O Evangelho da liturgia de hoje relata o episódio das bodas de Caná, onde Jesus transforma a água em vinho para a alegria dos noivos. E conclui-se assim: «Este foi o início dos sinais que Jesus realizou; Ele manifestou a sua glória e os seus discípulos acreditaram nele» (Jo 2, 11). Observamos que o evangelista João não fala de um milagre. […] Ele escreve que em Caná ocorre um sinal que suscita a fé dos discípulos. […] Um sinal é um indício que revela o amor de Deus, isto é, que não chama a atenção para o poder do gesto, mas para o amor que o provocou. […] O primeiro sinal ocorre quando dois recém-casados se encontram em dificuldade no dia mais importante da sua vida. No meio da festa falta um elemento essencial, o vinho, e a alegria corre o risco de esvaecer no meio das críticas e da insatisfação dos convidados. […]
É Nossa Senhora que se dá conta do problema e o indica discretamente a Jesus. E Ele intervém sem clamor, quase sem que alguém se aperceba. Tudo se passa na discrição, “nos bastidores”. […] Deus age deste modo, com proximidade e discrição. Os discípulos de Jesus dão-se conta disto: […]. E também veem o modo de agir de Jesus, o seu servir no escondimento – assim é Jesus: ajuda-nos, serve-nos no escondimento, naquele momento – de tal modo que os elogios pelo bom vinho são feitos ao noivo, ninguém percebe, apenas os servos[…]
É bom pensar que o primeiro sinal que Jesus realiza não é uma cura extraordinária nem um milagre no templo de Jerusalém, mas um gesto que responde a uma necessidade simples e concreta das pessoas comuns, um gesto doméstico, um milagre, […]discreto, silencioso. Ele está pronto para nos ajudar, para nos aliviar. E assim, se estivermos atentos a estes “sinais”, somos conquistados pelo seu amor e tornamo-nos seus discípulos.
Mas há outra caraterística distintiva do sinal de Caná. Geralmente, o vinho que se oferecia no final da festa era o menos bom; […] Jesus, ao contrário, certifica-se de que a festa se conclua com o melhor vinho. Simbolicamente, isto diz-nos que Deus quer o melhor para nós, Ele quer que sejamos felizes. […] A alegria que Jesus deixa no coração é alegria plena e abnegada. […] Por isso sugiro-vos um exercício. […] Tentemos hoje sondar as nossas memórias em busca dos sinais que o Senhor realizou na minha vida. Cada pessoa diga: na minha vida, que sinais realizou o Senhor? […] Com quais sinais, discretos e atenciosos, Ele me fez sentir a sua ternura? […] Revivamos os momentos em que experimentámos a sua presença e a intercessão de Maria. Ela, a Mãe, que como em Caná está sempre atenta, nos ajude a fazer tesouro dos sinais de Deus na nossa vida.
Resumo do texto lido pelo Papa Francisco no Angelus de 16 de janeiro de 2022
