Não basta não matar fisicamente uma pessoa


Hoje ouvimos no Evangelho uma parte do “sermão da montanha” (Mt 5, 17-37). Depois de proclamar as Bem-aventuranças, Jesus convida-nos a entrar na novidade do Reino de Deus e, para nos guiar neste caminho, revela o verdadeiro significado dos preceitos da Lei de Moisés: eles não servem para satisfazer uma necessidade religiosa exterior a fim de nos sentirmos bem diante de Deus, mas para nos fazer entrar na relação de amor com Deus e com os irmãos. Por isso, Jesus diz que não veio para abolir a Lei, «mas para levá-la à perfeição».

O cumprimento da Lei é precisamente o amor, que realiza o seu significado profundo e o seu fim último. Trata-se de adquirir uma “justiça superior” à dos escribas e fariseus, uma justiça que não se limita a observar os mandamentos, mas nos abre ao amor e nos compromete com ele. Na verdade, Jesus examina precisamente alguns preceitos da Lei que se referem a casos concretos da vida e utiliza uma fórmula linguística – as antinomias – precisamente para mostrar a diferença entre uma justiça religiosa formal e a justiça do Reino de Deus: por um lado: «Ouvistes o que foi dito aos antigos», e, por outro lado, Jesus que afirma: «Eu, porém, digo-vos».

Esta abordagem é muito importante. Ela diz-nos que a Lei foi dada a Moisés e aos profetas como um caminho para começarmos a conhecer Deus e o seu projeto sobre nós e sobre a história ou, para usar uma expressão de São Paulo, como um pedagogo que nos guiou até Ele (cf. Gal 3, 23-25). Mas agora Ele mesmo, na pessoa de Jesus, veio entre nós, que cumpriu a Lei, tornando-nos filhos do Pai e dando-nos a graça de entrar em relação com Ele como filhos e como irmãos entre nós.

Irmãos e irmãs, Jesus ensina-nos que a verdadeira justiça é o amor e que, em cada preceito da Lei, devemos perceber uma exigência de amor. Com efeito, não basta não matar fisicamente uma pessoa, se depois a matamos com palavras ou não respeitamos a sua dignidade. Da mesma forma, não basta ser formalmente fiel ao cônjuge e não cometer adultério, se nesta relação faltam a ternura recíproca, a escuta, o respeito, o cuidado mútuo e o caminhar juntos num projeto comum. A estes exemplos, que o próprio Jesus nos oferece, poderíamos acrescentar outros ainda. O Evangelho oferece-nos este precioso ensinamento: não basta uma justiça mínima, é preciso um amor grande, que é possível graças à força de Deus.

Invoquemos juntos a Virgem Maria, que deu ao mundo o Cristo, Aquele que leva à perfeição a Lei e o projeto da salvação: que Ela interceda por nós, nos ajude a entrar na lógica do Reino de Deus e a viver a sua justiça.

Texto do Papa Leão XIV, Angelus, Praça de São Pedro, 15 de fevereiro de 2026

Um Deus que nunca nos descartará


Depois de ter proclamado as Bem-aventuranças, Jesus dirige-se àqueles que as vivem, dizendo que, graças a eles, a terra já não é a mesma e o mundo já não está na escuridão. «Vós sois o sal da terra. […] Vós sois a luz do mundo» (Mt 5, 13-14). Na verdade, é a verdadeira alegria que dá sabor à vida e traz à luz o que antes não existia. Esta alegria irradia de um estilo de vida, de um modo de habitar a terra e de viver juntos que deve ser desejado e escolhido. É a vida que resplandece em Jesus, o novo sabor dos seus gestos e das suas palavras. Depois de O termos encontrado, parece insípido e opaco tudo o que se afasta da sua pobreza de espírito, da sua mansidão e simplicidade de coração, da sua fome e sede de justiça, que despertam misericórdia e paz como dinâmicas de transformação e reconciliação.

