I.07. As escolhas dos homens e os ungidos de Deus

Chegados a este ponto da história bíblica, o povo de Israel já percorreu um longo caminho: de Abraão, passando por Moisés e Josué, até entrar na Terra Prometida. No entanto, a fidelidade à aliança continua a ser um desafio constante. Israel oscila entre momentos de obediência e de idolatria, de confiança e de rebeldia. A pedagogia de Deus prossegue, mas o povo mostra-se muitas vezes “de cabeça dura” (Ex 32,9).

O episódio de hoje leva-nos ao período dos Juízes e ao início da monarquia em Israel. O título – Escolhas de homens e ungidos de Deus – resume a tensão entre os critérios humanos e os critérios divinos. Os homens escolhem segundo a aparência, o poder ou a lógica militar; Deus, porém, escolhe segundo o coração.

a) Josué e a entrada na Terra

 Após a morte de Moisés, o povo de Israel, devido à sua falta de fé, vagueia pelo deserto durante 40 anos, e apenas a nova geração, liderada por Josué, um dos exploradores que tinha voltado com “boas notícias”, entrará na Terra Prometida (Canaã). 

Josué assume a liderança e surge como “o novo Moisés”, fazendo um discurso inaugural em que exorta o povo a obedecer aos mandamentos da Torá e a ser fiel a Deus. A sua liderança é exemplar em fidelidade, e consegue conduzir o povo à entrada na Terra Prometida. 

Tal como Moisés atravessou o Mar Vermelho, Josué atravessa milagrosamente o Jordão com a Arca da Aliança (Js 3). Em Jericó, as muralhas caem não pela força das armas, mas pela obediência à ordem de Deus (Js 6). Aqui vemos um princípio fundamental: a vitória de Israel não depende do poder humano, mas da fidelidade a Deus. Quando o povo confia, vence; quando se afasta, cai.

Além da conquista Terra prometida, Josué teve um papel importante na divisão deste território pelas doze tribos de Israel.

b) Advertência perante episódios violentos

As descrições da conquista de Canaã são, por vezes, muito perturbadoras devido às cenas de violência e guerra. No entanto, é crucial ler estas passagens com sentido crítico e teológico, compreendendo que não são uma legitimação da violência, mas relatos que expressam a ira de Deus contra o mal e a idolatria dos cananeus, que eram um dos povos mais corruptos da região. 

A destruição dos cananeus não deve ser interpretada literalmente como um genocídio, pois os israelitas e cananeus continuaram a coexistir, misturando-se e influenciando-se mutuamente. O propósito divino era a instauração da bênção e bondade de Deus na Terra.

c) O período dos Juízes

Após a morte de Josué, segue-se um período instável para o povo de Israel, narrado no Livro dos Juízes. Os juízes eram líderes tribais que emergiam por vontade de Deus. Apesar das suas muitas falhas de caráter, eles lideravam o povo em vitórias, mas o ciclo de infidelidade repetiu-se várias vezes:

  • O povo afasta-se de Deus e adora ídolos.
  • Sofre opressão dos inimigos.
  • Clama ao Senhor.
  • Deus envia um Juiz (líder carismático) para os libertar.
  • Após a vitória, voltam a cair na infidelidade.

Entre os juízes mais conhecidos está Sansão, homem de força extraordinária, mas também de fraquezas morais. A sua vida mostra que até os instrumentos escolhidos por Deus são frágeis e pecadores.

O autor sagrado resume este tempo de corrupção e a falta de fidelidade do povo à Aliança através de uma frase contundente: “Naqueles dias não havia rei em Israel; cada um fazia o que bem lhe parecia” (Jz 21,25). É a lógica do relativismo, tão atual nos nossos dias: cada um define a sua verdade, ignorando a lei de Deus.

d) O Pedido de um Rei a Samuel

Por esta altura, Samuel é um sacerdote que anuncia a vontade de Deus no meio do povo e inclusive faz premonições sobre o futuro, mas não como um adivinho. Samuel é filho de Ana, que era estéril e pediu insistentemente a Deus um filho. Quando deu à  luz Samuel, Ana  dedicou Samuel ao Senhor, entregando-o como servidor do templo. 

