II.09. O triunfo do que se faz servo

Remake usando IA, da pintura Jesus lava os pés a Pedro de Brown (1852-56)

Episódio do Podcast (Youtube e Spotify)

Após percorrer as estradas da Galileia e da Judeia anunciando o Reino, Jesus dirige-Se a Jerusalém para a celebração da Páscoa. Como veremos nesta aula “O triunfo do que se faz servo”, o poder de Jesus, ao invés da lógica do mundo,  manifesta-se no serviço, a Sua autoridade na obediência ao Pai e a Sua glória na entrega total na Cruz. 

Este é o ponto fundamental: o Filho de Deus fez-se servo por cada um de nós. “Ele, que era de condição divina, não se valeu da sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se a si mesmo, tomando a condição de servo.” (Fl 2,6-7).  

1. A entrada triunfal e as lágrimas sobre Jerusalém

Ao aproximar-Se de Jerusalém, Jesus prepara a Sua entrada de forma simbólica, cumprindo a profecia de Zacarias. Diferente dos conquistadores que entravam montados em cavalos de guerra, Jesus escolhe um jumentinho, animal de carga e de paz. (Lc 19,28-40) 

O Papa Bento XVI explicava: “A realeza de Cristo não é feita de exércitos ou de poder. É uma realeza de obediência ao Pai e de serviço aos irmãos. A sua força é o amor.”

Na entrada triunfal em Jerusalém, as multidões aclamam: “Bendito o que vem em nome do Senhor”. Nesta cena, o Papa Francisco, identificou os diferentes “gritos”: 

  • O grito da alegria verdadeira: Vindo dos marginalizados, leprosos curados e pecadores perdoados que recuperaram a dignidade. É a alegria espontânea de quem foi tocado pela misericórdia.
  • O grito que se deixa manipular: este mesmo povo, alguns dias depois, gritará: “Crucifica-o. É um grito manipulado pelos líderes que se sentiam ameaçados pela bondade de Jesus. 
  • O grito das pedras: Jesus afirma que, se os Seus discípulos se calarem, as pedras gritarão. É um apelo a todos os Seus seguidores  para nãose deixarem silenciar pela corrupção ou pela falta de alegria do mundo. 

Ao ver a cidade, Jesus chora sobre ela: “Se ao menos neste dia conhecesses o que te pode trazer a paz!” (Lc 19,42). O Senhor lamenta a dureza de coração deste povo e profetiza a destruição futura da cidade (que ocorreria em 70 d.C.) porque os seus habitantes não reconheceram o “tempo em que foram visitados”.

 São João Paulo II comentou: “O pranto de Cristo sobre Jerusalém é a resposta de Deus ao drama da liberdade humana. Ele respeita a liberdade, mesmo quando esta rejeita o dom da paz.” Hoje, Jesus continua a chorar por cada coração que rejeita a sua paz e o seu amor.

2. O Grão de Trigo que Morre

Jesus entra finalmente no Templo e alguns gregos, que se encontravam em Jerusalém, pedem a Filipe para verem Jesus. O Senhor serve-se desta curiosidade para afirmar-se como Messias: «Chegou a hora de se revelar a glória do Filho do Homem. Em verdade, em verdade vos digo: Se o grão de trigo lançado à terra não morrer, fica só; mas se morrer, dará muito fruto» (Jo 12,24). Jesus prepara os presentes para o que estava prestes a chegar: a Sua glória passa pela “elevação” na Cruz, atraindo todos a Si através do Amor que se doa até ao fim.

E continua: «Agora a minha alma está perturbada. E que hei-de Eu dizer? Pai, salva-me desta hora? Mas precisamente para esta hora é que Eu vim! Pai, manifesta a tua glória!» Veio, então, uma voz do Céu: «Já a manifestei e voltarei a manifestá-la!»

Esta é a lógica fundamental do triunfo cristão: perder a vida por amor é ganhar a vida eterna. A glória de Jesus não está em evitar a cruz, mas em aceitá-la como caminho de salvação.

3. Confrontos no Templo

Os últimos dias de Jesus são marcados por intensos debates com as autoridades religiosas (fariseus, saduceus, herodianos). Através destas provocações, Jesus eleva o debate para o plano espiritual.