O profeta Isaías apresenta uma lista de gestos concretos que põem fim à injustiça: partilhar o pão com o faminto, acolher em casa os miseráveis, os sem-abrigo, vestir quem vemos nu, sem esquecer os vizinhos e as pessoas da nossa casa (Is 58, 7). «Então – continua o profeta – a tua luz surgirá como a aurora, e as tuas feridas não tardarão a cicatrizar-se». Por um lado, a luz, aquela que não se pode esconder, porque é grande como o sol que todas as manhãs afugenta as trevas; por outro lado, uma ferida, que antes ardia e agora está a cicatrizar.

É doloroso, com efeito, perder o sabor e renunciar à alegria; no entanto, é possível ter esta ferida no coração. Jesus parece avisar quem o escuta, para que não renuncie à alegria. O sal que perdeu o sabor, diz ele, «não serve para mais nada, senão para ser lançado fora e ser pisado pelos homens» (Mt 5, 13).

Quantas pessoas – e talvez já tenha acontecido também conosco – se sentem descartáveis, imperfeitas. É como se a sua luz tivesse sido escondida. Jesus, porém, anuncia-nos um Deus que nunca nos descartará, um Pai que guarda o nosso nome, a nossa singularidade. Qualquer ferida, mesmo a mais profunda, será curada ao acolhermos a palavra das Bem-aventuranças e ao voltarmos a caminhar pela via do Evangelho.

Realmente, são os gestos de abertura aos outros e de atenção, aqueles que reacendem a alegria. Com certeza que, na sua simplicidade, eles nos colocam em contracorrente. O próprio Jesus, no deserto, foi tentado por outros caminhos: afirmar a sua identidade, exibi-la, ter o mundo a seus pés. No entanto, rejeitou os caminhos em que perderia o seu verdadeiro sabor, o qual encontramos todos os domingos no Pão partido: a vida doada, o amor que não faz barulho.

Irmãos e irmãs, deixemo-nos alimentar e iluminar pela comunhão com Jesus. Sem qualquer tipo de ostentação, seremos como uma cidade no monte, não apenas visível, mas também convidativa e hospitaleira: a cidade de Deus, onde, no fundo, todos desejam habitar e encontrar a paz. A Maria, Porta do Céu, dirijamos agora o nosso olhar e oração, para que nos ajude a tornarmo-nos e a permanecermos discípulos do seu Filho.

Texto do Papa Leão XIV,  Angelus, Praça de São Pedro, 8 de fevereiro de 2026

Cristo é o pobre que partilha a sua vida 


Na liturgia de hoje, é proclamada uma página esplêndida da Boa Nova que Jesus anuncia a toda a humanidade: o Evangelho das Bem-aventuranças (Mt 5, 1-12). Realmente, elas são luzes que o Senhor acende na penumbra da história, revelando o projeto de salvação que o Pai realiza por meio do Filho, com o poder do Espírito Santo.

No monte, Cristo entrega aos discípulos a nova lei, não já aquela escrita em pedras, mas nos corações: é uma lei que renova a nossa vida, tornando-a boa, mesmo quando para o mundo parece fracassada e miserável. Só Deus pode verdadeiramente chamar de bem-aventurados os pobres e os aflitos, porque Ele é o bem supremo que se doa a todos com amor infinito. Só Deus pode saciar aqueles que buscam paz e justiça, porque Ele é o justo juiz do mundo, autor da paz eterna. Só em Deus os mansos, os misericordiosos e os puros de coração encontram alegria, porque Ele é a realização da sua expectativa. Na perseguição, Deus é fonte de redenção; na mentira, é âncora da verdade. Por isso, Jesus proclama: «Exultai e alegrai-vos».

