Rejeitemos as obras das trevas


Queridos irmãos e irmãs, […] iniciamos o Advento, preparando-nos para reviver, no Natal, o mistério de Jesus, Filho de Deus. […]  Neste contexto, a Liturgia propõe-nos, na primeira leitura (Is 2, 1-5), uma das páginas mais belas do livro do profeta Isaías, onde ressoa o convite dirigido a todos os povos para subirem ao monte do Senhor, lugar de luz e de paz. Gostaria, pois, que meditássemos sobre o nosso ser Igreja, detendo-nos em algumas imagens contidas neste texto.

A primeira é a do monte «mais alto de todos». Ela nos lembra que os frutos da ação de Deus em nossa vida não são um dom apenas para nós, mas para todos. A beleza de Sião, cidade sobre o monte, símbolo de uma comunidade renascida na fidelidade que se torna sinal de luz para homens e mulheres de todas as origens, lembra-nos que a alegria do bem é contagiante. Encontramos confirmação disso na vida de muitos santos. […]

São João Crisóstomo, […] falava do encanto da santidade como um sinal mais eloquente do que muitos milagres. Ele dizia: «O prodígio acontece e passa, mas a vida cristã permanece e edifica continuamente» […], e concluía: «Vigiemos, portanto, sobre nós mesmos, para beneficiar também os outros». Caríssimos, […] vigiemos sobre nós mesmos, como nos recomenda o Evangelho (Mt 24, 42): cultivemos a nossa fé com a oração e com os Sacramentos, vivamo-la coerentemente na caridade, rejeitemos – como nos disse São Paulo na segunda leitura – as obras das trevas e vistamos as armas da luz (Rm 13, 12). O Senhor, a quem esperamos em sua vinda gloriosa no fim dos tempos, vem todos os dias bater à nossa porta. Estejamos prontos com o compromisso sincero de uma vida boa. […]

A segunda imagem que nos vem do profeta Isaías é a de um mundo onde reina a paz.[…] Quão urgente parece-nos hoje este apelo! Quanta necessidade de paz, unidade e reconciliação existe à nossa volta, dentro de nós e entre nós! Como podemos contribuir para corresponder a esta exigência? […] Na importância dos nossos comuns esforços pela unidade […]: dentro da comunidade, nas relações ecuménicas com os membros de outras Confissões cristãs e no encontro com os irmãos e irmãs pertencentes a outras religiões. Cuidar destas três pontes, reforçando-as e ampliando-as de todas as formas possíveis, faz parte da nossa vocação de ser uma cidade construída sobre o monte.[…]

Vivemos num mundo em que, com demasiada frequência, a religião é usada para justificar guerras e atrocidades. No entanto, sabemos que, como afirma o Concílio Vaticano II, «de tal maneira estão ligadas a relação do homem a Deus Pai e a sua relação aos outros homens seus irmãos, que a Escritura afirma: “quem não ama, não conhece a Deus”» ( Link). Por isso, queremos caminhar juntos, valorizando o que nos une, derrubando os muros do preconceito e da desconfiança, promovendo o conhecimento e a estima recíproca, para dar a todos uma forte mensagem de esperança e um convite a tornarem-se “operadores de paz”.

Caríssimos, façamos destes valores os nossos propósitos para o tempo do Advento […] para amar a Deus e aos irmãos com todo o coração, para caminharmos juntos e para que possamos nos reencontrar, um dia, todos na casa do Pai.

Resumo do texto do Papa Leão XIV, Homilia, Istambul, 29 de novembro de 2025

Escuta o Papa: Cristo Rei


As Leituras bíblicas que foram proclamadas têm como fio condutor a centralidade de Cristo: […] Cristo está no centro da criação, do povo e da história.

1. O Apóstolo Paulo, na segunda Leitura,  […] apresenta-O como o Primogénito de toda a criação: n’Ele, por Ele e para Ele foram criadas todas as coisas. Ele é o centro de todas as coisas, é o princípio: Jesus Cristo, o Senhor. Deus deu-Lhe a plenitude, a totalidade, para que n’Ele fossem reconciliadas todas as coisas (cf. 1, 12-20). Senhor da criação, Senhor da reconciliação.

