Toda a catequese começa com uma constatação simples e, ao mesmo tempo, profunda: o ser humano é capaz de Deus. Antes mesmo de falar de Jesus Cristo ou dos sacramentos, a Igreja convida-nos a olhar para dentro de nós e a reconhecer uma inquietação que acompanha toda a história da humanidade.
a) O desejo de Deus
Cada pessoa, em algum momento da vida acaba por fazer algumas destas perguntas a si mesmo: “Quem sou eu? Para que estou aqui? Qual é o sentido da minha vida?”
A busca pela felicidade é uma característica intrínseca da condição humana. Como recorda a frase de Dostoiévski, um autor russo do século XIX, na sua obra Os Irmãos Karamázov, “o homem está feito para ser feliz como o pássaro para voar”. No entanto, qualquer conquista ou prazer aos poucos acaba por se revelar insuficiente, pois nada criado consegue saciar plenamente o desejo humano de plenitude. Acabamos por constatar que:
- Tudo é transitório: pessoas, conquistas e bens trazem em si o “selo da caducidade”.
- Surge, então, uma ânsia de transcendência:
- Na alegria → buscamos plenitude. Na dor → buscamos salvação.
- Esse anseio contínuo reflete a presença de algo infinito em nós
- Essa nostalgia do eterno revela a dimensão religiosa do homem.
«No fundo do espírito humano encontramos uma nostalgia de felicidade que aponta para a esperança de uma casa, de uma pátria definitiva. Somos terrenos, mas temos ânsias do eterno, temos ânsias de um Deus.»
Antonio Ducay in Sínteses da Fé Católica
b) O Homem como imagem de Deus
Esta ânsia do eterno, de um Deus, pode ser explicada pela natureza do homem. O livro do Génesis narra a criação numa linguagem poética, e no coração desse relato surge a frase decisiva: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança” (Gn 1,26). O homem e a mulher não são simplesmente mais um ser vivo entre outros. São a coroa da criação, chamados a participar da própria vida divina.
Ser imagem de Deus significa que possuímos razão, liberdade, consciência moral e capacidade de amar. Nenhum outro ser criado possui estas dimensões espirituais. Somos capazes de nos conhecer, de escolher, de amar gratuitamente e, acima de tudo, somos capazes de Deus.
Esta é a primeira boa notícia da busca pela fé: não somos fruto do acaso, não estamos aqui por erro ou acidente. Fomos criados com uma abertura natural ao infinito que se chama desejo de Deus. Há duas frases que exprimem esta ideia de forma admirável:
“Fizeste-nos para Ti, Senhor, e inquieto está o nosso coração enquanto não repousar em Ti.” Santo Agostinho in Confissões I,1
“O desejo de Deus está inscrito no coração do homem, porque o homem foi criado por Deus e para Deus; e Deus não cessa de atrair o homem a si, e só em Deus o homem há de encontrar a verdade e a felicidade que não cessa de procurar.” (CIC, nº 27)
Esta inquietação é a experiência universal de todos os povos, religiões e culturas: uma procura de algo que ultrapassa os limites da vida terrena.
c) Religião como regresso a Deus
O fenómeno religioso pode ser melhor entendido se atentarmos ao significado da palavra religião: ela vem do latim religare, isto é, “religar, unir novamente”. Ou seja, a religião “religa” o homem a Deus, restabelecendo a união entretanto perdida (este tema será abordado na aula I.03) .
A humanidade, desde as suas origens, procurou esse vínculo com o Divino. Os ritos, as orações, os templos e os sacrifícios são expressões, por vezes imperfeitas, dessa sede de Deus que está no coração humano. Infelizmente, muitas vezes a palavra “religião” é usada com conotação negativa, associada a fanatismos, abusos de poder ou tradições pesadas. No entanto, no seu sentido original, religião é simplesmente o desejo de regressar ao Pai, de retomar a comunhão perdida.
