Escuta o Papa: 19º Domingo T.Comum


No Evangelho de hoje, Jesus nos convida a refletir sobre como investir o tesouro da nossa vida (Lc 12, 32-48). Ele diz: «Vendei os vossos bens e dai-os de esmola». Exorta-nos, portanto, a não guardar para nós os dons que Deus nos deu, mas a empregá-los com generosidade para o bem dos outros, especialmente daqueles que mais precisam da nossa ajuda. Não se trata apenas de partilhar as coisas materiais de que dispomos, mas de colocar à disposição as nossas capacidades, o nosso tempo, o nosso afeto, a nossa presença, a nossa empatia. Enfim, tudo aquilo que faz de cada um de nós, nos desígnios de Deus, um bem único, sem preço, um capital vivo, pulsante, que precisa ser cultivado e apoiado para poder crescer, caso contrário, torna-se árido e se desvaloriza. Ou acaba-se perdendo, à mercê de quem, como um ladrão, se apropria dele para simplesmente transformá-lo num objeto de consumo.

O dom de Deus que somos não foi feito para se esgotar assim. Precisa de espaço, de liberdade, de relacionamento, para se realizar e se expressar: precisa do amor que transforma e enobrece todos os aspectos da nossa existência, tornando-nos cada vez mais semelhantes a Deus. Não é por acaso que Jesus pronuncia estas palavras enquanto caminha para Jerusalém, onde na cruz se oferecerá por nossa salvação.

As obras de misericórdia são o banco mais seguro e rentável onde podemos depositar o tesouro da nossa existência, pois nelas, como nos ensina o Evangelho, com «duas moedas» até uma pobre viúva se torna a pessoa mais rica do mundo. Santo Agostinho, a este respeito, diz: «Se desses uma libra de bronze e recebesses uma de prata, ou se desses uma de prata e recebesses uma de ouro, te considerarias feliz. O que dás se transforma realmente; se converterá para ti não em ouro nem prata, mas em vida eterna» . E explica porquê: «O que destes será transformado, porque tu serás transformado».

[…] Por isso, na família, na paróquia, na escola e nos locais de trabalho, onde quer que estejamos, procuremos não perder nenhuma ocasião para amar. Esta é a vigilância que Jesus nos pede: habituarmo-nos a estar atentos, prontos, sensíveis uns para com os outros, do modo como Ele está conosco em cada momento.

Irmãs e irmãos, confiemos a Maria este desejo e este compromisso: que Ela, a Estrela da Manhã, nos ajude a ser, num mundo marcado por tantas divisões, «sentinelas» da misericórdia e da paz, como nos ensinou São João Paulo II (link) e como nos mostraram de forma tão bela os jovens que vieram a Roma para o Jubileu.

Resumo do texto do Papa Leão XIV,  Angelus, Praça de São Pedro, 10 de Agosto de 2025

Escuta o Papa: 18º Domingo T.Comum


[…] A primeira leitura, tirada do Livro de Eclesiastes, convida-nos a entrar em contacto […] com a experiência dos nossos limites, da finitude das coisas que passam (Ecl 1, 2; 2, 21-23); e o Salmo responsorial, que ecoa a mesma mensagem, propõe-nos a imagem da «erva que de manhã brota vicejante, mas à tarde está murcha e seca» (Sl 90, 5-6). São duas advertências fortes […], mas que não devem assustar-nos[…]. Na verdade, a fragilidade de que nos falam faz parte da maravilha que somos. Pensemos no símbolo da erva: não é lindo um campo florido? Claro, é delicado, feito de caules finos, vulneráveis, sujeitos a secar, dobrar-se, partir-se, mas, ao mesmo tempo, imediatamente substituídos por outros que brotam depois deles e dos quais os primeiros se tornam generosamente alimento e adubo […]. É assim que vive o campo, renovando-se continuamente […] Queridos amigos, nós também […] fomos feitos […] para uma existência que se renova constantemente no dom […]. E assim aspiramos continuamente a um “algo mais” que nenhuma realidade criada nos pode dar. Sentimos uma sede tão grande e ardente que nenhuma bebida deste mundo pode saciar. Diante dela, não enganemos o nosso coração, tentando extinguí-la com subterfúgios ineficazes! Antes, ouçamo-la! […]