Estas Bem-aventuranças permanecem um paradoxo apenas para aqueles que acreditam que Deus é diferente do modo como Cristo o revela. Quem espera que os prepotentes continuarão sempre senhores da terra, surpreende-se com as palavras do Senhor. Quem se acostuma a pensar que a felicidade pertence aos ricos, pode acreditar que Jesus é um iludido. Mas a ilusão está precisamente na falta de fé em Cristo: Ele é o pobre que com todos partilha a sua vida, o manso que persevera na dor, o construtor da paz perseguido até à morte na cruz.

É assim que Jesus ilumina o sentido da história: não aquela escrita pelos vencedores, mas a que Deus realiza salvando os oprimidos. O Filho olha para o mundo com o realismo do amor do Pai; do outro lado estão, como dizia o Papa Francisco, «os profissionais da ilusão. Não devemos segui-los porque eles são incapazes de nos dar esperança» (link). Deus, ao contrário, doa esta esperança em primeiro lugar a quem o mundo descarta como caso perdido.

Queridos irmãos e irmãs, as Bem-aventuranças tornam-se para nós então uma prova de felicidade, levando-nos a perguntar-nos se a consideramos como uma conquista que se compra ou um dom que se partilha; se a depositamos em objetos que se consomem ou em relações que nos acompanham. Na verdade, é “por causa de Cristo” e graças a Ele que a amargura das provações se transforma na alegria dos redimidos: Jesus não fala de uma consolação distante, mas de uma graça constante que sempre nos sustenta, principalmente na hora da aflição.

As Bem-aventuranças exaltam os humildes e dispersam os soberbos. Por isso, peçamos a intercessão da Virgem Maria, a serva do Senhor, que todas as gerações chamam bem-aventurada.

Texto do Papa Leão XIV,  Angelus, Praça de São Pedro, 1 de fevereiro de 2026

Deus não exclui ninguém


Tendo recebido o batismo, Jesus inicia a sua pregação e chama os primeiros discípulos: Simão – conhecido como Pedro –, André, Tiago e João (Mt 4, 12-22). Ao observar atentamente esta passagem do Evangelho de hoje, podemos fazer duas perguntas: uma sobre o tempo em que Jesus começa a sua missão e outra sobre o lugar que escolhe para pregar e chamar os apóstolos. Perguntemo-nos: quando começa? Onde começa

Em primeiro lugar, o Evangelista conta-nos que Jesus, «tendo ouvido dizer que João fora preso», começou a sua pregação. Esta ocorre, portanto, num momento que não parece ser o melhor: João Batista acabava de ser preso e, por isso, os líderes do povo estão pouco dispostos a acolher a novidade do Messias. Trata-se de um tempo que recomendaria prudência, mas é precisamente nesta situação obscura que Jesus começa a trazer a luz da boa nova: «Está próximo o Reino do Céu».

Também na nossa vida pessoal e eclesial, por vezes devido a resistências interiores ou a circunstâncias que consideramos desfavoráveis, pensamos não ser o momento certo para anunciar o Evangelho, para tomar uma decisão, para fazer uma escolha, para mudar uma situação. Porém, o risco é ficarmos paralisados pela indecisão ou prisioneiros de uma prudência excessiva, quando o Evangelho nos pede o risco da confiança: Deus trabalha em todo o tempo, sendo bom qualquer momento para o Senhor, mesmo se não nos sentimos preparados ou se a situação não parece ser a melhor.

O relato evangélico também nos mostra o lugar onde Jesus começa a sua missão pública: Ele, «abandonando Nazaré, foi habitar em Cafarnaúm». Permanece contudo na Galileia, um território habitado principalmente por pagãos, que, devido ao comércio, é também uma terra de passagem e de encontros; poderíamos dizer que é um território multicultural, atravessado por pessoas com origens e filiações religiosas diferentes. O Evangelho diz-nos, desta forma, que o Messias vem de Israel, mas ultrapassa as fronteiras da sua terra para anunciar o Deus que se aproxima de todos, não exclui ninguém e não veio apenas para os puros, antes pelo contrário, envolve-se nas situações e nas relações humanas. Também nós, cristãos, devemos vencer a tentação de nos fecharmos: o Evangelho deve ser anunciado e vivido em todas as circunstâncias e ambientes, para que seja fermento de fraternidade e paz entre as pessoas, as culturas, as religiões e os povos.

