Escuta o Papa: Quinta-feira Santa (C)

Todas as quintas-feiras santas lemos esta passagem do Evangelho: é uma coisa simples. Jesus, com os seus amigos, os seus discípulos, está na ceia, a ceia da Páscoa; Jesus lava os pés aos seus discípulos — fez uma coisa estranha: nessa altura os escravos lavavam os pés à entrada da casa. E depois, Jesus — com um gesto que também toca o coração — lava os pés ao traidor, aquele que o vende.  Jesus é assim e ensina-nos isto, simplesmente: deveis lavar os pés uns aos outros. É o símbolo: entre vós, deveis servir-vos uns aos outros; um serve o outro, sem interesse.  Como seria bom se isto pudesse ser feito todos os dias e a todas as pessoas: mas há sempre interesse, que é como uma serpente que entra. E ficamos escandalizados quando dizemos: “Fui àquele guichet público, obrigaram-me a pagar um suborno”. Isto dói, porque não é bom. E frequentemente procuramos o nosso próprio interesse na vida, como se estivéssemos a pagar um ao outro um suborno. 

Em vez disto, é importante fazer tudo sem interesse: um serve o outro, um é o irmão do outro, um faz o outro crescer, um corrige o outro, e desta forma as coisas devem avançar. Servir! E depois, o coração de Jesus, que diz ao traidor: “Amigo” e também espera por ele, até ao fim: ele perdoa tudo. Gostaria de colocar isto no coração de todos nós hoje, no meu também: Deus perdoa tudo  e Deus perdoa sempre ! Somos nós que nos cansamos de pedir perdão. E cada um de nós, talvez, tenha algo no seu coração, que carrega há algum tempo, que lhe causa um zumbido, algum pequeno esqueleto escondido no armário. Mas, pedir perdão a Jesus: Ele perdoa tudo. Ele só quer a nossa confiança para pedir perdão. Podes fazê-lo quando estás sozinho, quando estás com outros companheiros, quando estás com o sacerdote. Esta é uma bela oração para hoje: “Mas, Senhor, perdoai-me. Eu tentarei servir os outros, mas Tu serves-me com o Teu perdão”. Foi assim que ele pagou, com o perdão. […] E quanto perdoa ele? Tudo! E até que ponto? Sempre! Ele não se cansa de perdoar: somos nós que nos cansamos de pedir perdão.

E agora, procurarei fazer o mesmo gesto de Jesus: lavar-vos os pés. Faço-o de coração porque nós, sacerdotes, deveríamos ser os primeiros a servir os outros, não a explorar os outros. O clericalismo por vezes leva-nos por este caminho. Mas temos de servir. Isto é um sinal, também um sinal de amor por estes irmãos e irmãs e por todos vós aqui; um sinal que significa: “Eu não julgo ninguém. Procuro servir a todos”. Há Aquele que julga, mas é um Juiz bastante estranho, o Senhor: ele julga e perdoa.

Resumo do texto lido pelo Papa Francisco, Homilia,  Penitenciária Civitavecchia, 14 de abril de 2022

Escuta o Papa: Domingo de Ramos (C)

No calvário, confrontam-se duas mentalidades; vemos, no Evangelho, como as palavras de Jesus crucificado se contrapõem às dos seus adversários. Estes vão repetindo, como se fosse um refrão, «salva-te a ti mesmo». Dizem-no os chefes; […] Proferem-no os soldados […]. E também um dos malfeitores […]. Salvar-se a si mesmo, olhar por si mesmo, nos próprios interesses; […] é o refrão da humanidade, que crucificou o Senhor. […] Mas, à mentalidade do «eu», opõe-se a de Deus; o salva-te a ti mesmo confronta-se com o Salvador que Se oferece a Si mesmo. No Calvário, […] também Jesus toma a palavra três vezes como os seus adversários. […]. Particularmente uma das suas expressões marca a diferença do salva-te a ti mesmo: «Perdoa-lhes, Pai». Detenhamo-nos nestas palavras. Quando são pronunciadas pelo Senhor? […] Durante a crucifixão. […]. Lá, na dor física mais aguda da Paixão, Cristo pede perdão para quem O está perfurando. […] Cravado no patíbulo da humilhação, aumenta a intensidade do dom, que se torna “perdão”.  É […]  daqueles orifícios de dor causados pelos nossos cravos que brota o perdão. […]. Fixemos Jesus na cruz e vejamos que nunca recebemos um olhar mais terno e compassivo. […]. Fixemos o Crucificado e digamos: «Obrigado, Jesus! Amas-me e perdoas-me sempre, mesmo quando me custa amar e perdoar a mim mesmo». 

