II.03. Felizes e filhos da mesma família

Remake usando IA, da pintura O Sermão da Montanha, de Carl Heinrich Bloch (1877)

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Depois do batismo e dos primeiros sinais da Sua divindade, Jesus começa a reunir discípulos e as multidões vão seguindo-o. É neste contexto que sobe a um monte e pronuncia o seu primeiro grande discurso, conhecido como Sermão da Montanha (Mt 5–7). Aqui, Jesus apresenta o coração do Evangelho: as Bem-aventuranças, como mapa para a atingir a felicidade.

Esta aula – Felizes e Filhos da Mesma Família – tenta resumir a identidade que Jesus propõe a quem o segue: a verdadeira felicidade não está nas riquezas, no poder ou no sucesso, mas em viver como filhos de Deus, irmãos uns dos outros, numa pertença que ultrapassa os laços de sangue. 

a) A vocação de Mateus: o olhar da Misericórdia

O chamamento de Mateus (também conhecido como Levi) é um dos momentos mais marcantes do Evangelho. Mateus era um cobrador de impostos, um judeu que servia o Império Romano, sendo visto pelos seus contemporâneos como um traidor e um pecador público.Jesus, porém, não vê as aparências. 

O Papa Francisco destaca a força deste momento: «Jesus parou, não passou ao largo acelerando o passo, olhou-o sem pressa, olhou-o com calma. Olhou-o com olhos de misericórdia; olhou-o como ninguém o fizera antes. E aquele olhar abriu o seu coração, fê-lo livre, curou-o, deu-lhe uma esperança, uma nova vida…».

Esta é a história de cada cristão: somos pecadores sobre quem Jesus pousou o Seu olhar, precedendo as nossas necessidades e o nosso próprio arrependimento. Não há cristãos sem um passado ou sem pecado, há sim pessoas que se deixaram tocar pelo olhar de Cristo.

 b) Os Doze: alicerces de uma Igreja Apostólica

Jesus escolhe, de entre os Seus discípulos, doze homens a quem chama apóstolos. O número doze é altamente simbólico: evoca a organização do povo eleito nass doze tribos de Israel, indicando que Jesus está a liderar um novo momento de restauração do Povo de Deus.

  • Fundação: Os doze são os alicerces da Igreja. 
  • Igreja Apostólica:  Nasce do testemunho e liderança dos apóstolos escolhidos por Jesus.
  • Sucessão: Os bispos são os sucessores dos apóstolos.
  • Condição: A escolha de Jesus não os torna perfeitos ou  imunes ao pecado. Mantêm a sua humanidade e fragilidade, continuam a necessitar de ser conduzidos pelo Espírito Santo, tal como os discípulos de hoje.   

c) O Monte como lugar da Revelação 

Mateus escreve: “Jesus, ao ver as multidões, subiu ao monte, sentou-se e os seus discípulos aproximaram-se. Então tomou a palavra e ensinava assim” (Mt 5,1-2). 

A montanha, em termos bíblicos, simboliza o local de proximidade com o céu, onde as verdades mais profundas são reveladas. O monte recorda-nos Moisés no Sinai, recebendo os Dez Mandamentos, que no Módulo I apelidámos de “mínimos olímpicos”. Agora Jesus propõe as Bem-aventuranças, que no fundo é mapa para obter “ouro olímpico”: a verdadeira felicidade.

d) As Bem-aventuranças

O Papa Francisco explica-nos que: “As Bem-aventuranças são a carta de identidade do cristão. Se alguém te perguntar o que significa ser cristão, mostra-lhe as Bem-aventuranças” (Gaudete et Exsultate, 63).

“Felizes os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus.
Felizes os mansos, porque possuirão a terra.
Felizes os que choram, porque serão consolados.
Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados.
Felizes os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia.
Felizes os puros de coração, porque verão a Deus.
Felizes os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus.
Felizes os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus” (Mt 5,3-10).

Jesus revela o paradoxo cristão: as suas palavras invertem a lógica do mundo. A felicidade afinal nasce na pobreza, na mansidão, no sofrimento oferecido, na misericórdia e no amor gratuito.. Em hebraico, a palavra “felizes” deriva de um verbo que significa “pôr-se a caminho”. Assim, os bem-aventurados são pioneiros que abrem novos caminhos de vida num mundo muitas vezes “anestesiado” pelo mal.

e) Aprofundar até à raíz da Lei

Jesus esclarece que não veio abolir a Lei de Moisés ou os Profetas, mas veio dar-lhes pleno cumprimento, ou seja, vai à raiz da Lei: a santidade não é mera obediência ou conduta exterior, mas transformação interior, a partir do coração:

  • Do “Não Matarás” à Reconciliação: Não basta não tirar a vida; Jesus ensina que a ira e a maledicência contra o irmão são também ofensas graves. A reconciliação com o irmão é condição prévia para o culto a Deus.
  • Do “Olho por Olho” ao Amor aos Inimigos: Jesus propõe vencer o mal com o bem. “Oferecer a outra face” não é a atitude de um perdedor, mas de quem tem força interior para desmascarar o absurdo do ódio.
  • Só com a Graça de Deus: Perdoar e amar os inimigos parece ser humanamente impossível, mas o Senhor dá-nos o Seu Espírito Santo para que possamos responder ao mal com o bem.   

f) A Oração do Pai-Nosso

No centro do Sermão da Montanha, Jesus ensina a oração do Pai-Nosso (Mt 6,9-13). O Papa Bento XVI e lembra que “Jesus ensina-nos a pedir aquilo que Ele próprio pede. Entramos na sua relação com o Pai”. Pela primeira vez, os discípulos são convidados a chamar Deus de Pai.  Isso significa que já não somos servos, mas filhos, e por isso irmãos uns dos outros. 

