I.12. À espera do Messias

As onze aulas anteriores mostraram o fio da história da salvação no Antigo Testamento: a criação, o pecado, as alianças, os patriarcas, Moisés, os juízes, os reis, os profetas, o exílio e o regresso. Tudo converge para esta última aula: as profecias que anunciam e preparam a vinda do Messias.

O episódio final do podcast contou com a participação de D. António Couto, que ajudou a compreender o papel dos profetas e a sua ligação a Jesus. O essencial é isto: o profeta não é um “pré-feta” (um adivinho do futuro), mas um homem que fala em vez de Deus, para o presente do seu tempo. Porém, as suas palavras, inspiradas pelo Espírito, ganham um alcance que atravessa séculos e se cumpre plenamente em Cristo.

a) Quem são os profetas?

D. António Couto explicou: “Um profeta é aquele que fala em vez de Deus, para agora, para os homens de hoje. Não fala de costas, nem no gabinete; fala diante do povo, em nome de Deus”.

Assim, Isaías, Jeremias, Ezequiel, Miqueias e tantos outros não foram meros visionários: foram homens enviados a confrontar reis e povos com a vontade de Deus. As suas palavras surgem de situações concretas – guerras, alianças políticas, injustiças sociais – mas, iluminadas pelo Espírito, apontam mais longe.

Por isso, a Igreja lê o Antigo Testamento à luz de Cristo: Ele é o cumprimento de todas as Escrituras. Como disse Jesus: “Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas. Não vim revogá-los, mas dar-lhes cumprimento” (Mt 5,17).

b) As profecias do Messias

Ao longo dos séculos, várias passagens ganharam especial relevo como anúncio do Salvador. 

  • O Emanuel: Isaías anuncia: “Eis que a jovem conceberá e dará à luz um filho, e chamar-se-á Emanuel” (Is 7,14). No seu contexto, era sinal para o rei Acaz de que a dinastia de David não se extinguiria. Mas o nome – Deus connosco – ultrapassa o tempo e realiza-se plenamente em Jesus, nascido de Maria Virgem (Mt 1,23).
  • O nascimento em Belém: Miqueias profetiza: “Tu, Belém de Éfrata, de ti sairá aquele que há de reinar sobre Israel” (Mq 5,1). Para D. António Couto, este “dominador” é descrito como contador de parábolas, não como rei guerreiro. Jesus, de facto, evangelizou contando histórias, parábolas que tocam os corações.
  • A luz na Galileia: Isaías fala do povo que vivia nas trevas e viu uma grande luz (Is 9,1). Mateus aplica-o a Jesus que começa a pregar em Cafarnaum, na Galileia dos gentios (Mt 4,15-16).
  • O Servo Sofredor: Isaías descreve um homem desprezado, carregado de dores, que toma sobre si os pecados do povo: “Nas suas chagas fomos curados” (Is 53,5). A Igreja reconhece neste texto a prefiguração da paixão de Cristo.
  • A vitória sobre a morte: O Salmo 16 canta: “Não abandonareis a minha alma na mansão dos mortos”. Pedro citará este salmo no Pentecostes, vendo nele a ressurreição de Jesus (At 2,25-28).

Além destas profecias aqui destacadas, deve-se sublinhar que ao longo da Biblia se contam mais de trezentas profecias ao todo. Elas anunciam o Messias – as suas ações, a sua doutrina –  centenas de anos antes do seu nascimento e que, até do ponto de vista estatístico, exigiriam intervenção divina para tamanho índice de acerto. 

Jesus sabe que as profecias messiânicas se referem a Ele. Ao ler Isaías na sinagoga de Nazaré, Ele afirma: “Hoje se cumpre diante de vós esta escritura” (Lc 4, 21). Aos fariseus que se recusavam a crer nele, Jesus diz: “Perscrutai as Escrituras, já que nelas esperais ter a vida eterna; elas dão testemunho de mim” (Jo 5, 39).

O cumprimento de todas as profecias é um dos motivos que nos levam a saber que a Bíblia é inspirada pelo Espírito Santo. Deixamos aqui uma pequena mostra que o comprova:

