Na aula anterior vimos como o reinado de Salomão terminou em decadência e divisão. Após a sua morte, Israel fragmenta-se em dois reinos: o Reino do Norte (Israel, com capital em Samaria) e o Reino do Sul (Judá, com capital em Jerusalém).
A unidade sonhada por David desmorona-se. A idolatria e a injustiça multiplicam-se. Os reis e o povo afastam-se da Aliança, instalam ídolos nos templos, abandonam os pobres e confiam mais em alianças políticas que em Deus. Nesta crise, Deus suscita os profetas, enviados para recordar a sua Palavra e advertir sobre as consequências da infidelidade.
É neste contexto que se destaca a voz de Isaías, cujo anúncio nos traz uma das mais belas imagens messiânicas: a árvore decepada que, contra toda a esperança, faz brotar um rebento.
a) Elias e os primeiros profetas
Antes de Isaías, surge a figura imponente do profeta Elias, chamado “pai dos profetas” (cf. Catecismo, 2582). No Monte Carmelo, desafia os falsos profetas de Baal (1Rs 18): enquanto eles invocam em vão os seus ídolos, Elias reza e o fogo do Senhor consome o sacrifício. O povo exclama: “O Senhor é Deus!”
Elias recorda o primeiro mandamento: “Não terás outros deuses diante de mim” (Ex 20,3). O Papa Bento XVI comenta: “Somente assim Deus é reconhecido por aquilo que é: absoluto e transcendente”. Elias mostra que o culto verdadeiro não é negociável: Deus não pode ser colocado ao lado de outros ídolos.
b) A voz de Amós
Outro profeta desta época é Amós, um simples pastor, chamado por Deus para denunciar a injustiça social no Reino do Norte. Ele não tem “papas na língua”: critica a opulência dos ricos que exploram os pobres e a hipocrisia de quem pratica ritos religiosos mas vive sem justiça.
A sua mensagem é atualíssima: “Que o direito corra como a água, e a justiça como um rio perene” (Am 5,24). Para Amós, não existe verdadeira adoração sem compromisso com a justiça.
c) Isaías: A Árvore Decepada
No Reino do Sul, em Jerusalém, aparece o profeta Isaías (séc. VIII a.C.), de família nobre e conselheiro dos reis. Ele anuncia o julgamento de Deus contra a idolatria e a corrupção, mas também proclama uma esperança nova.
Na sua visão inaugural, vê o Senhor no Templo, rodeado de anjos que clamam: “Santo, Santo, Santo é o Senhor dos Exércitos, a sua glória enche toda a terra” (Is 6,3). Isaías reconhece-se pecador, mas é purificado e enviado a proclamar a Palavra.
Entre as suas profecias mais célebres está a imagem do capítulo 11:
“Do tronco de Jessé brotará um rebento, e das suas raízes surgirá um rebento. Sobre ele repousará o Espírito do Senhor: espírito de sabedoria e de inteligência, espírito de conselho e de fortaleza, espírito de ciência e de temor do Senhor” (Is 11,1-2).
A árvore (a dinastia de David) parece decepada, reduzida a um tronco morto. Mas Deus promete um rebento: um novo rei, descendente de Jessé (pai de David), que governará com justiça e trará a paz.
d) Emmanuel: o Deus Connosco
Isaías anuncia ainda: “A jovem conceberá e dará à luz um filho, e o seu nome será Emanuel” (Is 7,14). Este nome significa “Deus connosco”. Para os cristãos, é uma clara profecia do nascimento de Jesus, o Messias que cumpre as promessas feitas a David.
Este rebento não se imporá pela guerra, mas pela justiça e pelo conhecimento de Deus. Isaías descreve um tempo de paz: “O lobo habitará com o cordeiro, o leopardo deitar-se-á com o cabrito… e um menino os conduzirá” (Is 11,6).
É uma visão de harmonia universal: paz entre os povos, reconciliação entre o homem e a criação, restauração da comunhão perdida no Éden.
e) A voz dos Profetas e a nossa vida
Os profetas não são apenas personagens do passado. São sirenes de Deus, como dizia o podcast: vozes que despertam um povo adormecido. Eles lembram que a verdadeira religião não é ritual vazio, mas fidelidade à Aliança e cuidado com os pobres.
Hoje, também nós precisamos de ouvir estas vozes. Os ídolos já não se chamam Baal, mas podem ser o dinheiro, o poder, a fama, o consumo. A tentação de substituir Deus por seguranças visíveis continua.
O Papa Francisco adverte: “Adorar o Senhor significa dar-lhe o lugar que lhe corresponde, convencidos de que Ele é o único Deus, o Deus da nossa vida” (Homilia, 2014).
Síntese
- Divisão do reino → Israel a norte, Judá a sul.
- Elias → profeta do primeiro mandamento: só o Senhor é Deus.
- Amós → denúncia da injustiça social e da hipocrisia religiosa.
- Isaías → visão de Deus Santo, anúncio do Emanuel, o rebento do tronco de Jessé.
- Mensagem → julgamento, mas também esperança de um Messias e de paz universal.
Reflexão
A imagem da árvore decepada fala-nos de momentos de desespero em que tudo parece perdido. Talvez na nossa vida haja situações em que o “tronco” parece morto: sonhos desfeitos, pecados que nos pesam, relações quebradas. Mas a promessa de Isaías é clara: Deus faz nascer vida nova onde os homens só veem morte.
O Emanuel é a certeza de que Deus está connosco, mesmo quando tudo parece ruir. É Ele o rebento que cresce em silêncio, trazendo esperança e paz.
- Quais são as “árvores decepadas” da minha vida onde preciso acreditar que Deus pode fazer nascer um rebento?
- Reconheço os ídolos modernos que competem com Deus no meu coração?
- Vivo a fé apenas como rito, ou como compromisso de justiça e misericórdia?
Conclusão
No meio da decadência dos reinos de Israel e Judá, Isaías anuncia um rebento inesperado. A promessa de Deus não morre: da linhagem de David nascerá o Messias, o Emanuel, o Deus connosco.
Esta esperança atravessa séculos até se cumprir em Jesus. Para nós, cristãos, a árvore decepada é imagem da cruz, e o rebento é Cristo ressuscitado, que brota da morte para dar vida nova ao mundo.
