Escuta o Papa: 30º Domingo T.Comum


Hoje, o Evangelho apresenta-nos dois personagens que rezam no Templo, um fariseu e um publicano. (Lc 18, 9-14) 

O primeiro ostenta uma longa lista de méritos. As boas obras que realiza são muitas e, por isso, considera-se melhor do que os outros, a quem julga com desdém. Mantém-se de pé, com a cabeça erguida. A sua atitude é claramente presunçosa: denota certamente uma observância rigorosa da Lei, mas pobre em amor e desprovida de misericórdia, feita de “dar” e “ter”, de débitos e créditos.

O publicano também está a rezar, mas de uma forma bastante diferente. Há muito nele a ser perdoado: é um cobrador de impostos ao serviço do Império Romano e trabalha com um contrato de adjudicação que lhe permite especular sobre os rendimentos em detrimento dos seus próprios compatriotas. No entanto, no final da parábola, Jesus diz-nos que, entre os dois, é ele quem volta para casa “justificado”, ou seja, perdoado e renovado pelo encontro com Deus. Porquê?

Em primeiro lugar, o publicano tem a coragem e a humildade de se apresentar diante de Deus. Ele não se fecha no seu mundo, nem se conforma com o mal que fez; deixa os lugares onde se sente seguro e é temido, protegido pelo poder que exerce sobre os outros; vai ao Templo sozinho, sem escolta, mesmo que isso signifique enfrentar olhares severos e julgamentos mordazes, e coloca-se diante do Senhor, no fundo, com a cabeça baixa, pronunciando poucas palavras: «Ó Deus, tem piedade de mim, que sou pecador». 

Assim, Jesus transmite-nos uma mensagem poderosa: não é ostentando os nossos méritos que nos salvamos, nem escondendo os nossos erros, mas apresentando-nos tal como somos, honestamente, diante de Deus, de nós mesmos e dos outros, pedindo perdão e confiando na graça do Senhor. Comentando este episódio, Santo Agostinho compara o fariseu a um doente que, por vergonha e orgulho, esconde as suas feridas do médico, e o publicano a outro que, com humildade e sabedoria, expõe ao doutor as suas feridas, por mais desagradáveis que sejam, pedindo ajuda. E conclui: «Não nos surpreende […] que aquele publicano, que não teve vergonha de mostrar a sua parte doente, tenha voltado […] curado» (Sermão 351,1).

Façamos o mesmo, queridos irmãos e irmãs. Não tenhamos medo de reconhecer os nossos erros, de os expor, assumindo a responsabilidade por eles e confiando-os à misericórdia de Deus. Deste modo, poderá crescer, em nós e à nossa volta, o seu Reino, que não pertence aos soberbos, mas aos humildes, e que se cultiva, na oração e na vida, através da honestidade, do perdão e da gratidão.

Peçamos a Maria, modelo de santidade, que nos ajude a crescer nessas virtudes.

Resumo do texto do Papa Leão XIV,  Angelus, Praça de São Pedro, 26 de Outubro de 2025

Escuta o Papa: 28º Domingo T.Comum


O apóstolo Paulo dirige-se hoje a cada um de nós, como a Timóteo. […] Acorrentado «como se fosse um malfeitor», Paulo recomenda-nos que não percamos o centro, que não esvaziemos o nome de Jesus da sua história, da sua cruz. […] Jesus é a fidelidade de Deus, a fidelidade de Deus a si mesmo. É preciso, portanto, que o domingo nos faça cristãos, ou seja, que encha o nosso sentir e o nosso pensar com a memória incandescente de Jesus, modificando a nossa convivência, a nossa habitação na terra.[…] 

A leitura do Segundo Livro dos Reis (5, 14-17) recordou-nos a cura de Naamã, o Sírio. […] Caríssimos, «a palavra de Deus é viva, eficaz e mais afiada que uma espada de dois gumes […]». Assim, o Papa Francisco viu, por sua vez, na história de Naamã, […] uma palavra penetrante e atual para a vida da Igreja. Falando à Cúria Romana, disse: «Este homem vive um drama terrível: é leproso. A sua armadura, a mesma que lhe proporciona fama, na realidade cobre uma humanidade frágil, ferida, doente. Esta contradição, encontramo-la frequentemente na nossa vida: às vezes, os grandes dons constituem a armadura para encobrir grandes fragilidades. […] Se Naaman tivesse continuado apenas a acumular medalhas para dependurar na sua armadura, acabaria por ser consumido pela lepra: aparentemente vivo, sim, mas fechado e isolado na sua doença».