ANTIGO TESTAMENTONOVO TESTAMENTO
Ele será descendente da tribo de JudáGênesis 49,10“Não se apartará o cetro de Judá, nem o bastão de comando dentre seus pés, até que venha aquele a quem pertence por direito, e a quem devem obediência os povos”.
Lucas 3,33“…filho de Aminadab, filho de Arão, filho de Esron, filho de Farés, filho de Judá…”
Haverá matança de inocentes em BelémJeremias 31,15“Eis o que diz o Senhor: ouve-se em Ramá uma voz, lamentos e amargos soluços. É Raquel que chora os filhos, recusando ser consolada, porque já não existem”.
Mateus 2,16“Vendo, então, Herodes que tinha sido enganado pelos magos, ficou muito irado e mandou massacrar em Belém e nos seus arredores todos os meninos de dois anos para baixo, conforme o tempo exato que havia indagado dos magos”.
Fugirá para o EgitoOseias 11,1“Israel era ainda criança, e já eu o amava, e do Egito chamei meu filho”.
Mateus 2,14“José levantou-se durante a noite, tomou o menino e sua mãe e partiu para o Egito”.
Será desprezado pelos judeusIsaías 53,3“Era desprezado, era a escória da humanidade, homem das dores, experimentado nos sofrimentos; como aqueles, diante dos quais se cobre o rosto, era amaldiçoado e não fazíamos caso dele”.
João 1,11“Veio para o que era seu, mas os seus não o receberam”.
Entrará triunfalmente em Jerusalém montado num jumentoZacarias 9,9“Exulta de alegria, filha de Sião, solta gritos de júbilo, filha de Jerusalém; eis que vem a ti o teu rei, justo e vitorioso; ele é simples e vem montado num jumento, no potro de uma jumenta”.

João 12,13-15“Saíram-lhe ao encontro com ramos de palmas, exclamando: Hosana! Bendito o que vem em nome do Senhor, o rei de Israel! Tendo Jesus encontrado um jumentinho, montou nele, segundo o que está escrito: Não temas, filha de Sião, eis que vem o teu rei montado num filho de jumenta”
Será traído por um dos seusSalmo 40,10“Até o próprio amigo em que eu confiava, que partilhava do meu pão, levantou contra mim o calcanhar”.
Marcos 14,10“Judas Iscariotes, um dos Doze, foi avistar-se com os sumos sacerdotes para lhes entregar Jesus”. 
Julgado, manterá silêncioIsaías 53,7“Foi maltratado e resignou-se; não abriu a boca, como um cordeiro que se conduz ao matadouro, e uma ovelha muda nas mãos do tosquiador. Ele não abriu a boca”.
Mateus 26,62-63“Levantou-se o sumo sacerdote e lhe perguntou: Nada tens a responder ao que essa gente depõe contra ti? Jesus, no entanto, permanecia calado. Disse-lhe o sumo sacerdote: Por Deus vivo, conjuro-te que nos digas se és o Cristo, o Filho de Deus?”
Será crucificado com malfeitoresIsaías 53,12“Eis por que lhe darei parte com os grandes, e ele dividirá a presa com os poderosos: porque ele próprio deu sua vida, e deixou-se colocar entre os criminosos, tomando sobre si os pecados de muitos homens, e intercedendo pelos culpados”.
Mateus 27,38“Ao mesmo tempo foram crucificados com ele dois ladrões, um à sua direita e outro à sua esquerda”.
Suas mãos e pés serão perfuradosSalmo 21,17“Sim, rodeia-me uma malta de cães, cerca-me um bando de malfeitores. Traspassaram minhas mãos e meus pés”.
João 20,28“Depois disse a Tomé: Introduz aqui o teu dedo, e vê as minhas mãos. Põe a tua mão no meu lado. Não sejas incrédulo, mas homem de fé. Respondeu-lhe Tomé: Meu Senhor e meu Deus!”
Será escarnecido e desprezadoSalmo 21,6-9“A vós clamaram e foram salvos; confiaram em vós e não foram confundidos. Eu, porém, sou um verme, não sou homem, o opróbrio de todos e a abjeção da plebe. Todos os que me vêem zombam de mim; dizem, meneando a cabeça: Esperou no Senhor, pois que ele o livre, que o salve, se o ama”.
Mateus 27,39-40“Os que passavam o injuriavam, sacudiam a cabeça e diziam: Tu, que destróis o templo e o reconstróis em três dias, salva-te a ti mesmo! Se és o Filho de Deus, desce da cruz!”
Nenhum de seus ossos será quebradoSalmo 33,21“Ele protege cada um de seus ossos, nem um só deles será quebrado”.
João 19,33“Chegando, porém, a Jesus, como o vissem já morto, não lhe quebraram as pernas”
Seu lado será traspassadoZacarias 12,10“Farão lamentações sobre aquele que traspassaram, como se fosse um filho único; chorá-lo-ão amargamente como se chora um primogênito”.
João 19,34:“…um dos soldados abriu-lhe o lado com uma lança e, imediatamente, saiu sangue e água”.
Sortearão suas vestesSalmo 21,19“Repartem entre si as minhas vestes, e lançam sorte sobre a minha túnica”.

