Na aula anterior vimos como David foi escolhido por Deus, em contraste com Saúl, como rei “segundo o coração de Deus”. Humilde, pastor de ovelhas, músico e guerreiro, David parecia reunir todas as qualidades para ser o grande modelo de rei. E de facto, sob o seu reinado, Israel vai conhecer um período de prosperidade e unidade sem precedentes.
No entanto, a Bíblia não esconde as fragilidades dos seus protagonistas. Esta aula aborda a história dos dois grandes reis de Israel, David e Salomão, (libros de Samuel 2, Crónicas 1 e 2 e Reis 1. Ambos tiveram um período de ascensão, mas também um declínio, que justifica o título do episódio: “No melhor pano cai a nódoa”. Esta expressão popular ilustra bem uma verdade da Escritura: “Todos pecaram e estão privados da glória de Deus” (Rm 3,23).
a) A ascensão de David
David, jovem e franzino, será o herói improvável no combate frente aos filisteus. Ele vai sair vitorioso no famoso episódio da luta contra Golias (1Sm 17), porque ele não confia na força das armas, mas no “nome do Senhor do Universo”, demonstrando que a força humana é “nada diante de Deus”.
David, passa a ser mais querido pelo povo do que o rei Saúl, o que motiva a sua inveja e perseguição. David não se deixou levar pelo sentimento de vingança e esperou o tempo de Deus. Após a morte de Saúl, torna-se rei, unifica as tribos, conquista a cidade de Jerusalém, tornando-a a capital e a “cidade santa” porque lá deseja construir um templo para Deus
No entanto, é Deus a devolver-lhe a promessa de uma casa, ou seja de uma distania: “o Senhor te anuncia que Ele mesmo te fará uma casa”. Esta promessa é fundamental e aponta para a vinda de Jesus, o descendente de David. O profeta Isaías falará de um rebento que brotará do tronco de Jessé (pai de David), descrevendo um rei capacitado pelo Espírito do Senhor, que governará com justiça e trará uma era de paz e harmonia universal.
b) A queda de David e a denúncia de Natã
Quando tudo parecia correr muito bem, no auge do seu reinado, David cai numa tentação. Num momento de ócio, fixa o olhar em Betsabé, esposa de Urias, um dos seus generais mais fiéis. Comete adultério, engravida-a e, para encobrir o pecado, trama a morte de Urias (2Sm 11). Esta passagem mostra como um deslize pode levar a pecados maiores e mais graves.
Deus não abandona David ao seu erro. Envia-lhe o profeta Natã (sucessor de Samuel) que, com uma parábola, denuncia a injustiça: um rico, possuindo muitas ovelhas, rouba a única ovelha de um pobre para oferecer a um hóspede. David indigna-se e sentencia: “Esse homem merece a morte!” Natã replica: “Esse homem és tu” (2Sm 12,7).
“Não há humildade sem humilhação. David foi humilde porque se deixou humilhar pela correção de Natã. E encontrou perdão.” Papa Francisco, 1/02/2016
David, autor reconhece humildemente: “Pequei contra o Senhor” e escreve o Salmo 51 que brota deste arrependimento: “Compadece-te de mim, ó Deus, pela tua bondade, apaga a minha culpa pela tua grande misericórdia”.
“David aprendeu muito… David compreenderá imediatamente que era necessário voltar a colocar Deus no centro, e rezará… A sua oração é o verdadeiro companheiro de caminho do homem. No meio das numerosas provações da vida, boas ou más, mas sempre com oração.” Papa Francisco, 24/06/2020
c) A misericórdia de Deus e as consequências do pecado
Deus perdoa David, mas não apaga automaticamente as consequências do pecado. O filho da relação com Betsabé morre e a família de David doravante vai conhecer vários episódios de divisão e violência. Assim, a Escritura ensina-nos que o perdão restaura a relação com Deus, mas não elimina as marcas do mal que fizemos.
d) O reinado de Salomão
Assim, David decide casar com Betsabé (já viúva) e desta nova relação legítima nascerá o seu filho Salomão, sucessor no trono. O início do reinado de Salomão é marcado pela oração: pede a Deus não riqueza nem poder, mas sabedoria para governar (1Rs 3,9). Deus agrada-se e concede-lhe sabedoria incomparável. Ficou célebre a sua sentença entre as duas mulheres que reclamavam a maternidade da mesma criança (1Rs 3,16-28).