A Igreja é o lugar onde esta busca encontra resposta, mas não como um espaço reservado a pessoas perfeitas. Pelo contrário, como nos recorda Bernhard Meuser, no projeto Youcat:
“A Igreja Viva… não é um clube de gente perfeita, é, pela vontade de Jesus, um lugar para a mudança gradual de gente comum. Gente que tem “muitas culpas no cartório”, gente que, para poder melhorar, precisa urgentemente de ultrapassar essas culpas. Felizmente, Jesus garantiu-nos que “não são os saudáveis que precisam de médico, mas sim os doentes.”
Na encíclica Evangelii Gaudium o Papa Francisco sublinha esta ideia que todos – sejam crentes, buscadores, indiferentes ou até céticos – estão convidados a este caminho:
“A Igreja é chamada a ser sempre a casa aberta do Pai (…). Vejo claramente que a coisa de que a Igreja mais precisa hoje é a capacidade de curar feridas e de aquecer o coração dos fiéis (…). Vejo a Igreja como um hospital de campanha depois de uma batalha.”
d) Razão e Fé: Caminhos para Deus
Antes de aprofundarmos este caminho na Igreja, é importante reconhecer que não acreditamos em Deus apenas por tradição ou hábito cultural. A própria razão humana é capaz de intuir a existência de Deus. Basta contemplar a ordem e a beleza da criação para se abrir a possibilidade de um Criador.
“A santa mãe Igreja sustenta e ensina que Deus, princípio e fim de todas as coisas, pode ser conhecido com certeza pela luz natural da razão humana, a partir das coisas criadas.” (CIC 36)
A ciência moderna tem mostrado a extraordinária inteligibilidade do universo. Atualmente, na física e na cosmologia reúnem-se cada vez mais descobertas relativas à criação do universo e que suportam a tese da existência de Deus.
“A fé e a razão são como as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade.”´ São João Paulo II, encíclica Fides et Ratio
Assim, a fé não é um ato irracional, mas um salto confiante baseado na razão e na revelação.
e) Preâmbulos da fé católica: Deus existe
Este é o nome que se costuma dar às verdades acessíveis à razão natural que preparam o espírito humano para acolher a fé. São pontos de partida racionais que dispõem a inteligência a acolher a revelação divina e a adesão da fé.
Uma dessas verdades que é possível reconhecer apenas pela razão é a existência de Deus. Desde a Antiguidade clássica até à idade média, foram muitos os filósofos que procuraram estruturar conceitos para concluir a existência de Deus. Isso pode ser feito por dois caminhos:
- A cinco vias cosmológicas propostas por S. Tomás de Aquino:
- As duas primeiras sugerem que deve haver uma Primeira causa ou Motor.
- A terceira fala sobre a necessidade de um Ser que existe por si mesmo.
- A quarta via deduz a existência de um ser supremo que é a fonte de toda bondade
- A quinta via deduz haver uma inteligência que organiza toda ordem do universo
- As vias antropológicas, partem da natureza humana:
- A liberdade, pensamento e espiritualidade não se explicam apenas pelo material.
- O desejo de felicidade e valores morais apontam para algo além da matéria.
- Não são “provas científicas”, mas argumentos filosóficos que tornam a fé plausível.
- As objeções modernas (do acaso, desordem) não excluem a possibilidade de um propósito maior.
f) Mas qual Deus? A perspetiva Teísta
Vamos usar como referência o conceito de Deus do teísmo clássico, que surge na Grécia Antiga e tem continuidade no Cristianismo até ao presente. Ela parte do princípio que Deus existe com certeza, aplicando a razão à observação do mundo. Esta perspectiva Teísta foi sendo consolidada com grandes pensadores da humanidade ao longo de vários séculos:

Platão, Aristóteles, Plotino
(séculos V e IV a.c. e III d.c, respetivamente)

Agostinho, Tomás de Aquino, Leibniz
(séculos IV, XIII e XVII respetivamente)
Este conceito de Deus, pode ser ser definido da seguinte forma:
- Racional, imaterial, eterno, livre, perfeito, necessário.
- “Razão criadora” (Logos), princípio ordenante do universo.
- Causa primeira de tudo o que existe.
g) Da existência de Deus ao catolicismo
Desde que o homem aceita que a existência de Deus, dista um caminho para a adesão ao Catolicismo. O percurso de iniciação cristã proposto vai dar a conhecer a fé em Cristo e na Sua Igreja.