Jesus liberta-nos desse perigo; Ele que não usa armaduras, mas nasce e morre nu; Ele que oferece o seu dom sem obrigar os leprosos curados a reconhecê-lo: apenas um samaritano, no Evangelho, parece perceber que foi salvo (cf. Lc 17, 11-19). Talvez, quanto menos títulos se possa ostentar, mais claro aparece que o amor é gratuito. Deus é puro dom, somente graça. […]

Com efeito, os leprosos que, no Evangelho, não voltam para agradecer lembram-nos que a graça de Deus também pode vir até nós e não encontrar resposta, pode curar-nos e não nos envolver. Tenhamos cuidado, portanto, com aquele subir ao templo que não nos faz seguir Jesus. Existem formas de culto que não nos ligam aos outros e anestesiam o nosso coração. Então, não vivemos verdadeiros encontros com aqueles que Deus coloca no nosso caminho; não participamos, como fez Maria, na mudança do mundo e na alegria do Magnificat. […] 

O caminho de Maria é seguir Jesus, e o caminho de Jesus é dirigir-se a todos os seres humanos, especialmente aos pobres, aos feridos, aos pecadores. Por isso, a autêntica espiritualidade mariana torna atual na Igreja a ternura de Deus, a sua maternidade. […] «Sempre que olhamos para Maria, voltamos a acreditar na força revolucionária da ternura e do afeto. N’Ela, vemos que a humildade e a ternura não são virtudes dos fracos, mas dos fortes, que não precisam de maltratar os outros para se sentir importantes.» (n. 288).[…] 

Que Maria Santíssima, nossa esperança, interceda por nós e oriente-nos sempre e para sempre para Jesus, o Senhor crucificado. N’Ele, há salvação para todos.

Resumo do texto do Papa Leão XIV, Homilia, Praça de São Pedro, 12 de Outubro de 2025

Escuta o Papa: 27º Domingo T.Comum


Hoje celebramos o Jubileu do mundo Missionário e dos Migrantes. É uma bonita ocasião para reavivar em nós a consciência da vocação missionária, que nasce do desejo de levar a alegria e a consolação do Evangelho a todos, especialmente a quem está a viver uma história difícil e ferida. Penso em particular nos irmãos migrantes, que tiveram de abandonar a sua terra, muitas vezes deixando os seus entes queridos, atravessando noites de medo e solidão, vivendo na pele a discriminação e a violência. […] Perante estes cenários sombrios, ressurge o grito que tantas vezes na história se elevou a Deus. […] Esta manhã, ouvimos do profeta Habacuque: «Até quando, Senhor, pedirei socorro, sem que me escuteis? […] Porque me fazeis ver a iniquidade e contemplar a desgraça?» (Hab 1, 2.3). […]A resposta do Senhor, porém, abre-nos à esperança. Se o profeta denuncia a força inevitável do mal que parece prevalecer, o Senhor, por sua vez, anuncia-lhe que tudo isso terá um fim, […] porque a salvação virá e não tardará: «Eis que sucumbe o que não tem a alma reta, mas o justo viverá pela sua fidelidade». (Hab 2, 4).

