Como é raro encontrar adultos que se arrependem


No início de cada tempo litúrgico, redescobrimos com alegria sempre renovada a graça de ser Igreja, comunidade convocada para escutar a Palavra de Deus. O profeta Joel chegou até nós com a sua voz que tira cada um do seu isolamento e faz da conversão uma urgência, concomitantemente, pessoal e pública: «Reuni o povo, purificai a assembleia, juntai os anciãos, congregai os pequeninos e os meninos de peito». (Jl 2, 16) […]

Também hoje, a Quaresma é um forte tempo de comunidade. […] Sabemos como é cada vez mais difícil reunir as pessoas e sentir-se povo, não de forma nacionalista e agressiva, mas na comunhão em que cada um encontra o seu lugar. Aqui ganha forma um povo que reconhece os próprios pecados, ou seja, reconhece que o mal não vem de presumíveis inimigos, mas que tocou os corações, que está dentro da própria vida e que deve ser enfrentado com um corajoso assumir de responsabilidades. […]

É claro que o pecado é pessoal, mas ele ganha forma nos ambientes reais e virtuais que frequentamos, nas atitudes com que nos condicionamos mutuamente, muitas vezes dentro de autênticas “estruturas de pecado” de ordem económica, cultural, política e até religiosa. Opor o Deus vivo à idolatria – ensina-nos a Escritura – significa ousar a liberdade e reencontrá-la através de um êxodo, de um caminho. Já não paralisados, rígidos, seguros nas nossas posições, mas congregados para nos movimentarmos e mudarmos. Como é raro encontrar adultos que se arrependem, pessoas, empresas e instituições que admitem ter errado!

Hoje, entre nós, está em causa essa mesma possibilidade. […] «É este o tempo favorável, é este o dia da salvação!» (2 Cor 6,2). […] A Quaresma, de facto, impele-nos para estas mudanças de rumo — conversões — que tornam o nosso anúncio mais credível.

Há sessenta anos, poucas semanas após a conclusão do Concílio Vaticano II, São Paulo VI desejou celebrar publicamente o Rito das Cinzas. […] Essa “pedagogia penitencial” – dizia Paulo VI – «surpreende o homem moderno sob dois aspectos»: o primeiro é «o da sua imensa capacidade de ilusão, de autossugestão, de engano sistemático de si mesmo sobre a realidade da vida e dos seus valores». O segundo aspecto é «o pessimismo fundamental» que o Papa Montini constatava em toda a parte: «A maior parte da documentação humana que nos é oferecida hoje pela filosofia, pela literatura, pelo espetáculo – dizia ele – acaba por proclamar a inevitável vaidade de todas as coisas, a imensa tristeza da vida, a metafísica do absurdo e do nada. Esta documentação é uma apologia das cinzas».

Hoje podemos reconhecer a profecia contida nestas palavras e sentir nas cinzas que nos são impostas, o peso de um mundo em chamas, de cidades inteiras destruídas pela guerra: as cinzas do direito internacional e da justiça entre os povos, as cinzas de ecossistemas inteiros e da concórdia entre as pessoas, as cinzas do pensamento crítico e da sabedoria ancestral local, as cinzas daquele sentido do sagrado que habita em cada criatura.

“Onde está o Deus deles?”, perguntam as pessoas. Sim, caríssimos, a história no-lo pergunta, mas ainda antes, a nossa consciência. […]. Reconhecer os nossos pecados para nos convertermos é já um presságio e um testemunho da ressurreição: significa, efetivamente,não permanecer nas cinzas, mas levantarmo-nos e reconstruir.  […]

A Quaresma […] ensina-nos a ver antes o que nasce, o que cresce, impelindo-nos a servi-lo. É a profunda sintonia que, no segredo de quem jejua, reza e ama, se estabelece com o Deus da vida, Pai nosso e de todos. A Ele redirecionemos, com sobriedade e alegria, todo o nosso ser, todo o nosso coração.

Resumo da Homilia do Papa Leão XIV, Basílica de Santa Sabina, 18 de fevereiro de 2026, Quarta-feira de Cinzas

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