A história de Moisés e do Êxodo mostrou-nos que Deus liberta o seu povo da escravidão, conduzindo-o através das águas até ao deserto. Mas a libertação não é apenas saída: é também entrada numa aliança. Deus não quer apenas salvar Israel do faraó, quer fazer dele o seu povo, ligado a si por uma relação de amor e fidelidade.
É no Monte Sinai que esta aliança se concretiza, com um dom fundamental: as Tábuas da Lei, os famosos Dez Mandamentos. Estes mandamentos são como os mínimos olímpicos da vida espiritual: o critério mínimo necessário para viver em comunhão com Deus e com os irmãos.
a) As Alianças anteriores
Já vimos que Deus tinha feito alianças antes:
- Com Noé, após o dilúvio, simbolizada no arco-íris (Gn 9,12-17).
- Com Abraão, prometendo-lhe terra, descendência e bênção (Gn 15).
Mas estas alianças eram sobretudo promessas divinas. Agora, no Sinai, Deus estabelece uma aliança que implica também uma resposta humana: “Se ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança, sereis a minha propriedade pessoal entre todos os povos” (Ex 19,5).
O povo aceita: “Faremos tudo o que o Senhor disse” (Ex 19,8). A partir daqui, Israel passa a ser verdadeiramente o povo da Aliança.
b) A entrega da Lei
Deus manifesta-se no Sinai com trovões, nuvens e fogo. O povo permanece ao sopé da montanha, enquanto Moisés sobe para receber a Lei. As Dez Palavras (Decálogo) resumem a vontade de Deus.
- Os três primeiros mandamentos referem-se à relação com Deus: adorar só a Ele, respeitar o Seu nome, santificar o dia consagrado.
- Os sete restantes regulam a relação com o próximo: honrar os pais, não matar, não cometer adultério, não roubar, não mentir, não desejar a mulher nem os bens do próximo.
Estes mandamentos não são imposições arbitrárias, mas um caminho de liberdade. O povo, que saiu da escravidão do Egito, aprende agora a viver livremente segundo a lei de Deus.
c) Lei Natural e Lei Revelada
O Catecismo explica que os mandamentos exprimem a lei natural, isto é, a lei moral inscrita no coração de todos os homens: “A lei natural exprime o sentido moral originário, que permite ao homem discernir, pela razão, o bem e o mal” (CIC 1954).
Por isso, mesmo povos que nunca ouviram falar da Bíblia reconhecem que matar, roubar ou mentir são atos errados. O Decálogo confirma e ilumina esta verdade natural, apresentando-a como dom de Deus. São João Paulo II dizia: “A lei de Deus não diminui nem limita a liberdade do homem, mas protege-a e promove-a” (Veritatis Splendor, 35).
| Êxodo 20, 2-17 | Deuteronómio 5, 6-21 | Fórmula do Catecismo |
| Eu sou o Senhor teu Deus,Que te tirei da terra do Egipto,dessa casa da escravidão. | Eu sou o Senhor teu Deus,que te fiz tirei da terra do Egipto dessa da casa da escravidão. | Primeiro: Adorar a Deus e amá-Lo sobre todas as coisas. |
| Não terás outros deuses perante Mim.Não farás de ti nenhuma imagem esculpida, nem figura que existe lá no alto do céu ou cá em baixo na terra ou nas águas debaixo da terra.Não te prostrarás diante delasnem lhes prestarás culto porque eu,o Senhor teu Deus, sou um Deus cios: castigo a ofensa dos pais nos filhos até à terceira e quarta geração daqueles que Me ofendem;mas uso de misericórdia até à milésima geração com aqueles que Me amam e guardam os meus mandamentos. | Não terás outros deuses diante de Mim… | |
| Não invocarás em vão o Nome do Senhor teu Deus, porque o Senhor não deixa sem castigo quem invocar o seu Nome em vão. | Não invocarás em vão o Nome do Senhor teu Deus… | Segundo: Não invocar o santo nome de Deus em vão. |
| Lembrar-te do dia do Sábadopara o santificar.Durante seis dias trabalharáse farás todos os trabalhos.Mas o sétimo dia é sábado do Senhor teu Deus.Não farás nele nenhum trabalho,nem tu, nem teu filho ou tua filha,nem o teu servo nem a tua serva,nem o teu gado, nem o estrangeiro que vive em tua cidade.Porque em seis dias o Senhor fez o céu e a terra, o mar e tudo o que eles contêm: mas ao sétimo diz descansou.Por isso o Senhor abençoouo dia de sábado e o consagrou. | Guarda o dia do sábado para o santificar | Terceiro: Santificar os domingos e festas de guarda. |
| Honra pai mãe, a fim de prolongares os teus dias na terra que o Senhor teu Deus te vai dar. | Honra teu pai e tua mãe… | Quarto:Honrar pai e mãe (e os outros legítimos superiores). |