Existe […] uma nova possibilidade de vida e salvação que provém da fé, porque ela não só nos ajuda a resistir ao mal, […] mas transforma a nossa existência de tal forma que a torna um instrumento da salvação que Deus ainda hoje quer realizar no mundo. Trata-se, como nos diz Jesus no Evangelho, da força da mansidão: a fé não se impõe com os meios do poder […]; basta que seja como um grão de mostarda para fazer coisas impensáveis (Lc 17, 6), porque traz em si a força do amor de Deus que abre caminhos de salvação.  É uma salvação que se realiza quando nos comprometemos pessoalmente e nos interessamos, com a compaixão do Evangelho, pelo sofrimento do próximo; é uma salvação que, silenciosa e aparentemente ineficaz, abre caminho através dos gestos e das palavras quotidianas, que se tornam como a pequena semente de que nos fala Jesus; é uma salvação que cresce lentamente quando nos tornamos “servos inúteis”, ou seja, quando nos colocamos ao serviço do Evangelho e dos irmãos sem procurar os nossos interesses […].

Com essa confiança, somos chamados a renovar em nós o fogo da vocação missionária. […] Irmãos e irmãs, […] se durante muito tempo associámos a missão ao “partir”, ao ir para terras distantes que não conheciam o Evangelho […], hoje as fronteiras da missão já não são geográficas, porque a pobreza, o sofrimento e o desejo de uma esperança maior vêm ao nosso encontro. […] Não se trata tanto de “partir”, mas sim de “ficar” para anunciar Cristo através do acolhimento, da compaixão e da solidariedade: ficar sem nos refugiarmos no conforto do nosso individualismo, ficar para olhar nos olhos aqueles que chegam de terras distantes e martirizadas, ficar para lhes abrir os braços e o coração, para os acolher como irmãos e ser para eles uma presença de consolação e esperança. […] 

Resumo do texto do Papa Leão XIV, Homilia, Praça de São Pedro, 5 de Outubro de 2025

Escuta o Papa: 26º Domingo T.Comum


As palavras de Jesus falam-nos de como Deus olha para o mundo, em todos os tempos e lugares. No Evangelho que ouvimos (Lc 16, 19-31), os seus olhos observam: um pobre e um rico; quem morre de fome e quem diante dele se banqueteia; as vestes elegantes dum e, doutro, as chagas que os cães lambiam. Mas não só: o Senhor vê o coração dos homens e, através dos seus olhos, nós mesmos reconhecemos um indigente e um indiferente. Lázaro é esquecido por quem está à sua frente, mesmo à porta de casa, no entanto Deus está perto dele e lembra-se do seu nome. Não tem nome, porém, o homem que vive na abundância, porque se perde a si mesmo, esquecendo-se do próximo. Está perdido nos pensamentos do seu coração, cheio de coisas mas vazio de amor. Os seus bens não o tornam bom.

Infelizmente, a história que Cristo nos conta é muito atual. Às portas da opulência jaz hoje a miséria de povos inteiros, atormentados pela guerra e pela exploração. Com o passar dos séculos, parece que nada mudou: quantos Lázaros morrem diante da sofreguidão que esquece a justiça, do lucro que espezinha a caridade, da riqueza cega diante da dor dos miseráveis! No entanto, o Evangelho assegura que os sofrimentos de Lázaro têm um fim. As suas dores terminam, tal como terminam os festins do rico, e Deus faz justiça a ambos: «O pobre morreu e foi levado pelos anjos ao seio de Abraão. Morreu também o rico e foi sepultado». Sem se cansar, a Igreja anuncia esta palavra do Senhor, para que converta os nossos corações.

[…] Podemos refletir sobre o diálogo entre o homem rico e Abraão, que ouvimos no Evangelho: trata-se de uma súplica que o rico faz para salvar os seus irmãos. […] Ao falar com Abraão, ele afirma: «Se algum dos mortos for ter com eles, hão de arrepender-se». E Abraão responde: «Se não dão ouvidos a Moisés e aos Profetas, tão-pouco se deixarão convencer, se alguém ressuscitar dentre os mortos». […] As palavras da Escritura não querem, então, desiludir ou desanimar-nos, mas despertam a nossa consciência. Escutar Moisés e os Profetas significa recordar os mandamentos e as promessas de Deus, cuja providência nunca abandona ninguém. O Evangelho anuncia-nos que a vida de todos pode mudar, porque Cristo ressuscitou dos mortos. Este acontecimento é a verdade que nos salva: por isso, deve ser conhecida e anunciada. Mas não basta. Deve ser amada: é este amor que nos leva a compreender o Evangelho, porque nos transforma, abrindo o coração à palavra de Deus e ao rosto do próximo.