Irmãos e irmãs, tal como os primeiros discípulos, somos convidados a acolher o chamamento do Senhor, na alegria de saber que cada tempo e cada lugar da nossa vida são visitados por Ele e atravessados pelo seu amor. Rezemos à Virgem Maria, para que nos conceda esta confiança interior e nos acompanhe ao longo do caminho.

Texto do Papa Leão XIV,  Angelus, Praça de São Pedro, 25 de janeiro de 2026

Não nos deixemos distrair enquanto Ele passa


Hoje, o Evangelho (Jo 1, 29-34) fala-nos de João Batista, que reconhece em Jesus o Cordeiro de Deus, o Messias, dizendo: «Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!»; e acrescenta: «Foi para Ele se manifestar a Israel que eu vim batizar com água».

João reconhece em Jesus o Salvador, proclama a sua divindade e missão em favor do povo de Israel e depois, tendo cumprido a sua tarefa, afasta-se, como atestam estas suas palavras: «Depois de mim vem um homem que me passou à frente, porque existia antes de mim»

João Batista é um homem muito amado pelas multidões, a ponto de ser temido pelas autoridades de Jerusalém. Teria sido fácil explorar esta fama, mas ele não cede de forma alguma à tentação do sucesso e da popularidade. Diante de Jesus, reconhece a própria pequenez e abre espaço para a grandeza d’Ele. Sabe que foi enviado para preparar o caminho do Senhor e, quando o Senhor vem, reconhece com alegria e humildade a sua presença, retirando-se de cena.

Quão importante é para nós, hoje, o seu testemunho! Realmente, muitas vezes é dada uma demasiada importância à aprovação, ao consenso e à visibilidade, a ponto de condicionar as ideias, os comportamentos e os estados de espírito das pessoas, causando sofrimento e divisões, criando estilos de vida e de relacionamento efémeros, decepcionantes e aprisionadores. Na realidade, não precisamos desses “substitutos de felicidade”. A nossa alegria e grandeza não se baseiam em ilusões passageiras de sucesso e fama, mas em saber-nos amados e queridos pelo nosso Pai que está nos céus. É o amor de que Jesus nos fala: o amor de um Deus que ainda hoje vem estar no meio de nós, não para nos surpreender com efeitos especiais, mas para partilhar o nosso cansaço e assumir os nossos fardos, revelando-nos quem realmente somos e quanto valemos a seus olhos.

Caríssimos, não nos deixemos distrair enquanto Ele passa. Não desperdicemos tempo e energia buscando o que é apenas aparência. Aprendamos com João Batista a manter o espírito vigilante, amando as coisas simples e as palavras sinceras, vivendo com sobriedade e profundidade de mente e coração, contentando-nos com o necessário e encontrando, de preferência todos os dias, um momento especial para nos determos em silêncio a rezar, refletir, escutar, enfim, “fazer deserto”, a fim de encontrar o Senhor e estar com Ele.

Que em tudo isto nos ajude a Virgem Maria, modelo de simplicidade, sabedoria e humildade.

Texto do Papa Leão XIV, Angelus, Praça de São Pedro, 18 de janeiro de 2025

A paz existe e já está no meio de nós


«Irrompei juntos em cânticos de alegria» (Is 52, 7-10), brada o mensageiro da paz a todos aqueles que se encontram entre as ruínas de uma cidade inteiramente por reconstruir. Embora empoeirados e feridos, os seus pés são formosos – escreve o profeta –, porque, por estradas longas e irregulares, trouxeram uma alegre notícia, na qual tudo agora renasce. É um novo dia! Também nós participamos nesta mudança, na qual ninguém parece ainda acreditar: a paz existe e já está no meio de nós.

