I.04. A escolha de uma família

Depois de vermos como o pecado abriu uma fenda na humanidade (Aula 3), surge a pergunta: como reagirá Deus? Terá Ele desistido da sua criação? A resposta bíblica é clara: Deus não desiste do homem. Apesar da infidelidade humana, Deus decide iniciar um plano de salvação. E esse plano começa de forma surpreendente: escolhendo uma família concreta para, a partir dela, abençoar todas as nações.

O Catecismo da Igreja Católica (CIC, nº 60) resume assim: “O povo eleito é o depositário das promessas, o povo da origem de Abraão, da fé dos patriarcas. Será a raiz na qual se enxertarão os pagãos, quando acreditarem.” Deus inicia a história da salvação chamando Abraão, o primeiro dos patriarcas.

a) Abraão: Pai na Fé

Esta aula aborda a segunda parte do livro do Génesis, dos capítulos 12 ao 50, que nos introduz à figura de Abrão (mais tarde chamado Abraão). É um homem idoso, de 75 anos, casado com Sara, estéril e sem filhos. Humanamente, não era o candidato ideal para fundar um grande povo. Mas é precisamente a ele que Deus se dirige:

“Sai da tua terra, da tua parentela e da casa do teu pai, e vai para a terra que Eu te indicar. Farei de ti uma grande nação, abençoar-te-ei e engrandecerei o teu nome. Em ti serão abençoadas todas as famílias da terra.” (Gn 12,1-3)

Abraão obedece. Deixa a sua terra e parte confiando apenas na promessa de Deus. Por isso é chamado pai da fé. São Paulo recorda: “Abraão acreditou em Deus, e isso foi-lhe atribuído como justiça” (Rm 4,3). Deus muda-lhe o nome: de Abrão (“pai exaltado”) para Abraão (“pai de muitos povos”). O nome novo marca a nova missão.

b) As promessas de Deus

Deus faz com Abraão uma aliança e promete-lhe três coisas fundamentais:

  1. Uma terra: a Terra Prometida, Canaã.
  2. Uma descendência: apesar da esterilidade de Sara, Abraão será pai de uma multidão.
  3. Uma bênção universal: através dele, todas as nações serão abençoadas. 

Estas promessas são o coração do Antigo Testamento. Tudo o que virá depois — Moisés, os reis, os profetas — será o desenvolvimento desta primeira aliança. 

c) Um povo para todas as Nações

À primeira vista, pode parecer injusto que Deus escolha apenas uma família. Mas o objetivo nunca foi exclusivismo. Desde o início, a promessa é clara: “Em ti serão abençoadas todas as famílias da terra” (Gn 12,3).

Deus começa pelo pouco para alcançar o universal. Escolhe um povo particular para, através dele, revelar-se ao mundo inteiro. É como uma semente que, lançada à terra, crescerá até se tornar árvore frondosa. Por isso, a Igreja se chama católica, que significa “universal”. Somos herdeiros da promessa feita a Abraão, realizada plenamente em Cristo.

d) O sorriso de Deus

Esta história também mostra a importância da mulher nos desígnios de Deus. Isaac, o filho da promessa, vai nascer após a própria Sara também ter passado algumas provas:

  • a entrega da sua escrava Hagar a Abraão para lhe dar descendência que ela não conseguia; daí resultou o primeiro filho de Abraão, Ismael. 
  • o riso incrédulo de Sara perante a promessa de um filho seu, quando três visitantes misteriosos (que representam a Trindade) aparecem no acampamento da família. 

A hospitalidade e a atenção permanente deste casal, Abraão e Sara, aos enviados do Senhor recebeu como resposta o nascimento do seu filho Isaac, que significa “Deus ri”.

