I.02. Deus mostrou-se a si mesmo

No encontro anterior refletimos sobre o desejo de Deus inscrito no coração humano. Descobrimos que o homem é capaz de Deus e que toda a nossa vida é marcada por essa sede de infinito. Mas fica a pergunta: como conhecer esse Deus? Se o homem O procura, será que Deus permanece escondido?  Nesta segunda aula vamos falar da Bíblia como um todo, percebendo que se trata de uma história contínua do Deus que se revela ao homem. 

«Nós não procuramos Deus tateando no escuro, nem precisamos esperar que Ele nos dirija a palavra, porque realmente «Deus falou, já não é o grande desconhecido, mas mostrou-Se a Si mesmo»  Papa Francisco, Bíblia Youcat

A revelação não é uma invenção humana nem um sonho religioso. É iniciativa de Deus, que quis dar-se a conhecer. E por isso Deus já não é um enigma indecifrável, porque Ele tomou a iniciativa e abriu o véu.

a) A Revelação na História

A revelação de Deus não aconteceu de uma só vez. Foi um processo lento e pedagógico, ao longo de séculos. Desde a criação até à plenitude em Cristo, Deus falou por meio de sinais, profetas, acontecimentos e, sobretudo, pessoas concretas. O Catecismo da Igreja Católica (CIC, nº 50), resume esta pedagogia: 

“Aprouve a Deus, na sua bondade e sabedoria, revelar-se a Si mesmo e dar a conhecer o mistério da sua vontade, pelo qual os homens, por meio de Cristo, Verbo feito carne, no Espírito Santo, têm acesso ao Pai e se tornam participantes da natureza divina.”.

Na Bíblia vemos esta revelação progressiva:

  • No Antigo Testamento, Deus escolheu um povo para lhe confiar a sua lei e as suas promessas.
  • Enviou profetas para recordar a Aliança e preparar os corações.
  • Finalmente, revelou-se plenamente em Jesus Cristo, Filho de Deus feito homem: “Quem Me vê, vê o Pai” (Jo 14,9).

b) As Fontes da Revelação

Mas como podemos nós, hoje, ter acesso a essa revelação? A fé católica ensina que ela está guardada em duas fontes inseparáveis: a Sagrada Escritura e a Tradição da Igreja.

  • A Sagrada Escritura ou Bíblia é a Palavra de Deus escrita, inspirada pelo Espírito Santo. Não é apenas um livro, mas uma verdadeira biblioteca de 73 livros (46 do A.T. e 27 do N.T.), redigidos em séculos diferentes, por diversos autores, mas todos unidos num mesmo fio condutor: o amor de Deus pela humanidade.
  • A Tradição é a transmissão viva dessa revelação, confiada à Igreja. Não se trata de costumes humanos, mas da fé vivida, celebrada e explicada ao longo dos séculos, sob a assistência do Espírito Santo.

“A Palavra de Deus precede e ultrapassa a Sagrada Escritura. Precisamente por isso, o ponto de referência essencial da vida da Igreja é a Palavra de Deus, que é viva, não limitada nem encerrada em escritos.” Papa Bento XVI, Verbum Domini, 17

A revelação chega até nós não só como texto escrito, mas como vida que se comunica.

c) O que é a Bíblia?

  • A Bíblia é uma coletânea de Livros sagrados da religião cujo centro é Jesus Cristo, ou seja ensina a Fé judaica e cristã. 
  • Chamam-se “Livros Sagrados” porque não foram escritos por simples talento humano, mas sob a influência de inspiração divina.
  • Tal dignidade confere-lhe o título de “livro por excelência” e tem um lugar único na vida dos povos que tiveram a supremacia na civilização.

d) Como está divida a Bíblia?

A Bíblia divide-se em duas séries desiguais: 

  • Antigo Testamento: é a primeira parte e contém escritos do período anterior a Jesus Cristo (ocupa cerca de 70% da Bíblia).
  • Novo Testamento: é a segunda parte contém escritos posteriores ao seu nascimento, vida pública, morte e ressurreição de Jesus. 

O elenco oficial católico dos livros chama-se “Cânon” e foi formado no século IV:

  • neste Cânon não importa a ordem dos Livros excepto o primeiro lugar reservado ao ao Pentateuco no Antigo Testamento, e aos Evangelhos no Novo Testamento, 
  • no restante, os manuscritos, os autores e os catálogos oficiais das igrejas diferem muito entre si.
  • a principal diferença entre as bíblias católica e as bíblias de igrejas evangélicas ou protestantes é que a tradição católica incorporou os 7 livros deuterocanônicos
  • a Igreja primitiva usava amplamente esses escritos desde o século IV, mas a sua aceitação não foi unânime entre todos os grupos cristãos. Por isso, mais tarde, em 1546, no Concílio de Trento, a Igreja Católica reconheceu esses livros oficialmente como inspirados e como parte do Antigo Testamento. 
Tradição Católica Tradição Protestante/Evangélica
Antigo Testamento46 livros39 livros
Novo Testamento27 livros27 livros
Total73 livros66 livros
observações:inclui os 7 deuterocanônicos:Tobias, Judite, Sabedoria, Baruc, Eclesiástico, Macabeus 1 e 2e ainda acréscimos em Ester  e Danielexclui os 7 deuterocanônicoso Antigo Testamento segue o cânon hebraico da Tanak