«Deixo-vos a paz; dou-vos a minha paz. Não é como a dá o mundo, que Eu vo-la dou» (Jo 14, 27). Assim disse Jesus aos discípulos, a quem acabara de lavar os pés, mensageiros da paz que, a partir daquele momento, deveriam percorrer o mundo, sem se cansar, para revelar a todos «o poder de se tornarem filhos de Deus» (Jo 1, 1-18). Hoje, portanto, não só nos surpreendemos com a paz que já está aqui, mas celebramos como este dom nos foi dado. […] o Verbo de Deus […] vem até nós como um recém-nascido que apenas chora e dá vagidos. 

«Fez-se carne» e, embora crescerá […], agora fala apenas a sua presença simples e frágil. «Carne» é a nudez radical à qual, em Belém e no Calvário, falta até a palavra;  como a não têm muitos irmãos e irmãs despojados da sua dignidade e reduzidos ao silêncio. A carne humana pede cuidados, invoca acolhimento e reconhecimento, procura mãos capazes de ternura e mentes dispostas à atenção […].

«Veio para o que era seu, e os seus não o receberam. Mas, a quantos o receberam, aos que nele creem, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus». Eis a forma paradoxal segundo a qual a paz já está entre nós: o dom de Deus envolve-nos, procura acolhimento e mobiliza a dedicação. Surpreende-nos porque se expõe à rejeição, encanta-nos porque nos arranca da indiferença. […] Como escreveu o amado Papa Francisco […]: «Às vezes sentimos a tentação de ser cristãos, mantendo uma prudente distância das chagas do Senhor. Mas Jesus quer que toquemos a miséria humana, que toquemos a carne sofredora dos outros. […] a fim de aceitarmos verdadeiramente entrar em contato com a vida concreta dos outros e conhecermos a força da ternura». (link)

Queridos irmãos e irmãs, uma vez que o Verbo se fez carne, agora a carne fala, brada o desejo divino de nos encontrar. O Verbo ergueu no meio de nós a sua frágil tenda.  E como não pensar nas tendas […] de tantos deslocados e refugiados em todos os continentes ou nos refúgios improvisados de milhares de pessoas sem-abrigo dentro das nossas cidades? Fragilizada se encontra a carne das populações indefesas, provadas por tantas guerras em curso ou concluídas. […] Fragilizadas estão as mentes e as vidas dos jovens obrigados a pegar em armas, que precisamente na frente de batalha percebem a insensatez do que lhes é exigido. […] 

Quando a fraqueza dos outros penetra o nosso coração, quando a dor alheia despedaça as nossas certezas graníticas, então já começa a paz. A paz de Deus nasce de um choro de criança acolhido, de um pranto ouvido: nasce entre ruínas que invocam solidariedades renovadas.  […]

Certamente, o Evangelho não esconde a resistência das trevas à luz, descreve o caminho da Palavra de Deus como uma estrada […] repleta de obstáculos. […] Assim, o Natal motiva novamente uma Igreja missionária […]. Eis o caminho da missão: um caminho em direção ao outro. Em Deus, cada palavra é uma palavra dirigida, é um convite à conversação, uma palavra que nunca é igual a si mesma. […] O contrário é mundano: ter-se a si mesmo como centro.

O movimento da Encarnação é um dinamismo de conversação. Haverá paz quando os nossos monólogos se interromperem e, fecundados pela escuta, cairmos de joelhos diante da carne despojada do outro. Precisamente nisto, a Virgem Maria é a Mãe da Igreja, a Estrela da evangelização, a Rainha da paz. Nela compreendemos que nada nasce da exibição da força e tudo renasce a partir do poder silencioso da vida acolhida.