A este respeito, vós, catequistas, sois aqueles discípulos de Jesus que se tornam suas testemunhas: o nome do ministério que exerceis vem do verbo grego katēchein, que significa […] fazer ressoar. […] Todos nós fomos educados na fé através do testemunho daqueles que acreditaram antes de nós.[…] É assim que os catequistas ensinam, ou seja, deixam um sinal interior: quando educamos na fé, não damos uma lição, mas plantamos no coração a palavra da vida, para que ela dê frutos de vida boa. Ao diácono Deogratias, que lhe perguntou como ser um bom catequista, Santo Agostinho respondeu: «Expõe tudo de modo que quem te ouça, ouvindo, acredite; acreditando, espere; e esperando, ame».

Queridos irmãos e irmãs, […] lembremo-nos: ninguém dá o que não tem. Se o rico do Evangelho tivesse caridade para com Lázaro, teria feito o bem, não só ao pobre, mas também a si mesmo. […] Quando também nós somos tentados pela ganância e pela indiferença, os muitos Lázaros de hoje recordam-nos a palavra de Jesus, tornando-se para nós uma ainda mais eficaz catequese durante este Jubileu, que é para todos tempo de conversão e perdão, de empenho pela justiça e de busca sincera da paz.

Resumo do texto do Papa Leão XIV, Homilia, Praça de São Pedro, 28 de Setembro de 2025

Escuta o Papa: 25º Domingo T.Comum


A parábola que hoje ouvimos no Evangelho (Lc 16, 1-13) faz-nos refletir sobre o uso dos bens materiais e, de um modo geral, sobre como temos administrado o bem mais precioso de todos, que é a nossa própria vida. Nesta história, vemos que um administrador é chamado pelo seu senhor a «prestar contas». Trata-se duma imagem que nos diz algo importante: não somos senhores da nossa vida nem dos bens de que gozamos; tudo nos foi dado como dom pelo Senhor, que confiou este património ao nosso cuidado, à nossa liberdade e responsabilidade. Um dia seremos chamados a prestar contas do modo como administramos a nossa vida, os nossos bens e os recursos da terra, tanto perante Deus como perante os seres humanos, a sociedade e, sobretudo, aqueles que virão depois de nós.

O administrador da parábola procurava simplesmente o próprio lucro mas, ao chegar o dia em que a administração lhe é retirada e tem de prestar contas, deve pensar no que fazer em relação ao seu futuro. Nessa situação difícil, ele compreende que o mais importante não é a acumulação de bens materiais, porque as riquezas deste mundo são passageiras; então, concebe uma ideia brilhante: chama os devedores e «abate» as suas dívidas, renunciando portanto à parte que lhe caberia. Desta maneira, ele perde riqueza material, mas ganha amigos, que estarão prontos para o ajudar e apoiar.

A partir desta história, Jesus exorta-nos: «Arranjai amigos com o dinheiro desonesto, para que, quando este faltar, eles vos recebam nas moradas eternas». Com efeito, se o administrador da parábola, mesmo na gestão da riqueza desonesta deste mundo, consegue encontrar uma maneira de fazer amigos, saindo da solidão do seu egoísmo, mais ainda nós, que somos discípulos e vivemos à luz do Evangelho, devemos usar os bens do mundo e a nossa própria vida pensando na verdadeira riqueza, que é a amizade com o Senhor e com os irmãos.

Caríssimos, a parábola convida a perguntarmo-nos: como estamos a administrar os bens materiais, os recursos da terra e a vida que Deus nos confiou? Podemos seguir o critério do egoísmo, colocando a riqueza em primeiro lugar e pensando apenas em nós mesmos; mas isto isola-nos dos outros e espalha o veneno de uma competição que muitas vezes gera conflitos. Ou podemos reconhecer tudo o que temos como um dom de Deus a ser administrado, e usá-lo como instrumento de partilha para criar redes de amizade e solidariedade, para edificar o bem, para construir um mundo mais justo, equitativo e fraterno.