Salomão constrói o grande Templo de Jerusalém, cumprindo o desejo do pai. Israel voltar a viver um período de esplendor. Mas, com o tempo, o rei multiplica esposas estrangeiras, ergue templos para ídolos e cai na idolatria. Assim, volta a repetir-se a história: da fidelidade à infidelidade, da sabedoria à corrupção. Após a sua morte, o reino divide-se em dois (Israel a norte e Judá a sul).
e) A diferença entre David e Salomão
A “nódoa” no bom pano que era David e a posterior degradação gradual de Salomão revelam a fragilidade inerente à natureza humana. No entanto, quando comparamos David e Salomão é possível tirar uma conclusão elucidativa:
- David pecou gravemente, mas arrependeu-se e procura a misericórdia de Deus;
- David mostra que o pecado não nos exclui do amor de Deus se nos voltarmos para Ele com um “coração contrito”;
- Salomão, apesar de sábio, deixou o coração corromper-se lentamente pela idolatria;
- Salomão parecendo não se dar conta “desviou-se do Senhor e foi por Ele rejeitado”.
O Papa Francisco apela a uma vigilância constante do nosso coração, a não nos deixarmos corromper pela autosuficiência ou pela tentação de colocar outros “ídolos” acima de Deus (fama, validação, sucesso, dinheiro, poder).
“Atenção. Quando convencido de viver tranquilamente sem cometer grandes pecados, o cristão “desliza lentamente”, quase sem se dar conta, no enfraquecimento do coração, e corrompe-se. Se é verdade que, para o pecador capaz de se arrepender, o caminho da santidade está sempre aberto, o corrupto, ao contrário, exclui-se sozinho da possibilidade de salvação… Pecador, sim, todos somos; corruptos, não, não podemos ser.” Papa Francisco, 8/02/2018
A história destes reis ensina-nos que:
- a fé não é um estado estático, mas uma jornada dinâmica
- Deus, através dos profetas, chama-nos continuamente à conversão e à renovação, sempre com a promessa de que a Sua misericórdia prevalece sobre o julgamento.
Síntese
- David → pastor humilde, guerreiro de fé, rei segundo o coração de Deus.
- A queda → adultério e homicídio; denúncia de Natã; arrependimento.
- Miserere (Sl 51) → oração de contrição.
- Perdão → restaura a relação, mas não elimina as consequências.
- Salomão → sábio e construtor do Templo, mas corrompido pela idolatria.
- Resultado → divisão do reino após a sua morte.
Reflexão
A história de David mostra que a santidade não é perfeição sem falhas, mas capacidade de se levantar após a queda. O verdadeiro justo não é o que nunca peca, mas o que se arrepende e confia na misericórdia de Deus.
O contraste com Salomão adverte-nos para outro perigo: não basta começar bem, é preciso perseverar até ao fim. O coração corrompido lentamente pode ser mais perigoso que o pecado grave, porque não reconhece a necessidade de perdão.
- Como reajo quando erro: justifico-me ou reconheço humildemente o meu pecado?
- Rezo o Salmo 51 como oração de arrependimento sincero?
- Cuido da perseverança, pedindo a Deus um coração fiel até ao fim?
Conclusão
“No melhor pano cai a nódoa”: assim foi com David, mas também connosco. O pecado não é a última palavra. A última palavra é sempre de Deus, que perdoa e restaura. David, pecador e penitente, tornou-se modelo de oração e de confiança na misericórdia. Salomão, sábio e brilhante, tornou-se advertência contra a corrupção do coração.
Entre ambos, a Bíblia ensina-nos a verdade sobre a condição humana: todos somos frágeis, mas todos somos chamados à fidelidade. E de David, apesar da sua nódoa, nascerá a promessa maior: um rebento que governará para sempre – Jesus Cristo, o Filho de David.
Esta etapa da história bíblica convida-nos a confrontar as nossas próprias escolhas. Quantas vezes preferimos seguir a lógica do mundo – aparência, poder, sucesso – em vez da lógica de Deus, que olha o coração?
