I.09. A árvore decepada e o rebento

Na aula anterior vimos como o reinado de Salomão terminou em decadência e divisão. Após a sua morte, Israel fragmenta-se em dois reinos: o Reino do Norte (Israel, com capital em Samaria) e o Reino do Sul (Judá, com capital em Jerusalém). 

A unidade sonhada por David desmorona-se. A idolatria e a injustiça multiplicam-se. Os reis e o povo afastam-se da Aliança, instalam ídolos nos templos, abandonam os pobres e confiam mais em alianças políticas que em Deus. Nesta crise, Deus suscita os profetas, enviados para recordar a sua Palavra e advertir sobre as consequências da infidelidade.

É neste contexto que se destaca a voz de Isaías, cujo anúncio nos traz uma das mais belas imagens messiânicas: a árvore decepada que, contra toda a esperança, faz brotar um rebento.

a) Elias e os primeiros profetas

Antes de Isaías, surge a figura imponente do profeta Elias, chamado “pai dos profetas” (cf. Catecismo, 2582). No Monte Carmelo, desafia os falsos profetas de Baal (1Rs 18): enquanto eles invocam em vão os seus ídolos, Elias reza e o fogo do Senhor consome o sacrifício. O povo exclama: “O Senhor é Deus!”

Elias recorda o primeiro mandamento: “Não terás outros deuses diante de mim” (Ex 20,3). O Papa Bento XVI comenta: “Somente assim Deus é reconhecido por aquilo que é: absoluto e transcendente”. Elias mostra que o culto verdadeiro não é negociável: Deus não pode ser colocado ao lado de outros ídolos.

b) A voz de Amós

Outro profeta desta época é Amós, um simples pastor, chamado por Deus para denunciar a injustiça social no Reino do Norte. Ele não tem “papas na língua”: critica a opulência dos ricos que exploram os pobres e a hipocrisia de quem pratica ritos religiosos mas vive sem justiça.

A sua mensagem é atualíssima: “Que o direito corra como a água, e a justiça como um rio perene” (Am 5,24). Para Amós, não existe verdadeira adoração sem compromisso com a justiça.

c) Isaías: A Árvore Decepada

No Reino do Sul, em Jerusalém, aparece o profeta Isaías (séc. VIII a.C.), de família nobre e conselheiro dos reis. Ele anuncia o julgamento de Deus contra a idolatria e a corrupção, mas também proclama uma esperança nova.

Na sua visão inaugural, vê o Senhor no Templo, rodeado de anjos que clamam: “Santo, Santo, Santo é o Senhor dos Exércitos, a sua glória enche toda a terra” (Is 6,3). Isaías reconhece-se pecador, mas é purificado e enviado a proclamar a Palavra.

Entre as suas profecias mais célebres está a imagem do capítulo 11:
“Do tronco de Jessé brotará um rebento, e das suas raízes surgirá um rebento. Sobre ele repousará o Espírito do Senhor: espírito de sabedoria e de inteligência, espírito de conselho e de fortaleza, espírito de ciência e de temor do Senhor” (Is 11,1-2).

A árvore (a dinastia de David) parece decepada, reduzida a um tronco morto. Mas Deus promete um rebento: um novo rei, descendente de Jessé (pai de David), que governará com justiça e trará a paz.

d) Emmanuel: o Deus Connosco

Isaías anuncia ainda: “A jovem conceberá e dará à luz um filho, e o seu nome será Emanuel” (Is 7,14). Este nome significa “Deus connosco”. Para os cristãos, é uma clara profecia do nascimento de Jesus, o Messias que cumpre as promessas feitas a David.

Este rebento não se imporá pela guerra, mas pela justiça e pelo conhecimento de Deus. Isaías descreve um tempo de paz: “O lobo habitará com o cordeiro, o leopardo deitar-se-á com o cabrito… e um menino os conduzirá” (Is 11,6).

É uma visão de harmonia universal: paz entre os povos, reconciliação entre o homem e a criação, restauração da comunhão perdida no Éden.

e) A voz dos Profetas e a nossa vida

Os profetas não são apenas personagens do passado. São sirenes de Deus, como dizia o podcast: vozes que despertam um povo adormecido. Eles lembram que a verdadeira religião não é ritual vazio, mas fidelidade à Aliança e cuidado com os pobres.

Hoje, também nós precisamos de ouvir estas vozes. Os ídolos já não se chamam Baal, mas podem ser o dinheiro, o poder, a fama, o consumo. A tentação de substituir Deus por seguranças visíveis continua.

O Papa Francisco adverte: “Adorar o Senhor significa dar-lhe o lugar que lhe corresponde, convencidos de que Ele é o único Deus, o Deus da nossa vida” (Homilia, 2014).

Síntese

  • Divisão do reino → Israel a norte, Judá a sul.
  • Elias → profeta do primeiro mandamento: só o Senhor é Deus.
  • Amós → denúncia da injustiça social e da hipocrisia religiosa.
  • Isaías → visão de Deus Santo, anúncio do Emanuel, o rebento do tronco de Jessé.
  • Mensagem → julgamento, mas também esperança de um Messias e de paz universal.

Reflexão

A imagem da árvore decepada fala-nos de momentos de desespero em que tudo parece perdido. Talvez na nossa vida haja situações em que o “tronco” parece morto: sonhos desfeitos, pecados que nos pesam, relações quebradas. Mas a promessa de Isaías é clara: Deus faz nascer vida nova onde os homens só veem morte.

O Emanuel é a certeza de que Deus está connosco, mesmo quando tudo parece ruir. É Ele o rebento que cresce em silêncio, trazendo esperança e paz.

  1. Quais são as “árvores decepadas” da minha vida onde preciso acreditar que Deus pode fazer nascer um rebento?
  2. Reconheço os ídolos modernos que competem com Deus no meu coração?
  3. Vivo a fé apenas como rito, ou como compromisso de justiça e misericórdia?

Conclusão

No meio da decadência dos reinos de Israel e Judá, Isaías anuncia um rebento inesperado. A promessa de Deus não morre: da linhagem de David nascerá o Messias, o Emanuel, o Deus connosco. 

Esta esperança atravessa séculos até se cumprir em Jesus. Para nós, cristãos, a árvore decepada é imagem da cruz, e o rebento é Cristo ressuscitado, que brota da morte para dar vida nova ao mundo.

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