Rezemos à Santíssima Virgem, para que interceda por nós e nos ajude a administrar bem o que o Senhor nos confia, com justiça e responsabilidade

Texto do Papa Leão XIV, Angelus, Praça de São Pedro, 21 de Setembro de 2025

Escuta o Papa: Exaltação Sta Cruz


Hoje a Igreja celebra a Festa da Exaltação da Santa Cruz, na qual se recorda o momento em que Santa Helena encontra o madeiro da Cruz, em Jerusalém, no século IV, e a devolução da preciosa Relíquia à Cidade Santa, por obra do Imperador Heráclio.

Mas o que significa para nós, hoje, celebrar esta Festa? O Evangelho que a liturgia nos propõe (cf. Jo 3, 13-17) ajuda-nos a compreender este significado. A cena passa-se à noite: Nicodemos, um dos chefes dos judeus, pessoa reta e de mente aberta, vem ao encontro de Jesus. Ele precisa de luz, de orientação: procura Deus e pede ajuda ao Mestre de Nazaré, porque reconhece n’Ele um profeta, um homem que realiza sinais extraordinários.

O Senhor acolhe-o, ouve-o e, no final, revela-lhe que o Filho do homem deve ser elevado, «a fim de que todo o que nele crê tenha a vida eterna» (Jo 3, 15), e acrescenta: «Tanto amou Deus o mundo, que lhe entregou o seu Filho Unigénito, a fim de que todo o que nele crê não se perca, mas tenha a vida eterna». Nicodemos, que talvez naquele momento não compreendera plenamente o sentido dessas palavras, certamente o compreenderá quando, após a crucificação, ajudar a sepultar o corpo do Salvador (cf. Jo 19, 39): compreenderá que Deus, para redimir os homens, se fez homem e morreu na cruz.

Jesus fala disso a Nicodemos, recordando um episódio do Antigo Testamento (cf. Nm 21, 4-9), quando no deserto os israelitas, atacados por serpentes venenosas, se salvavam olhando para a serpente de bronze que Moisés, obedecendo à ordem de Deus, tinha feito e colocado sobre uma haste.

Deus salvou-nos revelando-se a nós, oferecendo-se como nosso companheiro, mestre, médico, amigo, até se tornar para nós Pão partido na Eucaristia. E para realizar esta obra, serviu-se de um dos instrumentos de morte mais cruéis que o homem já inventou: a cruz.

Por isso, hoje celebramos a sua «exaltação»: pelo amor imenso com que Deus, abraçando-a para a nossa salvação, de instrumento de morte a transformou em instrumento de vida, ensinando-nos que nada pode separar-nos d’Ele (cf. Rm 8, 35-39) e que a sua caridade é maior do que o nosso próprio pecado (cf. Francisco, Catequese, 30 de março de 2016).

Peçamos, então, pela intercessão de Maria, a Mãe presente no Calvário ao lado do seu Filho, que também em nós se enraíze e cresça o seu amor que salva, e que também nós saibamos doar-nos uns aos outros, como Ele se doou totalmente a todos.

Resumo do texto do Papa Leão XIV, Angelus, Praça de São Pedro, 14 de Setembro de 2025

Escuta o Papa: 23º Domingo T.Comum


Na primeira leitura, ouvimos uma pergunta: «[Senhor,] quem conhecerá a tua vontade, se não lhe deres a sabedoria, e não enviares o teu santo espírito lá do céu?» (Sb 9,17). Ouvimos essa pergunta depois que dois jovens beatos, […] foram proclamados santos, e isso é providencial. Com efeito, no Livro da Sabedoria, essa pergunta é atribuída justamente a um jovem como eles: o rei Salomão. Ele, com a morte de Davi, seu pai, percebeu que tinha muitas coisas: poder, riqueza, saúde, juventude, beleza e realeza. Mas justamente essa grande abundância de meios fez surgir em seu coração uma outra pergunta: “O que devo fazer para que nada disso se perca?”. E compreendeu que a única maneira de encontrar uma resposta era pedir a Deus um dom ainda maior: a sua Sabedoria, para conhecer os seus projetos e aderir fielmente a eles. […] Sim, porque o maior risco da vida é desperdiçá-la fora do projeto de Deus.

