A história de Abraão e da sua descendência mostrou-nos como Deus inicia o seu plano de salvação através de uma família. A bênção de Deus a Abraão começou a dar frutos, e o povo de Israel tornou-se mais numeroso que os egípcios. No entanto, um novo faraó, que não conhecia José, passou a ver os hebreus como inimigos, sujeitando-os à escravidão e à opressão, e ordenando a morte de todos os filhos homens israelitas.
Durante quatrocentos anos viveu oprimido, até que Deus suscitou um libertador: Moisés. Com ele, Deus realiza um dos episódios mais marcantes do Antigo Testamento: a saída do Egito (Êxodo). Este acontecimento não é apenas libertação política, mas uma verdadeira salvação espiritual, simbolizada por um elemento fundamental: as águas.
a) Moisés: o salvo das águas
O próprio nome de Moisés recorda a água. Segundo o livro do Êxodo (Ex 2), uma mãe hebreia escondeu o filho recém-nascido num cesto lançado ao rio Nilo, para o salvar do decreto do faraó que mandava matar todos os meninos hebreus. A filha do faraó encontrou a criança, chamou-a Moisés, que significa “tirado das águas”.
Desde o nascimento, a vida de Moisés está ligada à água: a água que ameaça matar torna-se, pela providência de Deus, instrumento de salvação.
b) O chamamento de Moisés
Já adulto, Moisés vive um episódio decisivo: Deus revela-se a ele no monte Horeb, numa sarça ardente que arde sem se consumir (Ex 3). Ali, Deus revela o seu nome: “Eu sou Aquele que sou” (Ex 3,14). E envia Moisés em missão: libertar o povo de Israel da escravidão. Moisés resiste, sente-se incapaz, mas Deus garante: “Eu estarei contigo”. Esta promessa ecoa ao longo de toda a Bíblia: a verdadeira força não está no homem, mas na presença fiel de Deus.
c) As pragas e a Páscoa
Deus envia Moisés ao faraó para exigir a libertação de Israel. O faraó, com um “coração duro”, resiste às exigências divinas, atingindo o Egito com dez pragas consecutivas, e cada vez mais duras. A décima praga, a morte dos primogénitos egípcios (incluindo a morte do príncipe herdeiro), é a mais drástica, leva finalmente o faraó a ceder. Mas os filhos de Israel são poupados a esta praga, porque obedeceram à ordem de Deus:
- sacrificar um cordeiro e marcar com o seu sangue as portas das casas.
- este episódio, chamado Páscoa (do hebraico Pessach, passagem), torna-se a festa central de Israel: a noite em que Deus passou, poupando o seu povo e libertando-o.
- vários séculos depois, Jesus Cristo, o verdadeiro Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (Jo 1,29), vai elevar o sentido da Páscoa, como passagem do pecado para a Graça, da morte para a Vida.
d) A travessia do Mar Vermelho
O faraó permite a saída do povo de Israel, que inicia o seu Êxodo do Egito por volta de 1250-1230 a.C.. Mas logo após a partida, o faraó muda de ideias e persegue-os com o seu exército. O povo, encurralado entre os soldados e o Mar Vermelho, desespera. Mas Moisés, obedecendo à ordem de Deus, ergue o cajado e as águas abrem-se, permitindo que os israelitas passem a pé enxuto (Ex 14).
Quando o exército egípcio tenta segui-los, as águas voltam ao seu lugar e os perseguidores são derrotados. O povo é salvo, não pela força das armas, mas pela intervenção de Deus. Este é o evento fundador da identidade de Israel: Deus liberta o seu povo através da água.
e) Água como sinal de salvação
Ao longo da Bíblia, a água aparece frequentemente como sinal ambivalente: pode significar morte (dilúvio, mares revoltos), mas também vida (chuva fecunda, nascente de água viva). Em Moisés, este simbolismo atinge o auge: as águas que poderiam matar tornam-se caminho de libertação.