Esta imagem faz-nos compreender que Jesus é o centro da criação; e, portanto, a atitude que se requer do crente – se o quer ser de verdade – é reconhecer e aceitar na vida esta centralidade de Jesus Cristo, nos pensamentos, nas palavras e nas obras. […] Diversamente, quando se perde este centro, substituindo-o por outra coisa qualquer, disso só derivam danos para o meio ambiente que nos rodeia e para o próprio homem.

2. Além de ser centro da criação e centro da reconciliação, Cristo é centro do povo de Deus.  […] Está presente na Palavra e no altar, vivo, presente, no meio de nós, seu povo. Assim no-lo mostra a primeira Leitura, que narra o dia em que as tribos de Israel vieram procurar David e ungiram-no rei sobre Israel diante do Senhor (cf. 2 Sam 5, 1-3). Na busca da figura ideal do rei, aqueles homens procuravam o próprio Deus: um Deus que Se tornasse vizinho, que aceitasse caminhar com o homem, que Se fizesse seu irmão. Cristo, descendente do rei David, é precisamente o «irmão» ao redor do qual se constitui o povo, que cuida do seu povo, de todos nós, a preço da sua vida. N’Ele, nós somos um só; um só povo unido a Ele, partilhamos um só caminho, um único destino. Somente n’Ele, n’Ele por centro, temos a identidade como povo.

3. E, por último, Cristo é o centro da história da humanidade e também o centro da história de cada homem. A Ele podemos referir as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias de que está tecida a nossa vida. Quando Jesus está no centro, até os momentos mais sombrios da nossa existência se iluminam: Ele dá-nos esperança, como fez com o bom ladrão no Evangelho de hoje. Enquanto todos os outros se dirigem a Jesus com desprezo – «Se és o Cristo, o Rei Messias, salva-Te a Ti mesmo, descendo do patíbulo!» –, aquele homem, que errou na vida, no fim agarra-se arrependido a Jesus crucificado suplicando: «Lembra-Te de mim, quando entrares no teu Reino» (Lc 23, 42). E Jesus promete-lhe: «Hoje mesmo estarás comigo no Paraíso» (23, 43): o seu Reino. Jesus pronuncia apenas a palavra do perdão, não a da condenação; e quando o homem encontra a coragem de pedir este perdão, o Senhor nunca deixa sem resposta um tal pedido. 

[…]. Neste dia, far-nos-á bem pensar na nossa história, olhar para Jesus e, do fundo do coração, repetir-lhe muitas vezes – mas com o coração, em silêncio – cada um de nós: «Lembra-Te de mim, Senhor, agora que estás no teu Reino! Jesus, lembra-Te de mim, porque eu tenho vontade de me tornar bom, mas não tenho força, não posso: sou pecador, sou pecadora. Mas lembra-Te de mim, Jesus! Tu podes lembrar-Te de mim, porque Tu estás no centro, Tu estás precisamente no teu Reino!». […]

A promessa de Jesus ao bom ladrão dá-nos uma grande esperança: diz-nos que a graça de Deus é sempre mais abundante do que oração suplicada. O Senhor dá sempre mais – Ele é tão generoso! –, dá sempre mais do que se Lhe pede: pedes-Lhe que Se lembre de ti, e Ele leva-te para o seu Reino! Jesus é precisamente o centro dos nossos desejos de alegria e de salvação. 

Resumo do texto do Papa Francisco, Homilia, Praça de São Pedro, 24 de Novembro de 2013

Escuta o Papa: 33º Domingo T.Comum


Enquanto o ano litúrgico chega ao fim, o Evangelho de hoje (Lc 21, 5-19) faz-nos refletir sobre as tribulações da história e o fim das coisas. Porque conhece o nosso coração, Jesus, ao olhar para estes acontecimentos, convida-nos antes de mais nada a não nos deixarmos vencer pelo medo: «Quando ouvirdes falar de guerras e revoltas – diz Ele –, não vos alarmeis».