Lá, enquanto é crucificado, […] Jesus vive o seu mandamento mais difícil: o amor aos inimigos. […] Hoje Jesus ensina-nos […] a romper o círculo vicioso do mal e dos queixumes, a reagir […] aos golpes do ódio com a carícia do perdão. […] Se queremos verificar a nossa pertença a Cristo, vejamos como nos comportamos com quem nos feriu. O Senhor pede-nos […] para quebrar a corrente do «amo-te se me amares; sou teu amigo, se fores meu amigo; ajudo-te se me ajudares». […]  Em vez disso, compaixão e misericórdia para com todos, porque Deus vê um filho em cada um […]

Perdoa-lhes, Pai, porque não sabem o que fazem. O Evangelho sublinha que Jesus «dizia» isso, isto é, […] passou as horas na cruz com estas palavras nos lábios e no coração.  […] Jesus – ensina o Evangelho de Lucas – veio ao mundo para nos trazer o perdão dos nossos pecados e, no fim, deixou-nos esta ordem concreta: pregar a todos, no seu nome, o perdão dos pecados. […] Notemos mais uma coisa. Jesus não só implora o perdão, mas diz também o motivo: perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem. Como é possível? Os seus opositores tinham premeditado a morte d’Ele, […] e agora estão lá, no Calvário, para assistir ao seu fim… e, todavia, Cristo justifica aqueles violentos, porque não sabem. É assim que Jesus Se comporta connosco: faz-Se nosso advogado. Não Se coloca contra nós, mas por nós contra o nosso pecado. E é interessante o argumento que usa: porque não sabem, ou seja, aquela ignorância do coração que temos todos nós pecadores. […]. 

Perdoa-lhes, Pai, porque não sabem o que fazem. Muitos ouvem esta frase incrível; mas apenas um a acolhe. É um malfeitor, crucificado ao lado de Jesus. Podemos pensar que a misericórdia de Cristo suscitou nele uma última esperança e o levou a pronunciar estas palavras: «Jesus, lembra-te de mim» […]  O bom ladrão acolhe Deus, quando a vida dele está prestes a terminar e, assim, a sua vida recomeça; no inferno do mundo, vê abrir-se o Paraíso: «Hoje estarás comigo no Paraíso». Eis o prodígio do perdão de Deus, que transforma o último pedido dum condenado à morte na primeira canonização da história.

Irmãos, irmãs! Nesta semana, abramo-nos à certeza de que Deus pode perdoar todo o pecado.  […]Coragem! Caminhemos para a Páscoa com o seu perdão.  […] (e em silêncio, no coração, repitamos com Ele): Perdoa-lhes, Pai, porque não sabem o que fazem.

Resumo do texto lido pelo Papa Francisco, Homilia, 10 de abril de 2022

Escuta o Papa: 5º Domingo Quaresma (C)

Jesus, «de madrugada, voltou outra vez para o templo e todo o povo vinha ter com Ele» (Jo 8, 2). Assim começa o episódio da mulher adúltera. […] Jesus «sentou-Se – diz o Evangelho – e pôs-Se a ensinar». Mas, na escola de Jesus, há alguns ausentes. Detenhamo-nos nestes ausentes. Em primeiro lugar, os acusadores da mulher. […] Assim se apresentam a Jesus: não com o coração disponível para O escutarem, mas «para O fazerem cair numa armadilha e terem de que O acusar». […] Aos olhos do povo, parecem peritos de Deus, e contudo não reconhecem Jesus; antes pelo contrário, veem-No como um inimigo que precisam de eliminar. Para o conseguir, colocam diante d’Ele uma pessoa, como se fosse uma coisa […] denunciando publicamente o seu adultério. Pressionam para que a mulher seja apedrejada. […] E fazem tudo isto sob o manto da sua fama de homens religiosos. 