Santo Agostinho, falando da sua intensa busca por Deus, perguntava-se: «Qual é, então, o objeto da nossa esperança […]? É a terra? Não. Algo que deriva da terra, como o ouro, a prata, as árvores, a messe, a água […]? Estas coisas agradam, são belas, são boas». E concluía: «Procura quem as fez. Ele é a tua esperança». Em seguida, pensando no caminho que tinha percorrido, rezava dizendo: «Eis que habitavas dentro de mim e eu te procurava do lado de fora! […] Eu te saboreei, e agora tenho fome e sede de ti. Tu me tocaste, e agora estou ardendo no desejo de tua paz» (Confissões, 10, 27).

Irmãs e irmãos, essas são lindas palavras que lembram o que o Papa Francisco disse a outros jovens como vós em Lisboa, […] «todos somos chamados a confrontar-nos com grandes interrogativos que […] não têm uma resposta simplista ou imediata, mas convidam a realizar uma viagem, superando-se a si mesmo,[…], uma decolagem sem a qual não há voo. Portanto, não nos alarmemos se nos encontramos intimamente sedentos, inquietos, incompletos, desejosos de sentido e de futuro […] Não estamos doentes, estamos vivos!» (link).

Há uma solicitação importante no nosso coração, uma necessidade de verdade que não podemos ignorar, que nos leva a perguntar: o que é realmente a felicidade? […] O que nos liberta dos pântanos do absurdo, do tédio, da mediocridade? […] A plenitude da nossa existência não depende do que acumulamos nem do que possuímos, como ouvimos no Evangelho (Lc 12, 13-21). Em vez disso, está ligada ao que sabemos acolher e partilhar com alegria. Comprar, acumular, consumir não basta. Necessitamos levantar os olhos, olhar para cima, para as «coisas do alto» (Cl 3, 2-13), para perceber que, entre as realidades do mundo, tudo tem sentido apenas na medida em que serve para nos unir a Deus e aos irmãos na caridade, fazendo crescer em nós «sentimentos de misericórdia, de bondade, de humildade, de mansidão, de paciência», de perdão, de paz, como os de Cristo.[…]

Queridos jovens, a nossa esperança é Jesus. É Ele, como dizia São João Paulo II, «quem suscita em vós o desejo de fazer da vossa vida algo de grande […], no aperfeiçoamento de vós próprios e da sociedade, tornando-a mais humana e fraterna» (link). Mantenhamo-nos unidos a Ele, permaneçamos sempre na sua amizade, cultivando-a com a oração, a adoração, a Comunhão eucarística, a Confissão frequente, a caridade generosa. […] Onde quer que estejais, aspirai a coisas grandes, à santidade. Não vos contenteis com menos. Então, vereis crescer todos os dias, em vós e à vossa volta, a luz do Evangelho.

Confio-vos a Maria, Virgem da Esperança. […] Continuai a caminhar com alegria seguindo as pegadas do Salvador e contagiai com o vosso entusiasmo e o testemunho da vossa fé todos aqueles que encontrardes! Bom caminho!

Resumo do texto do Papa Leão XIV, Homilia no Jubileu da Juventude, Tor Vergata, 3 de Agosto de 2025

Escuta o Papa: 17º Domingo T.Comum


Hoje, o Evangelho apresenta-nos Jesus a ensinar aos seus discípulos o Pai-Nosso: a oração que une todos os cristãos. Nela, o Senhor convida a dirigirmo-nos a Deus chamando-lhe Abbá, paizinho, como crianças, com «simplicidade , confiança filial, ousadia, certeza de ser amado». A este propósito, o Catecismo da Igreja Católica diz, com uma expressão muito bela, que «pela oração do Senhor, nós somos revelados a nós próprios, ao mesmo tempo que nos é revelado o Pai». E é verdade: quanto mais confiantes rezamos ao Pai do Céu, tanto mais nos descobrimos filhos amados e tanto mais conhecemos a grandeza do seu amor (Rm 8, 14-17).

