I.03. O mundo tem uma fenda

Depois de reconhecermos que o homem é capaz de Deus (Aula 1) e que Deus se revelou (Aula 2), precisamos agora de olhar para uma realidade incontornável: o mal que existe no mundo. Quem abre a Bíblia no Génesis encontra um cenário belo: a criação é apresentada como boa e harmoniosa. Mas logo a seguir surge uma rutura: algo não correu bem. 

Esta é a experiência de todos nós: desejamos o bem, mas tantas vezes fazemos o mal. Lutamos por justiça e paz, mas a violência e o egoísmo teimam em regressar. São Paulo exprimiu este drama de forma admirável: “Não faço o bem que quero, mas pratico o mal que não quero” (Rm 7,19). Então… o que aconteceu à criação boa de Deus? E como explicar a presença do mal no mundo?

a) O Relato do Génesis

O livro do Génesis, nos seus primeiros 11 capítulos, apresenta uma narrativa simbólica e teológica sobre as origens. Não se trata de ciência ou história moderna, mas de uma catequese sobre o sentido da vida.

  • Capítulos 1–2: descrevem a bondade da criação. O homem e a mulher são colocados no Jardim do Éden como coroa da obra de Deus, chamados a viver para sempre em harmonia com Ele, consigo mesmos, entre si e com a natureza.
  • Capítulo 3: introduz a queda. A serpente convence Adão e Eva a desobedecer, desejando ser “como deuses”. O fruto proibido simboliza a tentação de decidir sozinhos o que é bem e o que é mal, sem referência a Deus.
  • O que se segue é devastador: vergonha, medo, divisão, dor e morte entram na história. Esta é a fenda de que falamos: a humanidade rompeu a comunhão com o Criador e passou a viver numa condição ferida.

b) O Génesis e a ciência

A Igreja não lê os primeiros capítulos do Génesis como uma reportagem histórica ou um relato científico, mas como linguagem metafórica. Por exemplo, a criação o universo em seis “dias”, que deve ser interpretada como “passo, jornada, etapa”, e não literalmente 24 horas.  Por isso é importante sublinhar: 

  • A Igreja aceita as evidências científicas correntemente verificadas, como por exemplo a teoria do Big Bang ou a teoria evolução das espécies.
  • A ciência ajuda-nos a responder a questões  “Quando e como foi criado o universo?”
  • A fé e a ciência não se opõem, mas antes complementam-se; 
  • O Génesis responde a questões teológicas: “Quem criou o universo? E para quê?”   , 
  • Após cada etapa da criação, Deus declara que “tudo era bom”, culminando o homem como a “coroa da sua criação”, feito à imagem e semelhança de Deus.

c) O Pecado Original

A linguagem metafórica do Génesis também está patente no fruto proibido, na serpente, e na árvore da ciência do bem e do mal. Tratam-se imagens que comunicam verdades espirituais profundas. 

A tradição da Igreja chama esta queda de pecado original. Não é apenas um ato cometido por Adão e Eva há milhares de anos, mas uma condição que marca toda a humanidade.

“Ao ceder à tentação, Adão e Eva cometeram um pecado pessoal, mas este pecado afetou a natureza humana que eles vão transmitir num estado decaído” (CIC 404).

Em termos simples: todos nascemos com esta ferida. Temos sede de Deus, mas inclinamo-nos para o egoísmo. Somos capazes de amar, mas também de ferir. Vivemos numa espécie de “plano inclinado”: naturalmente escorregamos para o mal se não tivermos a graça que nos sustenta.

d) As consequências do Pecado

O Génesis ilustra as consequências dessa ruptura através de várias histórias:

  • Caim e Abel (Gn 4):  ilustra que a entrada do pecado na humanidade traz consigo consequências terríveis. A inveja leva ao primeiro homicídio.
  • O dilúvio e Noé (Gn 6–9): a violência generalizada faz Deus “entristecer-se de ter criado o homem”.  Deus “lava” o mundo com o Dilúvio, e oferece um novo começo através da arca do justo Noé, fazendo com ele uma aliança cujo símbolo é o arco-íris.
  • A torre de Babel (Gn 11): mesmo após “reset” do dilúvio, a humanidade volta a cair no orgulho e individualismo,  onde o homem tenta “construir uma cidade única” para se exaltar acima de Deus, resultando na confusão de línguas e dispersão.  O episódio de Babel contrasta com o do Pentecostes no Novo Testamento, onde Deus volta a reunir a humanidade na “língua” do seu Espírito Santo.

Estas narrativas revelam que o pecado não é apenas individual, mas também estrutural e social. A maldade instalou-se nas relações, nas culturas, nas instituições.

e) A esperança de Salvação

Apesar da gravidade da queda, a Bíblia anuncia desde o início uma esperança. No capítulo 3 do Génesis encontramos uma frase chamada pelos teólogos de Proto-Evangelho

“Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a descendência dela. Esta te esmagará a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar” (Gn 3,15).

É a primeira promessa de salvação: da descendência da mulher virá alguém que vencerá a serpente. A tradição cristã vê aqui um anúncio de Maria e de Jesus. Maria, a nova Eva, deu o seu “sim” onde Eva dissera “não”. E Jesus, novo Adão, venceu o mal na cruz e na ressurreição. Assim, a fenda aberta pelo pecado não ficou sem resposta. Deus iniciou um plano de salvação que culmina em Cristo.

f) A experiência humana do Mal

Mesmo hoje, cada um de nós experimenta esta luta interior. Por um lado, ouvimos a voz de Deus que nos chama ao bem; por outro, sentimos a sedução do pecado. Muitas tradições ilustram isso com a imagem de dois anjinhos, um de cada lado do ombro. O Catecismo chama a isso concupiscência, isto é, a inclinação desordenada para o mal.

Esta luta não nos deve levar ao desespero. O apóstolo Paulo, depois de descrever o seu próprio combate interior, exclama: “Quem me libertará deste corpo de morte? Graças sejam dadas a Deus, por Jesus Cristo nosso Senhor” (Rm 7,24-25).

g) Ecologia e pecado

O Papa Francisco explica na encíclica Laudato Si’ que estes relatos mostram como o pecado rompe não só a relação com Deus, mas também com a criação e com os seres humanos. Por isso, cuidar da natureza e cultivar a justiça social são também dimensões espirituais.

Síntese

  • A criação é boa → Deus fez tudo com amor.
  • O homem desobedece → quer ser “como Deus”.
  • Surge o pecado original → ferida na humanidade.
  • Consequências → morte, divisão, violência.
  • Mas há promessa → um Salvador virá esmagar a serpente.

Reflexão 

A fenda do pecado não é apenas uma história antiga, mas a nossa realidade diária. Quantas vezes quebramos promessas, magoamos alguém, seguimos ídolos passageiros em vez de Deus? O pecado original explica esta luta e recorda-nos que precisamos de salvação.

A boa notícia é que Deus não nos deixou sozinhos. Desde o início prometeu um Redentor. O cristão não nega a realidade do mal, mas enfrenta-a com esperança, sabendo que a vitória pertence a Cristo.

  1. Reconheço em mim esta luta entre o bem que desejo e o mal que pratico?
  2. Que “fendas” experimento na minha vida e relações?
  3. Tenho consciência de que preciso de um Salvador, ou vivo como se pudesse salvar-me a mim mesmo?

Conclusão

O mundo tem uma fenda, mas Deus prometeu repará-la. O pecado introduziu divisão, dor e morte, mas esta não tem a última palavra. A história da salvação é precisamente o caminho de Deus para fechar essa fenda e restaurar a comunhão perdida. Nos próximos encontros veremos como Ele escolheu uma família para iniciar este plano.

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