Neste dia, que dá início ao tempo da Quaresma, o Senhor diz-nos: «Guardai-vos de fazer as vossas obras diante dos homens, para vos tornardes notados por eles; de outro modo, não tereis nenhuma recompensa do vosso Pai que está no Céu» (Mt 6, 1). […] No Evangelho de hoje a palavra que aparece mais vezes é recompensa […]. Mas o Senhor distingue dois tipos de recompensa […]: por um lado, temos a recompensa junto do Pai e, por outro, a recompensa junto dos homens. A primeira é eterna, é a definitiva […]. Ao contrário, a segunda é transitória. […] Por isso nos adverte Jesus: «Guardai-vos…»! É como se dissesse: «Tendes a possibilidade de gozar uma recompensa infinita, uma recompensa sem igual: por isso tende cuidado para não vos deixar deslumbrar pela aparência, perseguindo recompensas insignificantes, que vos morrem na mão».
O rito das cinzas, […] quer subtrair-nos ao encandeamento de preferir a recompensa junto dos homens à recompensa junto do Pai. Este sinal austero, que nos leva a refletir sobre a caducidade da nossa condição humana, é como um remédio de sabor amargo, mas eficaz para curar a doença da aparência. Trata-se duma doença espiritual, que escraviza a pessoa, levando-a a tornar-se dependente da admiração dos outros. […] O problema é que esta doença da aparência mina também os âmbitos mais sagrados. É sobre isto que Jesus insiste hoje: também a oração, a caridade e o jejum podem tornar-se autorreferenciais. […] E tudo se pode transformar numa espécie de ficção em relação a Deus, a si mesmo e aos outros. […]
A Quaresma é […] um caminho de cura. Não para mudar tudo da noite para o dia, mas para viver cada dia com um espírito novo […] A oração humilde, feita «em segredo» , no recanto do próprio quarto, torna-se o segredo para fazer florescer a vida no exterior. […] A esmola, dada longe dos holofotes, dá paz e esperança ao coração. Revela-nos […] um segredo precioso: o dar alegra mais o coração do que o receber. Por fim, o jejum. Este não é uma dieta; antes, liberta-nos da autorreferencialidade da busca obsessiva do bem-estar físico, para nos ajudar a ter em forma, não o corpo, mas o espírito. O jejum leva-nos de novo a dar o justo valor às coisas. […]
Oração, caridade e jejum[…] podem, de facto, mudar a história. […] São os meios principais que permitem a Deus intervir na vida nossa e do mundo. São as armas do espírito e é com elas que, […], imploramos a Deus aquela paz que os homens sozinhos não conseguem construir.
Vós, Senhor, que vedes no segredo e nos recompensais além de toda a nossa expectativa […] Colocai de novo a paz nos corações, concedei aos nossos dias a vossa paz.
Resumo do texto lido pelo Papa Francisco na Homilia, 2 de março de 2022