O seu apelo é muito atual: infelizmente, recebemos diariamente notícias de conflitos, calamidades e perseguições que atormentam milhões de homens e mulheres. Tanto diante dessas aflições quanto diante da indiferença que quer ignorá-las, as palavras de Jesus anunciam que a agressão do mal não pode destruir a esperança daqueles que confiam n’Ele. Quanto mais a hora é escura como a noite, mais a fé brilha como o sol.

Efetivamente, Cristo afirma duas vezes que «por causa do seu nome» muitos sofrerão violência e traição , mas precisamente nesse momento terão a ocasião de dar testemunho. Seguindo o exemplo do Mestre, que na cruz revelou a imensidão do seu amor, esse encorajamento diz respeito a todos nós. Com efeito, a perseguição aos cristãos não acontece apenas com armas e maus-tratos, mas também com as palavras, ou seja, através da mentira e da manipulação ideológica. Sobretudo quando oprimidos por esses males físicos e morais, somos chamados a dar testemunho da verdade que salva o mundo, da justiça que liberta os povos da opressão, da esperança que indica a todos o caminho da paz.

No seu estilo profético, as palavras de Jesus atestam que os desastres e as dores da história têm um fim, enquanto a alegria daqueles que reconhecem n’Ele o Salvador está destinada a durar para sempre. «Pela vossa constância é que sereis salvos»: esta promessa do Senhor infunde-nos a força para resistir a todas as ofensas e aos acontecimentos ameaçadores da história; não ficamos impotentes diante da dor, porque Ele mesmo nos dá «palavras de sabedoria» para praticarmos constantemente o bem com coração ardente.

Caríssimos, ao longo de toda a história da Igreja, são principalmente os mártires que nos lembram que a graça de Deus é capaz de transfigurar até mesmo a violência em sinal de redenção. Por isso, unindo-nos aos nossos irmãos e irmãs que sofrem pelo nome de Jesus, procuremos com confiança a intercessão de Maria, auxílio dos cristãos. Em todas as provações e dificuldades, que a Virgem Santa nos console e sustente.

Resumo do texto do Papa Leão XIV, Angelus, Praça de São Pedro, 16 de Novembro de 2025

Escuta o Papa: Dedicação Basílica de Latrão


Neste dia da Dedicação da Basílica de Latrão, contemplamos o mistério de unidade e comunhão com a Igreja de Roma, chamada a ser a mãe que cuida com solicitude da fé e do caminho dos cristãos espalhados pelo mundo.

A Catedral da Diocese de Roma e, como sabemos, sede do sucessor de Pedro não é apenas uma obra de extraordinário interesse histórico, artístico e religioso, mas representa o centro propulsor da fé, confiada e guardada pelos Apóstolos, e da sua transmissão ao longo da história. A grandeza deste mistério brilha também no esplendor artístico do edifício que, precisamente na nave central, acolhe doze grandes imagens dos Apóstolos, primeiros seguidores de Cristo e testemunhas do Evangelho.

Isto remete para uma visão espiritual, que nos ajuda a ir além da aparência exterior, compreendendo no mistério da Igreja muito mais do que um simples lugar, um espaço físico, uma construção feita de pedras; na verdade, como nos recorda o Evangelho, no episódio da purificação do Templo de Jerusalém, realizada por Jesus (cf. Jo 2, 13-22), o verdadeiro santuário de Deus é Cristo morto e ressuscitado. Ele é o único mediador da salvação, o único Redentor, Aquele que, unindo-se à nossa humanidade e transformando-nos com o seu amor, representa a porta (cf. Jo 10, 9) que se escancara para nós e nos conduz ao Pai.

Unidos a Ele, também nós somos pedras vivas deste edifício espiritual (cf. 1 Pe 2, 4-5). Somos a Igreja de Cristo, o seu corpo, os seus membros chamados a difundir no mundo o seu Evangelho de misericórdia, consolação e paz, através daquele culto espiritual que deve resplandecer em primeiro lugar no nosso testemunho de vida.

