Nestes primeiros dias de novembro, a ressurreição de Jesus, o Crucificado, ilumina o destino de cada um de nós. Ele mesmo no-lo disse: «A vontade daquele que me enviou é esta: que Eu não perca nenhum daqueles que Ele me deu, mas o ressuscite no último dia» (Jo 6, 39). Por conseguinte, o centro das preocupações de Deus torna-se claro: que ninguém se perca para sempre e que cada um tenha o seu lugar, brilhando em toda a sua unicidade.
É o mistério que celebrámos ontem, na Solenidade de Todos os Santos: uma comunhão de diferenças que, por assim dizer, alarga a vida de Deus a todos os filhos e filhas que desejaram fazer parte dela. É o desejo inscrito no coração de cada ser humano, que pede reconhecimento, atenção e alegria. Como escreveu o Papa Bento XVI, a expressão “vida eterna” pretende dar um nome a esta espera irreprimível: não uma sucessão [de tempo] sem fim, mas o mergulhar no oceano do amor infinito, no qual o tempo, o antes e o depois já não existem. Uma plenitude de vida e de alegria: é isto que esperamos e aguardamos do nosso estar com Cristo (cf. Carta enc. Spe salvi, 12).
Assim, a Comemoração de todos os fiéis defuntos aproxima-nos ainda mais do mistério. Com efeito, conhecemos interiormente a preocupação de Deus em não perder ninguém, sempre que a morte parece fazer-nos perder para sempre uma voz, um rosto, um mundo inteiro. Na verdade, cada pessoa é um mundo inteiro. O dia de hoje, portanto, é um dia que desafia a memória humana, tão preciosa e tão frágil. Sem a memória de Jesus – da sua vida, morte e ressurreição – o imenso tesouro de cada vida fica sujeito ao esquecimento. Porém, na memória viva de Jesus, mesmo aqueles de quem ninguém se lembra, mesmo aqueles que a história parece ter apagado, emergem na sua dignidade infinita. Jesus, a pedra que os construtores desprezaram, é agora pedra angular (cf. Act 4, 11). Eis o anúncio pascal. Por isso, os cristãos recordam desde sempre os defuntos em cada Eucaristia e, até ao dia de hoje, pedem que os seus entes queridos sejam mencionados na oração eucarística. Desse anúncio nasce a esperança de que ninguém se perderá.
A visita ao cemitério, onde o silêncio interrompe a agitação dos nossos tantos afazeres, seja para todos um convite à memória e à esperança. Professamos no Credo: «Espero a ressurreição dos mortos e a vida do mundo que há de vir». Comemoremos, pois, o futuro. Não fiquemos presos ao passado, às lágrimas da nostalgia. Nem tampouco estejamos encerrados no presente, como num túmulo. Que a voz familiar de Jesus nos alcance, e alcance a todos, porque é a única que vem do futuro. Ele chama-nos pelo nome, prepara-nos um lugar, liberta-nos do sentido da impotência com o qual corremos o risco de renunciar à vida. Maria, mulher do sábado santo, nos ensine de novo a ter esperança.
Resumo do texto do Papa Leão XIV, Angelus, Praça de São Pedro, 2 de Novembro de 2025
