outras oportunidades”: Ele dá-nos sempre mais uma, sempre. […] E prometamos, na próxima vez, no nosso cansaço, procurar Jesus, voltar para Ele, para o Seu perdão – Ele perdoa sempre! […]. Desta forma, tornar-nos-emos também capazes de compaixão, de nos aproximar das feridas dos outros sem rigidez nem preconceitos. Que Nossa Senhora, Mãe de Misericórdia[…] nos acompanhe no caminho da fé e do amor.

Resumo do texto do texto do Papa Francisco,  Regina Caeli, Praça São Pedro, 24 de abril de 2022

Escuta o Papa: Segunda-feira Páscoa (C)

Os dias da Oitava da Páscoa são como um único dia em que a alegria da Ressurreição se prolonga. O Evangelho da Liturgia de hoje continua a falar-nos do Ressuscitado, da sua aparição às mulheres que tinham ido ao sepulcro (Mt 28, 8-15). Jesus vai ao encontro delas, saúda-as; depois diz-lhes duas coisas, que também para nós será bom ouvir como dom de Páscoa.[…] 

Primeiro, tranquiliza-as com duas simples palavras: «Não temais!» […] O Senhor sabe que os receios são os nossos inimigos diários. Sabe também que os nossos temores nascem do grande medo […] da morte: medo de esvaecer, de perder os entes queridos, […] de não aguentar mais… Mas na Páscoa Jesus venceu a morte. Portanto, ninguém nos pode dizer de modo mais convincente: […] «Não tenhais medo!». O Senhor di-lo ali, ao lado do sepulcro do qual saiu vitorioso. Assim, convida-nos a sair dos túmulos dos nossos medos. […] Porque os nossos temores são como túmulos, enterram-nos lá dentro. Ele sabe que o medo está sempre à espreita […]  e que temos necessidade de ouvir repetir: […] não tenhas medo. […] “Eu”, diz-te Jesus, “experimentei a morte por ti, assumi sobre mim o teu mal”. Agora ressuscitei para te dizer: estou aqui, contigo, para sempre. Não temas!”. Mas como fazer, podemos dizer, para combater o medo? Ajuda-nos a segunda coisa que Jesus diz às mulheres: «Ide dizer aos meus irmãos que vão à Galileia, pois é lá que me verão». Ide e anunciai! O medo fecha-nos sempre em nós próprios […]. Por outro lado, Jesus faz-nos sair e envia-nos ao encontro dos outros. […] Porque não devemos guardar para nós a alegria pascal. […] Se nos abrirmos e levarmos o Evangelho, o nosso coração dilata-se e supera o medo. Este é o segredo: anunciar para vencer o medo. O texto de hoje diz-nos que a proclamação pode encontrar um obstáculo: a falsidade. […] O Evangelho fala de “contra-anúncio”. Qual? O dos soldados que tinham guardado o sepulcro de Jesus. São pagos […] e recebem estas instruções: «Direis que os seus discípulos vieram tirá-lo à noite, enquanto dormíeis». […] É o poder do dinheiro, aquele outro senhor que Jesus diz que nunca devemos servir. […] Isto é falsidade, a lógica do engano, que se opõe à proclamação da verdade. É um lembrete também para nós: […]  As falsidades […] levam-nos diretamente para a morte, para o túmulo. O Ressuscitado, por outro lado, quer tirar-nos dos túmulos de das falsidades e das dependências. […] Caros irmãos e irmãs, […] coloquemos a nossa opacidade, as nossas falsidades, perante a luz de Jesus ressuscitado. […] Que Maria, a Mãe do Ressuscitado, nos ajude a superar os nossos medos e nos conceda a paixão pela verdade.

Resumo do texto lido pelo Papa Francisco,  Regina Caeli, Praça São Pedro, 18 de abril de 2022

Escuta o Papa: Vigília Pascal (C)

Nesta noite, irmãos e irmãs, deixemo-nos guiar pelas mulheres do Evangelho, para descobrir com elas a aurora da luz de Deus que brilha nas trevas do mundo. Quando já a noite ia clareando e irrompiam, silenciosas, as primeiras luzes da aurora, aquelas mulheres foram ao sepulcro para ungir o corpo de Jesus. E lá vivem uma experiência que as turvou: primeiro, descobrem que o sepulcro está vazio; depois, veem duas figuras em trajes resplandecentes que lhes dizem que Jesus ressuscitou; imediatamente, correm a anunciá-lo aos outros discípulos (Lc 24, 1-10). Veem, escutam, anunciam: com estas três ações, entremos também nós na Páscoa do Senhor.

