As onze aulas anteriores mostraram o fio da história da salvação no Antigo Testamento: a criação, o pecado, as alianças, os patriarcas, Moisés, os juízes, os reis, os profetas, o exílio e o regresso. Tudo converge para esta última aula: as profecias que anunciam e preparam a vinda do Messias.
O episódio final do podcast contou com a participação de D. António Couto, que ajudou a compreender o papel dos profetas e a sua ligação a Jesus. O essencial é isto: o profeta não é um “pré-feta” (um adivinho do futuro), mas um homem que fala em vez de Deus, para o presente do seu tempo. Porém, as suas palavras, inspiradas pelo Espírito, ganham um alcance que atravessa séculos e se cumpre plenamente em Cristo.
a) Quem são os profetas?
D. António Couto explicou: “Um profeta é aquele que fala em vez de Deus, para agora, para os homens de hoje. Não fala de costas, nem no gabinete; fala diante do povo, em nome de Deus”.
Assim, Isaías, Jeremias, Ezequiel, Miqueias e tantos outros não foram meros visionários: foram homens enviados a confrontar reis e povos com a vontade de Deus. As suas palavras surgem de situações concretas – guerras, alianças políticas, injustiças sociais – mas, iluminadas pelo Espírito, apontam mais longe.
Por isso, a Igreja lê o Antigo Testamento à luz de Cristo: Ele é o cumprimento de todas as Escrituras. Como disse Jesus: “Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas. Não vim revogá-los, mas dar-lhes cumprimento” (Mt 5,17).
b) As profecias do Messias
Ao longo dos séculos, várias passagens ganharam especial relevo como anúncio do Salvador.
- O Emanuel: Isaías anuncia: “Eis que a jovem conceberá e dará à luz um filho, e chamar-se-á Emanuel” (Is 7,14). No seu contexto, era sinal para o rei Acaz de que a dinastia de David não se extinguiria. Mas o nome – Deus connosco – ultrapassa o tempo e realiza-se plenamente em Jesus, nascido de Maria Virgem (Mt 1,23).
- O nascimento em Belém: Miqueias profetiza: “Tu, Belém de Éfrata, de ti sairá aquele que há de reinar sobre Israel” (Mq 5,1). Para D. António Couto, este “dominador” é descrito como contador de parábolas, não como rei guerreiro. Jesus, de facto, evangelizou contando histórias, parábolas que tocam os corações.
- A luz na Galileia: Isaías fala do povo que vivia nas trevas e viu uma grande luz (Is 9,1). Mateus aplica-o a Jesus que começa a pregar em Cafarnaum, na Galileia dos gentios (Mt 4,15-16).
- O Servo Sofredor: Isaías descreve um homem desprezado, carregado de dores, que toma sobre si os pecados do povo: “Nas suas chagas fomos curados” (Is 53,5). A Igreja reconhece neste texto a prefiguração da paixão de Cristo.
- A vitória sobre a morte: O Salmo 16 canta: “Não abandonareis a minha alma na mansão dos mortos”. Pedro citará este salmo no Pentecostes, vendo nele a ressurreição de Jesus (At 2,25-28).
Além destas profecias aqui destacadas, deve-se sublinhar que ao longo da Biblia se contam mais de trezentas profecias ao todo. Elas anunciam o Messias – as suas ações, a sua doutrina – centenas de anos antes do seu nascimento e que, até do ponto de vista estatístico, exigiriam intervenção divina para tamanho índice de acerto.
Jesus sabe que as profecias messiânicas se referem a Ele. Ao ler Isaías na sinagoga de Nazaré, Ele afirma: “Hoje se cumpre diante de vós esta escritura” (Lc 4, 21). Aos fariseus que se recusavam a crer nele, Jesus diz: “Perscrutai as Escrituras, já que nelas esperais ter a vida eterna; elas dão testemunho de mim” (Jo 5, 39).
