II.06. A tenda, o Pastor e os lobos

Remake usando IA, da pintura O Bom Pastor de Champaigne (1650-60)

Episódio do Podcast (Youtube e Spotify)

A caminhada do discípulo de Jesus é marcada por momentos de claridade intensa e por desafios que exigem um discernimento profundo. Nesta aula A Tenda, o Pastor e os Lobos , inspira-se em três imagens evangélicas: a tenda que Pedro queria fazer, quando Jesus manifesta a Sua divindade no alto do Monte Tabor;  o discurso de Jesus em que apresenta como o Bom Pastor que nunca desiste da ovelha perdida; e por fim a imagem dos lobos que que perseguem e ameaçam dividir o rebanho. Juntas, ajudam-nos a compreender a missão de Jesus e o sentido do discipulado.

a) A Transfiguração

Seis dias depois do anúncio da cruz, Jesus leva Pedro, Tiago e João ao Monte Tabor (Mt 17,1-9). Diante deles, transfigura-se: o rosto brilha como o sol, as vestes tornam-se brancas. Ao lado de Jesus transfigurado, aparecem duas grandes personagens do Antigo Testamento Moisés e Elias, que representam a presença da Lei e dos Profetas, respectivamente. Ou seja, o Senhor quer revelar quem Ele é verdadeiramente: mostra-nos que todo o Antigo Testamento aponta para Ele, que Ele é o cumprimento de toda a promessa bíblica.

Pedro exclama: “Senhor, como é bom estarmos aqui! Se quiseres, farei três tendas: uma para Ti, outra para Moisés e outra para Elias” (Mt 17,4). Mas uma nuvem luminosa cobre-os e a voz do Pai proclama: “Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência. Escutai-o” (Mt 17,5).

Aqui, Jesus antecipa a glória da ressurreição para fortalecer os discípulos antes do escândalo da cruz. A “tenda” simboliza o desejo humano de reter a experiência do céu. Mas a ordem é clara: descer do monte e continuar o caminho até Jerusalém.

O Papa Francisco comenta: “A Transfiguração é um convite a subir ao monte para estar com Jesus, mas depois a descer, levando a luz que vimos, para servir os irmãos.”

b) O Bom Pastor

Em Jerusalém, Jesus apresenta-se com outra imagem: “Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida pelas suas ovelhas” (Jo 10,11). Ele conhece cada uma pelo nome, guia-as à frente, protege-as dos lobos. Diferente do mercenário, que foge diante do perigo, Jesus permanece e entrega a vida.

A parábola da ovelha perdida (Lc 15,4-7) exprime a lógica desconcertante de Deus: deixar 99 para procurar uma. Humanamente, parece desproporcional. Mas é assim o amor de Deus: não desiste de ninguém.

O Papa Francisco recorda: “Deus não conhece a cultura do descarte. Para Ele, ninguém é descartável. Vai sempre à procura da ovelha perdida.”

c) O Perdão sem Medida

Pedro pergunta: “Quantas vezes devo perdoar? Até sete vezes?”. Jesus responde: “Não te digo até sete, mas até setenta vezes sete” (Mt 18,21-22). Para explicar, conta a parábola do servo impiedoso (Mt 18,23-35): perdoado de uma dívida enorme, recusa-se a perdoar uma pequena quantia ao seu companheiro. A lição é clara: quem recebeu misericórdia deve também concedê-la.

Na oração do Pai-Nosso, rezamos: “Perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”. O perdão recebido de Deus está ligado ao perdão oferecido aos irmãos.

d) A Mulher Adúltera

Os fariseus trazem a Jesus uma mulher apanhada em adultério (Jo 8,1-11). A lei mandava apedrejá-la. Perguntam: “Tu que dizes?”. Jesus inclina-se e escreve no chão. Depois levanta-se: “Quem de vós estiver sem pecado atire a primeira pedra”. Um a um, todos se retiram. Jesus fica sozinho com a mulher e diz: “Ninguém te condenou? Eu também não te condeno. Vai e não tornes a pecar”.

Aqui, vemos a misericórdia que não nega o pecado, mas abre caminho à conversão. O Papa Francisco explica: “Deus perdoa não com um decreto, mas com uma carícia. A misericórdia é a ternura de Deus que toca as nossas feridas.”

e) A Luz do Mundo

Após este episódio, Jesus proclama: “Eu sou a luz do mundo. Quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida” (Jo 8,12).

A cura do cego de nascença (Jo 9) concretiza esta promessa. Enquanto os fariseus permanecem cegos pelo orgulho, o cego curado proclama com simplicidade: “Era cego e agora vejo”. Este milagre recorda-nos que a verdadeira cegueira não é física, mas espiritual: recusar ver a luz de Cristo.

f) O Envio em Meio de Lobos

Jesus envia os discípulos dois a dois: “Eis que vos envio como cordeiros para o meio de lobos” (Lc 10,3). Dá-lhes poder sobre os espíritos impuros, pede-lhes pobreza de meios e manda anunciar: “Está próximo de vós o Reino de Deus”.

Os discípulos regressam cheios de alegria, mas Jesus adverte: “Não vos alegreis porque os espíritos se submetem a vós; alegrai-vos porque os vossos nomes estão escritos no céu” (Lc 10,20). Aqui nasce a missão da Igreja: sair do redil, enfrentar lobos, levar a luz e a paz do Evangelho.

Síntese

  • Transfiguração → Jesus mostra a glória para preparar os discípulos para a cruz.
  • Bom Pastor → conhece, guia e dá a vida pelas ovelhas; procura a perdida.
  • Perdão ilimitado → quem foi perdoado deve perdoar sem medida.
  • Mulher adúltera → misericórdia que abre caminho à conversão.
  • Luz do mundo → cura do cego revela a fé como visão nova.
  • Envio missionário → cordeiros no meio de lobos, com alegria e confiança.

Reflexão

O cristão é chamado a viver entre a luz da Transfiguração e as tempestades do mundo, entre a ternura do Bom Pastor e a hostilidade dos lobos.

Perguntas para reflexão pessoal:

  1. Procuro “montar tendas” nas experiências bonitas, ou aceito descer à vida concreta com fé?
  2. Sinto-me conhecido e amado pelo Bom Pastor, ou vivo como ovelha perdida?
  3. Tenho dificuldade em perdoar? Reconheço que sou devedor perdoado?
  4. Testemunho a luz de Cristo em meio às sombras do mundo?

Conclusão

A tenda, o pastor e os lobos são imagens que resumem a experiência do discipulado: a contemplação da glória, a proximidade do amor e a dureza da missão.

Com Jesus transfigurado, aprendemos que a cruz conduz à luz. Com o Bom Pastor, descobrimos que somos conhecidos e amados. Com os lobos, percebemos que a fé é combate, mas que a vitória já é de Cristo.

A vida cristã é esta travessia: deixar-se guiar pelo Pastor, carregar a cruz com misericórdia e viver sempre na esperança da tenda definitiva do Reino de Deus.