Resumo do texto do Papa Leão XIV, Homilia, Basílica de São Pedro, 25 de dezembro de 2025

Educar o coração para o encontro com Cristo


Hoje, no quarto  do Advento, a Liturgia convida-nos a meditar sobre a figura de São José, apresentando-no-lo, em particular, no momento em que Deus lhe revela, em sonho, a sua missão (Mt 1, 18-24). Propõe-se-nos, assim, uma página muito bonita da história da salvação, cujo protagonista é um homem frágil e falível como nós, mas, ao mesmo tempo, corajoso e forte na fé.

O evangelista Mateus chama-o de “homem justo”, o que o caracteriza como um piedoso israelita, cumpridor da Lei e assíduo da sinagoga. Além disso, porém, José de Nazaré aparece-nos também como uma pessoa extremamente sensível e humana.

Verificamo-lo quando, diante de uma situação difícil de compreender e aceitar em relação à sua futura esposa, antes mesmo de o Anjo lhe revelar o mistério que se está a realizar em Maria, ele não opta pelo escândalo e pela condenação pública, mas escolhe o caminho discreto e benevolente do repúdio secreto (cf. Mt 1, 19). Mostra, deste modo, compreender o sentido mais profundo da sua própria observância religiosa: o da misericórdia.

Todavia, a pureza e a nobreza dos seus sentimentos tornam-se ainda mais evidentes quando o Senhor, num sonho, lhe revela o seu plano de salvação, indicando o papel inesperado que deverá assumir: ser o esposo da Virgem Mãe do Messias. Aqui, com um grande ato de fé, José abandona também a última margem das suas certezas e faz-se ao largo rumo a um futuro que está agora totalmente nas mãos de Deus. Santo Agostinho descreve desta forma o seu consentimento: «À piedade e caridade de José nasceu da Virgem Maria um filho, e precisamente o Filho de Deus» (Sermão 51, 20.30).

Piedade e caridade, misericórdia e abandono: eis as virtudes do homem de Nazaré que a Liturgia hoje nos propõe, para que nos acompanhem nestes últimos dias do Advento, rumo ao Santo Natal. São atitudes importantes, que educam o coração para o encontro com Cristo e com os irmãos, e que podem ajudar-nos a ser, uns para os outros, presépio acolhedor, casa hospitaleira, sinal da presença de Deus. Neste tempo de graça, não percamos a oportunidade de as praticar: perdoando, encorajando, dando um pouco de esperança às pessoas com quem vivemos e àquelas que encontramos; e renovando na oração o nosso abandono filial ao Senhor e à sua Providência, entregando-lhe tudo com confiança.

Que a Virgem Maria e São José nos ajudem, eles que foram os primeiros a acolher Jesus, o Salvador do mundo, com fé e grande amor.

Texto do Papa Leão XIV, Angelus, Praça de São Pedro, 21  de dezembro de 2025, IV Domingo do Advento

Alegremo-nos porque Jesus é a nossa esperança


O Evangelho de hoje leva-nos a visitar João Batista na prisão, onde se encontra detido por causa da sua pregação (cf. Mt 14, 3-5). Apesar disso, ele não perde a esperança, tornando-se para nós um sinal de que a profecia, embora acorrentada, continua a ser uma voz livre em busca de verdade e justiça.

Na prisão, João Batista ouve «falar das obras de Cristo» (Mt 11, 2), que são diferentes das que ele esperava. Então, manda perguntar-lhe: «És Tu aquele que há de vir, ou devemos esperar outro?» (v. 3). Quem busca a verdade e a justiça, quem espera pela liberdade e pela paz, questiona Jesus. É mesmo Ele o Messias, ou seja, o Salvador prometido por Deus pela boca dos profetas?

A resposta de Jesus orienta o olhar para aqueles que Ele amou e serviu. São eles – os últimos, os pobres, os doentes – que falam por Ele. Cristo anuncia quem Ele é através das suas ações. O que Ele faz é para todos nós um sinal de salvação. Com efeito, quando encontra Jesus, a vida sem luz, sem palavra e sem sabor reencontra sentido: os cegos vêem, os mudos falam, os surdos ouvem. A imagem de Deus, desfigurada pela lepra, recupera integridade e saúde. Até os mortos, totalmente insensíveis, voltam à vida (cf. v. 5). Este é o Evangelho de Jesus, a boa nova anunciada aos pobres: quando Deus vem ao mundo, vê-se!