O cumprimento de todas as profecias é um dos motivos que nos levam a saber que a Bíblia é inspirada pelo Espírito Santo. Deixamos aqui uma pequena mostra que o comprova:
| ANTIGO TESTAMENTO | NOVO TESTAMENTO |
| Ele será descendente da tribo de JudáGênesis 49,10“Não se apartará o cetro de Judá, nem o bastão de comando dentre seus pés, até que venha aquele a quem pertence por direito, e a quem devem obediência os povos”. | Lucas 3,33“…filho de Aminadab, filho de Arão, filho de Esron, filho de Farés, filho de Judá…” |
| Haverá matança de inocentes em BelémJeremias 31,15“Eis o que diz o Senhor: ouve-se em Ramá uma voz, lamentos e amargos soluços. É Raquel que chora os filhos, recusando ser consolada, porque já não existem”. | Mateus 2,16“Vendo, então, Herodes que tinha sido enganado pelos magos, ficou muito irado e mandou massacrar em Belém e nos seus arredores todos os meninos de dois anos para baixo, conforme o tempo exato que havia indagado dos magos”. |
| Fugirá para o EgitoOseias 11,1“Israel era ainda criança, e já eu o amava, e do Egito chamei meu filho”. | Mateus 2,14“José levantou-se durante a noite, tomou o menino e sua mãe e partiu para o Egito”. |
| Será desprezado pelos judeusIsaías 53,3“Era desprezado, era a escória da humanidade, homem das dores, experimentado nos sofrimentos; como aqueles, diante dos quais se cobre o rosto, era amaldiçoado e não fazíamos caso dele”. | João 1,11“Veio para o que era seu, mas os seus não o receberam”. |
| Entrará triunfalmente em Jerusalém montado num jumentoZacarias 9,9“Exulta de alegria, filha de Sião, solta gritos de júbilo, filha de Jerusalém; eis que vem a ti o teu rei, justo e vitorioso; ele é simples e vem montado num jumento, no potro de uma jumenta”. | João 12,13-15“Saíram-lhe ao encontro com ramos de palmas, exclamando: Hosana! Bendito o que vem em nome do Senhor, o rei de Israel! Tendo Jesus encontrado um jumentinho, montou nele, segundo o que está escrito: Não temas, filha de Sião, eis que vem o teu rei montado num filho de jumenta” |
| Será traído por um dos seusSalmo 40,10“Até o próprio amigo em que eu confiava, que partilhava do meu pão, levantou contra mim o calcanhar”. | Marcos 14,10“Judas Iscariotes, um dos Doze, foi avistar-se com os sumos sacerdotes para lhes entregar Jesus”. |
| Julgado, manterá silêncioIsaías 53,7“Foi maltratado e resignou-se; não abriu a boca, como um cordeiro que se conduz ao matadouro, e uma ovelha muda nas mãos do tosquiador. Ele não abriu a boca”. | Mateus 26,62-63“Levantou-se o sumo sacerdote e lhe perguntou: Nada tens a responder ao que essa gente depõe contra ti? Jesus, no entanto, permanecia calado. Disse-lhe o sumo sacerdote: Por Deus vivo, conjuro-te que nos digas se és o Cristo, o Filho de Deus?” |
| Será crucificado com malfeitoresIsaías 53,12“Eis por que lhe darei parte com os grandes, e ele dividirá a presa com os poderosos: porque ele próprio deu sua vida, e deixou-se colocar entre os criminosos, tomando sobre si os pecados de muitos homens, e intercedendo pelos culpados”. | Mateus 27,38“Ao mesmo tempo foram crucificados com ele dois ladrões, um à sua direita e outro à sua esquerda”. |
| Suas mãos e pés serão perfuradosSalmo 21,17“Sim, rodeia-me uma malta de cães, cerca-me um bando de malfeitores. Traspassaram minhas mãos e meus pés”. | João 20,28“Depois disse a Tomé: Introduz aqui o teu dedo, e vê as minhas mãos. Põe a tua mão no meu lado. Não sejas incrédulo, mas homem de fé. Respondeu-lhe Tomé: Meu Senhor e meu Deus!” |
| Será escarnecido e desprezadoSalmo 21,6-9“A vós clamaram e foram salvos; confiaram em vós e não foram confundidos. Eu, porém, sou um verme, não sou homem, o opróbrio de todos e a abjeção da plebe. Todos os que me vêem zombam de mim; dizem, meneando a cabeça: Esperou no Senhor, pois que ele o livre, que o salve, se o ama”. | Mateus 27,39-40“Os que passavam o injuriavam, sacudiam a cabeça e diziam: Tu, que destróis o templo e o reconstróis em três dias, salva-te a ti mesmo! Se és o Filho de Deus, desce da cruz!” |
| Nenhum de seus ossos será quebradoSalmo 33,21“Ele protege cada um de seus ossos, nem um só deles será quebrado”. | João 19,33“Chegando, porém, a Jesus, como o vissem já morto, não lhe quebraram as pernas” |
| Seu lado será traspassadoZacarias 12,10“Farão lamentações sobre aquele que traspassaram, como se fosse um filho único; chorá-lo-ão amargamente como se chora um primogênito”. | João 19,34:“…um dos soldados abriu-lhe o lado com uma lança e, imediatamente, saiu sangue e água”. |