As Sete Petições do Pai Nosso Explicadas pelo Catecismo da Igreja
1. Santificado seja o Vosso nomePedimos que a santidade de Deus se manifeste em nós e em toda a criação. 
2. Venha a nós o Vosso reinoDesejamos que a justiça, a paz e a alegria cresçam hoje e até ao regresso de Cristo. 
3. Seja feita a Vossa vontadeUnimos a nossa vontade à de Jesus para que todos os homens sejam salvos.
4. O pão nosso de cada dia, nos dai hoje Abandonamo-nos à Providência de Deus, sublinhando o dever da partilha.
5. Perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tenha ofendidoReconhecemo-nos pecadores, mas aceitamos que o perdão de Deus está ligado ao nosso perdão aos outros. 
6. Não nos deixeis cair em tentação: Pedimos discernimento para não consentirmos no mal e vigilância para perseverar no bem.
7. Livrai-nos do mal.Pedimos a vitória final sobre Satanás e a libertação de todos os males que afligem a humanidade.  

g) A missão de transformar o mundo

No mesmo discurso, Jesus convida-nos a ser:

  • Sal da Terra: Dando sabor à vida e evitando a irrelevância (insipidez).
  • Luz do Mundo: Não com uma luz própria, mas refletindo a luz de Cristo para iluminar todos os que estão (ou que venham a entrar) na casa.

Ou seja, a nossa missão deve passar sobretudo pelo testemunho, já que “a boca fala do que transborda no coração”. E devemos estar alerta para o perigo da hipocrisia: focarmo-nos no “cisco” no olho do irmão ignorando a “trave” no nosso. O convite é para limpar o olhar e ver os outros como Deus vê: não como erros irremediáveis, mas como filhos que cometem erros.

h) Uma nova família Universal

Jesus redefine o conceito de família. Quando Lhe dizem que a Sua mãe e irmãos O procuram, Ele responde: «Aquele que fizer a vontade de Deus, esse é Meu irmão, Minha irmã e Minha mãe». Esta nova família baseia-se na fé e no acolhimento da Palavra, e não apenas nos laços de sangue. Maria é o modelo supremo desta família, não apenas por ser mãe biológica, mas por ser a criatura que melhor cumpriu a vontade divina.

Esta família é universal, incorporando todos os que creem, independentemente da sua origem:

  • O Centurião: Um estrangeiro cuja fé admirou Jesus e cujas palavras repetimos na Missa: “Senhor, não sou digno…”.
  • A Viúva de Naim: Alvo da profunda compaixão de Jesus, que sofre com ela e devolve a vida ao seu filho.
  • A Mulher Pecadora: Que muito amou e por isso foi muito perdoada, provando que a fé salva e traz a paz.  

Síntese

  • Monte → lugar da revelação, paralelo ao Sinai.
  • Bem-aventuranças → carta de identidade do cristão, promessa de felicidade paradoxal.
  • Cumprimento da Lei → vai ao coração, não apenas ao exterior.
  • Pai-Nosso → oração dos filhos e da família de Deus.
  • Sal e Luz → missão de transformar o mundo.

Reflexão

Frequentemente, vivemos focados no sucesso mundano, na riqueza ou no julgamento alheio. Jesus propõe-nos o oposto: a felicidade na pobreza de espírito, a força na mansidão e a vida na misericórdia. Ser discípulo é compreender que somos filhos amados de um Pai que nos vê no segredo e nos perdoa sempre. As Bem-aventuranças mostram que a fé cristã não é só doutrina, mas é um caminho, onde é preciso deixar que o coração seja transformado pelo amor de Deus.

Perguntas para reflexão pessoal:

  1. Qual das Bem-aventuranças mais me desafia hoje?
  2. Vejo a oração do Pai-Nosso como rotina ou como diálogo filial com Deus?
  3. Sou luz e sal na minha comunidade, ou vivo a fé de modo escondido?
  4. Como acolho o mandamento de amar os inimigos?

Conclusão

No Sermão da Montanha, Jesus revela a lógica do Reino: a felicidade não está no poder, mas na misericórdia; não na riqueza, mas na pobreza do coração; não no ódio, mas no amor.

Ser cristão é ser filho do Pai e irmão dos outros. É viver a radicalidade das Bem-aventuranças, a simplicidade do Pai-Nosso e a missão de ser luz e sal.É esta a identidade da família de Deus: filhos felizes que vivem como irmãos.

Referências ao Evangelho