A palavra de Jesus liberta-nos da prisão do desconforto e do sofrimento: todas as profecias encontram n’Ele o esperado cumprimento. Na verdade, é Cristo quem abre os olhos do homem à glória de Deus. Ele dá voz aos oprimidos, silenciados pela violência e pelo ódio; Ele vence as ideologias, que impedem de ouvir a verdade; Ele cura das aparências que deformam o corpo.

Assim, o Verbo da vida nos redime do mal, que conduz o coração à morte. Portanto, como discípulos do Senhor, somos chamados neste tempo de Advento a unir a espera do Salvador à atenção ao que Deus faz no mundo. Poderemos, então, experimentar a alegria da liberdade que encontra o seu Salvador: «Gaudete in Domino semper – Alegrai-vos sempre no Senhor» (Fl 4, 4). É precisamente com este convite que começa a Santa Missa de hoje, terceiro domingo do Advento, chamado por isso domingo Gaudete. Alegremo-nos, pois, porque Jesus é a nossa esperança, sobretudo nas horas de provação, quando a vida parece perder sentido e tudo se nos apresenta mais sombrio, quando nos faltam palavras e temos dificuldade em ouvir o próximo.

Que a Virgem Maria, modelo de expectativa, atenção e alegria, nos ajude a imitar a obra do seu Filho, partilhando com os pobres o pão e o Evangelho.

Texto do Papa Leão XIV, Angelus, Praça de São Pedro, 14 de dezembro de 2025, III Domingo do Advento

Aquilo em que acreditou, nela se realizou


Hoje celebramos a Solenidade da Imaculada Conceição da Bem-Aventurada Virgem Maria. Expressamos a nossa alegria porque o Pai do Céu a quis «inteiramente imune da mancha do pecado original» (cf. B. Pio IX, Const. ap. Ineffabilis Deus, 8 de dezembro de 1854), cheia de inocência e santidade para poder confiar-lhe, para a nossa salvação, «o seu Filho unigénito […] amado como a si mesmo».

O Senhor concedeu a Maria a graça extraordinária de um coração totalmente puro, em vista de um milagre ainda maior: a vinda ao mundo, como homem, do Cristo Salvador (Lc 1, 31-33). A Virgem recebeu esta notícia, com o espanto típico dos humildes, pela saudação do Anjo: «Salve, ó cheia de graça, o Senhor está contigo» e com fé respondeu o seu “sim”: «Eis a serva do Senhor: faça-se em mim segundo a tua palavra».

Comentando estas palavras, Santo Agostinho diz que «Maria acreditou e, aquilo em que acreditou, nela se realizou» (Sermo 215, 4). O dom da plenitude da graça, na jovem de Nazaré, pôde dar fruto porque ela, na sua liberdade, o acolheu abraçando o projeto de Deus. O Senhor age sempre assim: faz-nos grandes dons, mas deixa-nos livres para os aceitar ou não. Por isso Agostinho acrescenta: «Acreditemos também nós, para que o que se realizou [nela] possa beneficiar-nos também». Assim, esta festa, que nos alegra pela beleza imaculada da Mãe de Deus, convida-nos também a acreditar como ela acreditou, dando o nosso consentimento generoso à missão para a qual o Senhor nos chama.

O milagre que aconteceu a Maria na sua concepção renovou-se para nós no Batismo: lavados do pecado original, tornámo-nos filhos de Deus, sua morada e templos do Espírito Santo. E como Maria, por graça especial, pôde acolher em si Jesus e doá-lo aos homens, assim «o Batismo permite que Cristo viva em nós e a nós que vivamos unidos a Ele, para colaborar na Igreja, cada um segundo a própria condição, para a transformação do mundo» (FranciscoCatequese, 11 de abril de 2018).