Para nós, cristãos, este episódio é figura do Batismo. Assim como Israel atravessou as águas para entrar numa vida nova de liberdade, também nós, pelo batismo, passamos da escravidão do pecado para a vida em Cristo. São Paulo escreve:
“Todos os nossos pais estiveram sob a nuvem, todos atravessaram o mar, todos foram batizados em Moisés, na nuvem e no mar” (1Cor 10,1-2).
f) O cântico de louvor
Depois da travessia, o povo entoa um hino de vitória, chamado Cântico de Moisés:
“Cantarei ao Senhor, que é glorioso, cavalo e cavaleiro lançou no mar. O Senhor é a minha força e o meu canto, Ele foi a minha salvação.” (Ex 15)
Este cântico é repetido na liturgia judaica e cristã, especialmente na Vigília Pascal, quando celebramos a ressurreição de Cristo: a passagem da morte para a vida.
g) As provações no Deserto
Mas a história não acaba aqui. Após a travessia e apesar o milgre ocorrido, o povo de Israel quando se depara com o deserto, mostra-se ingrato e começa a murmurar por comida e água. Deus, paciente, providencia água da rocha, pão do céu (o maná) e codornizes. Mais uma vez, a água aparece como dom de Deus que sustenta a vida.
O Papa Francisco, na encíclica Fratelli Tutti, abordando o episódio do maná, sublinha a importância de confiar na providência diária de Deus e a proibição de guardar alimento para o dia seguinte. Trata-se de um alerta para o individualismo e a ganância:
“O individualismo não nos torna mais livres, mais iguais, mais fraternos. A mera soma de interesses individuais não é capaz de gerar um mundo melhor para a totalidade da humanidade.”
h) Moisés como modelo
A primeira metade do Êxodo termina com o povo no deserto, aguardando a próxima etapa do plano de Deus. Aqui vemos que a salvação não é apenas um acontecimento passado. É um caminho: cada dia, o povo precisa de confiar novamente.
Assim, Moisés surge como o “maior personagem de todo o Antigo Testamento”, porque:
- é um mediador entre Deus e o povo;
- é um modelo de fé e obediência, que confia constantemente na providência de Deus mesmo quando as coisas estão difíceis.
Síntese
- Moisés: salvo das águas do Nilo.
- Chamado por Deus na sarça ardente.
- Páscoa: sangue do cordeiro → libertação.
- Travessia do Mar Vermelho: salvação pelas águas.
- Água: sinal de morte e de vida.
- Figura do Batismo cristão.
- Deserto: Deus dá água e pão.
Reflexão
A travessia do Mar Vermelho é mais do que um milagre do passado: é imagem da nossa própria vida de fé. Também nós vivemos entre medos e ameaças, encurralados por dificuldades. Mas Deus abre sempre um caminho, mesmo no meio das águas.
O Batismo é a nossa Páscoa pessoal: mergulhamos na morte de Cristo para ressurgir com Ele para uma vida nova (cf. Rm 6,3-4). A água torna-se fonte de vida eterna.
A história de Israel recorda-nos ainda que a salvação não é automática. É preciso caminhar, confiar, perseverar. Quantas vezes, como o povo no deserto, murmuramos contra Deus, esquecendo as maravilhas que Ele já realizou!
- Reconheço que a minha vida também tem “águas” de escravidão e medo?
- Vejo o Batismo como um acontecimento passado ou como fonte de vida presente?
- Como posso viver cada dia confiando que Deus abrirá caminho, mesmo diante do impossível?
Conclusão
A história da salvação, marcada pelas águas, mostra que Deus é sempre maior que as forças do mal. Ele salva o seu povo no Egito, abre o mar, dá água no deserto. Para nós, esta salvação cumpre-se plenamente em Jesus Cristo, cuja Páscoa é a travessia definitiva: da morte para a vida. Assim como Moisés conduziu Israel através das águas, também Cristo nos conduz pelo Batismo às fontes da vida eterna.
