II.01. A família que acolhe a pequenez

Imagem com recurso a IA: remake de ”A adoração dos pastores”, Gerard van Honthorst (1622)

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O segundo módulo do nosso percurso catequético procura responder à pergunta: “O que aconteceu no tempo de Jesus?”. Depois de percorrermos o Antigo Testamento, reconhecendo como Deus preparou o seu povo para a chegada do Messias, entramos agora no coração da fé cristã: a vida de Jesus, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, que viveu entre nós no início do século I.

A primeira etapa é contemplar a sua família e as circunstâncias humildes do seu nascimento. O título desta aula – A família que acolhe a pequenez – expressa bem a lógica de Deus: não se impõe pela força nem pela grandeza, mas manifesta-se na fragilidade, na simplicidade e no amor de uma família concreta: Maria, José e o Menino Jesus.

a) Genealogia e Encarnação

Os evangelistas Mateus e Lucas começam os seus relatos com a genealogia de Jesus (Mt 1,1-17; Lc 3,23-38). Não é um detalhe secundário: querem mostrar que Jesus não surge do nada, mas está enraizado numa história concreta, ligado à linhagem de Abraão e David.

Mateus sublinha a promessa feita a Abraão e o reinado de David, para afirmar que Jesus é o Messias esperado. Lucas, por sua vez, remonta até Adão, para indicar que Jesus não é apenas filho de Israel, mas de toda a humanidade.

A Encarnação realiza, assim, a união perfeita entre Deus e os homens: “O Verbo fez-se carne e habitou entre nós” (Jo 1,14).

b) O Sim de Maria

No pequeno povoado de Nazaré, Maria recebe a visita do anjo Gabriel (Lc 1,26-38). O anúncio é desconcertante: “Conceberás e darás à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus. Ele será grande e será chamado Filho do Altíssimo”.

Maria responde com humildade e confiança: “Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra”.

O Papa Francisco comenta: “O sim de Maria é completo, total, para a vida inteira. Sem condições. É o sim mais importante da história. O sim humilde que inverte o não soberbo das origens.”

Este sim de Maria, dado na pequenez, abre a porta da salvação para toda a humanidade.

c) O Sonho de José

José, justo e prudente, ao descobrir a gravidez de Maria, pensa em deixá-la secretamente para não a difamar. Mas o anjo aparece-lhe em sonho: “José, filho de David, não temas receber Maria como tua esposa, pois o que nela foi gerado vem do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho, e tu lhe porás o nome de Jesus, porque Ele salvará o povo dos seus pecados” (Mt 1,20-21).

José acredita e obedece. Sem uma única palavra nos Evangelhos, torna-se exemplo de fé silenciosa, de disponibilidade e de proteção.

Bento XVI escreveu: “O silêncio de São José não manifesta vazio interior, mas plenitude de fé. Um silêncio impregnado de oração e de confiança sem reservas na providência.”

d) O Nascimento em Belém

Por ordem do imperador Augusto, Maria e José têm de deslocar-se de Nazaré a Belém para o recenseamento (Lc 2,1-7). Ali, sem lugar nas hospedarias, Maria dá à luz numa gruta adaptada como estábulo. O Filho de Deus é deitado numa manjedoura, símbolo de pobreza e simplicidade.

O Papa Francisco sublinha: “Naquela noite, o sinal é apenas este: um menino, envolto em panos e deitado numa manjedoura. Deus não cavalga a grandeza, mas desce à pequenez.”

O local do nascimento tem profundo significado: Belém, em hebraico Bet Lehem, significa “casa do pão”. O mesmo Jesus dirá mais tarde: “Eu sou o pão da vida” (Jo 6,35).

e) Os Primeiros a Acolher: Pastores e Magos

Os primeiros destinatários da Boa Nova foram os pastores, considerados marginalizados e impuros. O anjo anuncia-lhes: “Nasceu-vos hoje, na cidade de David, um Salvador, que é Cristo Senhor” (Lc 2,11). Eles correm e encontram o Menino na manjedoura.

Mais tarde, chegam os magos vindos do Oriente (Mt 2,1-12). Guiados pela estrela e pelas Escrituras, reconhecem no Menino o Rei esperado e oferecem-lhe ouro, incenso e mirra. São modelos de buscadores da verdade: deixaram-se guiar por Deus, superaram distâncias e preconceitos, e encontraram a verdadeira luz.

Bento XVI afirmou: “Os magos são modelos de autênticos pesquisadores da verdade. O seu saber era aberto às revelações divinas.”

f) A Fuga para o Egito e o Retorno a Nazaré

A família de Nazaré conhece cedo a perseguição. Herodes, temendo perder o poder, manda matar os meninos de Belém. José, advertido em sonho, foge com Maria e Jesus para o Egito (Mt 2,13-15).

Jesus torna-se desde logo refugiado e migrante. Partilha a sorte de tantos inocentes perseguidos. Depois, regressa a Nazaré, onde cresce em sabedoria, estatura e graça (Lc 2,52), vivendo uma vida comum, feita de trabalho, oração e simplicidade.

g) A Apresentação e o Encontro no Templo

Maria e José apresentam Jesus no Templo, cumprindo a Lei. Simeão, movido pelo Espírito Santo, proclama: “Agora, Senhor, podes deixar o teu servo ir em paz, porque os meus olhos viram a tua salvação” (Lc 2,29-30). E anuncia a Maria: “Uma espada trespassará a tua alma” (Lc 2,35).

Aos 12 anos, Jesus fica no Templo a discutir com os doutores. Quando os pais o encontram, responde: “Não sabíeis que devo ocupar-me das coisas de meu Pai?” (Lc 2,49). Desde cedo, mostra a sua missão única, mas permanece submisso a Maria e José.

Síntese

  • Genealogia → Jesus inserido na história de Israel e da humanidade.
  • Sim de Maria → abertura humilde ao plano de Deus.
  • Sonho de José → obediência silenciosa e confiança.
  • Belém → nascimento na pobreza, sinal de pequenez.
  • Pastores e Magos → primeiros a reconhecer e adorar.
  • Fuga para o Egito → partilha da condição dos perseguidos.
  • Nazaré → vida escondida e quotidiana.
  • Templo → consciência da missão e obediência filial.

Reflexão

A família de Nazaré é escola de humildade, simplicidade e fé. O Filho de Deus quis nascer no seio de uma família pobre e desconhecida. Assim nos mostra que a santidade floresce no quotidiano: no trabalho, no cuidado, no silêncio e no amor mútuo.

Perguntas para reflexão pessoal:

  1. Vejo a minha família como lugar de encontro com Deus?
  2. Sou capaz de dizer “sim” a Deus nas pequenas coisas, como Maria?
  3. Vivo a fé com confiança silenciosa, como José?
  4. Reconheço Jesus presente nas situações de fragilidade e pequenez da vida?

Conclusão

A história da salvação entrou no tempo de Jesus de forma surpreendente: através de uma família simples, que soube acolher a pequenez. Maria e José disseram sim, e Deus pôde fazer-se homem.

Esta primeira aula do módulo recorda-nos que o cristianismo não começa em palácios nem entre poderosos, mas numa manjedoura. E que também nós somos chamados a acolher Jesus na humildade da nossa vida quotidiana.

Referências ao Evangelho