O Evangelho de hoje (Lc 11, 1-13) descreve os traços da paternidade de Deus por meio de algumas imagens sugestivas: a de um homem que se levanta no meio da noite para ajudar um amigo a acolher uma visita inesperada; ou a de um pai que tem o cuidado de dar coisas boas aos seus filhos. Estas imagens recordam-nos que Deus nunca nos vira as costas quando nos dirigimos a Ele, nem mesmo se chegamos tarde para bater à sua porta, talvez depois de erros, de oportunidades perdidas,[…] nem mesmo se, para nos acolher, Ele tiver de “acordar” os seus filhos que dormem em casa. Pelo contrário, na grande família da Igreja, o Pai não hesita em tornar-nos todos participantes de cada um dos seus gestos de amor. O Senhor escuta-nos sempre que rezamos, e, se por vezes nos responde em momentos e formas difíceis de compreender, é porque age com uma sabedoria e uma providência maiores, que estão para além da nossa compreensão. Por isso, mesmo nestes momentos, não deixemos de rezar; e rezar com confiança: n’Ele encontraremos sempre luz e força.

No entanto, ao recitarmos o Pai-Nosso, além de celebrarmos a graça da filiação divina, exprimimos também o nosso compromisso de corresponder a esse dom, amando-nos uns aos outros como irmãos em Cristo. Um dos Padres da Igreja, meditando sobre isto, escreve: «Devemos saber e lembrar que, se dizemos que Deus é Pai, precisamos agir como filhos» (S. Cipriano de Cartago), e outro acrescenta: «Não pode chamar de Pai ao Deus de toda a bondade quem conserva um coração cruel e indócil; […]» (S. João Crisóstomo). Não se pode rezar a Deus como “Pai” e depois ser duro e insensível para com os outros. Pelo contrário, é importante deixarmo-nos transformar pela sua bondade, pela sua paciência, pela sua misericórdia, para refletir o seu rosto no nosso como em um espelho.

Queridos irmãos e irmãs, a liturgia de hoje convida-nos, na oração e na caridade, a sentirmo-nos amados e a amar como Deus nos ama: com disponibilidade, discrição, solicitude recíproca, sem cálculos. Peçamos a Maria que saibamos responder este chamamento, para manifestar a doçura do rosto do Pai.

Resumo do texto do Papa Leão XIV, Angelus, Praça de São Pedro, 27 de Julho de 2025

Escuta o Papa: 16º Domingo T.Comum


Hoje, a Liturgia chama a nossa atenção para a hospitalidade de Abraão e da sua esposa Sara e, em seguida, das irmãs Marta e Maria, amigas de Jesus (Gn 18, 1-10; Lc 10, 38-42). Sempre que aceitamos o convite para a Ceia do Senhor e participamos na mesa eucarística, é o próprio Deus que «nos vem servir» (Lc 12, 37). Mas o nosso Deus soube, em primeiro lugar, ser hóspede e, ainda hoje, está à nossa porta e bate. É sugestivo que, na língua italiana, hóspede seja tanto aquele que hospeda como aquele que é hospedado. Assim, neste domingo de verão, podemos contemplar este jogo de acolhimento recíproco, sem o qual a nossa vida empobrece.

É preciso humildade tanto para hospedar como para ser hospedado. É necessário delicadeza, atenção, abertura. No Evangelho, Marta arrisca-se a não entrar plenamente na alegria desta permuta. Está tão preocupada com o que tem de fazer para acolher Jesus, que se arrisca a estragar um momento inesquecível de encontro. Marta é uma pessoa generosa, mas Deus chama-a a algo mais bonito do que a própria generosidade: Ele chama-a a sair de si mesma.

