Remake usando IA, da pintura O Batismo de Cristo, de Antoine Coypel (1661–1722)
Episódio do Podcast (Youtube e Spotify)
Depois de contemplarmos a infância de Jesus e a vida escondida em Nazaré, entramos agora no início da sua vida pública. O Evangelho situa este momento por volta do ano 28 d.c), quando Jesus tem cerca de 30 anos (cf. Lc 3,23). A partir daqui, Ele revela-se progressivamente como o Filho amado do Pai, por meio de sinais e palavras.
O título desta aula – Água, vinho e outras provas – remete para três momentos fundadores: o batismo de Jesus no Jordão (água), o primeiro milagre em Caná (vinho) e as tentações no deserto (provas). Neles reconhecemos a identidade de Jesus e aprendemos as condições do discipulado.
a) O Batismo no Jordão
João Batista, primo de Jesus, pregava no deserto a conversão e administrava um batismo de arrependimento. Multidões acorriam ao Jordão, confessando os pecados e mergulhando nas águas como sinal de vida nova. Um dia, entre a multidão, surge Jesus. João resiste: “Eu é que preciso de ser batizado por ti, e tu vens a mim?” (Mt 3,14). Mas Jesus insiste: “Deixa por agora; convém que assim cumpramos toda a justiça” (Mt 3,15).
Quando Jesus sai da água, abrem-se os céus, o Espírito Santo desce em forma de pomba e uma voz proclama: “Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência” (Mt 3,17).
Aqui, pela primeira vez, manifesta-se a Santíssima Trindade: o Pai que fala, o Filho que é batizado e o Espírito que desce. O Papa Francisco comenta: “Jesus põe-se na fila com os pecadores. Não tem vergonha. Assume o nosso destino. Desce até nós, para nos elevar a Ele.”
O batismo de Jesus antecipa o nosso próprio batismo: mergulhar na morte para ressurgir para a vida nova.
b) As Tentações no Deserto
Logo após o batismo, Jesus é conduzido pelo Espírito ao deserto, onde permanece 40 dias em jejum e oração (cf. Mt 4,1-11). Ali será tentado pelo Demónio, (que significa “aquele que separa”) que com três propostas o tentará separar do Pai:
- Transformar pedras em pão → tentação das necessidades materiais, do apego às coisas do mundo.
Jesus responde: “Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus” (Dt 8,3). - Atirar-se do pináculo do templo → tentação de pôr Deus à prova, de exigir milagres à medida da nossa vontade.
Jesus responde: “Não tentarás o Senhor teu Deus” (Dt 6,16). - Adorar o diabo em troca de poder → tentação do domínio, da ambição e da idolatria.
Jesus responde: “Ao Senhor teu Deus adorarás e só a Ele prestarás culto” (Dt 6,13).
O Papa Francisco sublinha: “Jesus nunca dialoga com o diabo. Responde sempre com a Palavra de Deus. Este é o segredo para vencer a tentação: não argumentar, mas confiar na Escritura.” Assim, Jesus mostra-nos que também nós podemos vencer o mal pela força da fé e da Palavra.
c) O chamamento dos primeiros discípulos
Depois do deserto, João Batista vê Jesus passar e diz: «Eis o Cordeiro de Deus». O seu olhar e as suas palavras despertam a curiosidade de dois dos seus discípulos, André e João, que de imediato seguem Jesus. Ao vê-los, pergunta: «Que procurais?». Eles respondem: «Mestre, onde moras?» e ao que Jesus convida: «Vinde e vereis». Sabemos que este encontro com Jesus transforma profundamente os discípulos, porque:
- O evangelista João recorda até a hora do encontro (“era a hora décima”). De facto, os momentos marcantes da nossa vida ficam gravadas no coração.
- E ambos saem a contar que encontraram o Messias. Quem encontra Jesus não fica indiferente: torna-se missionário. André vai ao encontro do irmão Simão. Este procura Jesus que fixa nele o olhar e chama-a por um nome novo que corresponde à sua missão Pedro (Kefas = pedra).
De seguida. Jesus chama Filipe: «Segue-Me» e este também tem necessidader de contar ao seu amigo Natanael (Bartolomeu). Perante a desconfiança inicial, Filipe responde de forma semelhante à proposta inicial de Jesus: «Vem e vê».
Assim, através do encontro com três pessoas, chegaram seis até Jesus. O primeiro grupo de discípulos:
- André e seu irmão Simão Pedro
- João e mais tarde seu irmão Tiago
- Filipe e o seu amigo Natanael (Bartolomeu)
d) O primeiro milagre em Caná
Pouco depois, Jesus participa com os seus discípulos num casamento em Caná da Galileia (cf. Jo 2,1-11). A certa altura, falta o vinho – um verdadeiro drama para uma festa judaica. Maria, atenta às necessidades, diz ao Filho: “Não têm vinho”.
Jesus responde: “Mulher, ainda não chegou a minha hora”. Mas Maria confia e diz aos serventes: “Fazei tudo o que Ele vos disser”.
Jesus manda encher de água seis talhas de pedra. Quando o mestre-sala prova, a água transformara-se em vinho de excelente qualidade. Este foi o primeiro sinal de Jesus, que revelou a sua glória e levou os discípulos a acreditarem nele.
O Papa Bento XVI escreve: “Maria não se limita a pedir. Ela indica aos servos a obediência a Jesus. Assim, abre caminho para o primeiro milagre. Maria é a via segura para chegarmos a Cristo.”