Marcos 15,24“Depois de o terem crucificado, repartiram as suas vestes, tirando a sorte sobre elas, para ver o que tocaria a cada um”.
Será sepultado numa sepultura de ricosIsaías 53,9Foi-lhe dada sepultura ao lado de fascínoras e ao morrer achava-se entre malfeitores, se bem que não haja cometido injustiça alguma, e em sua boca nunca tenha havido mentira”.
Mateus 27,57-60“À tardinha, um homem rico de Arimateia, chamado José, que era também discípulo de Jesus, foi procurar Pilatos e pediu-lhe o corpo de Jesus. Pilatos cedeu-o. José tomou o corpo, envolveu-o num lençol branco e o depositou num sepulcro novo, que tinha mandado talhar para si na rocha. Depois rolou uma grande pedra à entrada do sepulcro e foi-se embora”.
Ressuscitará!Salmo 15,10“Porque vós não abandonareis minha alma na habitação dos mortos, nem permitireis que vosso Santo conheça a corrupção”.
Mateus 28,9“Nesse momento, Jesus apresentou-se diante delas e disse-lhes: Salve! Aproximaram-se elas e, prostradas diante dele, beijaram-lhe os pés”.
Ascenderá ao céuSalmo 67,19“Subindo nas alturas levastes os cativos; recebestes homens como tributos, aqueles que recusaram habitar com o Senhor Deus”.
Lucas 24,50-51“Depois os levou para Betânia e, levantando as mãos, os abençoou. Enquanto os abençoava, separou-se deles e foi arrebatado ao céu”.

c) A Unidade da Escritura

Uma das grandes lições de D. António Couto é que a Bíblia é um todo harmónico: escrita por muitas mãos humanas, mas inspirada por um único Espírito. Por isso, o Antigo e o Novo Testamento não se opõem, mas completam-se.

Ele explica: “Na Bíblia não há caixote de lixo. Nada é descartável. Até a mais pequena letra terá o seu cumprimento”. Ler a Escritura é como olhar uma árvore: o Antigo Testamento mostra-nos os ramos e folhas; em Cristo vemos as raízes e a seiva que lhes dá vida.

d) Do Antigo ao Novo Testamento

Os Evangelhos foram escritos a partir da experiência pascal, olhando para trás e relendo a vida de Jesus à luz das Escrituras. Marcos, escrito em tempo de perseguição, apresenta Jesus como a Luz que vem. Mateus destaca a formação dos discípulos. Lucas abre-se aos povos estrangeiros, mostrando que Jesus é luz também para os de fora. João, mais tardio, aprofunda o mistério, revelando Jesus como o Verbo eterno.

A vida e o testemunho dos Apóstolos são a maior prova da veracidade dos Evangelhos: antes da ressurreição fugiram cheios de medo; depois deram a vida com coragem, porque tinham visto o Ressuscitado.

e) O Toco Seco e a Amendoeira

Isaías falava do “toco seco” do qual brotaria um rebento (Is 6,13; 11,1). Jeremias via o ramo da amendoeira que floresce no inverno (Jr 1,11-12). Para D. António Couto, estas imagens simbolizam a esperança: mesmo quando tudo parece morto, Deus faz brotar vida nova.

Esta é a chave da fé cristã: Jesus é o rebento inesperado, nascido em Belém, que traz vida do tronco seco da humanidade ferida.

Síntese

  • Profeta → fala em vez de Deus, para o presente.
  • Profecias messiânicas → Emanuel, Belém, Galileia, Servo Sofredor, vitória sobre a morte.
  • Unidade da Escritura → Antigo e Novo formam um só todo.
  • Evangelhos → escritos à luz da Páscoa, testemunho de vida transformada.
  • Imagens de esperança → toco seco, amendoeira: Deus faz brotar vida nova.

Reflexão

A leitura cristã do Antigo Testamento não é mera curiosidade académica, mas alimento da fé. As profecias recordam-nos que Deus nunca abandona o seu povo. Mesmo nos tempos de crise, Ele faz nascer rebentos de esperança.

  1. Leio a Bíblia como um conjunto de histórias isoladas ou como um todo que converge para Cristo?
  2. Reconheço em Jesus o Emanuel, Deus connosco, presente na minha vida?
  3. Sou capaz de olhar para os “troncos secos” do meu caminho com esperança de que Deus fará brotar vida nova?

Conclusão

Com esta aula encerramos o primeiro módulo da catequese: “O que aconteceu antes de Jesus nascer?”. Vimos como Deus criou, chamou, libertou, corrigiu, prometeu e nunca deixou o seu povo. Todas as páginas do Antigo Testamento são preparação e anúncio.

Em Jesus, o Messias, todas as promessas encontram cumprimento. Ele é o Emanuel, o Servo Sofredor, a Luz da Galileia, o Rebento do tronco de Jessé.

A nossa fé não se apoia apenas na exatidão das profecias, mas no encontro vivo com Cristo Ressuscitado, centro de toda a Escritura. Como disse D. António Couto: “Nós somos a prova da ressurreição, pela vida transformada que damos ao mundo”.

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