Irmãos e irmãs, estas pessoas dizem-nos que, até na nossa religiosidade […] há sempre o perigo de entender mal Jesus, ter o seu nome nos lábios, mas negá-Lo nas obras.[…] Então como saber se somos discípulos na escola do Mestre? Pelo modo como olhamos para o próximo: se o fazemos como Jesus nos faz ver hoje, isto é, com um olhar de misericórdia […] que é o coração de Deus. Para compreender se somos verdadeiros discípulos do Mestre, é preciso verificar também como olhamos para nós mesmos. Os acusadores da mulher estão convencidos de que não têm nada a aprender. […] Para Jesus o que conta é a abertura disponível de quem não se sente perfeito, mas necessitado de salvação.[…] E quando Lhe abrimos de verdade o coração, Jesus pode operar maravilhas em nós. 

Vemos acontecer isto mesmo na mulher adúltera. A sua situação parece irremediável, mas com maravilha sua vê-se absolvida por Deus […]: «Ninguém te condenou? – diz-lhe Jesus – Também Eu não te condeno. Vai e de agora em diante não tornes a pecar». […] Jesus, Palavra de Deus em pessoa, reabilita completamente a mulher, restituindo-lhe a esperança. […] Encontraram-se a Misericórdia e a miséria. […] Apetece-me pensar que, perdoada por Jesus, ela por sua vez aprendeu a perdoar. […]

O Senhor quer que também nós, seus discípulos, nós como Igreja, perdoados por Ele, nos tornemos testemunhas incansáveis de reconciliação: testemunhas dum Deus para o Qual não existe a palavra «irrecuperável»; dum Deus que sempre perdoa, sempre. […] Somos nós que nos cansamos de pedir perdão. […] Não há pecado ou fracasso que, levados a Ele, não possam tornar-se ocasião para começar uma vida nova, diferente, sob o signo da misericórdia. […] Se O imitarmos, não seremos levados a concentrar-nos na denúncia dos pecados, mas a sair amorosamente à procura dos pecadores. Não ficaremos a contar os presentes, mas iremos em busca dos ausentes. […] Isto, é o que Jesus nos ensina hoje com o exemplo. Deixemo-nos surpreender por Ele e acolhamos com alegria a sua novidade.

Resumo do texto lido pelo Papa Francisco na Homilia em Malta, 3 de abril de 2022

Escuta o Papa: 4º Domingo Quaresma (C)

O Evangelho da Liturgia deste domingo narra a chamada parábola do filho pródigo (Lc 15, 11-32). Ela leva-nos ao coração de Deus, que perdoa […] sempre!  Diz-nos que Deus é Pai, que não só volta a receber, mas também se alegra e faz festa pelo seu filho, que voltou para casa depois de ter esbanjado todos os bens. Nós somos esse filho, e comove pensar como o Pai nos ama sempre e espera por nós. 

Mas na mesma parábola há também o filho mais velho, que entra em crise. […] Com efeito, dentro de nós há também este filho mais velho e, pelo menos em parte, somos tentados a concordar com ele.: […] «Sirvo-te há tantos anos, sem nunca transgredir as tuas ordens», mas por «este teu filho» até festejas! […] O problema do filho mais velho sobressai destas palavras. Na relação com o Pai, ele baseia tudo sobre a pura observância das ordens, no sentido do dever. Pode ser também o nosso problema, entre nós e com Deus: perder de vista que Ele é Pai e viver uma religião distante, feita de proibições e deveres. 

E a consequência desta distância é a rigidez em relação ao próximo […]. Com efeito, na parábola o filho mais velho […] diz o teu filho, como se dissesse: não é meu irmão. E no final ele mesmo corre o risco de ficar fora de casa. Sim – diz o texto – «não queria entrar». […] Vendo isto, o Pai sai para lhe suplicar: «Filho, tu estás sempre comigo e tudo o que é meu é teu». […] Sabem-no bem os pais, que se aproximam muito do sentimento de Deus. […] Neste ponto da parábola, o Pai abre o coração ao filho mais velho, manifestando-lhe duas necessidades:[…] «Era necessário fazer festa e alegrar-se, pois este teu irmão estava morto e reviveu» […] 

Em primeiro lugar, festejar, ou seja, manifestar a nossa proximidade a quem se arrepende ou está a caminho, a quem está em crise ou distante. […] Portanto, segundo o Pai, é preciso oferecer-lhe um acolhimento caloroso, que encoraje a continuar. […] Quanto bem pode fazer um coração aberto, uma escuta verdadeira, um sorriso transparente; […] Deus não sabe perdoar sem festejar! E o pai festeja, alegra-se porque o filho regressou.E depois, de acordo com o Pai, é preciso alegrar-se. Quem tem um coração sintonizado com Deus, quando vê o arrependimento de uma pessoa, por mais graves que tenham sido os seus erros, alegra-se. Não fica parado nos erros, não aponta o dedo contra o mal, mas alegra-se com o bem […]. Quanto a nós, será que sabemos alegrar-nos pelos outros? Que a Virgem Maria nos ensine a acolher a misericórdia de Deus, para que se torne a luz na qual olhar para o nosso próximo.