Assim, Abraão é reconhecido como o pai na fé das três grandes religiões monoteístas: 

  • Islamismo, por via de Ismael, que deu origem aos ismaelitas / muçulmanos;
  • Judaísmo, por via de Isaac, que deu origem aos israelitas / judeus;
  • Cristianismo, por via de Jesus, que era judeu e descendente de Isaac.

d) A prova da Fé

A vida de Abraão mostra que a fé não é ausência de dúvidas, mas confiança em meio à incerteza. Vemos isto na prova mais dramática: o sacrifício de Isaac (Gn 22). Deus pede a Abraão que ofereça o seu filho tão esperado. Humanamente, é um absurdo. Mas Abraão obedece, acreditando que Deus providenciará. No último momento, o anjo impede o sacrifício e um cordeiro substitui Isaac. Este episódio mostra que Deus não quer sacrifícios humanos (comuns nos povos daquela época) e que a fé de Abraão é confiança absoluta.

Os cristãos veem neste episódio um anúncio de Jesus Cristo: tal como Isaac carregou a lenha, também Jesus carregou a cruz; mas, ao contrário de Isaac, o Filho amado foi realmente oferecido por amor à humanidade.

e) Isaac, Jacob e José

A história continua com os descendentes de Abraão.

  • Isaac, filho da promessa, casa com Rebeca e tem dois filhos: Esaú e Jacob. Por meio de intrigas, Jacob recebe a bênção da primogenitura.
  • Jacob, depois de um episódio misterioso, passa a chamar-se Israel: “Aquele que luta com Deus” e recebe a benção para continuar este povo: tem 12 filhos, que darão origem às 12 tribos de Israel. 
  • José, um dos 12 filhos, foi vendido como escravo pelos irmãos e levado ao Egito. A sua fidelidade a Deus transforma-o em governador do país. No tempo da fome, José salva a sua família, mostrando que Deus escreve direito por linhas tortas.
    Assim, toda a família de Jacó acaba por se instalar no Egito, onde prospera durante séculos, até cair na escravidão. Esta situação prepara o cenário para a missão de Moisés, que veremos nas próximas aulas.

f) Deus escolhe os pequenos

O fio condutor destas histórias é claro: Deus escolhe pessoas frágeis e improváveis. Abraão era idoso e sem filhos; Sara, estéril; Jacó, enganador; José, rejeitado pelos irmãos. E, no entanto, é por meio deles que Deus realiza o seu plano. São Paulo dirá mais tarde: “Deus escolheu o que é fraco no mundo para confundir o que é forte” (1Cor 1,27). Isto mostra que a salvação é obra da graça, não do mérito humano.

Síntese

  • O mundo tem uma fenda → mas Deus não desiste.
  • Chama Abraão → pai da fé.
  • Três promessas → terra, descendência, bênção universal.
  • Descendência → Isaac, Jacó, José e as doze tribos.
  • Objetivo → abençoar todas as nações.
  • Deus escolhe os pequenos → realiza grandes coisas.

Reflexão

A história de Abraão e da sua família mostra que a fé é um caminho de confiança. Muitas vezes Deus pede-nos para sair da nossa “terra”, abandonar seguranças e lançar-nos ao desconhecido. A fé não é ter tudo controlado, mas acreditar que Deus caminha connosco.

Esta narrativa também nos lembra que Deus age na fragilidade. Não precisamos de ser perfeitos para sermos escolhidos. A vida de José é exemplo disso: traído, vendido e injustiçado, acabou por se tornar instrumento de salvação para a sua família.

  1. Que “terra” Deus me pede para deixar — hábitos, medos, seguranças?
  2. Reconheço-me nas fragilidades dos patriarcas? Acredito que Deus pode agir mesmo através da minha fraqueza?
  3. Tenho consciência de que a minha fé não é só para mim, mas é chamada a ser bênção para os outros?

Conclusão

A história de Abraão e da sua família inaugura o grande plano de Deus para a salvação. Ele escolhe um povo, mas com vistas ao bem de toda a humanidade. O fio condutor é sempre o mesmo: confiança na promessa. A partir desta pequena família nascerá Israel, e de Israel nascerá o Messias, Jesus Cristo.

Assim, a fenda aberta pelo pecado começa a ser lentamente reparada pela fidelidade de Deus e pela resposta, muitas vezes frágil, mas sincera, de homens e mulheres de fé.

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