Caríssimos, grande é o dom da Imaculada Conceição, mas também o é o dom do Batismo que recebemos! O “sim” da Mãe do Senhor é maravilhoso, mas o nosso também pode sê-lo, se renovado todos os dias com fidelidade, gratidão, humildade e perseverança, na oração e nas obras concretas de amor, desde os gestos mais extraordinários até aos compromissos e serviços mais quotidianos, para que Jesus seja conhecido, acolhido e amado em toda a parte e a sua salvação chegue a todos.

Pedimos isso hoje ao Pai, por intercessão da Imaculada, enquanto rezamos juntos com as palavras nas quais ela mesma acreditou por primeiro.

Texto do Papa Leão XIV, Angelus, Praça de São Pedro, 8 de dezembro de 2025

Aquele que não julga com base nas aparências


O Evangelho deste segundo domingo do Advento anuncia-nos a vinda do Reino de Deus (Mt 3, 1-12). Antes de Jesus, surge em cena o seu Precursor, João Batista. Ele pregava no deserto da Judeia, dizendo: «Convertei-vos, porque está próximo o Reino do Céu!».

Na oração do Pai-Nosso, pedimos todos os dias: «Venha a nós o vosso reino». O próprio Jesus no-lo ensinou. E com esta invocação, orientamo-nos para o Novo que Deus tem reservado para nós, reconhecendo que o curso da história não é algo já determinado pelos poderosos deste mundo. Colocamos os nossos pensamentos e energias ao serviço de um Deus que vem reinar não para nos dominar, mas para nos libertar. É um “evangelho”: uma verdadeira boa notícia, que nos motiva e nos envolve.

Certo, o tom do Batista é severo, mas o povo ouve-o porque nas suas palavras ouve ressoar o apelo de Deus para não brincar com a vida, para aproveitar o momento presentepara se preparar para o encontro com Aquele que não julga com base nas aparências, mas nas obras e nas intenções do coração.

O próprio João ficará surpreso com a forma como o Reino de Deus se manifestará em Jesus Cristo: na mansidão e na misericórdia. O profeta Isaías compara-o a um rebento: uma imagem não de poder ou destruição, mas de nascimento e novidade. Sobre o rebento, que brota de um tronco aparentemente morto, começa a soprar o Espírito Santo com os seus dons ( Is 11, 1-10). Cada um de nós pode pensar numa surpresa semelhante que lhe aconteceu na vida.

É a experiência que a Igreja viveu no Concílio Vaticano II, que terminou há exatamente sessenta anos: uma experiência que se renova quando caminhamos juntos em direção ao Reino de Deus, todos ansiosos por acolhê-lo e servi-lo. Então, não só brotam realidades que pareciam fracas ou marginais, mas realiza-se o que humanamente se diria impossível. Com as imagens do profeta: «o lobo habitará com o cordeiro, e o leopardo deitar-se-á ao lado do cabrito; o novilho e o leão comerão juntos, e um menino os conduzirá».

Irmãs e irmãos, como o mundo precisa desta esperança! Nada é impossível para Deus. Preparemo-nos para o seu Reino, acolhamo-lo. O menino, Jesus de Nazaré, guiar-nos-á! Ele, que se colocou nas nossas mãos, desde a noite do seu nascimento até à hora sombria da morte na cruz, brilha sobre a nossa história como o Sol nascente. Um novo dia começou: despertemos e caminhemos na sua luz!

Eis a espiritualidade do Advento, tão luminosa e concreta. As luzes ao longo das ruas lembram-nos que cada um de nós pode ser uma pequena luz, se acolher Jesus, rebento de um mundo novo. Aprendamos a fazê-lo com Maria, nossa Mãe, mulher da espera confiante e da esperança.

Texto do Papa Leão XIV, Angelus, Praça de São Pedro, 7 de dezembro de 2025