Este episódio mostra-nos um Deus que se preocupa com as alegrias humanas, que não é alheio às nossas necessidades e que transforma a nossa água pobre no vinho novo da graça.
d) A mensagem é para todos, mas pode haver rejeição
Os Evangelhos relatam outros encontros que provam a identidade de Jesus. Além disso, percebemos que Ele não veio apenas para os “justos”, mas para todos: mestres e pecadores, judeus e estrangeiros, homens e mulheres:
- Nicodemos (Jo 3,1-21): é um fariseu e chefe dos judeus que vai ter com Jesus de noite. Reconhece que Ele vem de Deus, mas não compreende totalmente. Jesus fala-lhe do novo nascimento: «É necessário nascer da água e do Espírito.» Este nascimento não é biológico, mas espiritual. O Papa Francisco explica: «Ser cristão é deixar que o Espírito entre dentro de ti e te leve para onde Ele quer.» Aqui Jesus revela que a fé não é apenas conhecer, mas deixar-se transformar.
- A Samaritana (Jo 4,1-42): Jesus encontra uma mulher samaritana junto ao poço. Mulher, estrangeira, pecadora — tudo o que a sociedade rejeitava. Jesus oferece-lhe água viva, capaz de saciar a sede mais profunda. Revela-lhe a sua vida sem condenar e manifesta-Se claramente:
«Sou Eu, o Messias.» O Papa Francisco afirma: «É a primeira vez que Jesus declara a sua identidade, e fá-lo a uma pecadora que teve coragem de dizer a verdade.» A mulher sai dali e conta a todos… Quem se encontra com Jesus não guarda a experiência só para si. - Na sinagoga de Nazaré: Na sua terra, Jesus é rejeitado. Os seus conterrâneos não conseguem aceitar que Deus se manifeste numa vida tão comum. Este episódio lembra-nos que Deus age muitas vezes onde menos esperamos. A rejeição não impede a missão; pelo contrário, empurra Jesus para Cafarnaum, onde continuará a anunciar o Reino.
f) Os milagres como prova da Sua divindade
Milagres de cura: Os Evangelhos narram vários momentos em que Jesus cura pessoas, de diferentes condições. Deve-se realçar que Jesus não apenas cura corpos, mas perdoa pecados. Ao fazê-lo, revela algo que motivou escândalo entre fariseus: Ele age com autoridade divina.
- O filho do funcionário real
- A sogra de Pedro
- Um leproso
- Um paralítico levado por amigos
Em todos estes episódios vemos dois elementos essenciais. O Papa Francisco resume: «Para ser curado, bastam duas coisas: sentir-se necessitado e confiar em Jesus.»
Milagre da pesca milagrosa: Depois de uma noite sem resultados, Jesus pede a Pedro que volte a lançar as redes. Contra toda a lógica, Pedro confia. O resultado é uma pesca abundante e Pedro reconhece a sua pequenez: «Afasta-Te de mim, Senhor, porque sou pecador.» Jesus responde: «Não tenhas medo. A partir de hoje serás pescador de homens.»
Este episódio ensina-nos que Deus age precisamente nas nossas redes vazias, quando, apesar do desânimo, confiamos Nele.
Síntese
- Batismo no Jordão → revelação da Trindade; Jesus assume o lugar dos pecadores.
- Tentações no deserto→ vitória sobre o maligno; modelo para a nossa luta espiritual.
- Bodas de Caná→ transformação da água em vinho; Maria como intercessora.
- Nicodemos e Samaritana → encontros pessoais que revelam a universalidade da salvação.
Reflexão
A água do Batismo, o vinho de Caná, o deserto, os milagres, os encontros — todas estas provas apontam para a mesma verdade: Jesus é o Filho de Deus, próximo, compassivo, que entra na nossa história.
Como recorda o Papa Francisco, Jesus não veio apenas ensinar, mas sofrer connosco e por nós, oferecendo-nos vida nova.
A reflexão que somos convidados a fazer é “O que faço eu com estas provas?” Depois de as conhecer, posso propor-me a conhecer melhor Jesus. Ele sempre se nos propõe de forma totalmente livre, como fez a André e João: «Vinde e vede!»
Perguntas para reflexão pessoal:
- Vivo o meu batismo como identidade de filho amado, ou apenas como tradição?
- Reconheço as tentações do consumo, do poder e da autossuficiência no meu dia-a-dia? Como respondo a elas?
- Confio em Maria como intercessora, que me conduz sempre a Jesus?
- Tenho coragem de dar testemunho de fé como a Samaritana, partilhando com outros o que Deus fez na minha vida?
Conclusão
Água, vinho e os milagres. Três símbolos que resumem o início da missão de Jesus: Ele desce às águas para se identificar connosco, dá-nos o vinho novo da alegria e permite os milagres como evidências da salvação que Ele nos veio trazer.
Estes relatos não são apenas memórias do passado, mas catequeses vivas para o presente. Chamam-nos a viver o nosso Batismo com autenticidade, a enfrentar as tentações com fé e a confiar que Jesus transforma a nossa vida com a abundância do seu amor.
Referências ao Evangelho
- Mateus 3, 1-17 No Jordão com João Batista
- Mateus 4, 1-10 O combate com Satanás no deserto
- Mateus 4, 18-22 e João 1, 43-51 A chamada dos primeiros apóstolos
- João 2, 1-11 O milagre das bodas de Caná
- João 3, 1-21 A visita de Nicodemos
- João 4, 1-42 A água da mulher samaritana
- Lucas 4, 14-30 Na sinagoga de Nazaré
- Lucas 4, 38-39 Cura da sogra de Pedro
- Lucas 5, 1-11 A pesca milagrosa
- Lucas 5, 12-16 Cura de um leproso
- Lucas 5, 17-26 Cura de um paralítico