Também Jesus, no Evangelho, fala-nos de um projeto ao qual devemos aderir totalmente. Ele diz: «Quem não tomar a sua cruz para me seguir não pode ser meu discípulo» (Lc 14, 27); e ainda: «Qualquer de vós, que não renunciar a tudo o que possui, não pode ser meu discípulo». Assim, convida-nos a aderir sem hesitação à aventura que Ele nos propõe, com a inteligência e a força que vêm do seu Espírito e que podemos acolher na medida em que nos despojamos […] das coisas e ideias às quais estamos apegados, para nos colocarmos à escuta da sua palavra

Muitos jovens, ao longo dos séculos, tiveram de enfrentar esta encruzilhada na vida. Pensemos em São Francisco de Assis: tal como Salomão, também ele era jovem e rico, sedento de glória e fama. Por isso partiu para a guerra, na esperança de ser nomeado “cavaleiro” e cobrir-se de honras. Mas Jesus apareceu-lhe ao longo do caminho e fez-lhe refletir sobre o que estava a fazer. Recuperando a lucidez, dirigiu a Deus uma pergunta simples: «Senhor, o que queres que eu faça?». E a partir daí, […] começou a escrever uma história diferente: […] despojou-se de tudo para seguir o Senhor, vivendo na pobreza e preferindo o amor pelos irmãos, especialmente os mais fracos e os mais pequenos, ao ouro, à prata e aos tecidos preciosos do seu pai. E quantos outros santos e santas poderíamos recordar! […]

Hoje olhamos para São Pier Giorgio Frassati e São Carlo Acutis: um jovem do início do século XX e um adolescente dos nossos dias, ambos apaixonados por Jesus e prontos a dar tudo por Ele. […] [Eles] são um convite dirigido a todos nós – especialmente aos jovens – a não desperdiçar a vida, mas a orientá-la para cima e a fazer dela uma obra-prima. Eles encorajam-nos com as suas palavras: «Não eu, mas Deus», dizia Carlo. E Pier Giorgio: «Se tiveres Deus no centro de todas as tuas ações, então chegarás até ao fim». Esta é a fórmula simples, mas vencedora, da sua santidade. E é também o testemunho que somos chamados a seguir, para saborear a vida até ao fim e ir ao encontro do Senhor na festa do Céu.

Resumo do texto do Papa Leão XIV, Homilia, Praça de São Pedro, 7 de Setembro de 2025

Escuta o Papa: 22º Domingo T.Comum


Estar à mesa juntos, especialmente nos dias de descanso e de festa, é um sinal de paz e comunhão, em todas as culturas. No Evangelho deste domingo (Lc 14, 1.7-14), Jesus é convidado por um dos chefes dos fariseus para um almoço. Receber convidados amplia o espaço do coração e ser convidado requer a humildade de entrar no mundo do outro. […] Encontrar-se nem sempre é fácil. O evangelista observa que os convidados “ficavam a observar” Jesus, que geralmente era visto com certa desconfiança pelos intérpretes mais rigorosos da tradição.

Apesar disso, o encontro acontece, porque Jesus se aproxima realmente, não permanece alheio à situação. Ele torna-se verdadeiramente hóspede, com respeito e autenticidade. Renuncia àquelas “boas maneiras” que são meras formalidades para evitar o envolvimento mútuo. Assim, no seu estilo próprio, com uma parábola, descreve o que vê e convida aqueles que o observavam a pensar. Com efeito, Jesus percebeu que há uma corrida para ocupar os primeiros lugares. Isto também acontece hoje, não na família, mas nas ocasiões em que é importante “ser notado”; então, o estar juntos transforma-se numa competição.

