No calvário, confrontam-se duas mentalidades; vemos, no Evangelho, como as palavras de Jesus crucificado se contrapõem às dos seus adversários. Estes vão repetindo, como se fosse um refrão, «salva-te a ti mesmo». Dizem-no os chefes; […] Proferem-no os soldados […]. E também um dos malfeitores […]. Salvar-se a si mesmo, olhar por si mesmo, nos próprios interesses; […] é o refrão da humanidade, que crucificou o Senhor. […] Mas, à mentalidade do «eu», opõe-se a de Deus; o salva-te a ti mesmo confronta-se com o Salvador que Se oferece a Si mesmo. No Calvário, […] também Jesus toma a palavra três vezes como os seus adversários. […]. Particularmente uma das suas expressões marca a diferença do salva-te a ti mesmo: «Perdoa-lhes, Pai». Detenhamo-nos nestas palavras. Quando são pronunciadas pelo Senhor? […] Durante a crucifixão. […]. Lá, na dor física mais aguda da Paixão, Cristo pede perdão para quem O está perfurando. […] Cravado no patíbulo da humilhação, aumenta a intensidade do dom, que se torna “perdão”. É […] daqueles orifícios de dor causados pelos nossos cravos que brota o perdão. […]. Fixemos Jesus na cruz e vejamos que nunca recebemos um olhar mais terno e compassivo. […]. Fixemos o Crucificado e digamos: «Obrigado, Jesus! Amas-me e perdoas-me sempre, mesmo quando me custa amar e perdoar a mim mesmo».
Lá, enquanto é crucificado, […] Jesus vive o seu mandamento mais difícil: o amor aos inimigos. […] Hoje Jesus ensina-nos […] a romper o círculo vicioso do mal e dos queixumes, a reagir […] aos golpes do ódio com a carícia do perdão. […] Se queremos verificar a nossa pertença a Cristo, vejamos como nos comportamos com quem nos feriu. O Senhor pede-nos […] para quebrar a corrente do «amo-te se me amares; sou teu amigo, se fores meu amigo; ajudo-te se me ajudares». […] Em vez disso, compaixão e misericórdia para com todos, porque Deus vê um filho em cada um […]
Perdoa-lhes, Pai, porque não sabem o que fazem. O Evangelho sublinha que Jesus «dizia» isso, isto é, […] passou as horas na cruz com estas palavras nos lábios e no coração. […] Jesus – ensina o Evangelho de Lucas – veio ao mundo para nos trazer o perdão dos nossos pecados e, no fim, deixou-nos esta ordem concreta: pregar a todos, no seu nome, o perdão dos pecados. […] Notemos mais uma coisa. Jesus não só implora o perdão, mas diz também o motivo: perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem. Como é possível? Os seus opositores tinham premeditado a morte d’Ele, […] e agora estão lá, no Calvário, para assistir ao seu fim… e, todavia, Cristo justifica aqueles violentos, porque não sabem. É assim que Jesus Se comporta connosco: faz-Se nosso advogado. Não Se coloca contra nós, mas por nós contra o nosso pecado. E é interessante o argumento que usa: porque não sabem, ou seja, aquela ignorância do coração que temos todos nós pecadores. […].
Perdoa-lhes, Pai, porque não sabem o que fazem. Muitos ouvem esta frase incrível; mas apenas um a acolhe. É um malfeitor, crucificado ao lado de Jesus. Podemos pensar que a misericórdia de Cristo suscitou nele uma última esperança e o levou a pronunciar estas palavras: «Jesus, lembra-te de mim» […] O bom ladrão acolhe Deus, quando a vida dele está prestes a terminar e, assim, a sua vida recomeça; no inferno do mundo, vê abrir-se o Paraíso: «Hoje estarás comigo no Paraíso». Eis o prodígio do perdão de Deus, que transforma o último pedido dum condenado à morte na primeira canonização da história.
Irmãos, irmãs! Nesta semana, abramo-nos à certeza de que Deus pode perdoar todo o pecado. […]Coragem! Caminhemos para a Páscoa com o seu perdão. […] (e em silêncio, no coração, repitamos com Ele): Perdoa-lhes, Pai, porque não sabem o que fazem.
Resumo do texto lido pelo Papa Francisco, Homilia, 10 de abril de 2022