  • O tributo a César (Mt 22, 23-33)

Questionado sobre se era lícito pagar impostos ao império invasor de Israel, Jesus responde: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”

O Papa Francisco sublinha que: «Por um lado, Jesus declara que pagar o imposto não é um gesto de idolatria, mas um ato devido à autoridade terrena; por outro — e é aqui que Jesus dá o “golpe de asa” — evocando o primado de Deus, pede que se lhe dê aquilo que lhe pertence como Senhor da vida do homem e da história. […] O cristão é chamado a comprometer-se concretamente nas realidades humanas e sociais, sem opor “Deus” a “César”; mas iluminando-as com a luz que deriva de Deus.»

Ou seja, enquanto a moeda tem a efígie de César, o ser humano tem gravada em si a imagem de Deus. Pertencemos fundamentalmente a Ele, e a nossa vida deve ser um reconhecimento desta pertença. 

  • A ressurreição

Os saduceus – que não acreditam na ressurreição –  interrogaram Jesus acerca de uma mulher que em vida teve sete maridos cada um deles após ficar viuva: «Na ressurreição, quando ressuscitarem, de qual deles será ela mulher?». 

Disse-lhes Jesus: «Pois, quando ressuscitarem dos mortos, nem se casam nem se dão em casamento; pelo contrário, são como anjos nos céus. 6E, quanto aos mortos ressuscitarem, não lestes no Livro de Moisés, no episódio da sarça, quando Deus lhe disse: Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacob]? 27Não é Deus de mortos, mas de vivos. Andais muito enganados».

  • O maior mandamento

Perante a pergunta de um escriba, Jesus esclareceu: «Escuta, Israel! O Senhor nosso Deus é o único Senhor; Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento e com todas as tuas forças. O segundo é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo.»

Ou seja, o amor a Deus e o amor ao próximo estão intimamente ligados entre si, e aqui reside o requisito de admissão à vida eterna. S. João Paulo II explicou-nos que: “A caridade não hesita, porque ela é a expressão da nossa fé”. A fé que salva é a que ama concretamente. E foi muito  concretamente que Jesus nos amou.

4. Os doutores da lei e a pobre viúva 

Na sequência destas discussões , Jesus advertiu os seus discípulos contra a hipocrisia dos doutores da lei que «gostam de saudações nas praças públicas, dos primeiros assentos nas sinagogas e dos primeiros lugares nos banquetes; devoram as casas das viúvas usando longas orações como pretexto. Estes receberão uma condenação mais severa» (Lc 20, 45-47).

Como contraponto Jesus vai usar o exemplo de uma pobre viúva. Quando estava no Templo fez notar aos discípulos que muitos davam grandes quantias, e que “esta viúva pobre deu mais do que todos, porque deu tudo o que tinha para viver” (Lc 21,3-4). O Senhor valoriza este gesto acima de todos os outros porque o  critério de Deus é a generosidade do coração.

5. Discurso escatológico

  • Tribulações no mundo

Depois de sair do templo, Jesus respondendo a um discípulos protetiza a queda deste templo grandioso: “não ficará aqui pedra sobre pedra que não seja derrubada».

Pedro, Tiago, João e André interrogaram-no quando ele estava a sós: «Mestre, quando será isso e qual o sinal, quando essas coisas estiverem prestes a acontecer?»

Jesus disse: «Tomai cuidado, não vos deixeis enganar! Pois muitos virão em meu nome, dizendo: “Sou eu” e “O tempo está próximo”. Não vades atrás deles. Quando ouvirdes falar de guerras e de rebeliões, não fiqueis aterrorizados; é necessário que estas coisas aconteçam primeiro, mas não será imediatamente o fim».

E depois Jesus esclarece que no final dos tempos, haverá sinais inequívocos :«Verão, então, o Filho do Homem vir entre as nuvens com grande poder e glória. E enviará, então, os anjos e reunirá os seus eleitos dos quatro ventos, da extremidade da terra até à extremidade do céu (Mc 13,24-27).