Caríssimos irmãos e irmãs, só isto faz florescer a nossa vida: abrirmo-nos a algo que nos tira de nós mesmos e ao mesmo tempo nos preenche. No momento em que Marta se queixa porque a irmã a deixou sozinha a servir, Maria, conquistada pela palavra de Jesus, como que perdeu a noção do tempo. Não é menos concreta do que a sua irmã, nem menos generosa. Mas aproveitou a oportunidade. Por isso Jesus repreende Marta: porque ela ficou fora de uma intimidade que lhe daria também muita alegria.

O tempo de verão pode ajudar-nos a “abrandar” e a tornarmo-nos mais parecidos com Maria do que com Marta. Por vezes, não nos damos a nós mesmos a melhor parte. Precisamos de repousar um pouco, com o desejo de aprender mais sobre a arte da hospitalidade. A indústria das férias quer vender-nos todo o tipo de experiências, mas talvez não o que procuramos. Com efeito, todo o encontro verdadeiro é gratuito e não se compra: seja o encontro com Deus, seja o encontro com os outros, seja o encontro com a natureza. É preciso simplesmente fazer-se hóspede: dar espaço e também pedi-lo; acolher e deixar-se acolher. Temos muito para receber e não apenas para dar. Embora idosos, Abraão e Sara descobriram-se fecundos quando acolheram tranquilamente o próprio Senhor em três viandantes. Também para nós, há ainda muita vida a acolher.

Oremos a Maria Santíssima, a Mãe do acolhimento, que hospedou o Senhor no seu seio e, juntamente com José, lhe deu uma casa. Nela brilha […] a vocação da Igreja a permanecer uma casa aberta a todos, para continuar a acolher o seu Senhor, que pede licença para entrar. Que a Virgem Maria nos acompanhe neste caminho de crescimento. Ela, que […] nos ajude também a tornar-nos cada vez mais “discípulos do Caminho”!

Resumo do texto do Papa Leão XIV, Angelus, Castel Gandolfo, 20 de Julho de 2025

Escuta o Papa: 15º Domingo T.Comum


O Evangelho da Liturgia de hoje narra a parábola do bom Samaritano (Lc 10, 25-37). […] Como pano de fundo há a estrada que de Jerusalém desce até Jericó, ao longo da qual se encontra um homem espancado brutalmente e assaltado por ladrões. Um sacerdote que passa vê-o mas não se pára, vai além; assim como um levita, ou seja, um ministro do culto no templo. «Mas um samaritano», diz o Evangelho, «que estava a caminho, chegando àquele lugar, viu-o e teve compaixão dele». Não esqueçamos estas palavras: […] é o que Deus sente cada vez que nos vê com um problema, num pecado, numa miséria: “teve compaixão dele”. […] Aquele Samaritano, embora tivesse os seus programas e se dirigisse para uma meta distante, não encontra desculpas e deixa-se interpelar, […] pelo que acontece ao longo do caminho. […]

É significativo que os primeiros cristãos se chamassem discípulos da Via, ou seja, do caminho. Com efeito, o crente é muito parecido com o Samaritano: como ele, está a caminho […]. Sabe que não é alguém que chegou, mas quer aprender todos os dias, seguindo o Senhor Jesus, que disse: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”. […] O discípulo de Cristo caminha seguindo-o, e assim torna-se um discípulo do Caminho. […] Vê que a sua maneira de pensar e de agir muda gradualmente, conformando-se cada vez mais com a do Mestre. Seguindo os passos de Cristo, torna-se um viandante e aprende (como o Samaritano) a ver e a ter compaixão. […]

Em primeiro lugar, vê: abre os olhos para a realidade, não permanece egoisticamente fechado dentro dos próprios pensamentos. Ao contrário, o sacerdote e o levita veem o infeliz, mas é como se não o vissem, vão além, olham para o outro lado. O Evangelho educa-nos a ver […] superando dia após dia os preconceitos e os dogmatismos.[…] E depois ensina-nos a seguir Jesus, porque seguir Jesus nos ensina a ter compaixão: a dar-nos conta dos outros, especialmente daqueles que sofrem. E para agir como o Samaritano: não ir além, mas parar. […]