Irmãos e irmãs, é para este olhar espiritual que devemos treinar o nosso coração. Muitas vezes, as fragilidades e os erros dos cristãos, a par de tantos lugares-comuns e preconceitos, impedem-nos de compreender a riqueza do mistério da Igreja. Efetivamente, a sua santidade não reside nos nossos méritos, mas na «liberalidade da entrega do Senhor que nunca foi revogada» e que continua a escolher «como recetáculo da sua presença, num amor paradoxal, também e precisamente as mãos sujas dos homens» (J. Ratzinger, Introdução ao Cristianismo).

Caminhemos, pois, na alegria de sermos o Povo santo que Deus escolheu e invoquemos Maria, Mãe da Igreja, para que nos ajude a acolher Cristo e nos acompanhe com a sua intercessão.

Resumo do texto do Papa Leão XIV, Angelus, Praça de São Pedro, 9 de Novembro de 2025

Escuta o Papa: Todos os fiéis defuntos


Nestes primeiros dias de novembro, a ressurreição de Jesus, o Crucificado, ilumina o destino de cada um de nós. Ele mesmo no-lo disse: «A vontade daquele que me enviou é esta: que Eu não perca nenhum daqueles que Ele me deu, mas o ressuscite no último dia» (Jo 6, 39). Por conseguinte, o centro das preocupações de Deus torna-se claro: que ninguém se perca para sempre e que cada um tenha o seu lugar, brilhando em toda a sua unicidade.

É o mistério que celebrámos ontem, na Solenidade de Todos os Santos: uma comunhão de diferenças que, por assim dizer, alarga a vida de Deus a todos os filhos e filhas que desejaram fazer parte dela. É o desejo inscrito no coração de cada ser humano, que pede reconhecimento, atenção e alegria. Como escreveu o Papa Bento XVI, a expressão “vida eterna” pretende dar um nome a esta espera irreprimível: não uma sucessão [de tempo] sem fim, mas o mergulhar no oceano do amor infinito, no qual o tempo, o antes e o depois já não existem. Uma plenitude de vida e de alegria: é isto que esperamos e aguardamos do nosso estar com Cristo (cf. Carta enc. Spe salvi, 12).

Assim, a Comemoração de todos os fiéis defuntos aproxima-nos ainda mais do mistério. Com efeito, conhecemos interiormente a preocupação de Deus em não perder ninguém, sempre que a morte parece fazer-nos perder para sempre uma voz, um rosto, um mundo inteiro. Na verdade, cada pessoa é um mundo inteiro. O dia de hoje, portanto, é um dia que desafia a memória humana, tão preciosa e tão frágil. Sem a memória de Jesus – da sua vida, morte e ressurreição – o imenso tesouro de cada vida fica sujeito ao esquecimento. Porém, na memória viva de Jesus, mesmo aqueles de quem ninguém se lembra, mesmo aqueles que a história parece ter apagado, emergem na sua dignidade infinita. Jesus, a pedra que os construtores desprezaram, é agora pedra angular (cf. Act 4, 11). Eis o anúncio pascal. Por isso, os cristãos recordam desde sempre os defuntos em cada Eucaristia e, até ao dia de hoje, pedem que os seus entes queridos sejam mencionados na oração eucarística. Desse anúncio nasce a esperança de que ninguém se perderá.

A visita ao cemitério, onde o silêncio interrompe a agitação dos nossos tantos afazeres, seja para todos um convite  à memória e à esperança. Professamos no Credo: «Espero a ressurreição dos mortos e a vida do mundo que há de vir». Comemoremos, pois, o futuro. Não fiquemos presos ao passado, às lágrimas da nostalgia. Nem tampouco estejamos encerrados no presente, como num túmulo. Que a voz familiar de Jesus nos alcance, e alcance a todos, porque é a única que vem do futuro. Ele chama-nos pelo nome, prepara-nos um lugar, liberta-nos do sentido da impotência com o qual corremos o risco de renunciar à vida. Maria, mulher do sábado santo, nos ensine de novo a ter esperança.