Irmãs e irmãos, sentar-nos juntos à mesa eucarística, no dia do Senhor, significa também para nós deixar a palavra a Jesus. Ele torna-se de bom grado nosso hóspede e pode descrever-nos como nos vê. É muito importante ver-nos com o seu olhar: repensar como muitas vezes reduzimos a vida a uma competição; como mudamos quem somos para obter algum reconhecimento; como nos comparamos inutilmente uns aos outros. Parar para refletir, deixar-nos abalar por uma Palavra que questiona as prioridades que ocupam o nosso coração, é uma experiência libertadora. E Jesus nos chama à liberdade. No Evangelho, Ele usa a palavra “humildade” para descrever a forma plena da liberdade. A humildade é, em verdade, a liberdade de si mesmo. Ela nasce quando o Reino de Deus e a sua justiça realmente despertam o nosso interesse […] Quem se exalta, em geral, parece não ter encontrado nada mais interessante do que si mesmo e, no fundo, é muito inseguro. Mas quem compreendeu ser tão precioso aos olhos de Deus, quem sente profundamente ser filho ou filha de Deus, tem coisas maiores pelas quais se exaltar e tem uma dignidade que brilha por si mesma. Ela vem em primeiro plano, está em primeiro lugar, sem esforço e sem estratégias, cada vez que aprendemos a servir, em vez de nos servirmos das situações.

Queridos irmãos, peçamos hoje que a Igreja seja para todos uma academia de humildade, ou seja, aquela casa onde todos são sempre bem-vindos, onde os lugares não precisam ser conquistados, onde Jesus ainda pode tomar a Palavra e educar-nos na sua humildade, na sua liberdade. Maria, a quem agora rezamos, é verdadeiramente a Mãe desta casa.

Resumo do texto do Papa Leão XIV, Angelus, Praça de São Pedro, 31 de Agosto de 2025

Escuta o Papa: 21º Domingo T.Comum


No centro do Evangelho de hoje (Lc 13, 22-30), encontramos a imagem da “porta estreita”, usada por Jesus para responder a alguém que lhe pergunta se são poucos os que se salvam. Jesus diz: «Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, porque Eu vos digo que muitos tentarão entrar sem o conseguir». À primeira vista, esta imagem suscita em nós algumas questões: se Deus é o Pai do amor e da misericórdia, que permanece sempre de braços abertos para nos acolher, por que razão Jesus diz que a porta da salvação é estreita?

O Senhor não quer, certamente, desanimar-nos. As suas palavras servem, antes de mais nada, para abalar a presunção daqueles que pensam que já estão salvos, daqueles que praticam a religião e, por isso, se sentem tranquilos. Na realidade, eles não compreenderam que não basta realizar atos religiosos se estes não transformam o coração: o Senhor não quer um culto separado da vida e não lhe são agradáveis sacrifícios e orações que não nos levam a viver o amor aos irmãos e a praticar a justiça. Por isso, quando se apresentarem diante do Senhor vangloriando-se de terem comido e bebido com Ele e de terem escutado os seus ensinamentos, ouvirão a seguinte resposta: «Repito-vos que não sei de onde sois. Apartai-vos de mim, todos os que praticais a iniquidade»..

Irmãos e irmãs, é bonita a provocação que nos chega do Evangelho de hoje: ao mesmo tempo que nós, às vezes, julgamos quem está longe da fé, Jesus põe em crise “a segurança dos crentes”. Com efeito, diz-nos que não basta professar a fé com palavras, comer e beber com Ele celebrando a Eucaristia ou conhecer bem os ensinamentos cristãos. A nossa fé é autêntica quando envolve toda a nossa vida, quando se torna um critério para as nossas escolhas, quando nos torna mulheres e homens que se comprometem com o bem e apostam no amor, tal como fez Jesus; Ele não escolheu o caminho fácil do sucesso ou do poder, mas, para nos salvar, amou-nos até atravessar a “porta estreita” da Cruz. Ele é a medida da nossa fé, Ele é a porta que devemos atravessar para sermos salvos (cf. Jo 10, 9), vivendo o seu amor e tornando-nos, com a própria vida, agentes de justiça e paz.