Peçamos ao Senhor que nos faça sair da nossa indiferença egoísta e nos coloque no Caminho. […]. É uma graça, devemos pedi-la […]: “Senhor, que eu veja, que eu tenha compaixão, como Tu me vês e tens compaixão de mim!”. Tenhamos compaixão daqueles que encontramos ao longo do caminho, sobretudo de quantos sofrem e estão em necessidade, para nos aproximarmos e fazer o que pudermos para ajudar. […] Pensemos nisto: […] Fito nos olhos as pessoas que sofrem, as pessoas que ajudo?”. Deixo-vos este pensamento: ver e ter compaixão!

Que a Virgem Maria nos acompanhe neste caminho de crescimento. Ela, que […] nos ajude também a tornar-nos cada vez mais “discípulos do Caminho”!

Resumo do texto do Papa Francisco, Angelus, Praça São Pedro, 10 de Julho de 2022

Escuta o Papa: 14º Domingo T.Comum

No Evangelho da Liturgia deste Domingo lemos que «designou o Senhor ainda setenta e dois outros discípulos e mandou-os, dois a dois, adiante de si, por todas as cidades e lugares para onde ele tinha de ir» (Lc 10, 1). Os discípulos foram enviados dois a dois, não singularmente. Ir em missão dois a dois, de um ponto de vista prático, parece ter mais desvantagens do que vantagens. Há o risco de que os dois não se entendam, que tenham um ritmo diferente, que um fique cansado ou doente pelo caminho, forçando também o outro a parar. Quando, ao contrário, se está sozinho parece que o caminho se torna mais rápido e sem impedimentos. Contudo, Jesus não pensa assim: […] qual é a razão desta escolha do Senhor?

A tarefa dos discípulos é ir pelas aldeias e preparar o povo para receber Jesus; e as instruções que Ele lhes dá não são tanto sobre o que devem dizer, mas sobre como devem ser: isto é, não sobre o “livrete” que devem recitar, não; sobre […] o testemunho a ser dado mais do que sobre as palavras a dizer. De facto, define-os como operários: ou seja, são chamados a operar, a evangelizar através do seu comportamento. E a primeira ação concreta através da qual os discípulos realizam a sua missão é precisamente a de ir dois a dois. Os discípulos não são “batedores livres”, pregadores que não sabem ceder a palavra a outro. É antes de mais a própria vida dos discípulos que proclama o Evangelho: o seu saber estar juntos, o respeitar-se reciprocamente, o não querer demonstrar que se é mais capaz do que o outro, a referência concordante ao único Mestre.

Podem-se elaborar planos pastorais perfeitos, implementar projetos bem elaborados, organizar-se nos mínimos detalhes; podem-se convocar multidões e ter muitos meios; mas se não houver disponibilidade para a fraternidade, a missão evangélica não progride. […] A missão evangelizadora não se baseia no ativismo pessoal, ou seja, no fazer, mas no testemunho do amor fraterno, inclusive através das dificuldades que a convivência implica. Então podemos perguntar-nos: como levar a boa nova do Evangelho aos outros? Fazemo-lo com espírito e estilo fraternal, ou à maneira do mundo, com protagonismo, competitividade e eficiência? Perguntemo-nos se temos capacidade para colaborar, se sabemos como tomar decisões em conjunto, respeitando sinceramente os que nos rodeiam e tendo em conta o seu ponto de vista, se o fazemos em comunidade, não sozinhos. De facto, é sobretudo deste modo que a vida do discípulo permite que a do Mestre resplandeça, anunciando-o verdadeiramente aos outros.

Que a Virgem Maria, Mãe da Igreja, nos ensine a preparar o caminho para o Senhor com o testemunho da fraternidade.