Por favor, não se esqueçam de rezar por mim.

Resumo do texto lido pelo Papa Francisco no Angelus, 27 de março de 2022

Escuta o Papa: Solenidade da Anunciação

Acabamos de ouvir o anúncio mais importante da nossa história: a anunciação a Maria (cf. Lc 1, 26-38).[…] A anunciação de Jesus realiza-se num lugar remoto da Galileia, numa cidade periférica […], no anonimato da casa de uma jovem de nome Maria. […] Como Maria, também nós podemos estar desorientados. «Como acontecerá isto» em tempos com tanta especulação? […] Certamente, o ritmo vertiginoso a que estamos submetidos parece roubar-nos a esperança e a alegria. […] E paradoxalmente quando tudo se acelera para construir — em teoria — uma sociedade melhor, no final não se tem tempo para nada e para ninguém. […] Perdemos o tempo para a família, para a comunidade, para a amizade, para a solidariedade e para a memória. Diante desta desorientação de Maria, perante as nossas desorientações, são três as chaves que o Anjo nos oferece para nos ajudar a aceitar a missão que nos é confiada.

1. A primeira coisa que o Anjo faz é evocar a memória, […] Evoca a promessa feita a David como fruto da aliança com Jacó. Maria é filha da Aliança. Também nós hoje somos convidados a fazer memória[…]. Para não nos esquecermos dos nossos antepassados, […] e de tudo aquilo que passaram para chegar onde estamos hoje.[…] A memória ajuda-nos a não permanecer prisioneiros de discursos que semeiam ruturas e divisões como único modo para resolver os conflitos. Evocar a memória é o melhor antídoto […] diante das soluções mágicas da divisão.

2. A memória permite que Maria se aproprie da sua pertença ao Povo de Deus. Faz-nos bem recordar que somos membros do Povo de Deus! […] Um povo formado por mil rostos, histórias e proveniências, um povo multiétnico. Esta é uma das nossas riquezas […] É um povo que não tem medo de acolher quem necessita porque sabe que ali está presente o seu Senhor.

3. «Nada é impossível a Deus»: assim termina a resposta do Anjo a Maria. Quando acreditamos que tudo depende exclusivamente de nós, permanecemos prisioneiros das nossas capacidades, das nossas forças, dos nossos horizontes míopes. Quando, pelo contrário, nos dispomos a deixar-nos ajudar, aconselhar, quando nos abrimos à graça, parece que o impossível começa a tornar-se realidade. […] Como ontem, Deus […] continua a procurar homens e mulheres capazes de acreditar, capazes de fazer memória, de se sentirem parte de seu povo para cooperar com a criatividade do Espírito. […] Parafraseando Santo Ambrósio […] podemos dizer: Deus continua a procurar corações como o de Maria, dispostos a acreditar até em condições absolutamente extraordinárias . Que o senhor faça crescer em nós esta fé e esta esperança.»

Resumo do texto lido pelo Papa Francisco na Homilia, Milão, 25 de março de 2017

Escuta o Papa: 3º Domingo Quaresma (C)

Estamos no coração do caminho quaresmal e hoje o Evangelho apresenta inicialmente Jesus que comenta alguns acontecimentos. Enquanto a memória de dezoito pessoas que morreram quando uma torre desabou ainda estava viva na sua mente, falam-lhe de alguns galileus que Pilatos tinha mandado matar (Lc 13,1-9). E há uma questão que parece acompanhar estes trágicos relatos: quem é o culpado destes terríveis acontecimentos? […] Quando nos sentimos impotentes perante o mal, perguntamo-nos frequentemente: será talvez o castigo de Deus? […] Quando o mal nos oprime, corremos o risco de perder a lucidez e, a fim de encontrar uma resposta fácil para o que não podemos explicar, acabamos por dar a culpa a Deus. […] Quantas vezes atribuímos a Ele as nossas desgraças, as desventuras do mundo Àquele que, ao contrário, nos deixa sempre livres e por isso nunca intervém impondo-se, apenas propondo. […] 