Por razões práticas, desde os primeiros séculos da nossa era, cada livro foi dividido em secções de várias extensões, conforme sistemas bastante diversos para lugares e épocas. Para facilitar o estudo uniforme, foram sendo introduzidas algumas ajudas:

  • a divisão em capítulos de extensão mediana, no século XIII;
  • a divisão dos mesmos capítulos em versículos, no século XVI;
  • cada livro passou a ser designado por uma pequena sigla, que representa a abreviatura do nome (ver Apêndice).

e) Línguas e géneros literários

O Novo Testamento foi todo escrito em grego; o Evangelho de S. Mateus teve uma primeira redação em aramaico, que se perdeu sem deixar vestígios.

O Antigo Testamento: a maioria chegou até nós em hebraico, sendo o grego e o aramaico as restantes línguas utilizadas.

A Bíblia é um Livro antigo composto de muitas partes escritas por diversos autores, em línguas e estilos diferentes e dirigidas a múltiplos destinatários. Ao ler um texto bíblico é importante perguntar:  Quando e onde se escreveu?  Porque se escreveu?  De que trata o texto?

Além disso, é importantíssimo saber de que genero literário se trata:  É uma história? É uma poesia? É uma carta?  Passamos a referir alguns dos géneros mais presentes na Bíblia:

  • História e Biografia

O Antigo Testamento tem muitos Livros de História (ex: Livros de Samuel, Livros dos Reis). No Novo Testamento encontramos os Evangelhos e os Actos dos Apóstolos.

  • Lei: 

Os principais livros que contém a Lei do Antigo Testamento são : Êxodo, Levítico, Números e Deuteronómio. Estes contém largas passagens onde se enumeram as leis relativas a muitos aspectos da vida. 

  • Poesia

Alguns livros do Antigo Testamento foram escritos, em boa parte, em poesia. São exemplos o Livro de Job, os Salmos e o Cântico dos Cânticos. O Magnificat de Maria é também um exemplo de texto poético no Novo Testamento.

  • Profecia

Uma parte considerável do Antigo Testamento é constituída por Livros proféticos. Isto não significa, necessariamente, que predigam o futuro. Os profetas que os escreveram pronunciavam-se, principalmente, contra o comportamento dos homens que não respeitavam a Deus e desprezavam a Lei.

  • Cartas

A maioria dos livros do Novo Testamento são cartas de Apóstolos dirigidas a cristãos ou a comunidades, ensinando, aconselhando, estimulando e até repreendendo.

f) A Inspiração e a Verdade da Escritura

Uma pergunta frequente é: como sabemos que a Bíblia é verdadeira? O Concílio Vaticano II responde: “Os livros da Escritura ensinam firmemente, fielmente e sem erro a verdade que Deus, para nossa salvação, quis ver consignada nas Sagradas Letras” (Dei Verbum, 11).

Isto não significa que a Bíblia seja um manual científico ou histórico no sentido moderno. Como já vimos ela usa géneros literários diversos: narrativa, poesia, leis, profecias, cartas. O essencial é a mensagem de fé. Como dizia São João Paulo II, a Bíblia deve ser lida “com o mesmo Espírito com que foi escrita”.

Os Livros da Bíblia são considerados sagrados pela Igreja, não por serem considerados compostos por actividade puramente humana tendo depois recebido por Ela aprovação, mas por considerar que foram escritos sob inspiração do Espírito Santo. (cf. 2 Pedro 1:21)

Os Livros sagrados têm por autor o próprio Deus e como tal foram confiados à Igreja. Portanto, toda a palavra da Bíblia é ao mesmo tempo palavra do homem (escritor) e palavra de Deus (Espírito Santo). Tudo aquilo que o autor sagrado afirma e enuncia deve considerar-se como afirmado e enunciado pelo Espírito Santo.

Desta assistência especial que Deus presta ao Homem (Inspiração) segue-se necessariamente que, não podendo Deus enganar-se nem enganar, os Livros inspirados são isentos de qualquer erro. Este é o princípio da inerrância absoluta.

g) A unidade da Bíblia

A Bíblia é uma coleção de livros muito variados. O Antigo Testamento reúne a Lei (Torah), os Profetas e os Escritos, narrando a história do povo de Israel, as suas leis, poesias e esperanças. O Novo Testamento apresenta a vida de Jesus nos quatro Evangelhos, os Atos dos Apóstolos, as cartas de São Paulo e outros apóstolos, e o Apocalipse.