Resumo do texto do Papa Francisco, Angelus, Praça São Pedro, 3 de Julho de 2022

Escuta o Papa: Apóstolos S.Pedro e S.Paulo

Hoje é a grande festa da Igreja de Roma, gerada pelo testemunho dos Apóstolos Pedro e Paulo e fecundada pelo seu sangue e pelo de muitos outros mártires. Também nos nossos dias, em todo o mundo, há cristãos que o Evangelho torna generosos e audazes, também à risco da própria vida. Existe, portanto, um ecumenismo de sangue, uma unidade invisível e profunda entre as Igrejas cristãs, mesmo que não vivam ainda uma comunhão plena e visível entre si. Por isso, nesta solene festa, quero confirmar que o meu serviço episcopal é um serviço à unidade e que a Igreja de Roma está empenhada, pelo sangue dos Santos Pedro e Paulo, em servir com amor a comunhão entre todas as Igrejas.

A pedra, da qual Pedro recebe até mesmo o próprio nome, é Cristo. Uma pedra rejeitada pelos homens e que Deus transformou em pedra angular. Esta praça e as basílicas papais de São Pedro e São Paulo dizem-nos como este paradoxo continua sempre. Encontram-se no limite da antiga cidade, “fora dos muros”, como dizemos ainda hoje. O que hoje nos parece grande e glorioso foi primeiro descartado e expulso porque estava em contradição com a mentalidade mundana. Quem segue Jesus encontra-se a percorrer o caminho das bem-aventuranças, onde a pobreza de espírito, a mansidão, a misericórdia, a fome e sede de justiça, e o trabalho pela paz encontram oposição e até perseguição. No entanto, a glória de Deus brilha nos seus amigos e os vai moldando, ao longo do caminho, de conversão em conversão.

Queridos irmãos e irmãs, nos túmulos dos Apóstolos, destino de peregrinação desde há milhares de anos, descobrimos que também nós podemos viver de conversão em conversão. O Novo Testamento não esconde os erros, as contradições, os pecados daqueles que veneramos como os maiores entre os Apóstolos. Na verdade, a sua grandeza foi moldada pelo perdão. O Ressuscitado foi buscá-los, mais do que uma vez, para os colocar de novo no seu caminho. Jesus nunca chama apenas uma vez. É por isso que todos nós podemos sempre ter esperança, como também nos recorda o Jubileu.

Irmãs e irmãos, a unidade na Igreja e entre as Igrejas alimenta-se do perdão e da confiança mútua. A começar pelas nossas famílias e comunidades. Porque se Jesus confia em nós, também nós podemos confiar uns nos outros, em seu Nome. Que os Apóstolos Pedro e Paulo, junto à Virgem Maria, intercedam por nós, para que neste mundo dilacerado a Igreja seja casa e escola de comunhão.

Resumo do texto do Papa Leão XIV, Angelus, Praça São Pedro, 29 de Junho de 2025

Escuta o Papa: Corpo e Sangue de Cristo

Celebra-se hoje, em muitos países, a Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo, o Corpus Christi, e o Evangelho narra o milagre dos pães e dos peixes (cf. Lc 9, 11-17). Para alimentar milhares de pessoas vindas para o ouvir e pedir curas, Jesus convida os Apóstolos a apresentarem-lhe o pouco que têm, abençoa os pães e os peixes e ordena que os distribuam a todos. O resultado é surpreendente: não só cada um recebe comida em quantidade suficiente, como sobra em abundância. 

O milagre, mais que um prodígio, é um “sinal” e recorda-nos que os dons de Deus, mesmo aqueles pequeninos, quanto mais partilhados são, mais crescem. Porém, ao lermos tudo isto no dia do Corpus Christi, refletimos sobre uma realidade ainda mais profunda. Com efeito, sabemos que na raiz de toda a partilha humana há uma outra maior e anterior a ela: a de Deus para connosco. Ele, o Criador, que nos deu a vida, para nos salvar pediu a uma das suas criaturas para ser sua mãe e dar-lhe um corpo frágil, limitado e mortal, como o nosso, confiando-se a Ela como uma criança. Partilhou assim, até às últimas consequências, a nossa pobreza e, para nos resgatar, escolheu servir-se do muito pouco que lhe podíamos oferecer.