Na realidade, Jesus recusa fortemente a ideia de imputar os nossos males a Deus: as pessoas assassinadas por Pilatos e aquelas que morreram debaixo da torre não eram mais culpadas do que outras e não são vítimas de um Deus impiedoso e vingativo, que não existe! O mal nunca pode vir de Deus porque ele «não nos trata segundo os nossos pecados», mas segundo a sua misericórdia. Esse é o estilo de Deus. […] Mas em vez de dar a culpa a Deus, diz Jesus, devemos olhar dentro de nós próprios: é o pecado que produz a morte; […] são as nossas escolhas erradas e violentas que desencadeiam o mal. Nesta altura, o Senhor oferece a verdadeira solução: […] «Se não vos converterdes», diz, «todos perecereis do mesmo modo». É um convite urgente, especialmente neste tempo de Quaresma. […]

Contudo, Jesus sabe que a conversão não é fácil e quer ajudar-nos nisto. Ele sabe que muitas vezes […] nos desencorajamos […]. E assim, […] encoraja-nos com uma parábola que fala da paciência de Deus. […] Ele oferece-nos a imagem consoladora de uma figueira que não dá frutos no momento estabelecido, mas que não é cortada […] Gosto de pensar que um bom nome para Deus seria “o Deus de outra possibilidade”: Ele dá-nos sempre outra possibilidade, sempre, sempre. Essa é a sua misericórdia. Isto é o que o Senhor faz connosco.[…] Irmãos e irmãs, Deus acredita em nós! Deus confia em nós e acompanha-nos com paciência. […] Deus é Pai e olha para ti como um pai: […] Ele não vê os resultados que ainda não conseguiste, mas os frutos que ainda podes dar; ele não conta os teus fracassos, mas encoraja as tuas possibilidades; […] O estilo de Deus, não nos esqueçamos é a proximidade, Ele está perto, com misericórdia e ternura. 

Por favor, não se esqueçam de rezar por mim.

Resumo do texto lido pelo Papa Francisco no Angelus de 20 de março de 2022

Escuta o Papa: Solenidade S.José (C)

«Hoje […] a liturgia apresenta-nos a figura de São José (cf. Mt 1, 18-24). Ele é um homem justo, prestes a casar. Podemos imaginar o que sonha para o futuro: uma bela família, com uma esposa amorosa e muitos filhos bons, e um emprego digno: sonhos simples e bons, sonhos de pessoas simples e boas. Mas de repente estes sonhos são desiludidos com uma descoberta desconcertante: Maria, a sua noiva, espera um bebé, e aquele filho não é seu! O que deve ter sentido José? Desânimo, dor, perplexidade, talvez até irritação e desilusão… Experimentou que o mundo lhe caía em cima! […]

Irmãos, irmãs, o que nos diz José hoje? Também nós temos os nossos sonhos […]. Talvez lamentemos alguns sonhos quebrados, e vemos que as melhores expetativas são frequentemente confrontadas com situações inesperadas e desconcertantes. E quando isto acontece, José mostra-nos o caminho: não devemos ceder a sentimentos negativos, como a raiva e o fechamento, este é o caminho errado!

Ao contrário, devemos acolher as surpresas, as surpresas da vida, inclusive as crises, com uma atenção: que quando estamos em crise, não devemos escolher apressadamente segundo o instinto, mas deixar-nos peneirar, como fez José, “considerar todas as coisas” e basear-se no critério de fundo: a misericórdia de Deus.

Quando se habita a crise sem ceder ao fechamento, à raiva e ao medo, mas mantendo a porta aberta a Deus, Ele pode intervir. Ele é um especialista em transformar crises em sonhos: sim, Deus abre as crises a novas perspetivas que não imaginávamos antes, talvez não como esperamos, mas como Ele sabe. E estes, irmãos e irmãs, são os horizontes de Deus: surpreendentes, mas infinitamente mais amplos e mais belos do que os nossos!

Que a Virgem Maria nos ajude a vivermos abertos às surpresas de Deus.

E, por favor, não se esqueçam de rezar por mim.»

