Imagem com recurso a IA: remake de ”A adoração dos pastores”, Gerard van Honthorst (1622)
Episódio do Podcast (Youtube e Spotify)
O segundo módulo do nosso percurso catequético procura responder à pergunta: “O que aconteceu no tempo de Jesus?”. Depois de percorrermos o Antigo Testamento, reconhecendo como Deus preparou o seu povo para a chegada do Messias, entramos agora no coração da fé cristã: a vida de Jesus, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, que viveu entre nós no início do século I.
A primeira etapa é contemplar a sua família e as circunstâncias humildes do seu nascimento. O título desta aula – A família que acolhe a pequenez – expressa bem a lógica de Deus: não se impõe pela força nem pela grandeza, mas manifesta-se na fragilidade, na simplicidade e no amor de uma família concreta: Maria, José e o Menino Jesus.
a) Genealogia e Encarnação
Os evangelistas Mateus e Lucas começam os seus relatos com a genealogia de Jesus (Mt 1,1-17; Lc 3,23-38). Não é um detalhe secundário: querem mostrar que Jesus não surge do nada, mas está enraizado numa história concreta, ligado à linhagem de Abraão e David.
Mateus sublinha a promessa feita a Abraão e o reinado de David, para afirmar que Jesus é o Messias esperado. Lucas, por sua vez, remonta até Adão, para indicar que Jesus não é apenas filho de Israel, mas de toda a humanidade.
A Encarnação realiza, assim, a união perfeita entre Deus e os homens: “O Verbo fez-se carne e habitou entre nós” (Jo 1,14).
b) O Sim de Maria
No pequeno povoado de Nazaré, Maria recebe a visita do anjo Gabriel (Lc 1,26-38). O anúncio é desconcertante: “Conceberás e darás à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus. Ele será grande e será chamado Filho do Altíssimo”.
Maria responde com humildade e confiança: “Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra”.
O Papa Francisco comenta: “O sim de Maria é completo, total, para a vida inteira. Sem condições. É o sim mais importante da história. O sim humilde que inverte o não soberbo das origens.”
Este sim de Maria, dado na pequenez, abre a porta da salvação para toda a humanidade.
c) O Sonho de José
José, justo e prudente, ao descobrir a gravidez de Maria, pensa em deixá-la secretamente para não a difamar. Mas o anjo aparece-lhe em sonho: “José, filho de David, não temas receber Maria como tua esposa, pois o que nela foi gerado vem do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho, e tu lhe porás o nome de Jesus, porque Ele salvará o povo dos seus pecados” (Mt 1,20-21).
José acredita e obedece. Sem uma única palavra nos Evangelhos, torna-se exemplo de fé silenciosa, de disponibilidade e de proteção.
Bento XVI escreveu: “O silêncio de São José não manifesta vazio interior, mas plenitude de fé. Um silêncio impregnado de oração e de confiança sem reservas na providência.”
d) O Nascimento em Belém
Por ordem do imperador Augusto, Maria e José têm de deslocar-se de Nazaré a Belém para o recenseamento (Lc 2,1-7). Ali, sem lugar nas hospedarias, Maria dá à luz numa gruta adaptada como estábulo. O Filho de Deus é deitado numa manjedoura, símbolo de pobreza e simplicidade.
O Papa Francisco sublinha: “Naquela noite, o sinal é apenas este: um menino, envolto em panos e deitado numa manjedoura. Deus não cavalga a grandeza, mas desce à pequenez.”
O local do nascimento tem profundo significado: Belém, em hebraico Bet Lehem, significa “casa do pão”. O mesmo Jesus dirá mais tarde: “Eu sou o pão da vida” (Jo 6,35).
e) Os Primeiros a Acolher: Pastores e Magos
Os primeiros destinatários da Boa Nova foram os pastores, considerados marginalizados e impuros. O anjo anuncia-lhes: “Nasceu-vos hoje, na cidade de David, um Salvador, que é Cristo Senhor” (Lc 2,11). Eles correm e encontram o Menino na manjedoura.