Pensemos como é bom, quando oferecemos um presente – porventura pequeno, proporcional às nossas possibilidades – ver que ele é apreciado por quem o recebe; como ficamos felizes quando sentimos que, apesar da sua simplicidade, aquele presente nos une ainda mais àqueles que amamos. Pois bem, na Eucaristia, entre nós e Deus, acontece exatamente isto: o Senhor acolhe, santifica e abençoa o pão e o vinho que colocamos sobre o Altar, juntamente com a oferta da nossa vida, e transforma-os no Corpo e Sangue de Cristo, Sacrifício de amor para a salvação do mundo. Deus une-se a nós acolhendo com alegria o que levamos e convida a unirmo-nos a Ele, recebendo e partilhando com igual alegria o seu dom de amor. Desta forma – diz Santo Agostinho – como dos «grãos de trigo, unidos entre si, […] se forma um só pão, assim, na concórdia da caridade, se forma um único corpo de Cristo».

Caríssimos, nesta tarde faremos a Procissão Eucarística. […] colocar-nos-emos a caminho, levando o Santíssimo Sacramento pelas ruas da nossa cidade. […] Reunir-nos-emos […] para implorar a Bênção do Senhor sobre as nossas casas, sobre as nossas famílias e sobre toda a humanidade. Que esta Celebração seja um sinal luminoso do nosso compromisso de sermos todos os dias, a partir do Altar e do Sacrário, portadores de comunhão e de paz uns para os outros, na partilha e na caridade.

Resumo do texto do Papa Leão XIV, Angelus, Praça de São Pedro, 22 de junho de 2025

Escuta o Papa: Santíssima Trindade

Hoje, enquanto celebramos a Solenidade da Santíssima Trindade, vivemos os dias do Jubileu do Desporto. O binómio Trindade-desporto não é usado com muita frequência, mas a associação não é descabida. […] Afinal, Deus não é estático, nem está fechado em si mesmo. É comunhão, relação viva entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo, que se abre à humanidade e ao mundo. A teologia denomina essa realidade de pericoresis, ou seja, […] uma dança de amor recíproco. A vida brota deste dinamismo divino. […] Eis a razão pela qual o desporto pode ajudar-nos a encontrar o Deus Trino: porque exige um movimento do eu para o outro. […] Gostaríamos de destacar três aspectos em particular que tornam o desporto, hoje, um meio precioso de formação humana e cristã.

Em primeiro lugar, numa sociedade marcada pela solidão, em que o individualismo exagerado deslocou o centro de gravidade do “nós” para o “eu”, […] o desporto […] ensina o valor da colaboração, do caminhar juntos, daquela partilha que […] está no coração mesmo da vida de Deus. 

Em segundo lugar, numa sociedade cada vez mais digital, […] o desporto valoriza a concretude do estar juntos, o sentido do corpo, do espaço, do esforço, do tempo real. Assim, contra a tentação de fugir para mundos virtuais, o desporto ajuda a manter um contato saudável com a natureza e com a vida concreta, único lugar onde é possível exercer o amor.

Em terceiro lugar, numa sociedade competitiva, onde parece que apenas os fortes e os vencedores merecem viver, o desporto também ensina a perder, colocando o homem frente a frente, na arte da derrota, com uma das verdades mais profundas da sua condição: a fragilidade, o limite, a imperfeição. Isto é importante. […] Os campeões não são máquinas infalíveis, mas homens e mulheres que, mesmo derrotados, encontram a coragem para se reerguer. […] 

A esse respeito, […] São João Paulo II dizia que Jesus é “o verdadeiro atleta de Deus” porque venceu o mundo não com a força, mas com a fidelidade do amor (Homilia). Pensemos no Beato Pier Giorgio Frassati, padroeiro dos desportistas. […] A sua vida, simples e luminosa, recorda-nos que assim como ninguém nasce campeão, ninguém nasce santo. É o treino diário do amor que nos aproxima da vitória definitiva e nos torna capazes de trabalhar pela construção de um mundo novo. […] 

O Papa Francisco adorava sublinhar que, no Evangelho, Maria aparece ativa, em movimento, até mesmo “a correr”, pronta a partir para socorrer os seus filhos – como sabem fazer as mães – ao menor sinal de Deus (JMJ 2023). Peçamos a Ela que acompanhe […] os nossos esforços, orientando-os sempre para o melhor, até à vitória definitiva: a da eternidade, o “campo infinito” onde o jogo não terá fim e a alegria será plena.

