No Evangelho da Liturgia de hoje, Jesus dá aos discípulos algumas indicações fundamentais para a vida. O Senhor refere-se às situações mais difíceis, aquelas que constituem um teste para nós […]. Nestes casos, o discípulo de Jesus é chamado a não ceder ao instinto e ao ódio […]. Jesus diz: «Amai os vossos inimigos, fazei bem àqueles que vos odeiam» (Lc 6, 27). E ainda mais concretamente: «Ao que te ferir numa face, oferece-lhe também a outra». Quando ouvimos isto, parece-nos que o Senhor pede o impossível. […] Se não se reagir aos prepotentes, qualquer abuso tem livre trânsito, e isso não é correto. Mas será mesmo assim? Será que o Senhor nos pede realmente coisas que são impossíveis, e aliás injustas? […]
Consideremos antes de mais o sentimento de injustiça […]. E pensemos em Jesus. Durante a sua paixão, […] a um certo ponto recebe uma bofetada de um dos guardas. E como se comporta Ele? Não o insulta, não, diz ao guarda: «Se falei mal, prova-o. Mas se falei bem, por que me bates?» (Jo 18, 23). […] Oferecer a outra face não significa […] ceder à injustiça. Com a sua pergunta Jesus denuncia o que é injusto. Fá-lo sem raiva nem violência, mas com gentileza […] procurando recuperar o irmão culpado. Isto não é fácil, mas Jesus fê-lo e diz-nos para o fazer também nós. […] A mansidão de Jesus é uma resposta mais forte do que a bofetada que recebeu. Oferecer a outra face não é o recuo do perdedor, mas a ação de quem tem mais força interior. Oferecer a outra face é vencer o mal com o bem, abrindo uma brecha no coração do inimigo, desmascarando o absurdo do seu ódio. […]
Passemos à outra objeção: é possível que uma pessoa consiga amar os próprios inimigos? Se dependesse apenas de nós, seria impossível. Mas lembremo-nos… […] o Senhor nunca nos pede algo que não nos dê primeiro. Quando Ele me diz para amar os inimigos, […] dá-nos a capacidade de amar. […] A força de amar, que não é algo, mas é o Espírito Santo. […] E com o Espírito de Jesus podemos responder ao mal com o bem, podemos amar quem nos fere. Assim fazem os cristãos. […] E quanto a nós, procuramos viver as exortações de Jesus? Pensemos numa pessoa que nos feriu. […]Talvez haja um ressentimento dentro de nós. Portanto, coloquemos este ressentimento ao lado da imagem de Jesus, manso, durante o julgamento, após a bofetada. E depois peçamos ao Espírito Santo que aja no nosso coração. Por fim, oremos por aquela pessoa: oremos por aqueles que nos feriram (cf. Lc 6, 28). […]. Rezar por quem nos feriu é o primeiro passo para transformar o mal em bem.
Resumo do texto lido pelo Papa Francisco no Angelus de 20 de fevereiro de 2022