  • Juízo final

O Senhor explica-nos que acontecerá no chamado Juízo final universal: «Quando o Filho do Homem vier na sua glória, acompanhado por todos os seus anjos, há-de sentar-se no seu trono de glória. Perante Ele, vão reunir-se todos os povos e Ele separará as pessoas umas das outras, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos. À sua direita porá as ovelhas e à sua esquerda, os cabritos. (Mt 25)

 Jesus ensina-nos que seremos julgados pelo amor concreto.

O protocolo do Senhor:
Necessidade dos “irmãos mais pequeninos”“benditos do Pai, que vão para a vida eterna”“malditos, que vão para o suplício eterno”
Fome e SedeDar de comer e beber.Não dar de comer e beber.
Peregrino / EstrangeiroAcolher / recolher.Não acolher / recolher.
NudezVestir.Não vestir.
Doença / PrisãoVisitar.Não visitar.
«Sempre que fizestes isto, a mim mesmo o fizestes.»«Sempre que deixastes de fazer isto, foi a mim que o deixastes de fazer.»
  • Necessidade de estar vigilante 

Até lá Jesus alerta-nos «Tomai cuidado; estai vigilantes, pois não sabeis quando virá o senhor da casa: se ao entardecer, se à meia-noite, se ao cantar do galo ou de manhã cedo; não aconteça que, ao vir inesperadamente, vos encontre a dormir.»

6. A traição e a preparação da Ceia Pascal

A dois dias da Páscoa e dos Ázimos, os chefes dos sacerdotes e os doutores da lei procuravam o modo de o matar, depois de o prenderem à traição,pois diziam: «Não durante a festa, para que não haja alvoroço do povo».

Então Judas Iscariotes, um dos Doze, foi ter com eles para lhes entregar Jesus. Ao ouvi-lo, eles alegraram-se e prometeram dar-lhe dinheiro. E ele procurava o momento oportuno para o entregar.

No primeiro dia dos Ázimos, quando se imolava a Páscoa disseram-lhe os seus discípulos: perguntaram a Jesus onde Ele queria comer a Páscoa. Foi então que enviou dois discípulos a um determinado local onde haveria uma sala mobilada e pronta. Os discípulos foram à cidade e encontraram tudo tal como lhes dissera e prepararam a Páscoa.

7. A última Ceia

  •  O Lava-Pés: o Mestre que se faz servo

Na última Ceia (Jo 13,1-20), antes de repartir o pão, Jesus realiza um gesto inaudito: “Levantou-se, tirou o manto, tomou uma toalha, deitou água numa bacia e começou a lavar os pés aos discípulos” 

Pedro protesta porque esta era uma tarefa reservada aos escravos: «Senhor, Tu vais lavar-me os pés?». Mas Jesus insiste: “Se Eu não te lavar, não terás parte comigo”. E conclui: “Dei-vos o exemplo, para que, assim como Eu vos fiz, vós façais também. 

Jesus, Mestre e Senhor, faz-se escravo para ensinar que a autoridade na Igreja é serviço: o lavar os pés de Pedro e até ae Judas, Jesus mostra um amor que se oferece para nos curar.

O Papa Francisco, durante o seu pontificado  repetiu várias vezes este gesto em prisões, e sublinhava:  “Jesus fez-se servo para nos purificar. Este gesto mostra que ninguém está tão baixo que não possa ser amado. O lava-pés revela o amor que se inclina e cura.”

  • O Mandamento Novo

Na mesma ceia, Jesus dá o mandamento essencial: Dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros; como vos amei, que também vós vos ameis uns aos outros. Nisto saberão todos que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns pelos outros». (Jo 13,34).

O Papa Leão XIV, recentemente eleito, comentou: “O triunfo de Cristo é o amor que permanece. A sua vitória é a comunhão. E nós somos chamados a ser instrumentos desse amor que se faz serviço.”

  • A Instituição da Eucaristia e da Ordem

Durante a ceia, Jesus transforma os ritos da Antiga Aliança numa Nova Aliança. Ao tomar o pão e o vinho, Ele diz: “Isto é o meu corpo… este é o meu sangue… derramado por muitos para perdão dos pecados”.