Resumo do texto lido pelo Papa Francisco no Angelus, 18 de dezembro de 2022

Escuta o Papa: 2º Domingo Quaresma (C)

O Evangelho da Liturgia deste segundo Domingo de Quaresma narra a Transfiguração de Jesus (cf. Lc 9, 28-36). Enquanto Ele reza no alto de um monte, muda de aparência, a sua veste torna-se branca e radiante, e na luz da sua glória aparecem Moisés e Elias, que falam com Ele da Páscoa que o espera em Jerusalém, ou seja, da sua paixão, morte e ressurreição. Testemunhas deste acontecimento extraordinário são os apóstolos Pedro, João e Tiago, que subiram ao monte com Jesus.[…] O evangelista Lucas observa que «Pedro e os seus companheiros tinham-se deixado vencer pelo sono» e que «ao despertar» viram a glória de Jesus. […]

No entanto, se lermos com atenção, vemos que Pedro, João e Tiago adormecem antes do início da Transfiguração, ou seja, precisamente enquanto Jesus rezava.[…] Trata-se evidentemente de uma oração que durou muito tempo, em silêncio e recolhimento. Podemos pensar que no início também eles estavam a rezar, até que o cansaço, o sono, prevaleceu. Irmãos, irmãs, este sono inoportuno não se assemelha a tantos dos nossos sonos que chegam até nós durante tempos que sabemos serem importantes? […] Gostaríamos de estar mais despertos, atentos […] para não perder oportunidades preciosas, mas não conseguimos. […]

O tempo forte da Quaresma é uma oportunidade neste sentido. É um período em que Deus quer acordar-nos da letargia interior, desta sonolência que não permite que o Espírito se expresse. Porque – lembremo-nos bem – manter desperto o coração não depende apenas de nós: é uma graça, e deve ser pedida. Isto é demonstrado pelos três discípulos no Evangelho:  eram bons, seguiram Jesus ao monte, mas com as próprias forças não conseguiam ficar acordados. Isto também acontece a nós. Mas eles acordam precisamente durante a Transfiguração. Podemos pensar que foi a luz de Jesus que os despertou. Como eles, também nós precisamos da luz de Deus, que nos faz ver tudo de forma diversa; atrai-nos, desperta-nos, reacende o desejo e a força de rezar, de olhar para dentro de nós mesmos, e de dedicar tempo aos outros. Podemos superar o cansaço do corpo com a força do Espírito de Deus. […] Peçamos ao Espírito Santo que nos salve desta sonolência que nos impede de rezar.

Neste tempo quaresmal, após o trabalho de cada dia, far-nos-á bem não apagar a luz do nosso quarto sem estarmos na luz de Deus. Rezar um pouco antes de dormir. Demos ao Senhor uma oportunidade de nos surpreender e despertar o coração. […] Que a Virgem Maria nos ajude a manter o coração desperto para acolher este tempo de graça que Deus nos oferece.

Resumo do texto lido pelo Papa Francisco no Angelus de 13  de março de 2022

Escuta o Papa: 1º Domingo Quaresma (C)

O Evangelho da liturgia de hoje, primeiro domingo de Quaresma, leva-nos ao deserto, onde Jesus foi conduzido pelo Espírito Santo, durante quarenta dias, para ser tentado pelo diabo (cf. Lc 4, 1-13). Também Jesus foi tentado pelo diabo, e acompanha-nos, a cada um de nós, nas nossas tentações. […]

Vejamos então as tentações contra as quais ele luta. O diabo dirige-se duas vezes a ele dizendo: «Se és o Filho de Deus…». Por outras palavras, propõe-lhe que explore a sua posição: primeiro para satisfazer as necessidades materiais que sente – a fome –; depois para aumentar o seu poder; por fim para obter um sinal prodigioso de Deus. É como se dissesse: “Se és o Filho de Deus, aproveita da situação”. Quantas vezes nos acontece isto: […] É uma proposta sedutora, mas leva-te à escravidão do coração: torna obcecados pelo desejo de possuir, reduz tudo à posse de coisas, de poder, de fama. Este é o núcleo da tentação: […] olhemos para dentro de nós e descobriremos que as nossas tentações têm sempre este padrão[…] .