A vocação de Samuel manifesta-se desde criança, quando Deus o chama repetidamente e ele, sob instrução de Eli, responde: “Fala, Senhor, que o teu servo escuta”. Deus escolhe o pequeno Samuel para repreender o sacerdote Eli pelos pecados dos seus filhos e pela sua própria falha em corrigir o povo. Este é mais um exemplo de como Deus “escolhe sempre os mais improváveis, os mais frágeis”, para manifestar a Sua vontade.

Cansado da instabilidade em que estava mergulhado, o povo de Israel começa a desejar um rei humano para os governar “como têm todas as outras nações” (1Sm 8,5). Os israelitas pedem a Samuel, já adulto e sacerdote, que lhes dê um rei. Samuel fica triste porque percebe que as intenções do povo não são as melhores, e Deus responde-lhe: “Não é a ti que rejeitam, mas a mim, para que Eu não reine sobre eles” (1Sm 8,7).

Aqui vemos a tentação habitual: confiar mais em estruturas humanas do que na soberania de Deus. Mesmo assim, o Senhor respeita a liberdade do povo e concede-lhes um rei.

e) Saúl: O Rei Segundo os Homens

O primeiro rei, escolhido por Samuel entre as várias tribos de Israel, é Saúl. É um homem de grande estatura e bela aparência, uma escolha humana que não corresponde à lógica de Deus. O seu nome significa “pedido”, como que a lembrar que ele foi fruto da insistência do povo. Samuel unge Saúl, mas alerta-o para a importância de obedecer a Deus. 

Inicialmente vitorioso nas batalhas, Saúl deixa-se corromper pela soberba. Desobedece às ordens de Deus (1Sm 15) e perde a unção. Deus mostra que não basta o poder militar: é necessária a obediência humilde. “A obediência vale mais que o sacrifício” (1Sm 15,22).

e) Samuel e a unção de David

Deus envia Samuel para ungir um novo rei, desta vez escolhendo um dos filhos de Jessé, em Belém, da tribo de Judá. Samuel considera os filhos mais velhos e robustos,, mas Deus corrige-o: “O homem vê as aparências, mas o Senhor olha o coração” (1Sm 16,7).

Assim, Deus escolhe David, o filho mais novo, um simples pastor de ovelhas, que ninguém se lembrou de apresentar. O Espírito do Senhor repousa sobre David e retira-se de Saúl, que passa a ser atormentado por um “espírito maligno”. David, ainda jovem, é chamado para tocar harpa na corte de Saúl para acalmar o rei. Este é mais um exemplo da “pedagogia de Deus”, que utiliza situações improváveis e pessoas com falhas para levar a cabo o Seu plano.

O Papa Francisco comentou certa vez: “Deus não escolhe os fortes, mas torna fortes os escolhidos”. Esta lógica divina repete-se em toda a história da salvação.

Síntese

  • Josué → entra na Terra Prometida com fidelidade.
  • Juízes → ciclo de pecado, opressão, arrependimento e libertação.
  • Pedido de um rei → escolha humana de ter segurança “como os outros povos”.
  • Saúl → rei segundo os homens, mas infiel.
  • David → ungido de Deus, escolhido pelo coração.

Reflexão

Esta etapa da história bíblica convida-nos a confrontar as nossas próprias escolhas. Quantas vezes preferimos seguir a lógica do mundo – aparência, poder, sucesso – em vez da lógica de Deus, que olha o coração?

O exemplo de Israel mostra que confiar apenas nas forças humanas leva à derrota espiritual. Mas confiar em Deus, mesmo na fragilidade, abre caminho à verdadeira vitória.

  1. Nas minhas escolhas, sigo mais a lógica dos homens ou a lógica de Deus?
  2. Reconheço que a obediência humilde vale mais do que qualquer sucesso exterior?
  3. Estou disposto a deixar Deus olhar o meu coração e moldá-lo segundo a sua vontade?

Conclusão

O episódio das “escolhas de homens e ungidos de Deus” ensina-nos que a verdadeira liderança não nasce da força nem da aparência, mas da fidelidade. Israel quis ser como as outras nações, mas Deus mostrou que o seu povo só floresce quando segue o caminho da obediência e da confiança.

Daqui em diante, veremos como David, o pequeno pastor, se tornará grande rei, e como até ele terá as suas quedas. A história continua a mostrar que Deus escreve direito por linhas tortas, escolhendo os pequenos para realizar grandes coisas.

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