Mais tarde, chegam os magos vindos do Oriente (Mt 2,1-12). Guiados pela estrela e pelas Escrituras, reconhecem no Menino o Rei esperado e oferecem-lhe ouro, incenso e mirra. São modelos de buscadores da verdade: deixaram-se guiar por Deus, superaram distâncias e preconceitos, e encontraram a verdadeira luz.
Bento XVI afirmou: “Os magos são modelos de autênticos pesquisadores da verdade. O seu saber era aberto às revelações divinas.”
f) A Fuga para o Egito e o Retorno a Nazaré
A família de Nazaré conhece cedo a perseguição. Herodes, temendo perder o poder, manda matar os meninos de Belém. José, advertido em sonho, foge com Maria e Jesus para o Egito (Mt 2,13-15).
Jesus torna-se desde logo refugiado e migrante. Partilha a sorte de tantos inocentes perseguidos. Depois, regressa a Nazaré, onde cresce em sabedoria, estatura e graça (Lc 2,52), vivendo uma vida comum, feita de trabalho, oração e simplicidade.
g) A Apresentação e o Encontro no Templo
Maria e José apresentam Jesus no Templo, cumprindo a Lei. Simeão, movido pelo Espírito Santo, proclama: “Agora, Senhor, podes deixar o teu servo ir em paz, porque os meus olhos viram a tua salvação” (Lc 2,29-30). E anuncia a Maria: “Uma espada trespassará a tua alma” (Lc 2,35).
Aos 12 anos, Jesus fica no Templo a discutir com os doutores. Quando os pais o encontram, responde: “Não sabíeis que devo ocupar-me das coisas de meu Pai?” (Lc 2,49). Desde cedo, mostra a sua missão única, mas permanece submisso a Maria e José.
Síntese
- Genealogia → Jesus inserido na história de Israel e da humanidade.
- Sim de Maria → abertura humilde ao plano de Deus.
- Sonho de José → obediência silenciosa e confiança.
- Belém → nascimento na pobreza, sinal de pequenez.
- Pastores e Magos → primeiros a reconhecer e adorar.
- Fuga para o Egito → partilha da condição dos perseguidos.
- Nazaré → vida escondida e quotidiana.
- Templo → consciência da missão e obediência filial.
Reflexão
A família de Nazaré é escola de humildade, simplicidade e fé. O Filho de Deus quis nascer no seio de uma família pobre e desconhecida. Assim nos mostra que a santidade floresce no quotidiano: no trabalho, no cuidado, no silêncio e no amor mútuo.
Perguntas para reflexão pessoal:
- Vejo a minha família como lugar de encontro com Deus?
- Sou capaz de dizer “sim” a Deus nas pequenas coisas, como Maria?
- Vivo a fé com confiança silenciosa, como José?
- Reconheço Jesus presente nas situações de fragilidade e pequenez da vida?
Conclusão
A história da salvação entrou no tempo de Jesus de forma surpreendente: através de uma família simples, que soube acolher a pequenez. Maria e José disseram sim, e Deus pôde fazer-se homem.
Esta primeira aula do módulo recorda-nos que o cristianismo não começa em palácios nem entre poderosos, mas numa manjedoura. E que também nós somos chamados a acolher Jesus na humildade da nossa vida quotidiana.
Referências ao Evangelho
- Lucas 1, 26-56 O anúncio a Maria e a viagem até Isabel
- Mateus 1, 18-25 Origem divina de Jesus
- Lucas 2, 1-21 O nascimento em Belém e a adoração dos pastores
- Lucas 2, 22-40 A Apresentação de Jesus no Templo
- Mateus 2, 1-12 A visita dos Magos
- Mateus 2, 13-23 A matança dos inocentes e a fuga para o Egito e regresso à Galileia
- Lucas 2, 41-52 Jesus perdido e encontrado no Templo entre os doutores da Lei