Pretende-se agora fazer um breve esquema de argumentos racionais que suportam este caminho, apoiado no pensamento filosófico, histórico e científico:
1º Deus existe (“preâmbulos da Fé”)
- Sabemo-lo com certeza aplicando a Razão à observação da Criação
- Argumentos metafísicos (oferecem certeza): Platão, Aristóteles, São Tomás, …
- Argumentos filosóficos de base científica (não oferecem certeza): argumento cosmológico, argumento teleológico (“ajuste fino”)
2º Jesus Cristo é Deus
- Argumentos a favor da credibilidade histórica do Novo Testamento
- O que Jesus disse acerca de Si mesmo e os milagres que Ele fez
- Testemunhas oculares da ressurreição
3º A Igreja Católica é a Igreja que Jesus Cristo fundou (Mateus 16:18)
- Argumentos históricos
- Credibilidade da tradição católica (doutrina e liturgia têm raízes apostólicas)
- Credibilidade e testemunho dos santos e dos videntes
h) O Problema do Mal
Uma das grandes objeções à fé e à aceitação da religião é a presença do mal no mundo. Se Deus é amor, porque existe sofrimento, injustiça e dor? Esta pergunta acompanha crentes e não crentes. O livro do Génesis mostra que o mal entrou no mundo pela má utilização da liberdade humana. O homem quis ser “como Deus” e caiu na tentação de decidir sozinho o bem e o mal (Gn 3). Esta rebeldia deixou uma ferida na humanidade, chamada pecado original.
No entanto, Deus nunca abandonou os homens. Mesmo quando tudo parece perdido, Ele transforma o mal em bem. José, vendido pelos irmãos, pôde dizer no Egito: “Vós intentastes fazer-me mal, mas Deus transformou-o em bem, a fim de salvar muita gente” (Gn 50,20). Daqui nasceu o ditado popular: “Deus escreve direito por linhas tortas”.
i) Os Modelos de Fé
No meio da fragilidade humana, Deus escolheu alguns homens e mulheres que responderam com coragem. Dois nomes são fundamentais, um no Antigo, outro no Novo Testamento:
- Abraão, chamado a deixar a sua terra e confiar numa promessa impossível, tornou-se o “pai da fé”. São Paulo recorda: “Abraão acreditou em Deus e isso foi-lhe atribuído como justiça” (Rm 4,3).
- Maria, a jovem de Nazaré, que ao escutar o anúncio do anjo respondeu: “Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38). A obediência de Maria desatou o nó da desobediência de Eva.
Ambos nos mostram que a fé não é apenas aceitar ideias, mas confiar plenamente numa Pessoa viva que se revela, apesar das dificuldades ou dúvidas que nos possam assolar.
Síntese
- O homem procura → tem sede do infinito.
- Deus revela-se → quer ser conhecido e amado.
- Surge a fé → resposta livre à revelação.
Reflexão
A fé é um dom de Deus, mas também um caminho que exige resposta. Podemos compará-la a um músculo: se não for exercitado, enfraquece; se for praticado, cresce e fortalece. Participar da catequese, rezar, celebrar os sacramentos, ler a Bíblia: tudo isso são exercícios que fazem crescer a fé. Mas o primeiro passo é reconhecer que dentro de nós existe esta sede de infinito, esta abertura a Deus.
- Onde reconheço em mim esta sede de infinito?
- Quais são os “ídolos” que tento colocar no lugar de Deus (consumo, poder, prazer)?
- Estou disposto a dar pequenos passos de confiança, como Abraão e Maria, para deixar Deus conduzir a minha vida?
Conclusão
A catequese começa com a certeza de que o homem é capaz de Deus e que Deus deseja ser encontrado pelo homem. A nossa vida não é uma série de acasos, mas uma história de amor. Reconhecer isto é o primeiro passo de uma caminhada que nos levará, ao longo das próximas aulas, a descobrir como Deus falou, agiu, fez alianças e, por fim, se revelou plenamente em Jesus Cristo.