Resumo do texto do Papa Leão XIV,  Angelus, Praça de São Pedro, 2 de Novembro de 2025

Escuta o Papa: 30º Domingo T.Comum


Hoje, o Evangelho apresenta-nos dois personagens que rezam no Templo, um fariseu e um publicano. (Lc 18, 9-14) 

O primeiro ostenta uma longa lista de méritos. As boas obras que realiza são muitas e, por isso, considera-se melhor do que os outros, a quem julga com desdém. Mantém-se de pé, com a cabeça erguida. A sua atitude é claramente presunçosa: denota certamente uma observância rigorosa da Lei, mas pobre em amor e desprovida de misericórdia, feita de “dar” e “ter”, de débitos e créditos.

O publicano também está a rezar, mas de uma forma bastante diferente. Há muito nele a ser perdoado: é um cobrador de impostos ao serviço do Império Romano e trabalha com um contrato de adjudicação que lhe permite especular sobre os rendimentos em detrimento dos seus próprios compatriotas. No entanto, no final da parábola, Jesus diz-nos que, entre os dois, é ele quem volta para casa “justificado”, ou seja, perdoado e renovado pelo encontro com Deus. Porquê?

Em primeiro lugar, o publicano tem a coragem e a humildade de se apresentar diante de Deus. Ele não se fecha no seu mundo, nem se conforma com o mal que fez; deixa os lugares onde se sente seguro e é temido, protegido pelo poder que exerce sobre os outros; vai ao Templo sozinho, sem escolta, mesmo que isso signifique enfrentar olhares severos e julgamentos mordazes, e coloca-se diante do Senhor, no fundo, com a cabeça baixa, pronunciando poucas palavras: «Ó Deus, tem piedade de mim, que sou pecador». 

Assim, Jesus transmite-nos uma mensagem poderosa: não é ostentando os nossos méritos que nos salvamos, nem escondendo os nossos erros, mas apresentando-nos tal como somos, honestamente, diante de Deus, de nós mesmos e dos outros, pedindo perdão e confiando na graça do Senhor. Comentando este episódio, Santo Agostinho compara o fariseu a um doente que, por vergonha e orgulho, esconde as suas feridas do médico, e o publicano a outro que, com humildade e sabedoria, expõe ao doutor as suas feridas, por mais desagradáveis que sejam, pedindo ajuda. E conclui: «Não nos surpreende […] que aquele publicano, que não teve vergonha de mostrar a sua parte doente, tenha voltado […] curado» (Sermão 351,1).

Façamos o mesmo, queridos irmãos e irmãs. Não tenhamos medo de reconhecer os nossos erros, de os expor, assumindo a responsabilidade por eles e confiando-os à misericórdia de Deus. Deste modo, poderá crescer, em nós e à nossa volta, o seu Reino, que não pertence aos soberbos, mas aos humildes, e que se cultiva, na oração e na vida, através da honestidade, do perdão e da gratidão.

Peçamos a Maria, modelo de santidade, que nos ajude a crescer nessas virtudes.

Resumo do texto do Papa Leão XIV,  Angelus, Praça de São Pedro, 26 de Outubro de 2025

Escuta o Papa: 28º Domingo T.Comum


O apóstolo Paulo dirige-se hoje a cada um de nós, como a Timóteo. […] Acorrentado «como se fosse um malfeitor», Paulo recomenda-nos que não percamos o centro, que não esvaziemos o nome de Jesus da sua história, da sua cruz. […] Jesus é a fidelidade de Deus, a fidelidade de Deus a si mesmo. É preciso, portanto, que o domingo nos faça cristãos, ou seja, que encha o nosso sentir e o nosso pensar com a memória incandescente de Jesus, modificando a nossa convivência, a nossa habitação na terra.[…] 

A leitura do Segundo Livro dos Reis (5, 14-17) recordou-nos a cura de Naamã, o Sírio. […] Caríssimos, «a palavra de Deus é viva, eficaz e mais afiada que uma espada de dois gumes […]». Assim, o Papa Francisco viu, por sua vez, na história de Naamã, […] uma palavra penetrante e atual para a vida da Igreja. Falando à Cúria Romana, disse: «Este homem vive um drama terrível: é leproso. A sua armadura, a mesma que lhe proporciona fama, na realidade cobre uma humanidade frágil, ferida, doente. Esta contradição, encontramo-la frequentemente na nossa vida: às vezes, os grandes dons constituem a armadura para encobrir grandes fragilidades. […] Se Naaman tivesse continuado apenas a acumular medalhas para dependurar na sua armadura, acabaria por ser consumido pela lepra: aparentemente vivo, sim, mas fechado e isolado na sua doença».