Resumo do texto do Papa Leão XIV, Homilia, Basílica de São Pedro, 15 de junho de 2025

Escuta o Papa: Solenidade do Pentecostes

«Este é o dia solene em que, depois de sua Ressurreição e depois da glória de sua Ascensão, Jesus Cristo Nosso Senhor enviou o Espírito Santo». Também hoje renova-se o que aconteceu no Cenáculo: como um vento impetuoso que nos agita, como um estrondo que nos desperta, como um fogo que nos ilumina […]. O Espírito realiza algo extraordinário na vida dos Apóstolos. Após a morte de Jesus, eles se enclausuraram no medo e na tristeza, mas agora […] o Espírito Santo vence o medo, […] alivia as feridas, unge-os de força e lhes dá a coragem de sair ao encontro de todos para anunciar as obras de Deus. O trecho dos Atos dos Apóstolos diz-nos que […] «cada um os ouvia falar na sua própria língua». […] Como afirmou Bento XVI: «O Espírito Santo […] ultrapassa a ruptura que teve início em Babel […] e abre as fronteiras. […]

O Espírito abre as fronteiras principalmente dentro de nós. […] Essa presença do Senhor desfaz a nossa dureza, o nosso fechamento, […] os medos que nos bloqueiam e o narcisismo. […] É triste observar como num mundo onde se multiplicam as oportunidades de socialização, corremos o risco de ser paradoxalmente mais solitários. […] O Espírito de Deus, em vez disso, […] abre-nos ao encontro com nós mesmos […]; conduz-nos ao encontro com o Senhor […]; convence-nos […] que só se permanecermos no amor, é que receberemos também a força para observar a sua Palavra e, assim, sermos transformados por ela. […]

O Espírito, além disso, abre as fronteiras também nas nossas relações. […] Quando o amor de Deus habita em nós, tornamo-nos capazes de abrirmo-nos aos irmãos, […] de superar o medo em relação ao que é diferente […] .O Espírito Santo, […] faz amadurecer em nós os frutos que nos ajudam a viver relações verdadeiras e boas: «amor, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, autodomínio». […] Esse é um critério decisivo também para a Igreja: só somos verdadeiramente a Igreja do Ressuscitado […] se […] soubermos dialogar e acolher-nos mutuamente, integrando as nossas diversidades […].

Por fim, o Espírito abre as fronteiras também entre os povos. […] As diferenças, quando o Sopro divino une os nossos corações […], não se tornam ocasião de divisão e conflito, mas um tesouro comum, […] que nos coloca em caminho, todos juntos, na fraternidade. O Espírito […] “nos ensina tudo” e “nos recorda as palavras de Jesus”; e, por isso, primeiramente ensina, recorda e grava nos nossos corações o mandamento do amor […]. E onde há amor, não há espaço […] para a lógica da exclusão que vemos emergir, infelizmente, também nos nacionalismos políticos. […] O Papa Francisco observou que «hoje, no mundo, há tanta discórdia, tanta divisão! Estamos conectados e, contudo, vivemos desligados uns dos outros, anestesiados pela indiferença e oprimidos pela solidão». […]  Invoquemos o Espírito […] a fim de que abra as fronteiras, derrube os muros, dissolva o ódio e nos ajude a viver como filhos do único Pai que está nos céus. 

Irmãos e irmãs: Pentecostes renova a Igreja e o mundo! […]  Que Maria Santíssima, […] Virgem visitada pelo Espírito, Mãe cheia de graça, nos acompanhe e interceda por nós.

Resumo do texto do Papa Leão XIV, Homilia, Praça de São Pedro, 8 de junho de 2025