As mulheres veem. O primeiro anúncio da Ressurreição é feito […] sob um sinal que se deve contemplar. […] A Páscoa começa invertendo os nossos esquemas. […] Às vezes (temos de o admitir!) […] em nós, como nas mulheres do Evangelho, prevalecem interrogações e dúvidas, e a primeira reação face ao sinal imprevisto é o medo, é voltar «o rosto para o chão». […] Com muita frequência, contemplamos a vida e a realidade com os olhos voltados para baixo; […] fechamo-nos nas nossas necessidades […] enquanto continuamos a lamentar-nos e a pensar que as coisas nunca vão mudar. E assim permanecemos imóveis […] e sepultamos a alegria de viver. Mas, nesta noite, o Senhor quer dar-nos olhos diferentes, iluminados pela esperança de que o medo, o sofrimento e a morte não terão a última palavra sobre nós. […]

Em segundo lugar, as mulheres escutam. Depois de terem visto o sepulcro vazio, dois homens em trajes resplandecentes disseram-lhes: «Porque buscais o Vivente entre os mortos? Não está aqui; ressuscitou!». […] Sempre que pretendemos ter entendido tudo acerca de Deus […] repitamos a nós mesmos: não está aqui! Sempre que O procuramos apenas nas emoções […] ou nos momentos de necessidade, para depois O deixarmos de lado […] nas opções concretas de cada dia, repitamos: não está aqui! E quando pensamos em confiná-Lo nas […] nas nossas fórmulas e nas nossas tradições, mas esquecendo-nos de O procurar nos cantos mais escuros da vida onde há alguém que chora, que luta, sofre e espera, repitamos: não está aqui! […] Não podemos fazer Páscoa […]  se permanecemos prisioneiros do passado; se na vida não temos a coragem de nos deixar perdoar por Deus – que perdoa tudo […] [e] que deseja transformar-nos a nós e ao mundo.[…]

Por fim as mulheres anunciam. Que anunciam elas? A alegria da Ressurreição. A Páscoa não acontece para consolar intimamente quem chora a morte de Jesus, mas para abrir de par em par os corações ao anúncio extraordinário da vitória de Deus sobre o mal e a morte. […] Por isso mesmo, depois de ter visto e escutado, as mulheres correm a anunciar aos discípulos a alegria da Ressurreição. Sabem que poderiam ser tomadas por loucas […] mas não estão preocupadas com a sua reputação […] ; não reprimem os sentimentos, nem medem as palavras. Apenas tinham o coração ardente para transmitir a notícia, o anúncio: “O Senhor ressuscitou!” 

E como é bela uma Igreja que corre, assim, pelas estradas do mundo! Sem medo, sem táticas nem oportunismos; só com o desejo de levar a todos a alegria do Evangelho. A isto, somos chamados: a fazer experiência do Ressuscitado e partilhá-la com os outros; […] Façamos ressuscitar Jesus, o Vivente, dos túmulos onde O tínhamos encerrado; libertemo-Lo das formalidades onde frequentemente o enclausuramos[…]. Levemo-Lo para a vida de todos os dias: com gestos de paz neste tempo marcado pelos horrores da guerra; com obras de reconciliação nas relações rompidas e de compaixão para com os necessitados; com ações de justiça no meio das desigualdades […].

Irmãos e irmãs, a nossa esperança chama-se Jesus. […] Façamos Páscoa com Cristo! Ele está vivo e ainda hoje passa, transforma e liberta. Com Ele, o mal já não tem poder, o fracasso não pode impedir-nos de recomeçar, a morte torna-se passagem para o início duma nova vida. Porque com Jesus, o Ressuscitado, nenhuma noite é infinita; e mesmo na escuridão mais densa, nesta escuridão brilha a estrela da manhã.[…] Christós Voskrés! (Cristo ressuscitou!)

Resumo do texto lido pelo Papa Francisco, Homilia, Basílica de São Pedro, 16 de abril de 2022