Jesus liberta-nos desse perigo; Ele que não usa armaduras, mas nasce e morre nu; Ele que oferece o seu dom sem obrigar os leprosos curados a reconhecê-lo: apenas um samaritano, no Evangelho, parece perceber que foi salvo (cf. Lc 17, 11-19). Talvez, quanto menos títulos se possa ostentar, mais claro aparece que o amor é gratuito. Deus é puro dom, somente graça. […]

Com efeito, os leprosos que, no Evangelho, não voltam para agradecer lembram-nos que a graça de Deus também pode vir até nós e não encontrar resposta, pode curar-nos e não nos envolver. Tenhamos cuidado, portanto, com aquele subir ao templo que não nos faz seguir Jesus. Existem formas de culto que não nos ligam aos outros e anestesiam o nosso coração. Então, não vivemos verdadeiros encontros com aqueles que Deus coloca no nosso caminho; não participamos, como fez Maria, na mudança do mundo e na alegria do Magnificat. […] 

O caminho de Maria é seguir Jesus, e o caminho de Jesus é dirigir-se a todos os seres humanos, especialmente aos pobres, aos feridos, aos pecadores. Por isso, a autêntica espiritualidade mariana torna atual na Igreja a ternura de Deus, a sua maternidade. […] «Sempre que olhamos para Maria, voltamos a acreditar na força revolucionária da ternura e do afeto. N’Ela, vemos que a humildade e a ternura não são virtudes dos fracos, mas dos fortes, que não precisam de maltratar os outros para se sentir importantes.» (n. 288).[…] 

Que Maria Santíssima, nossa esperança, interceda por nós e oriente-nos sempre e para sempre para Jesus, o Senhor crucificado. N’Ele, há salvação para todos.

Resumo do texto do Papa Leão XIV, Homilia, Praça de São Pedro, 12 de Outubro de 2025

Escuta o Papa: 27º Domingo T.Comum


Hoje celebramos o Jubileu do mundo Missionário e dos Migrantes. É uma bonita ocasião para reavivar em nós a consciência da vocação missionária, que nasce do desejo de levar a alegria e a consolação do Evangelho a todos, especialmente a quem está a viver uma história difícil e ferida. Penso em particular nos irmãos migrantes, que tiveram de abandonar a sua terra, muitas vezes deixando os seus entes queridos, atravessando noites de medo e solidão, vivendo na pele a discriminação e a violência. […] Perante estes cenários sombrios, ressurge o grito que tantas vezes na história se elevou a Deus. […] Esta manhã, ouvimos do profeta Habacuque: «Até quando, Senhor, pedirei socorro, sem que me escuteis? […] Porque me fazeis ver a iniquidade e contemplar a desgraça?» (Hab 1, 2.3). […]A resposta do Senhor, porém, abre-nos à esperança. Se o profeta denuncia a força inevitável do mal que parece prevalecer, o Senhor, por sua vez, anuncia-lhe que tudo isso terá um fim, […] porque a salvação virá e não tardará: «Eis que sucumbe o que não tem a alma reta, mas o justo viverá pela sua fidelidade». (Hab 2, 4).

Existe […] uma nova possibilidade de vida e salvação que provém da fé, porque ela não só nos ajuda a resistir ao mal, […] mas transforma a nossa existência de tal forma que a torna um instrumento da salvação que Deus ainda hoje quer realizar no mundo. Trata-se, como nos diz Jesus no Evangelho, da força da mansidão: a fé não se impõe com os meios do poder […]; basta que seja como um grão de mostarda para fazer coisas impensáveis (Lc 17, 6), porque traz em si a força do amor de Deus que abre caminhos de salvação.  É uma salvação que se realiza quando nos comprometemos pessoalmente e nos interessamos, com a compaixão do Evangelho, pelo sofrimento do próximo; é uma salvação que, silenciosa e aparentemente ineficaz, abre caminho através dos gestos e das palavras quotidianas, que se tornam como a pequena semente de que nos fala Jesus; é uma salvação que cresce lentamente quando nos tornamos “servos inúteis”, ou seja, quando nos colocamos ao serviço do Evangelho e dos irmãos sem procurar os nossos interesses […].