Apesar da diversidade, há uma unidade surpreendente. O Antigo Testamento prepara, e o Novo cumpre. Os Padres da Igreja diziam: “O Novo está escondido no Antigo, e o Antigo é revelado no Novo.”

Assim, toda a Bíblia é uma única grande história de amor: Deus cria, chama, liberta, promete e, finalmente, entrega o seu Filho por nós.

h) A leitura meditada da Bíblia

Desde os primeiros monges cristãos, existe uma prática que visa encontrar Deus através da leitura orante da Sagrada Escritura, que se chama Lectio divina. A Igreja recomenda este método como caminho de oração e de crescimento na fé. Tradicionalmente, compõe-se de quatro etapas:

  • Lectio – leitura atenta do texto bíblico, procurando compreender o que ele diz.
  • Meditatio – meditação ou reflexão sobre o que Deus comunica através desse texto, aplicando-o à própria vida.
  • Oratio: oração ou diálogo interior com Deus através de palavras de amor, louvor, arrependimento ou pedido.
  • Contemplatio: contemplação, ou seja, permanecer em silêncio diante de Deus, acolhendo a Sua presença e deixando-se transformar por Ele.

Assim, a leitura da Bíblia pode transformar-se num diálogo vivo com Deus:

«Vocês têm entre as mãos, portanto, algo de divino:um livro como fogo, um livro no qual Deus fala. Por isto, recordem-se: a Bíblia não é feita para ser colocada em uma prateleira, mas é feita para ser levada na mão, para ser lida frequentemente, a cada dia, quer sozinho como acompanhados.»

«A Palavra de Deus não pode ser lida com uma vista de olhos! Antes, perguntem-se: “O que diz este texto ao meu coração? Por meio desta palavra, Deus está me falando? Talvez esteja suscitando anseios, a minha sede profunda? O que devo fazer?”» Papa Francisco in Prefácio da Bíblia Youcat

h) Vamos percorrer o Antigo Testamento

Neste primeiro módulo, tentar sintetizar as partes mais importantes do Antigo Testamento. Este é o livro sagrado do povo Israelita, a que chama de Tanak. Posteriormente os cristãos adotaram-no como fazendo parte da Revelação de Deus, que culmina em Jesus. As sociedades que foram cristianizadas têm por isso um património cultural e religioso a que se costuma chamar judaico-cristão.

 O Antigo Testamento ou Tanak é constituído por 46 Livros agrupados em 3 ou 4 classes conforme é visto pela tradição judaica ou pela tradição cristã.

Tanak (judaica)Antigo Testamento (cristão)Livros
Torá(Lei de Moisés)Pentateuco(cinco livros de Moisés)GénesisÊxodoLevíticoNúmerosDeuteronómio
Nevi´im(profetas)Livros proféticos
(contêm as mensagens dos profetas)
IsaíasJeremiasEzequieletc.
Ketuvim(escritos)Livros históricos
(narram a história do povo de Israel)
SamuelReisJuízesetc.
Livros sapienciais(contêm ensinamentos de sabedoria, poesia e reflexões)Salmos, ProvérbiosSabedoria de Salomãoetc 

Síntese

  • Deus quis revelar-se → iniciativa gratuita de amor
  • A revelação é progressiva → criação, patriarcas, profetas, Cristo
  • Fontes da revelação → Sagrada Escritura e Tradição
  • Bíblia → biblioteca inspirada, verdadeira no essencial da salvação
  • Unidade → uma única história de amor que culmina em Jesus.

Reflexão 

Se Deus se revelou, a nossa atitude deve ser a de quem acolhe. A revelação não é apenas informação, é convite à relação. Ler a Bíblia não é como ler um romance ou um manual de história: é abrir-se a uma Palavra viva que fala hoje. Assim, cada cristão é chamado a ter intimidade com a Palavra de Deus. Não basta ouvi-la na missa: é preciso lê-la, meditá-la, rezá-la e aplicá-la.

  1. Tenho espaço na minha vida para escutar a Palavra de Deus?
  2. A Bíblia, na minha casa, é um livro de enfeite ou um alimento para a fé?
  3. Procuro entender a relação entre o Antigo e o Novo Testamento, vendo a unidade da história da salvação?

Conclusão

Nesta segunda etapa da nossa catequese descobrimos que Deus não é silencioso. Ele falou, agiu, revelou-se. Primeiro de forma parcial, depois plenamente em Jesus Cristo. E deixou à sua Igreja a missão de guardar e transmitir fielmente essa revelação através da Escritura e da Tradição.

Se o homem é capaz de Deus, como vimos na aula anterior, agora sabemos que Deus também é capaz do homem, porque se dignou vir ao seu encontro e falar-lhe no seu idioma. Escutar esta Palavra é deixar-se transformar por ela, é acolher um tesouro que ilumina a vida e dá sentido à nossa caminhada.

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