| Sortearão suas vestesSalmo 21,19“Repartem entre si as minhas vestes, e lançam sorte sobre a minha túnica”. | Marcos 15,24“Depois de o terem crucificado, repartiram as suas vestes, tirando a sorte sobre elas, para ver o que tocaria a cada um”. |
| Será sepultado numa sepultura de ricosIsaías 53,9Foi-lhe dada sepultura ao lado de fascínoras e ao morrer achava-se entre malfeitores, se bem que não haja cometido injustiça alguma, e em sua boca nunca tenha havido mentira”. | Mateus 27,57-60“À tardinha, um homem rico de Arimateia, chamado José, que era também discípulo de Jesus, foi procurar Pilatos e pediu-lhe o corpo de Jesus. Pilatos cedeu-o. José tomou o corpo, envolveu-o num lençol branco e o depositou num sepulcro novo, que tinha mandado talhar para si na rocha. Depois rolou uma grande pedra à entrada do sepulcro e foi-se embora”. |
| Ressuscitará!Salmo 15,10“Porque vós não abandonareis minha alma na habitação dos mortos, nem permitireis que vosso Santo conheça a corrupção”. | Mateus 28,9“Nesse momento, Jesus apresentou-se diante delas e disse-lhes: Salve! Aproximaram-se elas e, prostradas diante dele, beijaram-lhe os pés”. |
| Ascenderá ao céuSalmo 67,19“Subindo nas alturas levastes os cativos; recebestes homens como tributos, aqueles que recusaram habitar com o Senhor Deus”. | Lucas 24,50-51“Depois os levou para Betânia e, levantando as mãos, os abençoou. Enquanto os abençoava, separou-se deles e foi arrebatado ao céu”. |
c) A Unidade da Escritura
Uma das grandes lições de D. António Couto é que a Bíblia é um todo harmónico: escrita por muitas mãos humanas, mas inspirada por um único Espírito. Por isso, o Antigo e o Novo Testamento não se opõem, mas completam-se.
Ele explica: “Na Bíblia não há caixote de lixo. Nada é descartável. Até a mais pequena letra terá o seu cumprimento”. Ler a Escritura é como olhar uma árvore: o Antigo Testamento mostra-nos os ramos e folhas; em Cristo vemos as raízes e a seiva que lhes dá vida.
d) Do Antigo ao Novo Testamento
Os Evangelhos foram escritos a partir da experiência pascal, olhando para trás e relendo a vida de Jesus à luz das Escrituras. Marcos, escrito em tempo de perseguição, apresenta Jesus como a Luz que vem. Mateus destaca a formação dos discípulos. Lucas abre-se aos povos estrangeiros, mostrando que Jesus é luz também para os de fora. João, mais tardio, aprofunda o mistério, revelando Jesus como o Verbo eterno.
A vida e o testemunho dos Apóstolos são a maior prova da veracidade dos Evangelhos: antes da ressurreição fugiram cheios de medo; depois deram a vida com coragem, porque tinham visto o Ressuscitado.
e) O Toco Seco e a Amendoeira
Isaías falava do “toco seco” do qual brotaria um rebento (Is 6,13; 11,1). Jeremias via o ramo da amendoeira que floresce no inverno (Jr 1,11-12). Para D. António Couto, estas imagens simbolizam a esperança: mesmo quando tudo parece morto, Deus faz brotar vida nova.
Esta é a chave da fé cristã: Jesus é o rebento inesperado, nascido em Belém, que traz vida do tronco seco da humanidade ferida.
Síntese
- Profeta → fala em vez de Deus, para o presente.
- Profecias messiânicas → Emanuel, Belém, Galileia, Servo Sofredor, vitória sobre a morte.
- Unidade da Escritura → Antigo e Novo formam um só todo.
- Evangelhos → escritos à luz da Páscoa, testemunho de vida transformada.
- Imagens de esperança → toco seco, amendoeira: Deus faz brotar vida nova.
Reflexão
A leitura cristã do Antigo Testamento não é mera curiosidade académica, mas alimento da fé. As profecias recordam-nos que Deus nunca abandona o seu povo. Mesmo nos tempos de crise, Ele faz nascer rebentos de esperança.
- Leio a Bíblia como um conjunto de histórias isoladas ou como um todo que converge para Cristo?
- Reconheço em Jesus o Emanuel, Deus connosco, presente na minha vida?
- Sou capaz de olhar para os “troncos secos” do meu caminho com esperança de que Deus fará brotar vida nova?
Conclusão
Com esta aula encerramos o primeiro módulo da catequese: “O que aconteceu antes de Jesus nascer?”. Vimos como Deus criou, chamou, libertou, corrigiu, prometeu e nunca deixou o seu povo. Todas as páginas do Antigo Testamento são preparação e anúncio.
Em Jesus, o Messias, todas as promessas encontram cumprimento. Ele é o Emanuel, o Servo Sofredor, a Luz da Galileia, o Rebento do tronco de Jessé.
A nossa fé não se apoia apenas na exatidão das profecias, mas no encontro vivo com Cristo Ressuscitado, centro de toda a Escritura. Como disse D. António Couto: “Nós somos a prova da ressurreição, pela vida transformada que damos ao mundo”.
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