Depois de meio século de exílio na Babilónia, parecia que a história de Israel tinha terminado. O Templo destruído, Jerusalém em ruínas, as famílias dispersas. No entanto, Deus permanece fiel. Com a queda da Babilónia e a ascensão do Império Persa, o rei Ciro permite que os judeus regressem à sua terra e reconstruam a cidade e o Templo (538 a.C.).
O título desta aula – O recomeço e a renovação dos corações – sublinha a grande lição desta etapa: não basta reconstruir muralhas ou templos exteriores; é preciso restaurar a fidelidade interior, renovar os corações.
a) Regresso do Exílio
O regresso não foi simples. Cerca de 50 mil judeus empreenderam a longa viagem de 800 km até Jerusalém. A alegria foi imensa: “Quando o Senhor fez regressar os cativos de Sião, parecia-nos sonhar. A nossa boca encheu-se de sorrisos e a nossa língua de cânticos” (Sl 126,1-2).
Mas a chegada trouxe desilusão. A cidade estava devastada, o Templo reduzido a escombros, a terra ocupada por estrangeiros. Era necessário reconstruir quase tudo do zero. Esta experiência mostra-nos que o caminho da esperança não é isento de dificuldades, mas exige perseverança.
b) Reconstrução do Templo e da Cidade
Sob a liderança de Zorobabel e do sacerdote Josué, iniciou-se a reconstrução do Templo. Não atingiu a grandiosidade do templo de Salomão, mas tornou-se o centro espiritual do povo. Mais tarde, Neemias reconstruiu as muralhas da cidade, garantindo segurança e identidade ao povo.
Contudo, os livros de Esdras e Neemias sublinham que a verdadeira restauração não era apenas arquitetónica. O essencial era reerguer a fé. Não bastava levantar pedras; era preciso converter os corações.
c) A Leitura da Lei
Num momento solene, Esdras reúne o povo diante da Porta das Águas. Abre o livro da Lei e lê-o em voz alta durante horas (Ne 8). O povo escuta com atenção, comove-se, chora e aclama: “Amém, Amém!”. A Palavra de Deus toca os corações, revelando quanto se tinham afastado da Aliança.
Os levitas animam-nos: “Este dia é consagrado ao Senhor… não vos entristeçais, porque a alegria do Senhor é a vossa força” (Ne 8,10). É a redescoberta de que a Palavra de Deus não oprime, mas alegra; não é peso, mas fonte de vida.
O Papa Francisco comenta: “O encontro com a Palavra de Deus enche-nos de alegria. E essa alegria é a nossa força” (Homilia, 2019).
e) Da construção exterior à renovação interior
Este momento marca uma viragem: o culto volta a ser centrado na Palavra e não apenas em rituais. Começa a prática regular da leitura das Escrituras em assembleias, origem das sinagogas.
Mais do que templos, Deus deseja corações convertidos. Os profetas já o tinham dito: “Rasgai os vossos corações e não as vossas vestes” (Jl 2,13). A restauração verdadeira é espiritual: fidelidade à Lei, vida de justiça, abertura a Deus.
f) O tempo de espera
Após o regresso, Israel nunca mais recuperou plena independência. Passou pelo domínio persa, grego e romano. Entre o Antigo e o Novo Testamento houve cerca de quatro séculos de silêncio profético. Parecia que Deus não falava, mas o povo guardava as Escrituras, rezava os salmos e mantinha a esperança do Messias prometido.
O livro de Daniel, escrito nesse período, usa linguagem apocalíptica para alimentar a esperança: apesar dos impérios sucessivos, no fim triunfará o Reino de Deus. “O reino será entregue ao povo santo do Altíssimo; o seu reino será eterno” (Dn 7,27).
Síntese
- Regresso do exílio → alegria e desilusão; tudo por reconstruir.
- Zorobabel e Neemias → reconstrução do Templo e das muralhas.
- Esdras → leitura pública da Lei; emoção e renovação do povo.
- Essencial → não só templos exteriores, mas corações convertidos.
- Tempo de espera → silêncio profético, esperança no Messias.
Reflexão
O recomeço de Israel após o exílio lembra-nos que as crises podem ser oportunidades de renovação. Quantas vezes, depois de quedas pessoais ou momentos difíceis, Deus nos dá a graça de recomeçar! Mas o essencial não é reconstruir aparências, mas renovar o coração.
O reencontro com a Palavra de Deus é central. Sem escuta, não há verdadeira restauração. Por isso, a Igreja continua a reunir-se cada domingo para proclamar as Escrituras.
- Vivo a Palavra de Deus como peso ou como fonte de alegria?
- Reconheço que as maiores reconstruções que Deus me pede são interiores?
- Estou disposto a deixar que o Senhor renove o meu coração de pedra em coração de carne?
Conclusão
O regresso do exílio não foi o fim da história, mas um novo começo. Israel reconstruiu templos e muralhas, mas sobretudo reencontrou a Palavra e renovou o coração.
Para nós, cristãos, esta lição é vital: depois das nossas quedas, Deus sempre nos oferece a possibilidade de recomeçar. O essencial é abrir o coração à sua Palavra, deixar-nos renovar pela sua graça e viver na alegria do Senhor, que é a nossa força.