Com essa confiança, somos chamados a renovar em nós o fogo da vocação missionária. […] Irmãos e irmãs, […] se durante muito tempo associámos a missão ao “partir”, ao ir para terras distantes que não conheciam o Evangelho […], hoje as fronteiras da missão já não são geográficas, porque a pobreza, o sofrimento e o desejo de uma esperança maior vêm ao nosso encontro. […] Não se trata tanto de “partir”, mas sim de “ficar” para anunciar Cristo através do acolhimento, da compaixão e da solidariedade: ficar sem nos refugiarmos no conforto do nosso individualismo, ficar para olhar nos olhos aqueles que chegam de terras distantes e martirizadas, ficar para lhes abrir os braços e o coração, para os acolher como irmãos e ser para eles uma presença de consolação e esperança. […] 

Resumo do texto do Papa Leão XIV, Homilia, Praça de São Pedro, 5 de Outubro de 2025

Escuta o Papa: 26º Domingo T.Comum


As palavras de Jesus falam-nos de como Deus olha para o mundo, em todos os tempos e lugares. No Evangelho que ouvimos (Lc 16, 19-31), os seus olhos observam: um pobre e um rico; quem morre de fome e quem diante dele se banqueteia; as vestes elegantes dum e, doutro, as chagas que os cães lambiam. Mas não só: o Senhor vê o coração dos homens e, através dos seus olhos, nós mesmos reconhecemos um indigente e um indiferente. Lázaro é esquecido por quem está à sua frente, mesmo à porta de casa, no entanto Deus está perto dele e lembra-se do seu nome. Não tem nome, porém, o homem que vive na abundância, porque se perde a si mesmo, esquecendo-se do próximo. Está perdido nos pensamentos do seu coração, cheio de coisas mas vazio de amor. Os seus bens não o tornam bom.

Infelizmente, a história que Cristo nos conta é muito atual. Às portas da opulência jaz hoje a miséria de povos inteiros, atormentados pela guerra e pela exploração. Com o passar dos séculos, parece que nada mudou: quantos Lázaros morrem diante da sofreguidão que esquece a justiça, do lucro que espezinha a caridade, da riqueza cega diante da dor dos miseráveis! No entanto, o Evangelho assegura que os sofrimentos de Lázaro têm um fim. As suas dores terminam, tal como terminam os festins do rico, e Deus faz justiça a ambos: «O pobre morreu e foi levado pelos anjos ao seio de Abraão. Morreu também o rico e foi sepultado». Sem se cansar, a Igreja anuncia esta palavra do Senhor, para que converta os nossos corações.

[…] Podemos refletir sobre o diálogo entre o homem rico e Abraão, que ouvimos no Evangelho: trata-se de uma súplica que o rico faz para salvar os seus irmãos. […] Ao falar com Abraão, ele afirma: «Se algum dos mortos for ter com eles, hão de arrepender-se». E Abraão responde: «Se não dão ouvidos a Moisés e aos Profetas, tão-pouco se deixarão convencer, se alguém ressuscitar dentre os mortos». […] As palavras da Escritura não querem, então, desiludir ou desanimar-nos, mas despertam a nossa consciência. Escutar Moisés e os Profetas significa recordar os mandamentos e as promessas de Deus, cuja providência nunca abandona ninguém. O Evangelho anuncia-nos que a vida de todos pode mudar, porque Cristo ressuscitou dos mortos. Este acontecimento é a verdade que nos salva: por isso, deve ser conhecida e anunciada. Mas não basta. Deve ser amada: é este amor que nos leva a compreender o Evangelho, porque nos transforma, abrindo o coração à palavra de Deus e ao rosto do próximo.