| Êxodo 20, 2-17 | Deuteronómio 5, 6-21 | Fórmula do Catecismo |
| Não matarás. | Não matarás. | Quinto: Não matar (nem causar outro dano, no corpo ou na alma, a si mesmo ou ao próximo). |
| Não cometerás adultério. | Não cometerás adultério. | Sexto: Guardar castidade nas palavras e nas obras. |
| Não roubarás. | Não roubarás. | Sétimo:Não furtar (nem injustamente reter ou danificar os bens do próximo). |
| Não levantarás falso testemunho contra o teu próximo. | Não levantarás falso testemunho contra o teu próximo. | Oitavo:Não levantar falsos testemunhos (nem de qualquer outro modo faltar à verdade ou difamar o próximo). |
| Não cobiçarás a casa do teu próximo. | Nono: Guardar castidade nos pensamentos e nos desejos. | |
| Não desejarás a mulher do próximo, nem o seu servo nem a sua serva,o seu boi ou o seu jumento, nem nada que lhe pertença. | Não desejarás a mulher do teu próximo; | Décimo: Não cobiçar as coisas alheias. |
| Não cobiçarás … nada que pertença ao teu próximo. | ||
| Estes dez mandamentos resumem-se em dois que são: Amar a Deus sobre todas as coisas, e ao próximo como a nós mesmos.(Mt 22, 37-39) |
d) Os Mínimos Olímpicos
A metáfora dos “mínimos olímpicos” ajuda-nos a compreender o sentido dos mandamentos. Tal como um atleta precisa de cumprir marcas mínimas para poder participar nos Jogos Olímpicos, também o crente precisa de viver no mínimo estas dez palavras para permanecer na amizade de Deus.
Quem quebra gravemente os mandamentos afasta-se de Deus e da comunidade. Por isso, a fidelidade ao Decálogo é condição essencial da vida espiritual.
e) A Fragilidade Humana
Infelizmente, Israel mostra-se frágil. Enquanto Moisés está no monte, o povo fabrica um bezerro de ouro para adorar (Ex 32). É a tentação de substituir o Deus invisível por um ídolo visível. Deus poderia ter destruído o povo, mas Moisés intercede como verdadeiro mediador, lembrando a fidelidade das promessas.
Este episódio mostra que a Aliança é um caminho feito de quedas e reconciliações. A fidelidade de Deus é maior que a infidelidade do povo.
f) Da Lei à plenitude em Cristo
Os Dez Mandamentos permanecem válidos para os cristãos, mas encontram a sua plenitude em Jesus Cristo. Ele próprio disse: “Não penseis que vim abolir a Lei ou os Profetas; não vim abolir, mas cumprir” (Mt 5,17).
No Sermão da Montanha, Jesus eleva a Lei a um novo nível: não basta não matar, é preciso não alimentar o ódio; não basta não cometer adultério, é preciso purificar o coração.As Bem-aventuranças (Mt 5,1-12) são como a medalha de ouro depois dos mínimos olímpicos: mostram o caminho da perfeição evangélica.
Síntese
- Noé → aliança do arco-íris.
- Abraão → promessa de terra, descendência, bênção.
- Moisés → aliança do Sinai com resposta humana.
- Dez Mandamentos → mínimos olímpicos da vida espiritual.
- Lei natural confirmada pela Lei revelada.
- Cristo → leva a Lei à plenitude com as Bem-aventuranças.
Reflexão
Os Dez Mandamentos não são uma lista de proibições, mas um código de liberdade. São o alicerce mínimo da vida cristã. Sem eles, a fé perde consistência e cai no subjetivismo.
Contudo, não basta cumpri-los de forma exterior. Jesus lembra-nos que o verdadeiro cumprimento está no coração. Os mandamentos devem ser vividos como expressão do amor: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração… e ao teu próximo como a ti mesmo” (Mt 22,37-39).
- Vejo os Mandamentos como peso ou como caminho de liberdade?
- Em que pontos da minha vida tenho dificuldade em cumprir estes mínimos?
- Esforço-me por viver não apenas o mínimo, mas o máximo da perfeição evangélica nas Bem-aventuranças?
Conclusão
No Sinai, Deus deu ao seu povo uma Lei de vida. Esta Lei continua a ser o fundamento da moral cristã, o mínimo indispensável para viver em comunhão com Deus. Mas em Jesus, a Lei encontra a sua plenitude: Ele não nos chama apenas a cumprir mínimos, mas a viver o máximo do amor.
A partir daqui, a história da salvação continua. Israel, conduzido por Moisés e depois por Josué, entrará na Terra Prometida. Mas, mais importante que a terra, será a fidelidade à Aliança. E nós, hoje, somos convidados a viver esta mesma fidelidade, confiando não só na nossa força, mas sobretudo na graça de Deus que nos conduz à santidade.