A eucaristia é o memorial da sua morte e ressurreição, presença real e alimento da Igreja. Não é apenas uma recordação, mas a atualização do Seu sacrifício através da transubstanciação: pão e vinho passa a ser realmente o Corpo e o Sangue do Senhor

O Papa Leão XIII ensinou-nos que  a Eucaristia tem um papel fundamental na regeneração social: “A Eucaristia forma cidadãos justos e irmãos solidários”. Receber a Eucaristia implica aceitar o desafio de lavar os pés aos outros, especialmente aos que o mundo descarta: os doentes, os presos, os pobres.

Ao dizer “Fazei isto em memória de Mim”, Jesus confia aos apóstolos a missão de perpetuar a Sua presença sacramental, ou seja institui o Sacerdócio (Sacramento da Ordem). 

PáscoaAntiga Aliança
com o Povo de Israel
Nova Aliança com toda a humanidade
SignificadoLibertação da escravidão do Egito (Êxodo)Libertação da escravidão do pecado e da morte.
CordeiroAnimal imolado em sacrifício pelos pecados do povoJesus, o Cordeiro de Deus, imolado na Cruz pelos pecados da  humanidade
SangueSinal de proteção e purificação do povo judeuEucaristia pela qual recebemos a vida eterna.
MandamentoLei de Moisés: “Ama o próximo como a ti mesmo”Mandamento Novo: “Amai-vos como Eu vos amei”
  • Jesus pede pela Unidade:

No decorrer da Ceia Jesus dirige-se em oração ao Pai por todos os seus discípulos, os presentes os futuros (ou seja nós): 

«Pai, eu te peço por aqueles que me deste, porque são teus.»

«Agora vou para ti e digo estas coisas no mundo, para que tenham em si mesmos a plenitude da minha alegria.

«Não peço que os tires do mundo, mas que os guardes do Maligno. Consagra-os na verdade; a tua palavra é verdade.»

«Tal como me enviaste ao mundo, também Eu os enviei ao mundo;»

«Que todos sejam um só; tal como Tu, Pai, estás em mim e Eu em ti, que também eles estejam em Nós.» 

Ou seja, podemos sublinhar que Jesus reza pela unidade dos Seus discípulos. Este é um tema bastante presente na Igreja. O atual Papa Leão XIV tem como lema apostólico “In Illo uno unum” – No único Cristo somos um –  recordando que, se permanecermos todos no Seu amor, Ele faz de nós o Seu templo e instrumentos da Sua paz. 

Síntese

  • Entrada em Jerusalém → Rei humilde, não guerreiro.
  • Jesus chora → lamenta a rejeição da paz.
  • Grão de trigo → a vida que morre gera fruto.
  • Confrontos no Templo → dar a Deus o que é de Deus.
  • Viúva pobre → triunfo da generosidade humilde.
  • Lava-pés → o Mestre serve os discípulos.
  • Mandamento novo → amor sem medida.
  • Eucaristia → presença real, alimento do serviço.

Reflexão 

O triunfo de Jesus é escandaloso para a lógica do mundo, porque não vence com poder, mas com serviço; não se exalta, mas abaixa-se; não mata, mas dá a vida.  

Ser discípulo é compreender que o nosso nome está gravado na palma da mão de Deus e que a nossa identidade fundamental é a de filhos amados. A partir desta certeza, somos enviados ao mundo para ser “luz” e “grão de trigo” que, ao morrer para o egoísmo, faz germinar a esperança. O verdadeiro triunfo não é ter muitos servos, mas tornar-se servo de muitos.

Perguntas para reflexão pessoal:

  1. Na “entrada” de Jesus hoje, sou dos que aclamam com alegria ou dos que se sentem incomodados pela Sua exigência de amor?
  2. Aceito que o caminho da glória passa pela cruz e pelo serviço?
  3. Participo na Eucaristia como um espectador de um rito ou deixo que ela transforme a minha vida em dom para os outros?
  4. O gesto do lava-pés é uma realidade na minha família, trabalho ou comunidade, ou procuro ainda o primeiro lugar e o domínio sobre os outros?

Conclusão

O verdadeiro triunfo é o de quem se faz servo. Jesus mostrou-o ao entrar humilde em Jerusalém, ao chorar pela cidade, ao ensinar no Templo, ao lavar os pés dos discípulos, ao dar-se como alimento.

Segui-lo significa acolher esta lógica desconcertante: a grandeza está em servir, a vitória em amar, a glória na cruz.“Quem se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado” (Lc 14,11).