A este respeito, vós, catequistas, sois aqueles discípulos de Jesus que se tornam suas testemunhas: o nome do ministério que exerceis vem do verbo grego katēchein, que significa […] fazer ressoar. […] Todos nós fomos educados na fé através do testemunho daqueles que acreditaram antes de nós.[…] É assim que os catequistas ensinam, ou seja, deixam um sinal interior: quando educamos na fé, não damos uma lição, mas plantamos no coração a palavra da vida, para que ela dê frutos de vida boa. Ao diácono Deogratias, que lhe perguntou como ser um bom catequista, Santo Agostinho respondeu: «Expõe tudo de modo que quem te ouça, ouvindo, acredite; acreditando, espere; e esperando, ame».

Queridos irmãos e irmãs, […] lembremo-nos: ninguém dá o que não tem. Se o rico do Evangelho tivesse caridade para com Lázaro, teria feito o bem, não só ao pobre, mas também a si mesmo. […] Quando também nós somos tentados pela ganância e pela indiferença, os muitos Lázaros de hoje recordam-nos a palavra de Jesus, tornando-se para nós uma ainda mais eficaz catequese durante este Jubileu, que é para todos tempo de conversão e perdão, de empenho pela justiça e de busca sincera da paz.

Resumo do texto do Papa Leão XIV, Homilia, Praça de São Pedro, 28 de Setembro de 2025

Escuta o Papa: 25º Domingo T.Comum


A parábola que hoje ouvimos no Evangelho (Lc 16, 1-13) faz-nos refletir sobre o uso dos bens materiais e, de um modo geral, sobre como temos administrado o bem mais precioso de todos, que é a nossa própria vida. Nesta história, vemos que um administrador é chamado pelo seu senhor a «prestar contas». Trata-se duma imagem que nos diz algo importante: não somos senhores da nossa vida nem dos bens de que gozamos; tudo nos foi dado como dom pelo Senhor, que confiou este património ao nosso cuidado, à nossa liberdade e responsabilidade. Um dia seremos chamados a prestar contas do modo como administramos a nossa vida, os nossos bens e os recursos da terra, tanto perante Deus como perante os seres humanos, a sociedade e, sobretudo, aqueles que virão depois de nós.

O administrador da parábola procurava simplesmente o próprio lucro mas, ao chegar o dia em que a administração lhe é retirada e tem de prestar contas, deve pensar no que fazer em relação ao seu futuro. Nessa situação difícil, ele compreende que o mais importante não é a acumulação de bens materiais, porque as riquezas deste mundo são passageiras; então, concebe uma ideia brilhante: chama os devedores e «abate» as suas dívidas, renunciando portanto à parte que lhe caberia. Desta maneira, ele perde riqueza material, mas ganha amigos, que estarão prontos para o ajudar e apoiar.

A partir desta história, Jesus exorta-nos: «Arranjai amigos com o dinheiro desonesto, para que, quando este faltar, eles vos recebam nas moradas eternas». Com efeito, se o administrador da parábola, mesmo na gestão da riqueza desonesta deste mundo, consegue encontrar uma maneira de fazer amigos, saindo da solidão do seu egoísmo, mais ainda nós, que somos discípulos e vivemos à luz do Evangelho, devemos usar os bens do mundo e a nossa própria vida pensando na verdadeira riqueza, que é a amizade com o Senhor e com os irmãos.

Caríssimos, a parábola convida a perguntarmo-nos: como estamos a administrar os bens materiais, os recursos da terra e a vida que Deus nos confiou? Podemos seguir o critério do egoísmo, colocando a riqueza em primeiro lugar e pensando apenas em nós mesmos; mas isto isola-nos dos outros e espalha o veneno de uma competição que muitas vezes gera conflitos. Ou podemos reconhecer tudo o que temos como um dom de Deus a ser administrado, e usá-lo como instrumento de partilha para criar redes de amizade e solidariedade, para edificar o bem, para construir um mundo mais justo, equitativo e fraterno.

Rezemos à Santíssima Virgem, para que interceda por nós e nos ajude a administrar bem o que o Senhor nos confia, com justiça e responsabilidade

Texto do Papa Leão XIV, Angelus, Praça de São Pedro, 21 de Setembro de 2025