Mas Jesus opõe-se às atrações do mal de modo vencedor. Como faz? […] Jesus nunca dialogou com o diabo. […] neste caso, tendo de responder, fá-lo com a Palavra de Deus, nunca com a sua palavra. Irmãos e irmãs, nunca entreis em diálogo com o diabo: ele é mais astuto do que nós. […] Ele chega frequentemente “com olhos doces”, “com um rosto angélico”; sabe até disfarçar-se com motivações sagradas, aparentemente religiosas! Se cedermos às suas lisonjas, acabamos por justificar a nossa falsidade, disfarçando-a de boas intenções. Por exemplo, quantas vezes ouvimos: “Fiz negócios estranhos, mas ajudei os pobres”; “aproveitei-me da minha posição – político, governante, sacerdote, bispo – mas a fim de bem”; “cedi aos meus instintos, mas no final não fiz mal a ninguém” […] . Por favor: com o mal, nenhum compromisso! Com o diabo, não há diálogo! Não devemos dialogar com a tentação, não devemos cair naquele sono de consciência que nos faz dizer: “Mas, no fundo, não é grave, todos fazem assim”! Olhemos para Jesus, que não procura acomodamentos, não faz acordos com o mal. Ele opõe-se ao diabo com a Palavra de Deus, que é mais forte do que o diabo, e assim supera a tentação.

Que este tempo de Quaresma seja também para nós tempo de deserto. Obtenhamos tempos de silêncio e de oração […], colocando-nos perante a Palavra de Deus em oração, para que uma luta benéfica contra o mal que nos escraviza, uma luta pela liberdade, possa ter lugar dentro de nós. Peçamos a Nossa Senhora […] que nos ajude no nosso caminho de conversão.

Resumo do texto lido pelo Papa Francisco no Angelus 6 de março de 2022

Escuta o Papa: Quarta-feira de Cinzas (C)

Neste dia, que dá início ao tempo da Quaresma, o Senhor diz-nos: «Guardai-vos de fazer as vossas obras diante dos homens, para vos tornardes notados por eles; de outro modo, não tereis nenhuma recompensa do vosso Pai que está no Céu» (Mt 6, 1). […] No Evangelho de hoje a palavra que aparece mais vezes é recompensa […]. Mas o Senhor distingue dois tipos de recompensa […]: por um lado, temos a recompensa junto do Pai e, por outro, a recompensa junto dos homens. A primeira é eterna, é a definitiva […]. Ao contrário, a segunda é transitória. […] Por isso nos adverte Jesus: «Guardai-vos…»! É como se dissesse: «Tendes a possibilidade de gozar uma recompensa infinita, uma recompensa sem igual: por isso tende cuidado para não vos deixar deslumbrar pela aparência, perseguindo recompensas insignificantes, que vos morrem na mão».

O rito das cinzas, […] quer subtrair-nos ao encandeamento de preferir a recompensa junto dos homens à recompensa junto do Pai. Este sinal austero, que nos leva a refletir sobre a caducidade da nossa condição humana, é como um remédio de sabor amargo, mas eficaz para curar a doença da aparência. Trata-se duma doença espiritual, que escraviza a pessoa, levando-a a tornar-se dependente da admiração dos outros. […]  O problema é que esta doença da aparência mina também os âmbitos mais sagrados. É sobre isto que Jesus insiste hoje: também a oração, a caridade e o jejum podem tornar-se autorreferenciais. […]  E tudo se pode transformar numa espécie de ficção em relação a Deus, a si mesmo e aos outros. […] 

A Quaresma é […] um caminho de cura. Não para mudar tudo da noite para o dia, mas para viver cada dia com um espírito novo […] A oração humilde, feita «em segredo» , no recanto do próprio quarto, torna-se o segredo para fazer florescer a vida no exterior. […]  A esmola, dada longe dos holofotes, dá paz e esperança ao coração. Revela-nos […]  um segredo precioso: o dar alegra mais o coração do que o receber. Por fim, o jejum. Este não é uma dieta; antes, liberta-nos da autorreferencialidade da busca obsessiva do bem-estar físico, para nos ajudar a ter em forma, não o corpo, mas o espírito. O jejum leva-nos de novo a dar o justo valor às coisas. […] 

Oração, caridade e jejum[…] podem, de facto, mudar a história. […]  São os meios principais que permitem a Deus intervir na vida nossa e do mundo. São as armas do espírito e é com elas que, […], imploramos a Deus aquela paz que os homens sozinhos não conseguem construir.

Vós, Senhor, que vedes no segredo e nos recompensais além de toda a nossa expectativa […]  Colocai de novo a paz nos corações, concedei aos nossos dias a vossa paz.

Resumo do texto lido pelo Papa Francisco na Homilia, 2 de março de 2022