Às vezes, isso significa fazer escolhas difíceis e impopulares, lutar contra o próprio egoísmo e gastar-se pelos outros, perseverar no bem onde parece prevalecer a lógica do mal, e assim por diante. Mas, ao ultrapassar este limiar, descobriremos que a vida se abre diante de nós de uma maneira nova e, desde já, entraremos no espaçoso coração de Deus e na alegria da festa eterna que Ele preparou para nós.

Invoquemos a Virgem Maria, para que nos ajude a atravessar com coragem a “porta estreita” do Evangelho, de modo que possamos abrir-nos com alegria à largura do amor de Deus Pai.

Resumo do texto do Papa Leão XIV,  Angelus, Praça de São Pedro, 24 de Agosto de 2025

Escuta o Papa: 20º Domingo T.Comum


Hoje, o Evangelho apresenta-nos um texto exigente (Lc 12, 49-53), no qual, com imagens fortes e grande franqueza, Jesus diz aos discípulos que a sua missão, e também a dos que o seguem, não é só “um mar de rosas”, mas é «sinal de contradição» (Lc 2, 34). Dizendo assim, o Senhor antecipa o que terá de enfrentar quando, em Jerusalém, for contestado, preso, insultado, maltratado, crucificado; quando a sua mensagem, apesar de falar de amor e justiça, for rejeitada; quando os chefes do povo reagirem cruelmente à sua pregação.

Aliás, muitas das comunidades às quais o evangelista Lucas se dirigia com os seus escritos passavam pela mesma experiência. Eram, como nos dizem os Atos dos Apóstolos, comunidades pacíficas que, apesar das suas limitações, procuravam viver da melhor forma a mensagem de caridade do Mestre. E, no entanto, eram perseguidas. Tudo isto nos lembra que nem sempre o bem encontra, à sua volta, uma resposta positiva. Pelo contrário, por vezes, precisamente porque a sua beleza incomoda aqueles que não o acolhem, quem o pratica acaba por encontrar uma forte oposição, chegando mesmo a ter de suportar prepotência e injustiças. Agir segundo a verdade tem um custo, porque no mundo há quem opte pela mentira e porque o diabo, aproveitando-se disso, muitas vezes procura impedir a ação dos bons. Jesus, porém, convida-nos, com a sua ajuda, a não desistir e a não nos conformarmos com esta mentalidade, mas a continuar a agir em prol do nosso bem e do bem de todos, mesmo de quem nos faz sofrer. Ele convida-nos a não responder à prepotência com a vingança, mas a permanecer fiéis à verdade na caridade.  Os mártires dão testemunho disso derramando o seu sangue pela fé; também nós, em circunstâncias diferentes e de outro modo, os podemos imitar. 

Pensemos, por exemplo, no preço que deve pagar um bom pai, se quer educar bem os seus filhos segundo princípios sãos: mais cedo ou mais tarde terá de saber dizer “não”, fazer algumas correções, e isso custar-lhe-á sofrimento. O mesmo vale para um professor que queira formar corretamente os seus alunos, para um profissional, um religioso, um político que se proponham levar a cabo honestamente a sua missão, e para qualquer outra pessoa que se esforce por exercer com coerência, seguindo os ensinamentos do Evangelho, as suas responsabilidades. A este respeito, Santo Inácio de Antioquia, enquanto viajava para Roma, onde sofreria o martírio, escreveu aos cristãos dessa cidade: «Não quero que sejais estimados pelos homens, mas por Deus», e acrescentou: «Prefiro morrer em Cristo Jesus a reinar sobre todos os confins da terra».

Irmãos e irmãs, peçamos a Maria, Rainha dos Mártires, que nos ajude a ser, em todas as circunstâncias, testemunhas fiéis e corajosas do seu Filho, e sustenha os nossos irmãos e irmãs que hoje sofrem pela fé.

Resumo do texto do Papa Leão XIV, Angelus, Praça de São Pedro, 10 de Agosto de 2025